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terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O Fim da Inocência – Parte III



A medo, muito a medo, mas com um misto de curiosidade que lhe fazia bater mais forte o coração, Laurinda deu um passo em frente e entrou naquele ambiente que lhe era totalmente novo.

O som do piano hipnotizou-a e não conseguia tirar os olhos das mãos do pianista e do rasto do fumo que se libertava do cigarro pousado no cinzeiro. Ficou assim especada, durante algum tempo, nem ela sabe quanto… pareceu-lhe horas mas podiam ter sido breves minutos. Foi acordada daquele estado de transe, por um empregado que veio perguntar se Laurinda se queria sentar e se desejava tomar algo.

Laurinda acenou com a cabeça mecanicamente que sim, e o empregado conduziu-a a uma mesa, curiosamente, bem perto do piano. Quando ele lhe perguntou de novo o que queria tomar, Laurinda olhou para ele com um ar meio aéreo pois nem sabia bem o que estava ali a fazer.

Mas ela nem teve tempo de pensar, pois uma sombra alta e esguia aproximou-se do empregado e disse que oferecia àquela menina simpática um refrigerante.

- Presumo que seja o que uma menina da sua idade gosta de beber, certo? – disse o estranho, sorrindo paternalmente para Laurinda.

- Sim, obrigada- balbuciou a jovem ainda meio atordoada. Todo aquele ambiente, a luz, o barulho, as pessoas, era tudo tão diferente.

O estranho sentou-se à beira dela. – Permite-me? – perguntou-lhe, mas sentando-se na cadeira perto dela, sem esperar pela resposta.

- O que faz uma rapariga como tu, neste café? – inquiriu, servindo-lhe mais refrigerante.

- Vim com o meu pai. Ele está no hospital. – ao responder isto, Laurinda parece ter acordado de novo para a realidade e levantou-se bruscamente.  - Está a fazer-se tarde. Tenho de me ir embora. Quanto lhe devo pelo refrigerante? – perguntou Laurinda, meia apressada.

-Espera rapariga, senta-te aqui a minha beira. Vamos conversar. És gira, gostei de ti- disse o estranho agarrando-lhe o braço.

- Largue-me! gritou Laurinda, vindo ao de cima a rebeldia da sua essência.

Olhares curiosos, de turistas, amantes, poetas, artistas ou simples anónimos de passagem por aquele lugar mítico da Invicta cidade, focaram o olhar selvagem de Laurinda sem perceber bem o que se estava a passar.


Nesse instante, um rapaz aproximou-se dos dois. Laurinda olhou-o furiosamente, já pronta a não deixar que mais alguém a agarrasse. Afinal, ela que tinha sido criada pela chuva e pelo sol do campo, não admitia amarras, principalmente de alguém que nunca tinha visto na vida. Mas o rapaz não se intimidou e chegou-se mais e numa voz rouca mas que denotava ainda ser jovem, dirigiu-se ao estranho:

- Largue esta menina. Não ouviu o que ela disse?

O estranho levantou o sobrolho e em tom de desafio replicou: - E quem és tu para me dizer isso?

O rapaz não se intimidou com esta frase e pôs a mão no ombro do seu interlocutor. – Amigo, digamos que sou alguém que conhece todos os empregados deste café. Certamente não vai querer problemas. Certo? – e inclinou a cabeça com ar decidido.

O estranho olhou em volta e viu três empregados com ar de poucos amigos, bastante próximos deles e achou por bem, largar Laurinda.

Disse em tom jocoso: - Calma amigo, podes ficar com a miúda…Moças deslumbradas como ela é o que não falta por esta cidade. E dito isto pegou no chapéu barato de aventureiro rasca e saiu porta fora.

- Obrigada – respondeu desajeitadamente Laurinda. E dito isto, fez menção de se ir embora. Mas o rapaz interpelou-a e disse:

- Já é noite lá fora. Do que me foi dado a perceber não é daqui e não parece conhecer bem esta zona. Canalhas como aquele há aos montes por estas ruas. Não a aconselho a ir sozinha.

Laurinda sentou-se na cadeira que estava atrás dela. Estava exausta, tinha sido um dia tão comprido. Olhou para o rapaz à frente dela e algo nele parecia sincero e bondoso. Mas o que atraiu mais a atenção de Laurinda foram as mãos. Aquelas mãos…eram as mãos do pianista.

