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sábado, 3 de março de 2012

O Fim da Inocência - Parte XIII


Sentada no banco da estação comeu calmamente o pão que lhe atenuou a fome, mas o seu pensamento saltava de ideia em ideia, sem vontade de parar em nenhuma, por forma a decidir o que fazer.

Regressar à aldeia significava uma derrota, a não concretização da sua ânsia de conhecer novas gentes, novas terras, aprender o que o Mundo tem para nos ensinar.

Voltar a casa, permanecer por lá, talvez casar com Marco, ter filhos dele, era criar raízes, ficar presa a uma vida, que podia oferecer tranquilidade, segurança, mas muita monotonia, para alguém como ela, que estava ansiosa por descobrir, o que estava para além das fronteiras da sua terra natal.

As horas passavam devagar, olhou em redor, a estação parecia meio adormecida, os comboios chegavam e partiam sem pressas, no ar sentia-se o cheiro típico dos carris e das sulipas escuras carregadas de poluição, que lhe lembravam as chaminés das casas da sua aldeia, onde se cozinhava e que forneciam o calor necessário nos dias mais rigorosos do Inverno.

As pessoas que permaneciam por ali, passavam para um lado e para o outro, alheias à sua presença, cada uma com as suas canseiras, as suas preocupações, os seus sonhos, os seus projetos, tal como ela, mas a seus olhos nenhuma parecia tão cheia de dúvidas, tão cheia de temores.

O horário do comboio estava a aproximar-se em cada minuto e ainda não tinha chegado a nenhuma conclusão.

A entrada no comboio representava uma nova aventura, a partida para mais uma etapa duma viagem, que não estava certa de querer realizar.

Sentiu que alguém se aproximava do banco onde estava, pretendia sentar-se, permaneceu imóvel, mas com o olhar verificou que era um homem de pouco mais que meia idade, deu as boas-tardes e sentou-se em silêncio, pouco depois folheou um jornal.

Pela estação ecoou a voz de alguém, que anunciava que o comboio com destino a Elvas partiria às 17.55 horas, foi nessa altura que o homem perguntou para onde ia.

Apanhada pela inesperada pergunta, hesitou e decidiu momentaneamente:

- Para Elvas e o senhor?

- Fico um pouco antes, no Assumar, mas porquê, precisa de alguma ajuda?

- Vou à procura duma pessoa, mas não sei se a encontrarei.

Pegou num bocado da folha do jornal e numa parte não impressa, escreveu um nome e uma morada.

- Se precisar de alguma coisa, vá ter com minha prima Eulália.

Dali a poucos minutos o comboio já se avistava numa curva da linha, os passageiros foram descendo para a gare, agradeceu o contacto e com um sorriso puro de menina amedrontada, dirigiu-se para a porta do comboio, acenou um breve adeus e procurou um lugar, o homem seguiu-a, mas entrou noutra carruagem.

Observou o percurso do rio durante algum tempo, admirou os campos tão diferentes dos que conhecia, o Sol começava a baixar e pensou no que poderia vir a acontecer no fim da viagem.


Chegaria de noite a Elvas e depois como faria para encontrar o grupo de Pedro?

Não conhecia nada, nem ninguém, estava entregue à sua sorte…

As paragens sucediam-se num entrar e sair de passageiros e o cansaço de nada fazer, já se manifestava.

No banco da frente viajava um casal de idosos, que a certa altura tirou duma alcofa uma pequena merenda. Um pano de linho contornado por uma rendinha, embrulhava pão fatiado, queijo e um chouriço insertado.

A senhora entregou ao marido uma fatia de pão e cortou com uma navalhita um naco de queijo, arranjou o mesmo para si e repetiu a ação, agora para a parceira de viagem.

Laurinda, ficou embaraçada, tentou não aceitar, mas a insistência da velha senhora não lho permitiu.

Agradeceu e comeu com prazer, enquanto os quilómetros eram percorridos por entre velocidades maiores ou menores, pelas travagens sorrateiras e pelo apito do empregado da estação, que de bandeirinha em punho dava ordem de partida.

Não queria dormir, porque temia não se aperceber da chegada ao seu destino, olhava a rua e pouco mais via do que algumas luzes aqui e ali.

Ouviu uma porta abrir-se e dali a segundos surgiu um homem no corredor, o que lhe havia dado o bocado de folha de jornal.

- A minha paragem é já a próxima, esteja atenta à sua.

- Estarei, muito obrigada por tudo.

