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sábado, 18 de fevereiro de 2012

O Fim da Inocência - Parte XI


… dirigia-se, ligeira, para a paragem da camioneta. Estava na hora da carreira para o Porto e se não apanhasse aquela só já teria outra no dia seguinte.

Chegou mesmo no minuto exacto, foi só o tempo de comprar o bilhete, sentar-se e já a camioneta partira, a rodar caminho naquela estrada de curvas e contra curvas, rasgando montes em direcção à cidade. Tinha-se sentado ao lado da janela, não porque isso lhe fizesse alguma diferença mas porque foi o primeiro lugar que encontrou, e de rosto colado no vidro olhava vaziamente a paisagem que desfilava em sentido contrário, nem o burburinho dos outros passageiros a acordava do tumulto de emoções em que mergulhara desde que a tia Dores lhe dera a notícia do agravamento do estado de doença do pai e do seu consequente internamento. Pobre pai, será que teria sido diferente se ela tivesse estado ali com ele…?

Foram longas, aquelas duas horas e tal que a camioneta demorou a chegar ao Porto, mas finalmente, depois dos muitos quilómetros a que ficava a aldeia, ali estava ela, pela primeira vez desde que aquela cidade a despertara para o mundo. Durante toda a viagem, a única coisa que lhe ocupara o pensamento tinha sido o pai, a ansiedade de saber como se encontraria, mas agora, assim que pôs os pés em terra, veio-lhe tudo à cabeça. A gentileza de Miguel, a brutalidade de Francisco, principalmente a brutalidade de Francisco, assim, no espaço de um segundo tudo passou à sua frente como num écran de cinema, e sentiu um aperto no coração, ou um nó no estômago, não sabia bem que sensação era aquela mas transportou-a de volta para a realidade. Estava ali para apoiar o pai e era isso que ia fazer sem maior perda de tempo.

Marco estava, a meio do corredor, ao lado da porta da enfermaria. Que estaria ele ali a fazer…? Não deveria estar lá dentro acompanhando o seu pai? Laurinda apressou o passo, numa quase corrida que fez Marco levantar os olhos em sua direcção, e num rompante estava ali, frente a frente com aquele que sempre pensara que viria a ser o seu companheiro para a vida, com o coração inquieto e olhar interrogativo.


- Não foi possível fazer mais nada…

Laurinda sabia-o, pressentira-o. Não eram necessárias explicações, ela não tinha chegado a tempo de abraçar o pai pela última vez, não tinha tido tempo de lhe dizer o quanto lamentava não ter estado ali quando ele mais precisou, e foi Marco que a envolveu num aconchegante abraço fraterno onde ela desmoronou num pranto de desespero, raiva e frustração. Todas as emoções que tinha acumulado nos últimos tempos foram ali despejadas em lágrimas de fel e sal. Como era complexo o acto de viver!

Largos minutos mais tarde, depois de ter conseguido recompor-se, disse ao amigo que era preciso tomar providências, era necessário tratar dos trâmites legais à transladação do corpo para a aldeia. Laurinda queria levar o pai para junto das suas vivências e das suas gentes. Era a última coisa que podia fazer por ele e não ia desperdiçar essa oportunidade, ao que Marco lhe respondeu com um deixa que eu trato de tudo. Fica aqui sentada que eu não demoro, é só o tempo de contactar a agência funerária e volto já.

Assim foi, não tardou meia hora e Marco já ali estava, pronto para a acompanhar na viagem de regresso, que foi feita em silêncio. Cada um recordava consigo mesmo os momentos que haviam passado com Anísio, e à chegada à aldeia já toda a gente os esperava no adro da igreja. Laurinda tinha ligado para a venda da D. Tomásia, único telefone público da aldeia e meio de contacto com o exterior, e à medida que a noticia se foi espalhando, todos os habitantes das redondezas se dirigiram para a igreja a esperar o defunto e os acompanhantes, pois nenhum queria deixar de acompanhar o amigo até à sua morada eterna e, ao mesmo tempo, oferecer uma palavra de consolo à sua filha.

