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domingo, 15 de abril de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 1

Naquele dia, o vento sentia-se forte e frio. Parecia trazer com ele a humidade fresca da costa que corria agora babada pela voz irada dos Deuses. Varria as ruas, sacudia as recém-nascidas flores das pereiras e entrava atrevido por descuidadas e cúmplices janelas. Sem saber, esse vento, quão desejado e bem recebido era na pequena aldeia de Sobreiro Aparado. Por mor dos segredos que a sua gente queria ver arredados e que só um sopro assim forte podia levar.


Situada em plena zona Oeste, servida por modernas estradas rasgadas em campos para todo o país, trabalhava-se nela a terra tão rotineiramente como se via o mar, casava-se o evoluir das cidades com as mais ancestrais tradições. Terra, mar, progresso, memória, eram, assim, palavras não ditas mas feitas características de uma aldeia tão simples que tudo tinha para ser símbolo do País que a abrigava. Se não fossem os segredos. Essa praga feita de diz-que-disse, que se pensa, desconfia, sem se saber ao certo de quê, porque é segredo.

Até o nome ganhou de uma história nunca explicada. Conta-se que no terreno adjacente à primeira casa ali construída terá nascido espontaneamente um sobreiro. Que o dono deixou crescer. Até ao dia em que, na árvore já robusta e inchada de cortiça que como pele lhe revestia o tronco, cruzou grossa corda nos seus ramos e meteu nela o pescoço. Nunca se percebeu porque razão um homem com os pés tão bem assentes na terra, se fazia desaparecer a poucos centímetros de a pisar. Movido pelo desgosto feito raiva, o filho cortou o sobreiro pelo meio e abandonou para sempre a terra que ainda não tinha nome. Perto da casa, só o mutilado sobreiro ficou. Mas, persistente, com a seiva a dar-lhe força, desatou a desabrochar em novos e desordenados ramos que, um dia, alguém aparou como se moldasse escultural penteado. Ainda hoje, a esse mesmo sobreiro, quando as pontas aparecem teimosa e aleatoriamente fugidias, alguém o apara. Sem se saber quem o faz.

Aquele dia, em que o vento lambia as letras da placa toponímica que a história baptizara, era apenas o início de novos enredos, mais complexos ainda que os segredos que o padre Joaquim ignorava, por não ser ali residente e porque as suas preocupações eram outras. Não gostava de ir a Sobreiro Aparado, onde só comparecia normalmente ao Sábado para a única Missa semanal que os poucos fiéis justificavam. Mas o Octávio, aparecido morto na carrinha, dois dias antes, com uma bala parada no sítio onde antes batia o coração, merecia que alguém o ajudasse a elevar-se às portas do Céu. E por isso o tinham chamado. Para, de missal na mão, encaminhar o morto para onde o assassino o tinha enviado. Oh, Senhor, quantas vezes as dúvidas abalavam a sua fé. Quantas vezes dava por si a pensar que, com o sangue que lhe corria ainda jovem nas veias, poderia ter abraçado profissão mais empolgante que esta de acompanhar mortos e abençoar pecados. Mas, quando o pensava, logo ajoelhava frente ao altar num dedicado, veemente e insonoro pedido de desculpas. Onde agora estava, no silêncio quase sepulcral da Igreja, ainda só, pedindo a absolvição por tão pecaminosos pensamentos, sem se aperceber que, além do espírito de Deus, outra presença se fazia sentir em dissimulados passos que o fizeram dar um salto ao ver o vulto do Zinga.

— Que fazes aqui? Estou farto de te dizer para não vires à Igreja – disse irado mas em surdina.

— Teve de ser, padre. Eu soube que vinha cá e não quis perder a oportunidade de lhe mostrar o produto que aqui tenho. Pura, tão pura e branquinha como as vestes de uma Santa. Tão boa que só lhe posso dispensar 20 gramas.

Padre Joaquim olhava para um e outro lado, receoso que alguém aparecesse. Sabia não dever ter aquelas conversas ali e sabia também ser um pecado o brilho dos seus olhos pelo produto que não devia cobiçar quanto mais consumir.

— Mas tu és doido. Vim para o funeral do Octávio. Vai estar aí um inspector da Judiciária.

— Caguei – disse Zinga – Enterra-se o gajo, o inspector vai embora e o padre pode voltar para casa com as asas deste anjo.

— Pára com as heresias. Sabes bem que não gosto que fales assim. Tens as doses feitas? Dá-mas já antes que alguém veja.

O outro fez um ar de espanto.

— Dar? Oh, senhor padre…e o guito? Isto é branco e liberta o espírito mas não é nenhuma hóstia nem eu sou católico.

— Não és mas devias ser. Anda. Dá cá isso e vem ter comigo à sacristia depois do funeral.
Zinga pareceu ficar na dúvida. Por fim, entregou a embalagem.

— Olhe padre…eu faço isso. Mas se por alguma razão não me pagar, pode crer que lhe gamo a tralha que tem no altar e a substituo por coisas do chinês.

— Cala-te e desaparece. Eu não engano ninguém. E sabes bem que se faço isto é para ficar mais perto de Deus.

