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sábado, 4 de fevereiro de 2012

O Fim da Inocência - Parte IX


Ou, se não o sabia como certo, adivinhava-o!

Pedro, audaz e de um só gesto, cravou seus dedos na palma da mão, arrastando-a pela cintura com a resolução de que se faz a convicção, fazendo-a suavemente deslizar em direcção à tenda montada junto ao Templo atribuído a Diana. Grande e espaçosa, armada com longos paus toscos cruzados e amarrados com cordas, tudo coberto com peles de cabra. A sua textura rendilhada, de um castanho poroso, deixa-se atravessar, filtrada, pela luz da rua em finos fios. No seu interior, as pedras da calçada cobertas com grandes tapetes, ricamente ornamentados com motivos variados de cores e tons, trazidos da luminosa Chefchaouen. Almofadões ao redor, uma mesa em ferro forjado de três pés em cujo tampo de pedra-fóssil e pequeninos mosaicos justapostos, completado com um serviço de seis copos de chá e respectiva chaleira. Por todo o lado, o mais variado artesanato do Norte e do Sul de Marrocos, bem como peças em madeira oriundas da Floresta de Cedros. A um canto, uma esteira coberta com vários cobertores manufacturados com a lã das ovelhas do Alto Atlas.

Ritmos incessantes e vozes estridentes dos cânticos berberes ecoando naquela praça conferem um inusitado ambiente de mistério e exotismo ao interior daquela tenda. Enquanto as lamparinas ardem e paus de incenso tombam fumegantes, Pedro e Laurinda entregam-se à dança, num hipnótico frenesim de tambores. Corrido e fechado o pano da entrada, Laurinda sofre a primeira interrogação sobre o que fazem os dois ali enquanto, lá fora, todo o mundo pula e se diverte.

— Não te preocupes, estamos sós e ninguém aqui entra. É a tenda onde recebo os visitantes, vendo o artesanato e onde pernoito durante o Festival.

Laurinda, parecendo-lhe que sim e fechando os olhos, abandona-se novamente ao poder místico daquela música transcendente e tão estranha. E tão profunda que lhe mexe com as vísceras.

Numa espiral de corpos que se contornam e se avizinham dançando, Pedro segreda-lhe que este é o meu mundo. Rodeado de gente, intimamente só. Mas sem solidão!, sentindo o pescoço rodeado pelos finos e longos braços de Laurinda que, de olhos cerrados e se aproximando um pouco mais, o beija com sedução. Sempre dançando, demonstrando uma agilidade inesperada que deixa Pedro atónito, admirando-a com devoção.


Ela, pegando-lhe nas mãos, coloca-as na sua própria cintura baloiçando o seu pequeno e frágil corpo ao redor do de Pedro numa cadência agora mais suave. Puxa-o lentamente para junto da esteira e, apertando-o contra si com toda a força — a força de que são capazes aqueles finos e longos braços —, o beija demoradamente.

Sente o cheiro das peles da tenda que lhe lembra os rebanhos de Miranda. Esfregando o seu nariz no pescoço de Pedro vem-lhe à memória o cheiro da madeira dos carvalhos lá da terra. Este cheiro do Pedro recorda-lhe as brincadeiras com Marco, coitado, incapaz de poder imaginar as novas andanças da sua namoradinha de infância, que diabinho...! As suas mãos delicadas e macias contra a sua espinha contrariam a pesada lembrança das daquele maldito Francisco. Tudo isto lhe passa pela cabeça em segundos sem nunca se desviar da intensidade crescente do que está sentindo. Uma atracção desmesurada por este que, acabado de conhecer, lhe suscita a maior das curiosidades, atraindo-a sem apelo nem agravo. Não o conheceu antes, nunca o vira em parte alguma, mas uma indizível sensação de segurança e um estranho desejo de abandono a aventuras adivinhadas, assola-lhe o corpo e o espírito. Não, nem o corpo nem o espírito, antes o seu ser uno e indivisível que isso de corpo e alma lhe parece uma treta. Deixa-se, conscientemente, capturar pelo desejo ousado e, ao mesmo tempo provocador, de querer conhecer este homem, antes de tudo, acima de tudo. E tudo o resto, se vier, ficará para depois!

Afasta dentro de si uma segunda interrogação. Já não é o corpo que pede, é Laurinda por inteiro, portanto, que o exige com um sorriso maroto nos lábios, deitando-se naquela simples esteira. Afasta os cobertores, puxando vigorosamente Pedro para cima de si.

Por momentos recorda na sua boca a boca de Gaby e, num suspiro, atira com a língua para dentro da boca do homem que a beija, mordendo lábios, misturando salivas. Não, esta não é a mesma boca, este não é o mesmo sabor e percorrendo o seu interior, os seus lábios, os seus dentes, as suas linguas guerreiam-se numa luta sem tréguas. Numa fusão perfeita em que as bocas se fazem mãos, as mãos se fazem línguas entrelaçadas em arrepios de volúpia, seus corpos apertando-se esmagam reticências.

