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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 5


- Foi Deus! Foi Deus! – Gritava Albertina para si mesmo, para dentro, chorando de arrebatamento perante as palavras da vizinha. De vez em quando tinha de parar, para não dar parte de falsa, e escutar com uma atenção desmedida a algaraviada sem sentido que a outra fungava. – Meu Deus! – continuava depois, - então já não há mais nada a fazer pela situação? Morto? O meu Tomé, morreu? O que será de mim.. Meu pobre Tomé, meu pobre e bem amado marido, foi Deus quem te levou. Foi Deus!

Apoiou-se na outra com a força incerta do engano, lavrando-lhe os ombros com lágrimas que caíam por alegria mas que, ainda assim, por serem bem semeadas no pranto que ali alcantilava, até soavam a pesar.

- Então o que se passa agora? Raio de terra amaldiçoada esta! Não há um dia de paz neste fim do mundo? Quero ir à minha vida e não vejo jeito de sair daqui! – Exclamava o padre Joaquim, que de passagem assistira ao alvoroço.

- Amaldiçoada mesmo senhor padre. – Assentia Aldina. – Isto é bruxedo que caiu sobre nós. Que não restem dúvidas disso.

Com um relance pela postura soluçante de Albertina, o pároco parecia já ter adivinhado tudo.

- O Tomé?

- O meu Tomé sim, senhor padre! – Erguia-se esta, mostrando-lhe o rosto corado e inchado pela ablução forçada das lágrimas. - Deus levou-o, assim, sem mais nem menos, lá para as bandas da Galiza. E agora, e agora o que vai ser de mim? – E voltou ao abrigo seguro do ombro da vizinha para aí acalmar a sofreguidão encenada.

- É bruxedo, digo-vos eu. – Insistia Aldina. – Então, todos sabemos bem de que laia é feita aquela gente desses lugares pagãos, lá de cima. Não acha senhor padre?

- Cale-se mas é mulher! – Bramiu o padre, virado a ela. – Que pouco ou nada ajuda com isso.

E Deus, sentado lá no alto, mantinha os olhos postos neste lugar de ventos agrestes e tristes infortúnios, elaborando o seu plano, e deixando que a perdição avançasse como uma torrente de primavera. Lenta mas irreversivelmente, sem interrupções. Entretanto, nos abismos do Inferno, os diabos andavam furiosos e impacientavam-se.

- Não me digam. Outro homicídio? – Questionava-os o agente Seguro, enquanto pacientemente descascava uma maça com um canivete de bolso, firmando a sua pose inteiriça no encosto do malfadado sobreiro.

- Não, não.. – atalhou de imediato o padre. – hoje não temos nada disso. Acidente apenas. Foi o Tomé Bagunte, o marido desta pobre senhora aqui. – Afirmou apontando na direcção de Albertina, que levantou um olho no sentido oposto.

- Curioso! – Exclamou o primeiro. – Muito curioso.

- Curioso nada, - interrompia-o Aldina – isto é mas é bruxaria senhor guarda. Ainda nem bem sabemos se baixamos à terra o desgraçado do Zinga, e cai-nos outra desgraça em cima. Não vejo outra explicação. Bruxaria!

- Cale-se mulher. – Instigava-a o padre puxando-lhe o braço.

Seguro acercou-se, levando um naco de maçã à boca, e oferecendo de seguida um outro, a Albertina.

- Lamento imenso pela sua perda minha senhora. Por favor.. – disse, passando-lhe o pedaço de maçã para a mão – esperemos em boa fé, que tenha sido efectivamente um acidente o que vitimou o senhor seu marido.

- Homessa! O que quer o senhor dizer com isso? – Inquiriu o padre Joaquim. – Então se o camião do homem se esbarrou, o que raio é que haveria de ser?

- É de facto curioso que me faça essa pergunta senhor padre. Curioso, sobretudo, por ser o senhor a fazê-la.

As duas mulheres ficaram em estado catatónico a observarem-no, esperando pela sequência daquele discurso.
-
 O senhor agente não está certamente a dizer que eu...

- Eu não digo nada meu caro padre Joaquim, para já.

- Mas isto é ridículo. Um absoluto absurdo. Está a acusar-me de alguma coisa?

- Depois de muita conversa de circunstância, de muitos deslumbres e falsas pistas, depois das mais incríveis coincidências, a verdade, essa, vem sempre ao de cima. Por isso acho toda esta história tão curiosa padre, pois dediquei grande parte da noite passada na observação do corpo do senhor Recoveiro.

- Quem? – Interpelou-o Aldina.

- O Zinga, mulher. Está a referir-se ao Zinga! Cale-se mas é de uma vez. – Cortou o padre.

- Como dizia eu, - continuou o inspector - passei grande parte da noite a investigar, a fazer o meu trabalho, bem se vê. As causas da morte são claras: perda maciça de sangue. O golpe foi certeiro e muito bem aplicado. Uma arma branca, rudimentar decerto. Tenho alguma experiência nestes assuntos, uma arma branca de fabrico caseiro, muito ao estilo daquelas que circulam clandestinamente pelas prisões, sabe?

