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domingo, 18 de dezembro de 2011

O Fim da Inocência - Parte II


Anísio estrebuchava sobre os ladrilhos do passeio. Com o olhar esbugalhado e a espumar pela boca esboçava movimentos loucamente descoordenados.

Acorreram de imediato transeuntes curiosos asfixiando ainda mais aquele corpo, entretanto amorfo e num estado de atonia consonante com a brisa subtil que acariciava aquele fim de tarde.

Laurinda perfura habilmente aquele paredão humano e pede ajuda a Marco para dispersar o amontoado de vultos.

- Pai estás bem? - Proferiu Laurinda com a voz trémula e o coração num cronometrar desenfreado.

Na Aldeia havia um médico sexagenário que morava a dois quarteirões dali. Marco pula para a sua motorizada Casal e acelera em busca da sua assistência. Cerca de dez minutos após já se encontrava o Dr. Falcão, nome pelo qual era carinhosamente apelidado, ao alto com a vítima.

Laurinda descreve resumidamente o ocorrido. Com a astúcia do seu olho clínico, e após avaliar Anísio, o Dr. Falcão delineia um provável diagnóstico.

- O teu pai teve uma crise convulsiva e necessita de realizar exames complementares de diagnóstico. Vou transferi-lo para o Hospital Santo António - Automaticamente pede a Marco para ir à mercearia do Sr. Júlio Salgado, o único local da Aldeia onde havia telefone, e chamar uma ambulância.  

- Onde fica esse hospital, Doutor?


- No Porto, a minha invicta metrópole, onde trabalhei durante anos. Estava cansado da azáfama citadina e então optei por terminar os anos de exercício aqui, neste aconchego entre montanhas, onde sou realmente útil e afagado por todos.

Quando a ambulância chegou já Anísio balbuciava algumas palavras, para contentamento de Laurinda que não desgrudara um minuto sequer de junto dele.

- Marco cuidas do meu rebanho na minha ausência? A "Malhada" precisa de cuidados acrescidos.

- Por ti farei tudo o que é necessário.

Ainda com o rosto pigmentado pelo embaraço causado pelas palavras que tinha acabado de recitar, retira do bolso das calças três notas de cinco mil escudos.
E com bravura no olhar, diz-lhe:

- Aceita, vais precisar.

Estava na hora da partida, e eis que "aquele beijo" surge espontaneamente. Sem treinos ou truques aqueles virgens lábios tocam-se magnetizados.
 
- Prometo, darei notícias em breve – A fatídica frase que quebrou o encantamento desta imaculada manifestação de amor.

Em poucos minutos a ambulância virou miragem no horizonte, mas a viagem alongou-se entre curvas e contracurvas, íngremes subidas e descidas, solavancos, e incertezas.

De rosto firme e coração apertado, Laurinda persegue com olhos de águia cada gesticulação do Doutor ao monitorizar a pressão arterial e a pulsação do seu pai.

- Minha querida filha, o que me aconteceu? Para onde nos levam? – Tagarelou Anísio, agora clinicamente estável.


- Pai fica tranquilo, sentiste-te mal e vais ao Porto fazer alguns exames.

Após cerca de duas horas e meia chegaram finalmente ao Hospital. Anísio foi encaminhado para uma sala de observações, onde já o aguardava um colega e amigo do Dr. Falcão.

- O teu pai permanecerá no Hospital até ao final do dia de amanhã. É o procedimento normal nestas situações. Tenho que regressar à Aldeia. Minha jovem, como vais fazer?

- Doutor pernoito por aqui. Quero estar de volta logo ao matutino madrugar. Que residencial aqui próxima me aconselha?

- Na rua Santa Catarina existem cómodas e económicas residências. Faço-te um croqui.

Pediu à enfermeira de serviço para ver o pai. O anoitecer estava a amotinar e tinha que se despedir dele. Chegara a hora de procurar a dita rua.

Caminhava pelas ruas inebriada pelos odores adocicados, que saiam das lojas e cafetarias, mesclados com a combustão da frenética frota automóvel.
A cada passo que dava aumentava a sua perplexidade. Seduzia-a a grandeza das edificações que tocavam o Céu, de rompante um pouco fantasmagóricas dada a sua imponência.

Este novo mundo, que nem em sonhos assim o idealizara, causou-lhe alguma estranheza, mas aguçou-lhe o gosto pela descoberta. Era uma jovem destemida, e atraiu-lhe aquele meio onde o chão latejava como um vulcão de oportunidades e novidades, e onde a vida parecia-lhe menos dura e regelada.

Já na rua Santa Catarina ouve o ritmar de notas musicais de um instrumento que não reconhece. Saíam melodiosas do íntimo de um edifício onde se lia na fachada Café Majestic. Imobiliza-se junto à sua portada principal e penetra o olhar pelo interior.

Os adornos da espaçosa sala, desde os candeeiros aos espelhos, transpareciam luxo, requinte e glamour, mas foi o piano de cauda que estava a angular um canto do Café Majestic que a enfeitiçou. A magia provinha daquelas incógnitas mãos que flutuavam sobre as teclas.

Marlene Quintinha

6 comentários:

Mikashi disse...

Bem...que reviravolta fantástica...na nossa cidade invicta...obrigada Marlene por me deixares esta personagem com mto para oferecer aos leitores, aqui no meu Porto de Abrigo! :)

Liz disse...

Rumo muito interessante que pode levar a várias saídas, igualmente interessantes. Gostei muito!

A.Mello-Alter disse...

Surpreendente

JoséManuelBarbosa disse...

Gostei muito da tua desenvoltura de escrita e do prosseguimento da história, Marlene!
Acabo de passar em Santa Catarina e, imaginem, a Laurinda lá continuava especada, dentro do Majestic, completamente atónita com o ambiente circundante.
Creio mesmo que por lá irá permanecer até que a Carolina Lemos, com uma pancadinha nas costas, a acorde daquele êxtase...:))

Dina Rodrigues disse...

Igualmente brilhante o rumo da história. Muito bem Marlene!

Clementina disse...

Muito bem Marlene, então a Laurinda, veio até ao Porto
Parabens pela escrita e pelas fotos