- O meu nome é Miguel. Sou um noctívago convicto por opção e conheço bem esta zona. Todos me conhecem aqui no Majestic, já toco piano aqui há uns anos e sabem que não sou má-rés. Pode perguntar a quem quiser. Estou cansado de ver moças como a menina chegarem à grande cidade e encontrarem canalhas como aquele outro! – e dito isto estendeu a mão a Laurinda em tom de cumprimento.

Laurinda estava tão perplexa com aquele discurso que nem conseguiu emitir um som. Nunca ninguém lhe tinha falado daquela maneira educada e eloquente. Estava habituada aos modos mais grosseiros mas genuínos das gentes da sua aldeia e ao jeito mais bruto de Marco.

- Onde está hospedada? - continuou Miguel


- Não estou em lado nenhum. Deram-me esta morada de uma pensão que me disseram ser de gente decente. – falou por fim Laurinda.

- Ah! Boa escolha- sorriu Miguel. Conheço a dona muito bem e não é longe daqui. Vai gostar de ficar lá. Vamos, eu levo-a- e indicou-lhe a saída.

Lá fora, de facto a noite já caíra pesada. Estava uma noite fria, com um vento desagradável. Apesar de Laurinda estar habituada ao clima agreste, naquele cidade que lhe era estranha, aquele frio parecia entranhar-se no seu corpo. Miguel educadamente, pousou-lhe o casaco nas costas.

– Vai ver que é mesmo aqui perto. E assim vai poder descansar, está com um ar cansado. Sem esperar pela resposta da rapariga, perguntou – O que veio fazer ao Porto? Estudar?

- Não, não. Apenas vim acompanhar o meu pai que está internado no Hospital. Espero amanhã já regressar a terra- sussurrou Laurinda, ainda meia desconfortável na presença daquele rapaz.

-Vai ver que sim, que foi só um susto e amanhã já regressam. Tenho pena, no entanto que vá já embora, percebi que gostou de me ver tocar, não tinha uma audiência assim tão fiel há muito tempo. – disse a sorrir gentilmente Miguel.

De facto, a pensão era perto. Rapidamente chegaram à porta e entraram. Miguel apresentou Laurinda à dona da pensão e pediu que a tratasse muito bem. Miguel parecia ser muito querido por aquelas bandas.

A dona da pensão arranjou um quarto sossegado e confortável a Laurinda. Antes da rapariga subir para se ir deitar, Miguel despediu-se de Laurinda.

-Obrigada pela sua ajuda- disse ela.

-De nada e tenha cuidado. Esta cidade é linda mas esconde alguns perigos. Espero que o seu pai melhore rapidamente. Se por algum acaso, não for amanhã para terra, passe lá, no café. Tenho todo o prazer em tocar uma música para si. Se não for devido a ter regressado, pode ir com a certeza que amanhã uma das músicas que tocarei, irá ser dedicada a si. – e dito isto, beijou-lhe a mão e desceu as escadas, já não vendo o rubor que apareceu na face de Laurinda.

Já deitada na cama a cheirar a lavanda, Laurinda pensava naquele dia maluco. O que parecia ser apenas mais um dia de festa, acabou por se tornar uma aventura.

Como estaria o pai? Estaria a ser bem tratado? Confiava no Dr. Falcão, por isso achava que sim. E Marco? Teria ficado a dançar com outra? E Miguel? Será que algum dia teria oportunidade de o ver tocar de novo?

E ao som das teclas dançantes do piano de Miguel, adormeceu….
Carolina Lemos

5 comentários:

Liz disse...

Como em todo lado, há pessoas más e pessoas boas e a nossa Carolina lá fez jus à sua faceta de "acrescentadora" de personagens. E fez muito bem! Que papel assumirá Miguel na vida de Laurinda? Veremos...
Mais uma vez, gostei. Parabéns, Carol!

Dina Rodrigues disse...

Muito bem Carolina! Lá tinha de vir o outro... o Miguel. O que acontecerá daqui para a frente entre estes três personagens?

Maria Fernanda disse...

Bem...agora é comigo...Gostei, Carolina....Vamos lá ver o rumo que terá esta história que promete....e muito!

JoséManuelBarbosa disse...

Gostei - gosto - muito da escrita da Carolina que já deu provas, na sua participação do nosso anterior conto, de saber bem o que escreve e o que pretende. Claro que, quem continuar a história, não lhe dará, certamente, o seguimento que ela , porventura, pretenderia, mas aí está a riqueza e uma das virtudes de mais esta odisseia pelos terrenos da escrita em conjunto. Estou ansioso pois, porque de cada um... um ponto no conto...;)

Anónimo disse...

Gostei Carolina
Parabens