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sábado, 2 de julho de 2011

A Década De Todas As Suspeições - Parte 1



Tinha as mãos geladas e a cabeça a mil à hora. Também não era para menos, estávamos em finais da década de sessenta, num país em ditadura e ela, ali, numa típica tasquinha lisboeta que na verdade servia de sede clandestina à oposição.

Desde que entrara, há cerca de uma hora atrás, todos os olhares estavam pregados nela como se a trespassassem feitos RX. Havia apenas uma mulher no meio daqueles homens de rosto fechado e ar desconfiado mas também ela a olhava com desconfiança. Até aquele momento tinha encarado a situação com segurança, sempre fora uma mulher corajosa e determinada, tinha entrado ali com um objectivo e não sairia dali sem o cumprir. Mas, de repente, toda a sua segurança se evaporou. Um homem que parecia ser o líder, aproximava-se da mesa onde estava sentada bebendo a sua laranjada. Era alto, cabelo pelos ombros e com um ar aterrador. Não sabe se se passaram horas ou segundos até o sujeito se sentar à sua frente. Todo o seu corpo tremia quando alguém, por detrás dela, lhe pousou a mão no ombro e disse:

- Desculpa querida, não te vi chegar, vamos?

Era o desconhecido que tinha estado o tempo todo a observá-la. Tinha-lhe despertado a atenção porque a olhava de forma diferente dos outros e também ele, de alguma maneira que não sabia explicar, era diferente dos outros. Decidiu que o melhor a fazer era sair dali com ele.

À saída, enquanto caminhavam pelo passeio, ele passou-lhe o braço por cima dos ombros, atitude que ela não gostou nada mas, antes que pudesse barafustar ou tomar qualquer outro gesto de rejeição, já ele começara a pregar-lhe um grande sermão. Tinha um ar zangado e sem que ela tivesse tempo para responder fazia perguntas sucessivas: que fazia uma mulher sozinha num local como aquele? Se não sabia o perigo que corria ao entrar numa tasca clandestina da oposição? Não é que fosse uma organização terrorista ou algo do género mas podia ser confundida com uma informante da polícia política. De repente, parou e olhou-a nos olhos; era isso, aquela mulher era uma espia.

Ela percebeu o pensamento dele mas não se importou muito com isso, tudo o que ela queria era livrar-se daquele desconhecido e continuar com a sua vida. E é quando tenta libertar-se do braço sobre o seu ombro que ele lhe diz:

- Por sua causa também o meu disfarce foi por água abaixo. Temos que sair os dois daqui!

Verificando que ela não estava a acreditar no que ele lhe dizia, conduziu-a até uma montra em frente da porta da tasquinha para que ela pudesse ver reflectida no vidro a imagem do homem que ainda os observava.
Finalmente, convencida da boa fé do seu salvador, resolveu contar-lhe a sua história:

Era portuguesa a viver no estrangeiro e tinha entrado em Portugal clandestinamente para fazer uma reportagem sobre o regime de ditadura e os movimentados clandestinos da oposição. Estava ali, naquele momento, sem ter para onde ir.

Convidou-a para ir para casa dele e ela aceitou. Percorrida quase metade da cidade, a casa dele ficava bastante distante, mostrada a casa seguida da sua instalação no quarto que era dele mas que gentilmente lhe cedera, ficando no sofá, ali estava ela, em casa daquele desconhecido de quem nem sequer sabia o nome.

Quem seria aquele homem que tão prontamente a ajudou? Que faria naquele local? Membro do movimento já tinha ficado claro que não era, seria um polícia infiltrado? E ela? Ainda teria a hipótese de continuar com a investigação?


Luisa Vaz Tavares

4 comentários:

Anónimo disse...

Beeemmm! Isto promete... mistério!:))

Fátima

JoséManuelBarbosa disse...

Tal como disse à Odilia a propósito da sua 3ª Parte, um pouco fora de tempo mas, ainda assim a tempo de te dizer que este teu pontapé de saída nesta história me entusiasmou de tal forma que contribuiu para me lançar, de forma mais concisa, na prosa ou na crónica. Com humildade e deixo-te um beijo de agradecimento... tu inspiras-me! :))

Dina Rodrigues disse...

Obrigada Luisa, por mais uma vez nos obrigares a puxar pela imaginação. Gostei do teu início!Grande história que nos arranjaste, que dá pano para mangas.Uma história que começa com política,nos anos sessenta, numa tasquinha Lisboeta... mas onde irá parar?

Dina Rodrigues

Liz disse...

Oh Zé, tu já és inspirado por natureza mas ainda assim gosto de te inspirar!:)

Dina, eu dei o pontapé de saída mas com a inspiração de cada um isto vai para caminhos inimagináveis, tenho certeza!