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sexta-feira, 30 de março de 2012

O Fim da Inocência - Parte XVI - O Final


A rua que descia com o sol. A rua que não era sua, que não a fazia vibrar, que não lhe falava. A rua que descia como a sua vida rica de viagens e simultaneamente de infortúnios. A rua sempre a afundar, a afundar, a cair no mesmo mar de desventuras em que ela naufragara. O mar feito de lágrimas que atrevidas lhe caíam do rosto. Era tão nova, tão nova. Como podia achar-se tão cansada? Tão frágil depois da força que a vida lhe dera ao ensiná-la? Onde estava? Que cidade era aquela onde pousara casualmente nos braços de alguém que também, uma vez mais, lhe mentira? Queria voltar a nascer. Queria! Não necessariamente na semente da sua terra porque a sua terra seria aquela que por bem a acolhesse. Tão cansada estava agora andando sem saber para onde. Não sabia? Sabia sim. Iria para qualquer parte. Porque o mundo é composto de todas as partes. Até mesmo daquelas ruas que descem sem se saber para onde. Agora só teria de descansar sem se importar onde, em que parte desse mundo. Descansar apenas. Porque não junto àquela muralha feita de olhos virados para uma vida nova que teria de enfrentar? Naquele instante precisava recolher-se de todos para que, a si mesma, se pudesse acolher. E sob um dos 833 arcos do Aqueduto da Amoreira, pela segunda vez, adormeceu ao relento. Descoberta, sem pudor, mostrou-se apenas aos olhares das estrelas que, tinha a certeza, saberiam cuidar de si como não tinham feito. Sem imaginar sequer que…

A cerca de 300 quilómetros, numa praia de Peniche, Filipe fechara já a porta da sua casota de madeira pintada pelos dejectos das gaivotas e, pobre ceia ingerida, ajustava agora o seu corpo às mossas salientes do colchão. O sussurro do mar que lhe cuspia o sal pelas tábuas mal vedadas como se ao relento dormisse, dizia-lhe que, na sua triste sorte, duas coisas nunca poderia esquecer: o seu corpo, vivo, e o seu nome por enquanto só seu. Porque, pelas ruas perfumadas de peixe e para os homens com veias de mar, ele era apenas o Cagliostro. Sem saberem o turbilhão de pensamentos que o invadiam ao ouvir essa alcunha e que o levava, de dentes cerrados a calarem-lhe a língua, a apenas pensar “Cagliostro é a puta que te pariu”. Mas depois, lá vinha o sorriso ténue, a simpatia feitio de si que levava toda a gente a pagar-lhe um copo, ao pobre-diabo, a dar-lhe um pão de sardinha derretida, a alimentar-lhe o estômago, sem saberem quão famintos lhe estavam os sonhos. Que um dia o levariam dali, para alguém que, algures, o receberia. E lhe chamaria o seu nome. E o deitaria num colchão fofo onde beberia a macieza de um corpo. Queria apenas isso. Uma mão entrelaçada na sua no descer de uma qualquer rua de uma terra qualquer. Quem sabe até se, na outra mão, não se moldaria uma mais leve, mais terna ainda, mais carne prolongamento de si?

Laurinda esgotou as lágrimas sobre as ervas incertas que lhe serviam de colchão. Havia que vertê-las já que delas nunca nada receberia. E adormeceu embalada pelo sussurro da brisa como se do mar. Na manhã seguinte, a raiva feita força das gentes do Norte, levou-a a bater às portas em busca de trabalho. Qualquer trabalho. As suas mãos eram rijas, o seu corpo era rijo, a sua mente era sã e persistente. E uma velhinha de recente preto viúvo precisava de ajuda na lida da casa, de companhia nas evocações de saudade, acima de tudo de uma amiga em troca de pagamento e dos cómodos que lhe oferecia. E, de repente, Laurinda renascia em recíproca dedicação às gentes francas do Alentejo. Era quase feliz. Não sabendo que esse mesmo “quase” lhe ocupava um espaço carente de ser preenchido. Mas acreditando que um dia, sem aventura, sem engano, sem ilusão, esse “quase” arredar-se-ia e deixaria que a plenitude ocupasse o seu lugar.


