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domingo, 3 de julho de 2011

A Década De Todas As Suspeições - Parte 2



Que passaria pela cabeça daquele homem por ela, tão prontamente, ter admitido pernoitar na sua casa?

Assaltavam-lhe todas estas dúvidas, paralelas aos aguçados jactos de água quente do chuveiro. Ainda assim, ia amolecendo de todo aquele cansaço causado pelas emoções das últimas horas.
Não se lembrava de quanto tempo havia estado no duche ou, sequer, de se ter deitado ou adormecido.

Lentamente, muito lentamente, vai recuperando alguma consciência de si, ao pressentir um estranho calor nas suas costas e junto à nuca. Aquela inesperada quentura não emana dos lençóis, nem do edredão… nem do seu próprio corpo! Simultaneamente, algo assemelhado a uma concha se alojara, com uma leveza quase imperceptível, na sua anca numa quietude preocupante.

Não ousara abrir os olhos embora isso lhe tivesse adiantado de pouco uma vez que o quarto se encontra mergulhado num absoluto negrume que nem a ténue luminosidade da lua parda, entrando por uma fresta da janela, seria suficiente para alumiar o que quer que fosse.

Deixa-se permanecer nesse torpor impotente, incapaz de um qualquer movimento, por mais pequeno que ele seja, naquela fronteira semi-consciente a que chamam estado de vigília. Sente uns dedos alongarem-se percorrendo-lhe a anca, imobilizando-se. Desconfia que aquela concha possa ser uma mão. Suspeita que aquela mão possa ser a do desconhecido! Sente-se deliciosamente devassada e, mais à frente, irá interrogar-se porque é o pecado tão magnético… Completamente imóvel, apenas tenta descodificar e perceber todas aquelas sensações.

Dividida entre a perplexidade e a volúpia que gradualmente se intensificara, apoderando-se do seu ser. O coração alojado na garganta hesita entre ciclicamente martelar-lhe as têmporas ou sair desvairadamente livre pela sua boca. Uma ligeira humidade escorre-lhe das entranhas enquanto aqueles dedos, cansados da pequena pausa, prosseguem a sua implacável caminhada, dirigindo-se agora para a parte mais interior da sua coxa. Um intenso arrepio descontrolado percorre-lhe todo o corpo de norte a sul acordando-a num sobressalto definitivo. De um impulso, soergue-se aflitiva e completamente alagada no seu próprio suor, vasculhando em redor.

O quarto estava inundado de uma suave luz matinal ainda doce; a frescura da brisa sentia-a no corpo semi-nu entrando pela janela de portadas escancaradas e viu… viu que estava só! Além dela e do sonho esvaído não havia mais ninguém no quarto!

Ainda atordoada, Susana olhou de relance para o seu despertador de cabeceira que, por estes dias, havia interrompido o cumprimento da sua predestinada missão de acordar os mortos, tal era a chinfrineira com que assinalava a sua presença todas as manhãs pelas sete.

Eram nove e meia, correu para o quarto de banho, refrescou-se, vestiu-se rapidamente, pendurou a sua Leica a tiracolo e saiu. Pegando no capacete poisado na mesa do alpendre, pôs a sua velha BMW herdada do pai a trabalhar e arrancou de cabelos esvoaçantes por debaixo do capacete ainda húmidos.

São apenas três quilómetros de um estradão de terra batida do monte até à esplanada do café situado num promontório sobranceiro ao mar e aos sonhos. Falésia abrupta, abrindo-se de horizontes infindáveis; um dos sítios onde há certeza de a terra ser redonda e o oceano sem fim.
Lá em baixo a minúscula praia; cá em cima Isabel esperando enquanto folheia, desinteressada, as últimas do jornal do café.

Cabe-me elucidar o leitor que Isabel e Susana se tinham tornado amigas, íntimas, após o fatídico acidente que vitimara os pais desta, há alguns anos atrás. Moça simples, Isabel também é cá da terra, inteligente e perspicaz até dizer chega!. Desde então, adquirem o hábito-ritual de tomarem o pequeno-almoço dominical juntas nesta esplanada. Desde que Susana estivesse por cá, claro, na sua casa herdada e reconstruída, onde vivia apenas com o seu Gaspar - o dálmata mais bonito que alguma vez conheci -, pois, devido ao seu trabalho de repórter fotográfico para aquela revista de Lisboa, Susana passa muitas semanas fora de Portugal, quase sempre em zonas problemáticas de conflito, guerra ou tragédia.

