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quarta-feira, 6 de julho de 2011

A Década De Todas As Suspeições - Parte 3



Paulo acaba de sair do trabalho, no entanto, não tem vontade de regressar a casa. Tem sido assim, ultimamente. Alivia-o poder despir o casaco que atira para o banco traseiro do carro, desapertar a gravata e arregaçar as mangas da camisa. Vai conduzindo devagar em direcção ao porto. Estaciona por ali e sai do carro para caminhar um pouco…

As nuvens altas espalham as cores dos últimos raios de sol, pelo céu. As gaivotas sobrevoam em bando, batem as asas com leveza e sobem rapidamente para mergulhar quase a pique. São dezenas de mergulhos e em cada mergulho um peixe…

Envolvido pelo cheiro a maresia e brindado com os sons vindos do rio, Paulo sente-se ainda mais nostálgico.

Há mais de uma semana que Susana não comparece na ReporterMagazine e Paulo não entende porque lhe sente tanto a falta.

Ali, naquele ambiente à beira-rio, os seus pensamentos distanciam-se no tempo. Cenas de um filme, vivido outrora, vão passando na sua mente…

… vê-a descer a escadaria, descalçar as sandálias e molhar os pés na água fresca do rio.

… ouve-lhe as sonoras gargalhadas, a cadência dos passos e a voz doce chamando-o de “amor”.

…sente-lhe o beijo quente e húmido e um arrepio percorre-lhe o corpo e invade-lhe a alma, enquanto o inebria a delicada fragrância do nº 5, que ela usa - as essências de rosas e jasmim haviam de lhe perdurar nos sentidos - atemporais e inesquecíveis.

Sente saudades, dos entardeceres e amanheceres com ela. Sente saudades e pensa que daria anos da sua vida para a ter, de novo. Sabe que agiu muito mal com ela, sabe que prometeu amá-la e respeitá-la na saúde e na doença, na alegria e na tristeza em todos os dias das suas vidas até que a morte os separasse, no entanto, também sabe que a enganou com a sua melhor amiga. Foi, de facto, um canalha!...

Tem tentado amolecer-lhe o coração com ternos olhares sentidos, toques subtis, telefonemas, e-mail, comentários no blogue... Já a convidou para um fim de semana no Alentejo ou noutro sítio qualquer, mas ela não lhe dá hipóteses e a tudo diz que não. Perdeu-a naquela noite em que lhe comunicou, sem gaguejar, a sua firme decisão de ir viver com Glória, tem a certeza disso.

Como gostaria de poder voltar atrás, no tempo. Se Glória não tivesse ido trabalhar para lá, se ela não andasse metida em casa a toda a hora, se a Susana tivesse sido mais enérgica no dia em que os apanhou aos beijos...

Ela era bonita, sensual e provocava-o. Um homem não aguenta tudo! Deixa de pensar com a cabeça, deixa de raciocinar, passa a ver só uma mulher excessivamente bela e uma tarde de sexo intenso ao seu dispor. Para piorar as coisas, ela soprara-lhe ao ouvido que comprara o kamasutra e estava louca por o descobrir com ele. Glória tentava-o um dia e outro e outro...

Deixou-se levar… Primeiro uma noite e depois outra e, por fim, quase todas as noites até de madrugada. Primeiro na cama dela, depois na cama dele e de Susana. O que começou por ser uma paixão passageira, tornou-se num fogo avassalador que não conseguia controlar…

Não tardou a ter consciência de que correu atrás de um sonho. Depois de sair de casa e, passados que foram os primeiros meses dum amor consentido com Glória, descobre tardiamente que apenas ama Susana, que sempre a amou. O romance com Glória, concluiu, foi uma paixão efémera como o são todas as paixões…

Arrependeu-se mil vezes por não ter ido para casa naquele cair de tarde outonal.

- Que coincidência, Paulo, ainda por aqui?

- Como coincidência, Glória?! Não trabalhamos, ambos, a dois passos daqui?!...

- Ora, Paulo, não vamos ser ingénuos… Andávamos, ambos, a sonhar com um jantar esta noite e eu estou a querer partilhar contigo um programa esplêndido. A Susana não está e a noite pode ser nossa, se tu quiseres.

- Talvez não seja má ideia, Glória. Estás a pensar em comer “algo leve”, por aí?!…

- Por aí, não! Tem dó, Paulo. Tenho uma ideia melhor. Vamos para minha casa e estamos mais à vontade, pois podemos conversar, ver um filme, beber um champanhe… e tudo o mais que tu quiseres.

- Tudo bem Glória, tens tudo programado ao pormenor, estou a ver. Está combinado, eu vou comprar o vinho.

- Queres então “algo leve”, ok, sei o que é… Algo leve!!! Deixa por minha conta.

Combinaram encontrar-se às 8. Ele foi comprar o vinho, optou também pelas bolhinhas endiabradas de um bom champanhe e ainda uma caixa de Chocofigo c/ Amêndoa para o serão.
Glória acelerou. Estava eufórica. O passo mais difícil estava dado... Agora ela sabia bem o que deveria fazer a seguir. Conduzia com cuidado, mas raciocinava a 1000 à hora. A refeição demoraria 20/30 minutos. O que a preocupava era o ambiente… Visualizou os dois sentados em almofadas na mesa de apoio da sala. Muito bem!... Era uma opção confortável e além de tudo mais próxima, mais íntima.

Mal entrou em casa, atirou com os sapatos de salto alto, que adorava e, simultaneamente, odiava... e correu para a cozinha.

Abriu o frigorífico e deu início à preparação do jantar:

- Esparguete com Camarão - um prato rápido, colorido, apetitoso...

- Salada de Endívias com Romã e Pétalas de Rosa.

- Banana Split para a sobremesa.

- Um bom Porto e um bom café, para finalizar.

Tão fácil, e “tão leve”…

Um misto de CORES, SABORES, FRAGRÂNCIAS...

Tinha que o impressionar!...

Pôs a mesa, sem se esquecer do elegante frappé que Susana lhe oferecera no aniversário. Preparou um pequeno recipiente de cristal com algumas flores de época, que não exalavam muito perfume para não perturbar os belos aromas da comida.

Num ambiente difuso e sexy, ajustou a iluminação do local com luz de velas que colocou, estrategicamente, pela sala e pela mesa o que originou um ambiente acolhedor e requintado.
Preparou uma selecção de música calma e agradável - um Jazz Masters Series / Herbie Hancock - que os dois apreciavam.

E voilá!... Um ambiente elegante e sexy!...

Agora deixava a porta encostada e ia preparar-se para o receber…


Maria Odilia Guerreiro

4 comentários:

Clapotis disse...

Ai, ai, ai... Isto está a ficar um verdadeiro romance, de fazer inveja a Nora Roberts!:)

JoséManuelBarbosa disse...

Ainda não tinha dito mas nunca é tarde para declarar que adorei a envolvência e a sensualidade no teu contributo para esta história.
Beijo, Odília!

Liz disse...

Hum... tanta sedução, onde é que estes dois irão parar?

Adorei, Odilia!

Dina Rodrigues disse...

Odília, gostei da continuação! As saudades da Susana, a consciência da traição com a sua melhor amiga, a sedução na escolha do jantar, pela Glória... "Arrependeu-se mil vezes por não ter ido para casa naquele cair de tarde outonal."