Aquelas mãos tensas e macias percorrem-lhe o corpo febril. Levantando a blusa oferece-lhe decidida o seu peito vazio de ternura e repleto de paixão. Sente da sua boca quente o bafo da respiração colada aos mamilos erguidos como que apontando um caminho através das estrelas daquele seu céu. Estremece. Contorcendo-se, é a língua de Pedro que, ousada, rodopia nos seus bicos. Uma quentura vinda de dentro, uma morna humidade, dispersa-se das entranhas enquanto aquele homem se entrega devoto ao seu prazer, fazendo-a descobrir sensações que nunca conhecera ou suspeitara. Cruzando olhares vem à memória a ternura de Miguel mas não quer pensar nisso agora. Quer apenas sentir, entregar-se às mãos experientes deste homem do mundo que a faz vibrar de volúpia e desejos nunca antes experimentados. Até parece que ele lhe adivinha o querer...


Laurinda sente-se prestes a explodir. Uma pressão nas têmporas, uma tensão nas mamas intumescidas e as pernas entreabertas agitam-se como que suplicando vem!

É Faísca que agora lhe sobe à memória. Como quando, se baixando para acariciar aquele rafeiro alentejano, este a lambeu profusamente na cara, um novo arrepio a sacode de alto a baixo. Uma convulsão que haveria de se tornar num terramoto de epicentro não localizável, ao sentir o calor da boca de Pedro e depois a língua hirta entre as suas coxas humedecidas.

Sedento, procura a fonte por entre as folhagens e os arbustos, afastando-os para melhor seguir a linha de todo aquele caudal vindo sabe-se lá de onde...

Retraída, lentamente se descontrai escancarando as pernas. E as mãos de Pedro abraçando-lhe as nádegas — meu deus, esta língua mata-me! —, se entrega sem reservas ao que os puritanos se negam. Não ousara nunca pensar ou sequer imaginar que este ou outro qualquer homem pudesse ou quisesse assim entrar dentro dela. E que fosse plausível arrancar-lhe, libertando-o, todo e tanto desejo encarcerado. Que vontade de se entregar inteira e este estranho...!

— Azul... os sonhos são azuis esverdeados! —, balbucia.

— Como aquela minha cidade incrustada no sopé da montanha —, retorque Pedro de olhos fechados.

O corpo de Laurinda baloiça agora com um nó na barriga — mesmo por baixo do seu umbigo —, com maior amplitude porque a música lá fora assim o exige. Rodopia os quadris em movimentos circulares, sentindo dentro de si o viscoso e o quente que a transporta para lá do imaginável. Um imenso formigueiro lhe percorre o cérebro, o corpo. Completamente arrasada não desiste e aqueles ritmos tropeçam, sempre em crescendo, nos gemidos de Laurinda e depois nos gritos que se confundem com as vozes estridentes que ecoam naquela praça.

Esta tenda cheira a sal. Esta tenda tem o odor dos corpos que se entregam sem limites. Esta tenda tem as cores do desejo na simbiose da carne. Laurinda bem sente o seu próprio cheiro que se liberta, excitando-a ainda mais, e sobe em espiral através do tecto de peles de textura rendilhada de um castanho poroso que se deixa atravessar, filtrada, pela luminosidade azulada da paixão.

De olhos fixos e bem abertos, olhando o céu escuro daquele tecto de pele de cabra, compara a ilusão de Carrapato com a verdade do que este homem é capaz de a fazer querer, sentir e sonhar... E imagina o seu Deus lá no alto, ladeado pelo Filho e por todos os Espíritos Santos, parecendo-lhe ouvir um deles dizer Oh Deus, enquanto estivemos na Terra fomos tão parvos...!

Lá fora as vozes acotovelam-se. Os tambores abrandam. Laurinda, quase sucumbindo, abandona-se de sorriso resplandecente, inundando de uma azulada luz o espaço que os ampara.

— No final do Festival, o Grupo vai voltar a Chefchaouen e só regressaremos no final do Verão. Haverias de querer conhecer aquela minha cidade azul... Queres vir connosco para a cidade mais linda do mundo, Lau?

José Manuel Barbosa

5 comentários:

Liz disse...

Aquele "desabafo" do Espírito Santo é de bradar aos céus...:))) De menina da aldeia a mulher do mundo vai um passo e Laurinda não o fez por menos. Parece-me que já ninguém a para e vai mesmo atravessar o Atlantico.
Gostei da escrita, sem repressões nem falsos pudores, o que para mim não é novidade conhecendo o Zé enquanto artista como conheço.

Clementina disse...

Adorei a sua escrita, e o seu conto
Depois destas vivências, envolvências,Laurinda,caberá, na pequenez da sua terrinha?
Parabens

Dina Rodrigues disse...

Zé, desta vez a Laurinda veio mesmo parar ao teu terreno "Marrocos", mas ficou fechada na tenda... Está cada vez mais atrevida esta rapariga! Gostei mais desta tua maneira de escrever, continua assim! Parabéns por teres ido buscar, novamente, as pessoas que passaram pela vida da Laurinda e tinham desaparecido sem deixar rasto e por teres tornada a Laurinda mais humana, ela estava quase a tornar-se um objecto.

A VIDA É UM ETERNO APRENDIZADO disse...

Olá!
Foi um grande prazer conhecer seu blog.Aproveito meu tempo para navegar e ler textos e poemas feitos por pessoas que gostam de escrever.
Que bom que você é uma delas.
Grande abraço
se cuida

Maria Fernanda disse...

Há muito que cá não vinha...Quem diria que a Laurinda viria a experimentar sensações tão fortes?!...parabéns José pelas descrições que nos permitem ler o conto como se estivéssemos a ver um filme.