Fotojornalista freelance, trabalha para a ReporterMagazine da capital, apresentando trabalhos fotográficos para outras revistas e semanários, alimenta um blogue - exclusivamente dedicado à fotografia artística -, desdobrando-se, assim, numa constante luta contra o tempo, a fim de terminar tudo onde mete as mãos… e os olhos! Apenas necessita de, uma vez por semana, ir à Redacção, quase sempre na sua moto, e, invariavelmente, regressar à paz e tranquilidade do seu monte. Estão aí as suas raízes e a sua força tendo, definitivamente, optado por deixar a grande cidade, tão cansada que se sentia de todo aquele bulício de futilidades e artificialidades caóticas.

Mas, para não exasperar ninguém, porque Isabel já esgotou as notícias do dia e Susana acaba de se sentar debaixo de um guarda-sol de onde escorrem sombras fustigadas por um sol quente de final de Primavera, vamos então ao que interessa, que já passa das dez e meia da manhã.

- Bom-dia, Susaninha! Atrasada… mas que cara tu trazes hoje…?! Aconteceu alguma coisa?

- Nada de mais, já te conto. Sr. Vítor, por favor, traga-me o costume mais um sumo de laranja. Obrigada!

- Então, é assim (como agora se diz): voltei a sonhar com o Paulo e ainda estou transtornada! Foi um sonho estranhíssimo, como todos os anteriores, num ambiente soturno, cinzento, repressivo, com erotismo à mistura, que acordei atordoada e com uma sensação indizível de vazio, desconforto e ansiedade. Não era a cara dele, mas eu sei que era o Paulo, salvando-me de uma situação comprometedora e muito perigosa. E a cabra também lá estava, com outro rosto, desconhecido. Acordei aflita porque estava deitada na cama com ele…! Agora, até tenho pena que o sonho não tenha continuado…! Meu Deus, como posso ser tão incoerente?

Um leve sorriso malicioso aflora-lhe dos lábios - carnudos, colados num rosto expressivo onde a tez morena faz sobressair duas grandes órbitas preenchidas de um verde-acinzentado - enquanto acaba a frase.

- A cabra é a Glória, não?

- Nem mais, Isabel, também lá estava; até nos sonhos ainda me persegue…

- Ó Susana, pensei que esse assunto estivesse definitivamente morto e enterrado na tua cabeça… será que não...?! Temos agora uma recaída, minha querida? Já lá vai tanto tempo, já conheceste tantos homens interessantes…

- Pois… três anos é muito tempo e não é nada! Não te esqueças que partilhamos o meu apartamento de Lisboa durante 13 anos. Isto, se calhar, é que é muito tempo… tempo demais!

- Aquele gajo foi o meu “primeiro homem”, mesmo tendo eu vivido tantas aventuras e namoricos antes e depois dele. Tu sabes…! Mas a razão nem é essa… há qualquer coisa de muito forte, muito íntimo, muito meu que me foi roubado e permanece com ele. Já te contei que durante mais de metade da minha vida partilhada com ele houve, sistemática e periodicamente, suspeições, pequenas aventurazitas com outras meninas que me deixavam de cabelos em pé. Mas eu sabia, eu sentia que tudo isso era passageiro, fruto de momentos particulares e especiais, que ele nunca iria abandonar-me, nem eu a ele. Apesar de tudo, sempre me senti segura de mim, sabes? Às tantas, demasiado…

- Até que aparece a Glória…

- Sim, a Glória era, então e desde adolescentes, a minha melhor amiga; sempre confiei nela, mesmo sabendo eu do fraquinho que ela alimentava por ele, quase desde logo que se conheceram. Eu compreendia, aceitava e, várias vezes, os três falamos do assunto. Quando a Glória entrou para a nossa Redacção, a meu pedido, pressenti imediatamente que dali haveria coisa… Senti pelos olhos e pelo coração, sei lá… mas não dei grande importância. Sentia-me suficientemente importante na vida dele. Ele era o homem da minha vida!
Nunca tivemos filhos por opção minha, pois amo a minha carreira mais do que qualquer outra coisa. Adoro o que faço, é aquilo com que sempre sonhei. Tantas vezes me esqueço de mim, não tenho tempo para mim nem para os amigos, mas sinto-me muito feliz, entendes?