— Pois – respondeu Zinga, rindo – Com esta qualidade vai ficar bem perto. Não se esqueça de Lhe falar do Zinga. Afinal, é graças a mim que lá chega.


Ainda rindo, saiu pela porta da sacristia quando as primeiras pessoas entravam na Igreja. Sérias, convenientemente chorosas, iam sibilando orações com a mesma dedicação com que apreciavam as vestes de quem ia chegando. A Conceição nem tinha trocado de sapatos, certamente. Ai aquele cabelo da Inácia! Não saberia o que era um pente? E o Manuel? Era preciso ter lata. Se não falava com o defunto, se certa vez até andara à bulha com ele, que vinha ali fazer? Mas…espera. Quem era aquele? Não era dali nem dali perto, isso de certeza. Ah! O sujeito da polícia. Pois. Dizia-se que vinha para fazer perguntas. Pois que as fizesse. A sua boca é que não se abriria, que não era de intrigas. Mas era jeitoso o rapaz. Via-se logo que era de Lisboa. Roupa daquela não se via por ali nem nos casamentos. Ah, mas que disse o Padre Joaquim? Com isto tudo nem tomara atenção ao início da Missa.

Por fim, guardados os terços e feitas por dedos as cruzes em sinal, as pessoas ficaram-se pelo adro. Era tempo de enaltecer as virtudes do morto antes de o levar a enterrar. E, se as conversas iam para o morto, todos os olhares caíam porém no desconhecido. Que, matreiro, experiente, perscrutava rostos em busca de presa fácil no falar. Até que se deteve na esbelta e solitária figura de Albertina que, podendo não ser acessível no falar, talvez lhe abrisse a porta a outras acessibilidades. Afinal, que mal havia em retirar algum prazer do trabalho?

— Muito boa tarde – disse, de fugaz identificação em riste – O meu nome é agente Seguro da polícia Judiciária. Posso fazer-lhe umas perguntas sobre o defunto?

Ela sorriu, ligeiramente corada e olhando o chão. Já reparara nele e nunca pensara tê-lo agora junto a si. Por isso, não o entendera bem.

— Pode, sim – respondeu com o seu melhor ar angelical – Sabe? Eu pensava que o senhor era polícia.
Nunca pensei que fosse dos seguros.

Riram-se ambos quando ele repetiu a apresentação, imediatamente antes de se posicionarem no final do cortejo que acompanhava o carro funerário. A pé, corpo inclinado para a frente na resistência ao vento, mas cada vez mais afastados dos restantes, ele foi fazendo perguntas sobre o Octávio e ela foi respondendo com sorrisos e rubores da face. Quando o morto foi deitado à cova, já eles sabiam as suas idades, onde viviam, os nomes próprios. Casualmente escondidos por um enorme cedro, ele disse-lhe que ia precisar de estar com ela de novo para recolha de elementos. Atrás do cedro, ela soube também que ele estava a engatá-la mas, por aquele, não se importava rigorosamente nada. E disse que sim. E ele perguntou se podia despedir-se com um beijo. E ela não disse nada. Apenas fechou os olhos. No preciso momento em que pelo cemitério ecoou uma voz:


— Tina. Oh Tina!

Ela deu um salto. Com as mãos afastou Seguro dizendo “deixe-me agora. Tenho de ir. É o Tomé” antes de encetar repentina fuga.

— Mas quem é o Tomé? – ainda perguntou Seguro.

— O meu marido.

João J. A. Madeira

8 comentários:

A.Mello-Alter disse...

Boa João
Terra pacata, nascida de um mistério, uma tragédia, padre drogado, mulher fácil, marido cornudo.

Fico á esoera

JoséManuelBarbosa disse...

Um início extraordinário, Seguro que um manancial de pistas à disposição... :)

PARABÉNS, amigo João J. A. Madeira pela habitual qualidade da tua pena...!

Boa inspiração, Fernanda Cadilha!

Liz disse...

Excelente inicio, com várias hipóteses de caminhos a seguir. Sobreiro Aparado vai revelar-se, com certeza, terra de grandes e interessantes enredos...:).

PARABÉNS, João, mais uma vez nos presenteaste com uma excelente escrita aliada a uma criatividade única.

Boa inspiração, minha querida Fernanda!

Maria Fernanda disse...

Bem preciso de inspiração, José Manuel Barbosa e querida Liz....Parabéns, João J. A. Madeira...quem sabe, sabe...e mais nada!:)

Clementina disse...

Parabens João

com que prazer, li esta esta introdução á hstória, que iremos
desenrolar,promete já com tanto
mistério. Muito interessante! dowees

Dina Rodrigues disse...

Muito bem João Madeira! Adorei o início, é fantástico, como já esperávamos de ti. Já gosto dessa aldeia, vai dar uma grande história certamente!

Dina

João Madeira disse...

Obrigado a todos. Estou certo de que, convosco, os segredos se adensarão e, certamente, ficarão esclarecidos na altura devida. Abreijos para o(a)s agradáveis Companheiro(a)s de escrita.

Bia Didi disse...

Um começo que já promete. Estes pequenos povoados estão, muitas vezes, cheios de mistérios... Achei piada ao "homem dos seguros"... Essa Tina... ai, ai!!! :))