Nesta página partilha-se o gosto pela escrita. Escrevemos contos e damos largas à imaginação. Quem quiser participar basta expressar essa vontade aqui, em forma de comentário, e receberá todas as informações que necessitar.

domingo, 8 de janeiro de 2012

O Fim da Inocência – Parte V




Laurinda ficou corada, mal desviou o olhar para a pessoa que estava à sua frente. Por momentos, quando se voltou, pensou estar a ver o Miguel. Tão parecido! O rosto, as feições e até as mãos… aquelas misteriosas mãos do pianista.

- Desculpe, pensei que era outra pessoa… - disse ela a gaguejar, com as pernas a tremer e o coração acelerado.

- Eu é que peço desculpa, se a assustei – Este lenço de seda é seu? – Perguntou o desconhecido.

- Meu? Não, quem me dera ter um lenço assim!

- Porquê, é assim tão extraordinário ter um lenço destes? – Inquiriu ele com ar de espanto.

- Para mim é, acredite mesmo!… Exclamou ela.

- Parece um pouco perdida, precisa de ajuda? Deixe que me apresente: Sou o Francisco e sou empresário têxtil. Venho aqui comprar roupa e a menina é?...

- Laurinda… muito prazer! - Eu, realmente, preciso de uma opinião… quero comprar um vestido para sair logo à noite e não sei muito bem o que escolher - disse ela a medo.

- Então veio ao sítio certo, porque uma pessoa tão bonita como a menina, não vai ser difícil encontrar aqui roupa linda que lhe fique bem! - Diz ele em tom de galanteador.

- Obrigado, é muito gentil da sua parte, ajuda-me a escolher? Aquele vestido ali, o que acha dele, será que me fica bem?

Que pessoa tão simpática eu havia de ter encontrado! - Pensou ela.
Agora é que ia mesmo deitar fora os trapos que trazia vestido. Aquelas botas, que antes até gostava, mas que neste momento lhe pareciam horríveis. As meias tão grossas, realmente, só eram boas para andar lá na terra, no meio das silvas e das giestas, quando andava a correr atrás do rebanho… já para não falar dos elásticos presos nas meias, que nem para apanhar o cabelo serviam!

Laurinda sentia-se perdida e deslocada do seu ambiente natural, mas com uma vontade enorme de viver e conhecer outro mundo, outra vida, novas pessoas e ter outras oportunidades. Queria sobretudo conhecer este mundo novo, em tudo diferente do que tinha vivido ao longo dos seus 18 anos. Era feliz na sua terra, mas agora que viu que existia muito mais do que pedras, giestas, gelo, montanhas e ovelhas, muito mais do que a sua imaginação podia alcançar, queria conhecer mais, muito mais!... Nem nos seus jogos de fantasia, entre as colinas e montanhas, tinha imaginado um mundo assim tão fascinante como o do Porto.

- Então, vamos lá ver o tal vestido? – Perguntou Francisco. - É aquele ali? Não podia fazer melhor escolha. Vá experimentar. E já agora, uns sapatos também lhe ficavam bem!

- Que nº calça? – Pergunta a empregada.

- 37 ou 38 - responde ela, sem saber bem se era esse o número porque só costumava usar botas.


Laurinda, lembrou-se do Marco e imaginou-o vestido de fato e gravata, a passearem os dois de braço dado, pelas ruas do Porto. Havia de ficar bem, assim! – Pensou.
Imaginou-o de mão dada com ela, ali, na loja a escolherem a roupa. O que acharia ele desta cidade e como se sentiria? Será que nos seus 19 anos, já alguma vez cá tinha estado?

- Que ironia do destino – pensou ela - agora estava com um homem estranho, a escolher uma roupa nova, que ia pagar com o dinheiro do Marco, para ir ao encontro de outro!

Entrou no vestiário, com uns quantos vestidos para experimentar, sem saber muito bem como vestir aqueles vestidos lindos e calçar aqueles sapatos de salto alto e fino, mas lá se safou bem. Quando se viu ao espelho, assim vestida e calçada, quase nem se reconhecia!

Vestia um vestido vermelho. Era um pouco decotado, com um laço na cintura, ligeiramente acima dos joelhos e de manga três quartos. Era um pouco justo, para aquilo que costumava usar, mas sentia-se bem com ele.
Calçava uns sapatos pretos, de salto fino, não muito alto, mas o suficiente para ela se sentir um pouco desequilibrada.
Calçava collants de vidro, que a empregada aconselhou.

Enfiou as suas roupas usadas e as botas num saco, que a empregada lhe deu e saiu do vestiário. Foi pagar as coisas e dirigiu-se ao Francisco.

- Então, como estou?

- Deslumbrante! Convido-a para jantar, aceita?

- Obrigado, mas não posso, tenho de ir ter com uma pessoa ao Majestic, quero ir vê-lo tocar! – Disse ela com um misto de embaraço e de surpresa pelo convite.

- Não se preocupe, vamos jantar e voltamos rápido, ainda a tempo de ver essa tal pessoa tocar. Já percebi que a Laurinda não é de cá. Não gostava de conhecer um pouco mais da cidade e de jantar num sítio bonito? Eu vivo na Foz, gostava que conhecesse, é uma das zonas mais bonitas do Porto! Podemos jantar numa esplanada à beira-mar e depois voltamos, vai ver que vale a pena. Aceite o convite! – Insistiu ele e de seguida estendeu uma caixa a Laurinda.