Após a cerimónia e as manifestações de pesar, que Laurinda recebeu sempre apoiada por Marco e pela tia Dores, esta deixou escapar um sussurrado quero ir para casa! Logo, os dois se dispuseram para a acompanhar, ao que Laurinda recusou. Precisava estar sozinha, precisava fazer este luto de forma intimista, apenas com ela própria, no aconchego do lar que, desde o falecimento da mãe, tinha partilhado tão cumplicemente com o pai.


E agora, ele também partira. Lá, onde quer que a mãe estivesse, com certeza, ele iria ter com ela, mas deixaram-na ali sozinha e desesperada. O que é que iria fazer? Sentia-se só e perdida, como se aquelas paredes, aqueles móveis, aquilo tudo já não lhe pertencesse, sentia-se uma estranha na sua própria casa. Mas também se sentia exausta e não era capaz de decidir nada, Marco tinha dito que trataria das ovelhas e ela precisava descansar. A tia Dores tinha passado por lá, mais cedo, e tinha-lhe deixado um caldo, que Laurinda engoliu sem sequer lhe tomar o gosto, e foi para a cama, que já não aguentava nem mais um minuto em pé.

Ela queria descansar mas a sua mente em ebulição não a deixava, os acontecimentos das últimas horas, mesmo dos últimos dias, não deixavam de lhe inquietar o espírito. E aquela sensação de já não pertencer ali! Nos últimos tempos, tinha antevisto um mundo que jamais pensara vir a conhecer, fixa-se na imagem de Pedro e de Joaquim, cada um deles à sua maneira, lhe tinha mostrado como é possível crescer em alma e em espírito. Afinal, como lhe dissera Joaquim, citando um certo poeta, sou do tamanho daquilo que vejo… e ela queria ver mais, muito mais!

Acordou, ainda era madrugada, tinha descansado um pouco e sentia-se serena, não apenas pelo descanso mas porque tomara uma decisão. Ia sair dali, queria conhecer o mundo, queria crescer, e a aldeia tornara-se muito pequena para ela.

Saiu da cama de um salto e começou a arranjar as coisas, meteu umas, poucas, roupas num saco, alguns pertences, como o relógio de bolso do pai e os brincos de ouro da mãe, e guardou consigo o dinheiro que o pai tinha de lado e que sempre dissera é para uma emergência. Escreveu uma carta para Marco e foi a casa da tia Dores.

- Venho deixar-lhe as chaves, da casa e das ovelhas. Vou-me embora, tia Dores.

- Por Deus, filha, onde vais tu?

- Vou ao encontro do meu destino, tia, tenho que ir. Por favor entregue esta carta ao Marco - Disse, já se dirigindo para a paragem das camionetas.

Desta vez não ia para o Porto, ia só até à estação de comboio mais próxima e, dai, partiria para o mundo. Pedro tinha dito que o grupo, antes de regressar a Chefchaouen ainda permaneceria uma semana em Sevilha, e ela tinha visto, quando apanhou o comboio para Lisboa, que partia à mesma hora um comboio para o Entroncamento que dava ligação a Elvas.

Laurinda sabia que Elvas era uma cidade fronteiriça, tinha aprendido na escola ou visto na televisão, já não se lembrava, mas sabia que nessa direcção poderia viajar até Sevilha. Mas também era a zona onde Joaquim vivia, quando não andava em viagem por esse país fora…

Luisa Vaz Tavares

3 comentários:

Clementina disse...

Gostei, Luisa. Gostei muito,do desenrolar da história e da forma como escreve
Parabens
Beijinhos

JoséManuelBarbosa disse...

... ir ao encontro do Destino
Sem mais!
Esteja ele onde estiver...
seja ele qual for, mas não ficar...!

Adorável, minha Luísa!

Dina Rodrigues disse...

Bom desenrolar da história! Mais uma vez, lá parte a laurinda para nova aventura...