- Isabel, tu não consegues fazer a mínima ideia do que foram esses quase dois anos em que tivemos uma vida a três! Ele dizia-me que era apenas uma paixão passageira, que terminaria em breve, que voltaríamos a ser felizes os dois, blá, blá, blá. Eu, conscientemente – com medo de o perder e porque, até certo ponto, achei piada à situação – entrei naquele jogo, musicando até o tal blá, blá, blá! Depois, já me dizia que amava as duas, cada uma de sua forma diferente, que não conseguia, naquele momento, abdicar de nenhuma de nós! Porque até me excitava a ideia de medir forças, de lutar contra aquela mulher. Também sou culpada, Isabel! Porque acreditei que não passaria de uma aventura. Sempre achei que a minha vida seria ao seu lado. Por isso mesmo engoli sapos vivos do tamanho de elefantes. Fiz de tudo para nunca o perder… era demasiado importante para mim… Tantas vezes me senti horrivelmente humilhada quando ele chegava, às quatro da manhã, ainda com o cheiro dela, e o recebia com um abraço, o quarto cheio de velas acesas, incenso de jasmim e a música do Garbarek… Sentia-me tão morta por dentro e, no entanto, tão viva, tão lutadora, tão esperançosa… Não imaginas, Isabel!

- Quando tudo começou a acontecer, antes de toda aquela precipitação galopante se iniciar, eu deveria ter terminado a nossa relação. Foi aí que eu errei, Bela!
Ao fim de todo aquele tempo, uma noite o Paulo diz-me, olhos nos olhos, da forma mais fria e insensível que tu consigas imaginar: Vamos separar-nos, quero viver com a Glória, ponto final

Nesta altura, caro leitor, fez-se um longo e pesado silêncio entre as duas amigas que até a mim magoa, como se aquelas fatídicas palavras tivessem sido ditas agora mesmo, pela primeira vez…

Desde aquela altura da separação, por força das suas profissões, eles continuavam a relacionar-se; a terem que falar um com o outro, pois a Revista era o tecto de ambos. Mesmo que ela estivesse no estrangeiro em trabalho, mantinham sempre o contacto profissional, por telemóvel, telefone de satélite ou pela internet.
O que é certo é que hoje as coisas já não são o que eram. Paulo está em rota de colisão com a sua Glória e, embora ainda vivam juntos, tenho a desconfiança que não será por muito tempo. O que sei sobre eles que me leva a presumir, são factos que não interessam para esta história, pois isso daria uma outra prosa com muita poesia à mistura!

- Susana… diz-me… afinal o que se passa em concreto para que estejas nesse estado? Conta-me, please!

- Ouve, Isabel, até há bem pouco tempo nunca tive dúvidas que esta história com o Paulo estava morta e os seus resquícios cremados. Sinto-me feliz, faço o que gosto, sou independente, tenho – não muitos - mas verdadeiros amigos, adoro este lugar, o monte, a praia, a serenidade destes dias que aqui passo…

- Mas continuas só…! - interrompe Isabel.

- … o que acontece é que, desde há semanas (desde que regressei do Sudão), ele não me tem largado. São os olhares, os toques subtis, os telefonemas, os e-mail, os comentários no blogue, pretensamente de serviço mas que acabam sempre da mesma forma: quer ver-me fora do ambiente de trabalho, fora de tudo, se possível aqui no Alentejo, durante um fim-de-semana e conversar. Apenas conversar, diz ele. Por outro lado, sei, por amigos comuns, que a vida daqueles dois está estagnada e que ele se sentirá muito infeliz. Duvido que arrependido…
Suspeito bem que ele queira voltar… E eu tenho sonhado com ele vezes demais… achava eu que estava imunizada…!

- Não me digas, Susaninha… depois de todos estes anos, de tudo porque passaste, encaras essa situação? Eras capaz de o perdoar?

- Bela, digo-te uma coisa muito, muito pessoal: estou convencida que perdoar é arma de fracos. Serve para nosso auto-consolo, para aliviarmos a carga, a nossa consciência. Além disso, ele nunca me pediu perdão!
Olha, apetece-me parafrasear um amigo que acha que é poeta: A Vida é um rio de insondáveis meandros…

Novamente, um longo silêncio, querido leitor. Não com o peso do anterior, antes com uma auréola de expectativa, indecisão e malícia, por assim dizer, enquanto aqueles dois olhinhos de um verde-acinzentado procuravam, desesperadamente, uma resposta para além das ondas espumadas, quebradas pelos rochedos…


José Manuel Barbosa

3 comentários:

Anónimo disse...

:)) Isto é que é uma volta!!! Mais...mais!

Fátima

Dina Rodrigues disse...

José Manuel, gostei imenso do rumo que deste à história, já é mais o meu género. Aqui começaste a definir as personagens principais. Parabéns! Talvez o Paulo vá ter com a Susana ao Alentejo, num outro dia... eu bem o tentei levar para o Algarve, mas até ver, não foi!

Liz disse...

Monte alentejano, esplanada à beira mar... um cenário perfeito! E estas duas, Susana e Isabel, gosto delas.

Adorei esta reviravolta, Zé!