Laurinda abriu a caixa e ficou perplexa, lá dentro estava um colar de pérolas, que ele logo lhe colocou ao pescoço. Nunca tinha visto nada assim tão bonito! Como poderia recusar um convite para jantar com uma pessoa tão amável e tão generosa?

Francisco mandou-a esperar à porta da loja e foi buscar o carro. Chegou e abriu-lhe a porta para ela entrar. Seguiram em direcção à Foz, realmente era uma zona muito bonita, Laurinda estava encantada com o passeio. Ele escolheu uma esplanada e jantaram.

- Obrigado pelo jantar, foi magnífico, adorei a sua companhia, mas agora temos de voltar! – Disse ela, já impaciente para ir ver o Miguel.

- Está bem, vou pagar e vamos já embora, vou levá-la ao Majestic!


Entraram novamente no carro, mas em vez de fazerem o caminho contrário, de volta ao centro da cidade, ele seguiu para o Parque da Cidade. Uma vez lá, parou o carro num sítio escuro e começou a tentar beijá-la. Ela começou a gritar e a querer sair do carro, mas as portas estavam trancadas e não se via ninguém por ali. Ela gritava, esperneava, ele tentava tirar-lhe o vestido e não havia ninguém para a socorrer. Estava perdida!

Acabou violada e abandonada num parque escuro, longe do centro da cidade e sem saber o que fazer! Estava em pânico e chorava sem parar. Ajeitou o vestido, rasgado em cima e tentou sair daquele lugar. Como ia voltar para a pensão?

Andou por ali a deambular de um lado para o outro, até as lágrimas acalmarem um pouco. Sentia ódio dele, daquele animal do Francisco, mas também sentia muita raiva dela própria, por ter acreditado num estranho que não conhecia de lado nenhum. Sentia que a culpa do que aconteceu, também era dela. Ali não era como na sua terra, um local onde se podia confiar em qualquer pessoa. Ali era bem diferente, as pessoas eram falsas e sem sentimentos e ela acabara de o descobrir da pior maneira possível. Que ingénua que foi!

Dirigiu-se à estrada, com muito medo, mas encontrou uma paragem, que lhe parecia ser de autocarro. Felizmente apareceu logo um, ela mandou-o parar e perguntou ao motorista se ia para os lados da morada da pensão. Teve sorte, o autocarro ia mesmo para a rua da pensão!

Chegou à pensão e com as lágrimas a caírem novamente, correu directa à banheira, encheu-a de água e deitou-se nela. Só lhe apetecia morrer naquele momento. Esfregou… esfregou o corpo todo, só queria tirar todos os vestígios daquela noite, todos os vestígios daquele monstro que lhe tinha feito tanto mal. Não dormiu a noite toda e, mal amanheceu, pegou no saco onde tinha enfiado a roupa antiga, do dia anterior e voltou a vesti-la. O vestido vermelho, os sapatos e as meias de vidro, meteu tudo no mesmo saco e atirou com ele para o caixote do lixo que estava à porta da pensão.

Laurinda chegou ao hospital e já o pai estava à sua espera, já tinha tido alta. Ele disse-lhe que os resultados dos exames não tinham acusado nada de grave, que estava tudo bem, mas que o Dr. Falcão passaria lá por casa, na próxima semana. O médico disse que ele apenas estava a precisar de descanso!

Estava na hora de deixarem aquela cidade e foram apanhar a camioneta de regresso a casa.

Laurinda, sentada ao lado do pai, olhava através da janela, com os olhos inchados e perdidos no vazio, enquanto deixava para trás as más recordações. Apenas levava consigo a recordação do Majestic e do Miguel, que infelizmente nem chegou a ver no dia anterior. Pensou no Marco que estava na terra à sua espera…

- Pai, a minha vida nunca mais vai ser a mesma, nada volta a ser como dantes! – Exclamou Laurinda com o coração apertado e tristeza na voz…


                                                                                                                            Dina Rodrigues

5 comentários:

Dina Rodrigues disse...

Há perigos que as grandes cidades escondem, principalmente para jovens inexperientes e ingénuas como a nossa Laurinda, mas ela é forte e há-de saber dar a volta por cima! Amigos, desculpem se desiludi alguém, desta vez não veio ao de cima o meu lado romântico. Espero que gostem!

JoséManuelBarbosa disse...

Não foram precisos tiros nem clones mas aparece sempre um monstro capaz de estragar tudo. Então não é que a pobre rapariga fica sem a virgindade em três penadas?! Melhor, de uma penada e deixada na berma da estrada... Ó Dina, surpreendeste-me com tamanha maldade, vem uma parvónia à cidade e, zás, é logo violada? Cheira-me que, afinal, ainda pode haver tiros... ou sacholadas, sei lá... :))

A.Mello-Alter disse...

Foste muito má, Dina.
A sorte da miuda é que o próximo "contista", moi même, vai tentar compensar as coisas.

Ahahah

A.Mello-Alter disse...

Desculpem, mas este A.Mello.Alter, é o pseudónimo de Joaquim António Godinho.

clementina disse...

Pobre Laurinda, poucas saudades lhe terá deixado o Porto, mas lobos com pele de cordeiro,há em todo o lado