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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A Década de Todas as Suspeições - Parte 18

Susana não sabia muito bem para onde se dirigir com António, pois sabia que Isabel ia procurá-la até à exaustão. Susana conhecia bem demais a sua amiga, assim como Isabel a conhecia a ela. Logo, fugir para os lugares mais prováveis, não seria certamente uma boa ideia.

Lembrou-se que não muito longe dali, um amigo de longa data do seu pai tinha uma pousada, uma casa pequena, apenas para 5 ou 6 hóspedes mas muito acolhedora.

Carregando no acelerador, aquelas duas almas viajaram em silêncio os poucos quilómetros que separavam a pousada daquela casa. O olhar dos dois cruzou-se algumas vezes durante o trajecto e Susana sentia uma sensação de protecção que não sabia bem explicar porquê.

Assim que chegaram à pousada do Anjo, Susana não pode deixar de esboçar um pequeno sorriso. Nunca tinha ligado ao nome da pousada, sempre tinha conhecido aquele local como a casa do Sr. Sousa. Mas naquele momento e estando acompanhada pelo António, o seu Quasimodo, pareceu-lhe que de facto a pousada não podia ter outro nome.

O Sr. Sousa fez uma festa muito grande a Susana, já há uns anos que não a via. Não estranhou o facto de ela ter aparecido assim de repente com um amigo, pois sabia que Susana sempre fora aventureira e um pouco rebelde. Arranjou-lhes logo, tal como Susana pediu, um canto sossegado onde poderiam conversar.

-Continua por favor a história, eu não aguento mais não perceber toda esta loucura que se abateu de repente na minha vida! – Pediu Susana a António, quase num suspiro cansado.

-Sim, eu próprio já não aguento mais não partilhar com ninguém o que têm sido estes anos…e principalmente ver-te envolvida assim nesta história, apenas por capricho de uma pessoa – respondeu António, olhando Susana com um ar carinhoso.

Susana baixou os olhos, aquele olhar de António mexia com ela de uma maneira diferente. Nem Paulo tinha mexido com ela desse modo.

- Mas por capricho de quem, afinal? – Perguntou ansiosa Susana e também um pouco para retomar a conversa e desviar aquele olhar que não estava a conseguir evitar.

-Ok, onde é que eu ia? Sim, no médico que me “obrigou” a trabalhar com ele – recomeçou António, sendo logo interrompido por Susana com outra pergunta.

- Espera, não me digas que esse médico é um tal de Dr. Azevedo – interrogou Susana

- Sim, é! Mas como sabes? Ah, já sei, o Costa, o padrinho da Glória! É isso? – Questionou agora António.

- Tu conheces o padrinho da Glória? – Respondeu Susana com outra pergunta, no que parecia estar a ser mais uma troca de perguntas do que efectivamente um desvendar de respostas.

- Se conheço? Claro que sim! Ele é uma peça super importante neste drama todo – continuou António. Ele foi um dos fantoches do Dr. Azevedo na altura do Ultramar e quando quis saltar fora desta história toda, o Dr. Azevedo tratou-lhe bem da saúde! – Contou António com ar indignado.

- Como assim? Questionou Susana sentindo um arrepio. Por um lado queria muito desvendar toda aquela história surreal mas por outro temia cada palavra que António ainda iria proferir.

António, sentindo o nervosismo de Susana, agarrou-lhe uma das mãos e enquanto acariciava a mão macia daquela por quem se tinha apaixonado, recomeçou novamente.

- Como assim? Então, o padrinho da Glória não tem Alzheimer? E achas que o Alzheimer dele é devido a quê? Pois, pensas como toda a gente, que foi a guerra que o deixou assim. E de certo modo foi, mas apenas porque ele quis saltar fora desta história e quem salta fora, acaba assim, ou pior…morto! Mas não, o Dr. Azevedo é que lhe provocou esse estado de demência, não me perguntes como, isso ainda não consegui descobrir mas o certo é que ele não podia deixar o padrinho da Glória assim livre para contar todo o plano maquiavélico que estava a ser traçado durante o final da ditadura, durante a guerra e nestes últimos anos.

