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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Década de Todas as Suspeições - Parte 19


Susana começava decididamente a ficar inquieta e perturbada, nem sequer a leveza instantânea daquele beijo passageiro a conseguia já demover das tremuras interiores que a abalavam. Fez questão de desistir de todos os pensamentos díspares de romantismo, concentrando a sua atenção inflexível em António, que soluçava descontrolado a seus pés.
Reteve a respiração, e, em seguida apontou-lhe duas cadeiras no interior do quarto.
- Claro! – Responde-lhe ele decidido, tentando esboçar um sorriso. – Temos muito que conversar.
Sentaram-se ambos, Susana ainda não abrira a boca, observava aquele homem com uma atenção desmedida, parecendo contudo diminuída agora, a confiança cega que inicialmente lhe depositara no seu olhar doce. Algo nele se transfigurara, ou talvez se tenha dado em si o ponto de ruptura mental, o exacto instante em que já não lhe era mais possível prosseguir sem uma explicação. Desconcertada, já nem conseguia sequer formular novas perguntas, e o descalabro estava iminente. A partir daqui, foi um dilúvio verbal! Gesticulando, Susana passa do horror ao sorriso, da inquietude ao pânico.
António via nela um concentrado de sofrimento. Agarrando-se à borda da cadeira, ela chega mesmo a berrar em puro desespero. A sua explosão ressoa longa pela pousada do Anjo. Aqui e ali, António apanhava-lhe o sentido. Palavras, momentos, expressões. Mudo, limita-se a acenar-lhe com a cabeça, incentivando-a a continuar.
Por fim, esgotada, ela detém a purga. A sua boca entreaberta faz um barulho de carne flácida, suspira num arfar imparável.
- Então? – Pergunta-lhe finalmente.
António engole em seco e tenta dar um bom sentido à história, exorcizando os seus próprios demónios.
- Era preciso apagar tudo, compreendes? Afastar todos aqueles que podiam estar informados, de perto ou de longe, sobre o assunto. Destruí-los a todos, mesmo os mais inocentes.
Nova recordação dolorosa. Susana pega no seu telemóvel e acaricia-o com nervosismo.
- A Isabel! – Exclama num grito apagado.
António limita-se a acenar.
- Desde então tudo se passa na sombra... – Continua - Porque as coisas não acabaram...bem pelo contrário!
- A Isabel também?
- Todos! O Dr. Azevedo sabe muito bem onde eu estou. Até deve saber que estamos juntos neste preciso momento. Para ele, nós não somos nada. Meros pormenores...o que lhe importa é o projecto, somente o projecto.
Susana forçou-se a afastar esse pensamento terrível da cabeça e abanou o telemóvel tentando desesperadamente alcançar a amiga.
- É tarde demais. – Diz-lhe António. – A esta hora a polícia já a terá apanhado.
Com o aparelho colado ao ouvido, Susana mostrava-lhe um olhar de incredulidade.
- O inspector. – Anuiu António, em resposta. – Sim. O inspector Renato também faz parte desta trama hedionda. Foi companheiro de Aníbal Costa no ultramar, foram colegas de companhia. Aliás, foi ele quem o apresentou ao Dr. Azevedo quando ambos retornaram. O Aníbal era o sujeito perfeito para a experiência inicial. Um fanático, capaz das maiores atrocidades durante a guerra em África, mas ainda assim, nada comparado com o que se tornou a seguir. Eu...eu próprio efectuei a cirurgia que o tornou naquilo que ele é hoje. Mas isso nem foi o pior. Foi só o início de toda esta trama.
- Mas isso é ridículo. Com que objectivo? Torna-lo no novo Salazar? – Inquiria a rapariga.
- A queda de uma civilização é o mais surpreendente, e, ao mesmo tempo, o mais obscuro de todos os fenómenos da História. Depois da morte de Salazar, depois das colónias quase perdidas, até mesmo já depois de o próprio regime cair, em Abril de 74, um grupo muito restrito de pessoas, todos eles fascistas fervorosos, nacionalistas, saudosos dos tempos em que Portugal dominava metade do mundo, reuniram-se em segredo numa casa perto de Sevilha. Viviam-se tempos perigosos e instáveis, e essas pessoas estavam determinadas... determinadas percebes, a restaurarem aquilo que para eles representava a glória do nosso país. E não eram somente portugueses, os que ali se reuniam naquela noite fatídica, mas também espanhóis, italianos, alemães.. de todas as frentes de um nacionalismo ousado e puro, os derrotados da Europa, os escorraçados... os malditos! Entre eles encontrava-se o Dr. Azevedo, e..eu também.
- Tu? Mas como pode isso ser? Tu não pareces nada mais velho do que eu, como é possível que possas ter estado nessa reunião secreta, que ocorreu há mais de trinta anos atrás?
António sucumbiu ao seu próprio relato, recolhendo o rosto em constrangimento.
- Não fui inteiramente sincero contigo.
- Isso vejo eu. – Declara Susana. – Serás tu também um clone? Então? Desembucha. – Remete-lhe a rapariga, em fúria.
- Eugenia! Sabes o que significa?
- Eugenia? Não, não faço ideia.
- É o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar... ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações. O Dr. Hugo Von Venkell do departamento de purificação racial do III reich, trabalhou extensivamente nessa área no campo de Dachau, durante a guerra...fez experiências terríveis...eu mal sei como te...