- O Zinga morreu mesmo? – Insistia a D. Aldina.

- Receio que sim minha senhora. Pois como disse, o golpe foi fatal. Resta-me uma última questão que gostaria de colocar aqui ao senhor padre. Em privado, por favor.

Parecia que o sangue inteiro se tinha sumido num ápice do corpo do padre Joaquim. Estava como que prestes a sucumbir, ali mesmo, defronte do velho sobreiro aparado.

- Mas..

- Sim minha senhora? – Interpelou-a o polícia, voltando-se agora, novamente na direcção de Albertina.

- Só gostava que me explicassem o que raio é que isso tem a ver com a morte do meu Tomé? – Perguntou ela.

- Nada filha. – atalhou a vizinha – este homem não diz coisa com coisa. – Sussurrou-lhe ao ouvido. – Isto é bruxedo, pronto! Está tudo dito.

O padre desta vez, já não a mandou calar. Tornara-se pálido como uma alma penada e incapaz de suster ao alto, deslizou pelo sobreiro até se sentar desamparado a seus pés. Parecia estar à espera daquilo, e, se conseguisse falar teria sido rude.

Aldina, vendo-o assim abatido como que por uma labareda dos próprios infernos, aproximou o seu rosto do dele e viu-lhe as pupilas raiadas de sangue. O seu bafo envolvia-a. Um calor azedo.

- Afinal de contas..bem, não veio o senhor saber sobre a morte do Octávio? Já descobriu alguma coisa?

- Foi o demo filha. Garanto-te que foi o demo quem o levou, a ele e ao pobre do Zinga. Desgraçados!

- Cale-se lá de uma vez com isso mulher! – Exclamou Seguro desta feita, visivelmente irritado. – Sobre o Octávio tenho já uma teoria também, mas ainda é muito cedo para fazer especulações precipitadas. Espero os resultados do relatório balístico que virá de Lisboa. De qualquer forma, vinha cá hoje de manhã para falar consigo mesmo, precisamente sobre esse assunto.

- Comigo? – Inquiriu Albertina muito admirada.

- Sim. Consigo mesmo. Você, e você também, senhor padre Joaquim, estão a partir de agora confinados a prisão domiciliária, pendentes de posteriores investigações e inquérito.

- Ai, não posso crer! Ai Tomé, meu bem amado Tomé, que falta que tu me fazes. – Fingiu um desmaio, mas sem grande efeito dramático.

O inspector irritou-se com o assombro da criatura. Fechou o canivete, que trazia ainda de gume exposto, e guardou-o no bolso interior do casaco. Cuspiu duas pevides de maçã que passaram voando quase rentes ao rosto desconcertado do padre, e num pranto perdeu a calma da compostura.

- Três pessoas estão mortas percebem, isto não é nenhuma brincadeira, ouviram bem?

Albertina, ainda assim, e já extraordinariamente reposta da falsa síncope, tentou atirar-lhe à cara uma gargalhada feroz, algum som capaz de o assustar, para ver se lhe abalava os sentidos firmes da fúria, mas conseguiu apenas um frouxo gargarejo. O inspector da judiciária trazia uma fina teia de rugas a enfeitar-lhe o rosto, e já não a mirava com os mesmos olhos brilhantes de luxúria, como no dia anterior. Observou-o novamente, de cima a baixo, e pareceu-lhe mais velho agora. O cabelo todo puxado para trás, mostrava tufos crescentes de uma velhice alvadia, e os olhos encovaram-se em poucas horas, mas as carnes mantinham-se rijas, e os gestos também, firmes e precisos.

- Desvendarei os segredos que assolam esta aldeia, um a um. Hei-de chegar ao fundo da questão, ou não me chamo eu Ernesto Seguro.

Casimiro Teixeira

5 comentários:

João Madeira disse...

Ah, fico contente por ver que estão de novo, quase, todos juntinhos (os sobreviventes, claro). É bom assim. Ficam mais quentinhos. lol. Parabéns, Casimiro .

Casimiro teixeira disse...

Obrigado João, também achei que seria mesmo o melhor, visto que o principal personagem afinal, é o próprio ensombrado sobreiro. Claro que, todo o mérito se deve aos seus criadores, por sugerirem tão ricos personagens. Quando o barro é bom, e as mãos hábeis, é quase impossível falhar. Grande abraço meu amigo.

Luisa Vaz Tavares disse...

Também gostei de os ver todos juntinhos à volta do sobreiro. Parece-me que aquele sobreiro tem muito que se lhe diga:)

Parabéns, Casimiro. Como sempre, belissima escrita.

Casimiro teixeira disse...

Obrigado querida Luisa. Só espero que tenha sido do agrado de todos. Tentei abrir caminhos, criar possibilidades, agora, aparentemente, está nas tuas mãos dar-lhe continuidade. Estou ansioso por ler.

um beijinho.

Dina Rodrigues disse...

Muito bom, Casimiro, mas outra coisa não seria de esperar de ti! Parabéns!