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sábado, 25 de fevereiro de 2012

O Fim da Inocência - Parte XII


A viagem de comboio demora várias horas. Tantas que dá para passar em revista uma vida inteira. E pensar friamente em todas as decisões. Na verdade, Laurinda nunca se sentiu tão insegura como agora. A sua auto-confiança era aparente, e a rapidez com que tomava as decisões era uma forma de esconder o receio que sentia de não ser capaz de tomar decisão nenhuma.

Tinha o que não queria e queria o que não tinha. Ficar ou partir. A dialéctica, esse conceito do qual nem sequer sabia a existência, fazia-lhe perguntas para as quais não encontrava respostas satisfatórias.

Quando entrou no comboio, apetecia-lhe partir para longe, não só no espaço, mas também no tempo. Não era bem uma partida, era uma fuga. Queria fugir da aldeia que a viu nascer, queria fugir das pessoas que a rodeavam. Queria ir em busca de algo que nem ela saiba muito bem o que era. Sem o saber, estava a fazer o que muitas Laurindas e Laurindos antes de si tinham feito, ao deixaram-se enfeitiçar pelos encantos da cidade, da vida mais fácil, contribuindo, mais do que todas as políticas desastrosas e centralistas da capital, para a desertificação dos campos, das aldeias, do interior do país.

Mas...

Apesar do seu lugar ser junto à janela, e da paisagem que desfilava perante os seus olhos constituir uma novidade para alguém tão pouco habituada a viajar, Laurinda nem a via, absorta que estava nos seus pensamentos.

Tinha o Sol pela frente, e sempre que a luminosidade a forçava a fechar por instantes os olhos, via a imagem do pai. Não conseguia deixar de pensar nele e recriminava-se constantemente por não ter estado a seu lado na hora da sua morte. Mais ainda perturbava-a a ideia de saber que ele não aprovaria a sua partida, ainda por cima assim tão repentina. Não falando do destino que tencionava tomar. Se lhe tivesse dito ainda em vida, o pobre homem morreria de desgosto.

Lentamente passou em revista toda a sua vida. O mundo que conhecera parecera-lhe um lugar quase feliz. Duro, áspero, rude é certo, que a vida entre montes pedregosos não é fácil, mas à falta de termo de comparação era esse o seu conceito de felicidade. Até que o pai adoeceu. E isso alterou todo o seu conceito de vida e de felicidade. Não propriamente pela doença do pai, apesar das grandes preocupações que isso lhe causava. Tinha já passado pela perda a mãe e sabia encarar estas situações como inevitabilidades da vida. É que com a doença do pai veio a primeira ida à cidade e todo o seu pensamento se alterou de um momento para o outro.


Assim que teve contacto com o mundo exterior ao da sua aldeia Laurinda quis mudar, sem se aperceber dos riscos que corria. Na inocência da sua juventude, pensava que existiam lugares fáceis e outros difíceis para viver. Não sabia que a facilidade ou a dificuldade estavam dentro das pessoas, da adaptação que tinham ou não tinham ao meio que as envolvia. Lembrava-se de ter ouvido falar por diversas vezes nas conversas da aldeia, de turistas da cidade que se perdiam na serra. Ingenuamente pensava que o inverso não era possível, numa cidade, sendo tudo mais fácil, ninguém se perderia. Acabou por descobrir, da pior maneira possível para si, como alguém se pode sentir perdido numa cidade.

O comboio fez uma paragem. Levantou os olhos, percorreu lentamente o espaço que tinha à sua frente, tentando encontrar alguma placa que lhe indicasse onde estava. Um pouco afastado do amontoado de casas que circundava a estação viu o topo de uma tenda de circo. Imediatamente lhe veio à memória a tenda de Évora e motivo pelo qual estava ali. Tentou sorrir para si própria mas não conseguiu.

Na verdade estava com medo. Muito medo. Por muito que o futuro a seduzisse, a verdade é que sabia por experiência própria quão cruel o mundo poderia ser para quem não tem a experiência necessária para o enfrentar. Tinha dito que queria estar sozinha. E de facto estava. Se precisasse de ajuda estava sozinha, não tinha a quem pedir nada.

Tinha o Pedro. Isto é, pensava que tinha, caso o conseguisse encontrar de novo. Como seria o reencontro? No Majestic encontrou uma pessoa que lhe agradou no primeiro instante e a desiludiu a seguir. Na loja de roupa encontrou outra pessoa simpática no primeiro instante e que a seguir a desiludiu e de que maneira... Não há duas sem três. Veio-lhe à memória o velho ditado popular e um arrepio fê-la estremecer. Será que o Pedro pensava nela da mesma maneira que ela pensava nele? Não pensava, não queria pensar, que o seu encontro com Pedro tinha sido um encontro fortuito e ocasional. Queria atribui-lhe algum significado.


O comboio arrancou lentamente e o pensamento, como que levado pelo balanço da carruagem focou-se na terra seguinte. Qual seria? Ela nem sabia em que terra estava.

Qual seria a terra seguinte na sua vida? No seu próprio país já tinha dificuldade em entender as pessoas e adivinhar-lhes as intenções. Como seria num país estrangeiro onde não falava a língua? Até para comprar pão iria ter dificuldade.

Comprar pão! Esta simples frase fez com que se apercebesse de uma realidade que até aí tinha ignorado. Na aldeia vivia-se do sustento que a terra dava. Tudo o que se produzisse a mais era para vender e assim conseguir algum dinheiro para as necessidades, como aquele que o pai tinha guardado.
Era o único que tinha e nem sequer era muito. Para arranjar mais teria que trabalhar. Mas como e onde? A única coisa que sabia fazer era guardar cabras. Na cidade não tinha o pai a olhar por si, nem o Marco a estender-lhe notas de cinco contos. Talvez fosse melhor...

O revisor que ia a passar no corredor interrompeu-lhe os pensamentos. Fosse porque o seu ar de moça do campo perdida fora do seu meio lhe despertou a atenção, fosse por intuição, dirigiu-se-lhe informando-a de que a próxima estação era Entroncamento, onde deveria sair.

Agradeceu, aturdida. Nem tinha dado pelo tempo passar. Quando pegou no saco para sair é que se lembrou que tinha lá guardado algumas fatias de pão da aldeia que arranjara à pressa para a viagem e nem se lembrara de comer.

Saiu e ficou parada no cais com o olhar perdido na distância, a ver o comboio partir. O passo firme e decidido com que se dirigira à camioneta na aldeia nessa manhã, contrastava agora com o andar lento e vacilante de quem está inseguro quanto ao caminho a tomar.  Na bilheteira informaram-na que devido a um atraso no comboio onde veio tinha perdido a ligação para Elvas, só haveria outro comboio ao final da tarde. Para surpresa do funcionário, em vez de notar nela algum sinal de contrariedade, pareceu-lhe ouvir um suspiro de alívio.

Deu meia volta, procurou um banco à sombra para se sentar e comer o pão que trazia. Estava mesmo com fome, não tinha comido nada desde manhã cedo.

Sabia agora que tinha sido uma loucura partir assim por impulso, sem preparação, sem meios de subsistência, sem destino certo.

O que a atormentava agora era o regresso. A tia Dores saberia compreendê-la mas, e o Marco? Se ao menos não tivesse escrito aquela carta. Será que ele a poderia perdoar?


Paulo Rodrigues

2 comentários:

Clementina disse...

Parabens Paulo gostei!

Dina Rodrigues disse...

Parabéns Paulo, pela brilhante prestação no conto!

Gostei da forma da escrita, é de fácil leitura e prende-nos a atenção. Gostei da instrospecção da Laurinda.

Dina