- Continua. – Expressou Susana com frieza.
António admirou-se com a quietude impenetrável do seu rosto, julgou senti-la mais chocada com o que lhe acabara de contar, e não pode deixar de se surpreender com a sua postura estóica e calma. Prosseguiu depois com o seu relato, já ele também mais recomposto da própria natureza aterradora do que lhe dizia.
- Von Venkell veio refugiar-se aqui, em Portugal. Tomou residência em Sintra, e durante imensos anos, levou uma vida aparentemente pacata como um médico de província. Mais tarde, foi incumbido de implementar esse mesmo conceito de pureza racial, de domínio da raça, na nossa população. A intenção era clara, diluir completamente as ideologias reaccionárias, comunistas, anarquistas e substituí-las pela geração seguinte, os eugénicos arianos. Afastar os “incapazes” os “mais fracos”, pois esses constituíam uma ameaça, um perigo. De certa forma, o objectivo era, e continua a ser, o de vencer a guerra por assimilação. Mais tarde ou mais cedo, a maioria da população acabaria por ficar toda submetida ao processo de purificação, e o país tornar-se-ia inteiramente homogéneo a esta ideologia, puro e grato por seguir os líderes de outrora. Os membros daquele primeiro encontro em Sevilha, e respectivas famílias, foram a génese do projecto, submetendo-se a ele de bom grado, e em plena consciência e dedicação. Foi o meu pai, quem assistiu a esse momento, mas, de acordo com o que te expliquei ainda agora, foi como se eu próprio lá tivesse estado, percebes? Eu sou uma versão melhorada, purificada, do meu pai, e tu também, Susana.
A cabeça de Susana parecia prestes a implodir sobre si mesma com que ouvia. Os seus olhos piscavam intermitentes, absolutamente incrédulos.
- Eu? Isso é um disparate pegado. Eu conheço bem os meus pais, sei muito bem quem eles eram. O meu pai foi militante do P.O.U.S., pelo amor de Deus! Ariano? Tu estás louco.
- Não, não estou..Infelizmente é tudo verdade. Porque também tu estiveste presente naquela reunião. Tu, a Glória, o Paulo, eu..todos nós estivemos lá, porque somos todos frutos deste mesmo projecto, que já envolve meio Portugal. O que te lembras exactamente sobre os teus pais?
- Eu?
- Sim Susana, tu. Talvez já te tenhas questionado do porquê de não existirem fotografias da tua infância em lado algum. Como é possível existir um casal que não guarda uma única foto da sua filha quando esta foi criança, ou bebé. Achas isso normal?
- Sei lá eu porquê..mas isso não invalida que..
- Porra Susana! – Interrompe-a António. – Tu viste os corpos ali naquele laboratório, eu sei que os vistes. Tu e o Paulo, uma outra Susana e um outro Paulo, e quantos mais não haverão por aí, já lhes perdi a conta. Moldes! Somos moldes todos nós..eu, tu, a Glória..eu.. eu já nem bem sei quem sou verdadeiramente! – António apoia os cotovelos sobre os seus joelhos e encobre o rosto com as mãos. – Mas, o pior de tudo ainda não te contei..
- Sobre o Dr. Azevedo?
- O Dr. Azevedo é Von Venkell. Hugo Von Venkell assumiu a identidade do Dr. Azevedo, são uma e a mesma pessoa.
- A Isabel? Ela está a ligar-me. – Responde-lhe Susana.
- Não atendas, não é a Isabel, garanto-te. A Isabel está morta, assim como o Paulo que tu conhecias, e a Glória, o Aníbal Costa, e todas as pontas soltas que nasceram nessa década de todas as suspeições. Tu tens estado a ouvir-me com atenção? A experiência ainda não terminou, a prova disso, são as tuas dúvidas e os teus receios, é o próprio relato que te acabei de fazer. Ainda não somos puros, puros como eles o desejariam que fôssemos. É por isso que não nos resta muito mais tempo. Pousa o telemóvel e escuta-me com atenção, só tenho mais uma coisa para te dizer, mas é a mais importante de todas, tu não és..
O estrondo avassalador da porta do quarto sendo dobrada sobre as próprias dobradiças pela força certeira de um pontapé, interrompeu-lhe de imediato o discurso, e antes mesmo que qualquer um deles pudesse esboçar reacção que fosse, acabaram tolhidos por dois tiros certeiros e silenciosos, alvejando-os mortalmente no centro da cabeça.
António parecia ainda ter feito tenção de protegê-la no instante derradeiro, pois tombou sobre si mesmo, para a frente, de rosto virado ao chão. Susana, por seu turno, completamente tomada de surpresa, permaneceu sentada na cadeira, de olhar vazado, aberto num espanto eterno, para sempre desconhecedora do seu verdadeiro destino.
No dia seguinte, estranhamente cedo para o que era o seu costume, entrava descontraidamente pela porta da redacção da ReporterMagazine, trazia o capacete debaixo de um braço, uma mão cheia de rolos fotográficos e um sorriso zombeteiro a iluminar-lhe o rosto.

Casimiro Teixeira



   FIM?

2 comentários:

JoséManuelBarbosa disse...

Fantástico, Casimiro, Parabéns pela machadada, digo tiro(s) final! Adorei o último parágrafo, trazendo o capacete debaixo de um braço e um sorriso zombeteiro...Divinal!!!

Dina Rodrigues disse...

Em primeiro lugar, parabéns a todos os autores do conto, fizeram um brilhante trabalho!

Em segundo lugar, parabéns ao Casimiro pelo bonito desfecho desta história! O último parágrafo está o máximo! E tudo volta à vida normal...com "um sorriso zombeteiro a iluminar-lhe o rosto."