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segunda-feira, 23 de abril de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 2


Albertina seguiu, passo apressado e firme, em direcção ao marido. Tinha consciência da sua beleza e sensualidade. Cada movimento do seu corpo parecia experimentado para suscitar olhares gulosos e sôfregos de paixão. Desde muito cedo despertara o desejo masculino e suscitara a inveja nas outras raparigas. Sabia-o e usava-o a seu favor, sem qualquer escrúpulo ou arrependimento. E os muitos dissabores que daí provieram não a demoveram nunca das decisões que até então tomara.


O agente Seguro radiografou cada tornear das belas porções do seu corpo que, esbelto e apetecível, baloiçava, salientando um traseiro harmonioso no jeito e nas proporções. Sorriu e os seus olhos brilharam, deixando transparecer os pensamentos que o invadiam. Retirou o telemóvel do bolso para se certificar que tinha gravado o contacto de Albertina. Apertou-o e, com um ar triunfante, dirigiu-se para a pequena pensão da aldeia, radiante com a expectativa de um novo encontro.

Na outra ponta do cemitério, a alguma distância do cedro, Albertina e Tomé gesticulavam. As suas vozes confundiam-se com o sibilar do vento. O ar entediado de Albertina fazia adivinhar o desagrado da conversa. Seguro passou mesmo ao lado e continuou, ignorando-os.

- Vá lá, diabo de mulher! Diz-me quem raio é aquele palhaço com quem estavas a falar ou arrebento-te os focinhos.

- Ó homem de Deus, quantas vezes te disse eu que é da polícia Judiciária e que está na aldeia para descobrir como é que o infeliz do Octávio morreu?!

- Pensas que me convences, como das outras vezes? Anda, grande cabra. Quem era aquele palhaço, todo bem vestidinho e cabelo lambido?

- Já te disse, homem. É um agente. Lá estás tu com as tuas desconfianças. Lá tenho eu tempo para pensar nessas coisas.

- Não me venhas com as tuas tretas. Mais uma vez que seja e mato-te.

Albertina encolheu os ombros, olhou-o com desprezo, virou-lhe as costas e foi-se embora. Sabia que ele não faria nada, que não a seguiria, nem sequer tentaria impedir que o deixasse ali, enraivecido, mas impotente. Deixara de o amar havia já muito tempo. Faltava-lhe a coragem para o abandonar.

Tomé quedou-se imóvel. Apenas o olhar parecia viver naquele corpo, outrora possante e agora frouxo e entorpecido. Deixou-se cair no banco de pedra e ali permaneceu durante algum tempo. Nem o vento, que agora soprava violentamente, o perturbava. Por fim, levantou-se e dirigiu-se ao portão de saída, mais morto que os próprios mortos que ali habitavam.

A única pensão de Sobreiro Aparado era muito mais modesta do que o agente Seguro esperava. Estava habituado a um maior conforto, lá na cidade, e só o pensamento em Albertina o fazia desejar ali permanecer. Apagara as luzes e, agora, a única iluminação do pequeno quarto era a que vinha da rua. Deitado, Seguro via os contornos de Albertina em todas as sombras vindas através da janela. Tinha ainda presente o seu cheiro … a sua imagem, olhos fechados, lábios atrevidos e receptores… Ah, maldito! Havia de aparecer logo naquele momento em que a presa estava ali, prontinha a ser comida. E que belo repasto iria ser... quadris bem torneados e recheados de carne tenra e suculenta!…


Levantou-se e foi fumar um cigarro à janela. Em frente, lá estava o sobreiro aparado. Tinha ouvido falar na história e no mistério que a envolvia. Esboçou um sorriso ao pensar no ridículo de tal crença.

Do outro lado da rua, também Albertina olhava através da janela do seu quarto, que ficava na parte lateral da casa. Em frente, o maldito sobreiro aparado que a perseguia nos sonhos desde criança. Na cama, Tomé ressonava, saciado. As dúvidas haviam-se dissipado, agora que a possuíra. Seria assim até que a incerteza viesse novamente assombrá-lo.

Ainda o galo não cantara e já Albertina tomava o pequeno-almoço na cozinha, que também servia de sala de jantar. A casa era pequena e modesta. Não se queixava. Era a única realidade que até então conhecia. Por vezes, quando assistia às telenovelas, sonhava em ter uma casa semelhante às que via na televisão. Mas sabia que não passava de um sonho. Contentava-se com o que Deus lhe dera e achava até que ele fora generoso. Era a mulher mais bonita da aldeia, tinha uma casa, um marido que lhe garantia o sustento. Se não fosse aquela praga…

Fernanda Cadilha

6 comentários:

A.Mello-Alter disse...

Oh Fernanda, por este andar o Seguro não morre de velho.

Luisa Vaz Tavares disse...

Parece que a Albertina vai ser personagem de relevo na história, aparentemente sem grande profundidade mas que esconde alguns mistérios.

Parabéns, querida Fernanda. Gostei do desenvolvimento.

JoséManuelBarbosa disse...

Sobreiro já havia, junta-se-lhe um morto e, pelo Seguro, até temos um palhaço, restando-nos aguardar pelo circo que se avizinha...

Gostei, Fernanda!
Escrita com desenvoltura, com ingredientes que prometem!
Lá na pensão e fora dela ;)

Clementina disse...

escrita bastante interessante, com uma Albertina, atrevidota.Gostei bastante

João Madeira disse...

Parabéns, Fernanda. Boa escrita. Leve, quase despreocupada, sem porém perder as características dadas no início. E, acima de tudo, com outro ponto favorável que gostaria de realçar: a leitura do texto anterior. Só sendo bons leitores podemos dar continuidade convincente ao que outra pessoa terá escrito. E a Fernanda leu muito bem (note-se a presença do vento na mesma cena). E por isso há coerência no ambiente, nas características das personagens o que, além de parecer uma mão de várias mãos, força a que se adense o clima de secretismo e desconfiança projectada para esta pequena aldeia. Muito bom, Fernanda.

Dina Rodrigues disse...

Muito boa a continuação, Fernanda!