- Boa viagem a todos, disse olhando também para os velhotes.

- É família?

- Não. - Respondeu Laurinda.

- A menina não é destas bandas?

- Não, sou de Trás-os-Montes.

- Vem trabalhar por aqui?

- Vim à feira.

O comboio parou, ela desceu os degraus, logo seguida do casal e olhou em volta, sem saber qual a direção a seguir.

Os velhotes tinham um táxi à sua espera, arrumaram a pouca bagagem, mas antes de fecharem a porta, o homem voltou atrás.

- Menina quer vir connosco, a feira fica no caminho do nosso monte.

Aceitou, que mais podia fazer.

No alto da serra via uma enorme casa, circundada por um muro, curiosa perguntou:

- Que é aquilo, ali em cima?

Ao que o motorista respondeu:

- É o Forte de Nossa Senhora da Graça.


O taxista dirigiu-se ao interior da cidade e a determinado momento, parou num jardim.

Laurinda ouviu as explicações do caminho para o local pretendido. Com alguma indecisão foi subindo as ruas e ao contornar um pequeno arco, uma música algo familiar chegou até ela.

À sua frente estava uma altaneira igreja iluminada, que parecia abençoar tudo que estava envolto pelas fachadas dos prédios, que compunham aquela praça.

Eis a feira!

Foi observando o que a rodeava, na busca de descobrir Pedro entre as dezenas de pessoas, que por ali circulavam, umas passeando, outras comprando alguma peça de artesanato exposto nas barraquinhas.

Alguém tocava uma gaita-de-foles, os seus olhos fixaram esse ponto e quedou-se a ouvir, quando uma mão tocou seu ombro, era Violeta.

Trocaram um abraço com alegria e Laurinda quis saber o inevitável:

- E o Pedro?

Subiram a calçada e no lado direito da igreja lá estava a tenda que já conhecia.

Violeta desviou o pano que servia de porta, mas no interior não estava ninguém, olhou em redor e um feirante pediu para esperar um pouco, quando se ouviu:

- Já cheguei!

Trazia debaixo do braço uma garrafa e na mão um maço de cigarros, sorriu quando reconheceu Laurinda, beijou-a e deu-lhe as boas-vindas, quando foi interrompido por uma cliente, que lhe procurava por uns pratos de latão martelado amarelo, fez sinal para que Lau guardasse as coisas que comprou na tenda.

A tenda continuava decorada do mesmo modo, em cima da mesa uma chaleira fumegava e cheirava a chá, pousou a garrafa e os cigarros e quando tencionava sair, Pedro caminhava no seu sentido, beijou-a agora mais demoradamente e num misto de interrogação e afirmação:

- Vamos para Marrocos?!

No lugar das palavras libertaram-se das roupas, tombaram na esteira e sobre os cobertores de lã, trocaram uma cadeia de beijos, deixaram-se invadir por sentimentos de paixão, procuraram o aconchego do amor e na loucura frenética dos seus corpos ardentes, Laurinda rolou sobre o corpo moreno de Pedro e fundiram-se num só…

 
Teresa Morais

5 comentários:

Liz disse...

Eu bem me parecia que a Laurinda não se contentaria com o que a aldeia tem para lhe dar. Bem, é verdade que andou às voltas e acabou por ir parar ao mesmo lugar, ou seja, à tenda de Pedro. Mas também é este, um lugar que lhe pode abrir caminho para novas vivências, aprendizagens... novos mundos. Gostei muito, Teresa Morais.
há cerca de um minuto · Gosto

Clementina disse...

Parabens teresa
Aqui temos a Laurinda aberta a novos horizontes e aventuras

Mónica Morais disse...

Artista é todo aquele que transforma a realidade em palavras e através delas nos faz viajar numa realidade que não é nossa mas que a vivemos ao viajar pelas palavras, imagens e sons de quem as escreve. Muito bonito, continua a escrever e quem sabe compilar várias destas viagens beijnhos mãe gostei muito.

Daniel Morais disse...

Acho que podias por a Laurinda ainda mais encaminhada para Marrocos, eu pensava que ela já estive-se com um pé em Gibraltar e o navio, mas não está mal, também gostei muito das fotografias.

Daniel Morais

Anónimo disse...

Afinal temos um talento escondido!Muitos parabéns!
Fico contente por ter sido um elo de ligação com a Luísa.
Ah... já agora... gostei muito do rumo da Laurinda.
Beijinhos,
Helena Monteiro