Com o costumado pé-de-cabra, Filipe levantou a tábua do chão do casebre. Como habitualmente, arregaçou as mangas e fez desaparecer os braços até aos cotovelos. Quando os retirou, transportavam cuidadosamente uma caixa ferrugenta que abriu sentado em cima da cama. Pela enésima vez contou as notas que ela continha e, depois de as pousar alinhadas pelas pontas, pegou como sempre no velho mapa da TAP e abriu-o, sorrindo. A decisão estava tomada. Brevemente partiria. O dinheiro amealhado seria suficiente para os primeiros tempos e o destino escolhido teria de ser bem longe sem, porém, sair do País. O círculo à volta de Elvas, cidade na linha de fronteira, evidenciava a sua boa escolha. Em breve, Cagliostro morreria para que Filipe se afirmasse, novo dono de si numa vida esquecida de miséria. Sereno, pegou na almofada e levou-a para o postigo de vidro. Abriu-o e, de imediato, sentiu o cheiro de mar. Então, subitamente desperto pelo futuro que para si inventava, pousou a almofada no tosco caixilho para que as tábuas não lhe mordessem os braços.
Naquela noite, Laurinda bebia à janela os cheiros e os sons da paisagem alentejana. Com uma almofada sob os braços para que se não vincassem no caixilho de madeira, via o passar fugaz dos pirilampos, ouvia o roçagar agudo das asas dos grilos, o som muito breve do miar de um gato. E pensava no seu passado ainda tão fresco. Tudo o que fizera fora uma aprendizagem motivada por uma busca de si e da vida. Que tola fora. Só agora compreendia que não adianta procurar na vida o que ela não quer que encontremos. E por isso esconde, oculta, devolvendo-nos a busca em forma de lição. Depois, quando muito bem entende, é ela que nos presenteia com aquilo que nem sequer procurámos. Por entre as árvores, um suave vento parecia mandar calar o tempo, um gato emitia novo miado. E, dentro dela, uma voz parecia dizer-lhe que, quando menos esperasse, algo lhe seria oferecido. Um dia, em Lisboa, o Cristo-Rei dissera-lhe que teria de acreditar em si própria. E ela andara perdida até àquele momento. Um momento que acabava, que a fazia acreditar agora como se acredita nas coisas concretas que finalmente se vêem. Como as estrelas que lá em cima brilhavam, a paisagem que aos seus olhos se espraiava, o repetitivo miar ténue do gato. Do gato? Mas não era costume haver gatos por ali. E o som parecera vir da porta de entrada. Um miado doce, um pequeno lamento, quase como… Subitamente sentiu-se corar. Só podia estar louca. Mas aquele súbito arrepio a percorrer-lhe o corpo, a acordar-lhe no peito uma sensibilidade estranha porque adormecida, dizia-lhe que não estava louca, que tinha apenas de correr para a porta, andar apressadamente sem se importar com a ansiedade, a dúvida, com as ideias desordenadas que lhe faziam bater o coração descompassadamente.


No patamar, a seus pés, uma alcofa jazia carregada de roupa cuidada e branca. No meio dela, uma criança, um bebé, parecia olhá-la tão pasmada como ela. Laurinda riu e o seu riso tinha o brilho das mesmas estrelas do céu. E com o riso veio o choro. Feito de felizes lágrimas que nem a deixavam ver o sítio por onde pegar em tão frágil criatura. Louca de alegria, de ternura, encostou aquele ser ao seu rosto molhado, estreitou-o no peito, fez do seu pequenino coração todo o amor que nunca tinha encontrado . Não sabia quem lhe teria deixado aquela criança. Não sabia, sequer, se podia ficar com ela. Mas não tinha de saber nada. A não ser que, a partir daquele momento, conquistava a única e maior aventura da sua vida: a de ser mãe.

João J. A. Madeira

2 comentários:

Dina Rodrigues disse...

Rematado com chave de ouro. Assim, a Laurinda tem à sua frente novas aventuras, mas completamente diferentes das que viveu. Sem saberes, foste ao encontro do que eu tinha imaginado para o final, a Laurinda grávida ou com um bebé...
Gostei muito da surpresa que nos fizeste. Parabéns joão Madeira!

JoséManuelBarbosa disse...

Bravo, João!
Surpreendente, certo?!
Claro que não lhe daria este fim, assim tão feliz... mas aceito e é de mestre a forma como surpreendeste! Escrita intocável, argumento perfeito, PARABÉNS!!!