- Espera só um momento, responde-me a uma coisa. E Glória, qual é o papel dela no meio desta história? – Perguntou Susana, sem saber muito bem qual era a resposta que desejava ouvir.

- Glória foi mais uma peça útil no meio de tudo isto. Afinal ela era sobrinha de uma das peças mais importantes do puzzle. Vigiá-la era uma maneira de manter a ligação ao seu padrinho e ir sabendo o que ele ia contando ou não.

- Mas quem a vigiava? Paulo? – Perguntou a medo Susana. Cada pergunta que fazia parecia que ia descobrir algo mais que iria atormentá-la.

- Sim, esse mesmo. Porque achas que ele se juntou a ela? Achas que foi por Glória gostar dele? Claro que não, Paulo gostava era de ti. Aliás por isso é que foste a escolhida! – Abanou a cabeça António, pensando no que ainda faltava contar.

- Espera mas qual é o papel de Paulo no meio disto tudo? E fui eu escolhida? Não estou a perceber! – Suspirou de novo Susana.

- Estás preparada para o resto do novelo que falta desenrolar? O que aí vem é muito pior, é quase um filme de ficção científica. Após, dizer isto, António agarrou com mais força a mão e o braço de Susana. António adorava aquela rapariga, como nunca tinha adorado ninguém e não estava disposto a perdê-la jamais!

- Sim, por favor! Eu quero mesmo saber tudo! – Assentiu Susana, e surpreendeu-se de novo por estar a gostar de sentir aquela proximidade com aquele seu anjo/demónio.

- Paulo é filho do Dr. Azevedo, um filho bastardo que ele nunca reconheceu oficialmente como seu, porque lhe dava jeito ter uma ligação assim forte com alguém que não fosse do conhecimento de ninguém.

- Hum, de facto eu nunca conheci o pai de Paulo, só uma avó. Ele sempre me disse que os pais tinham morrido há muito tempo mas como não parecia ser um assunto que lhe agradasse falar, nunca tentei que ele o desenvolvesse muito- afirmou Susana.

-Pois, a mãe dele morreu de parto. Isso é verdade e deve ser a única morte da qual o Dr. Azevedo não tem culpa, aquele nazista! – Resmungou António, revoltado.

- Nazista? – Perguntou Susana, esbugalhando os olhos de espanto.

- Sim, ele era um nazista da pior espécie. Eu achava que toda aquela espécie já estava extinta, mas não. Pelo menos o Dr. Azevedo está vivo e bem vivo! Acreditas que ele esteve na Alemanha a aprender algumas daquelas técnicas terríveis de medicina que os nazis praticavam? Aprendeu com os que ainda restam e parece que ainda conseguiu aperfeiçoar algumas delas e especialmente conseguiu a tão desejada clonagem. Aquele homem é um demónio que saiu das profundezas do Inferno. – Dito isto,
António começou a chorar. Não aguentava mais, tantos anos perdidos ao serviço daquele monstro.

Susana não se conteve ao ver o seu Quasimodo a chorar e levantou-se, abraçando-o com carinho. António olhou-a com ar apaixonado e de novo um beijo surgiu, no meio daquela sala da Pousada do Anjo.

Não muito longe dali, andava Isabel mais a polícia atrás deles. Isabel estava em pânico, onde andaria Susana? Quando acabaria esta história maluca?

Carolina Lemos

2 comentários:

JoséManuelBarbosa disse...

Muito bem, Carolina Lemos, começa a desnudar-se e a tornar-se clara toda a trama! Gostei da tua prestação, bem escrita e muito bem articulada! Parabéns! Beijinho!

Dina Rodrigues disse...

Carolina, escreveste de uma maneira brilhante. Conseguiste tornar a história mais perceptível. Gostei!