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domingo, 27 de maio de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 6

Dez minutos mais tarde, depois de Seguro ter falado ao telemóvel com alguém que nenhum dos presentes percebeu quem seria, um silêncio súbito terminou com a algazarra que havia sido provocada pelo comunicado do inspector. Prender Albertina e o padre? Que quereria dizer aquilo, seriam eles os assassinos?


Um jipe da GNR estacionou mesmo junto ao sobreiro aparado.

- Meus senhores, esta é a senhora, que terão de acompanhar – Seguro informou indicando Albertina. O que provocou mais um pranto desesperado.

- Ai senhor inspector não me faça isto! Por Deus senhor inspector, o meu Tomé coitadinho, não é agora que se finou que o vou abandonar. Tenho de tratar das exéquias, não posso ficar presa.

- Não se preocupe que tudo será tratado, eu agora vou acompanhar o senhor padre e de seguida passo pela sua casa para tratarmos desse assunto. – Palavras de Seguro que em nada acalmaram a histeria de Albertina, que levada pelos dois homens da GNR continuava a ladainha. - Tomé, meu querido Tomé, a falta que me fazes!... – E a Dona Alzira lá continuava com a mesma conversa.

- Não pode ser, isto não pode ser, agora prenderem o senhor padre, isto é coisa do demónio, já disse.

O padre Joaquim exigiu ficar preso na sacristia da igreja. Junto de Deus, como ele havia alegado em sua defesa, que tudo aquilo era profundamente injusto mas que era um homem de Deus e que este havia de lhe valer, alegações que em nada demoveram o inspector, mas que ainda assim aceitou, até porque também lhe convinha. A sacristia era um bom lugar para o manter debaixo de olho, e os olhos raiados de sangue mais o hálito quente e azedo do padre não tinham passado despercebidos a Seguro.

Nem aqueles últimos acontecimentos passaram despercebidos à população. Em pouco mais de uma hora a notícia espalhara-se por todos os cantos de Sobreiro Aparado e agora não havia ninguém que não arriscasse o seu palpite. A mercearia da D. Alzira era o principal centro de conversa, cada um com a sua teoria, todos falavam ao mesmo tempo, ouvindo-se apenas a si próprios, quando viram Seguro aproximar-se e todos ficaram em silêncio, seguindo-lhe os passos apressados com que se dirigia para o ajuntamento. – Já deve trazer mais alguma notícia. – Murmuravam alguns entre dentes.

Mas ele passou e nem sequer desviou o olhar do percurso que seguia. Ia para casa de Albertina, já tinha interrogado o padre Joaquim e agora ia falar com ela, conforme lhe prometera. Os guardas que a vigiavam encontravam-se à porta, cumprimentaram-no e desviaram-se para lhe abrir caminho.

  Com um toque suave na porta anunciou a sua chegada e entrou sem esperar que a dona da casa assentisse.

Albertina estava na sala, sentada num sofá e indicou-lhe o outro em frente para que ele se sentasse também. Estava diferente, nem parecia a mesma de há umas horas atrás, já não apresentava aquele histerismo teatral, tinha apenas no rosto uma tristeza de luto encenado e tinha mudado de roupa. Vestia saia preta justa e camisa aberta a deixar vislumbrar os seios perfeitos, o que aliado a um cruzar de pernas bastante sensual fez Seguro esquecer todos os propósitos que ali o trouxeram. Levantou-se de onde estava e foi sentar-se ao lado dela poisando-lhe a mão acima do joelho e fixando-a com olhar profundo.

- Lamento muito…

- Não, não lamente… - Balbuciou Albertina, encenando um olhar provocante e uma boca sensual de lábios entreabertos a roçar os dele. Era tudo o que ele precisava para dar largas ao seu instinto de macho, desejoso de possui-la, assim selvagem incendiando com fogo lento a combustão dos sentidos já em chamas.

Ela enlaçou-lhe os braços à volta do pescoço, puxando-o mais para si e sentindo que os seios se lhe endureciam contra aquele peito de músculos bem delineados. Voltava a senti-lo atraente, a fina tela de rugas, os tufos de cabelo da tal velhice alvadia, os olhos encovados, tudo isso desaparecia debaixo daquele corpo másculo que transbordava paixão. Desde o dia em que se conheceram que Albertina não deixara de pensar na irresistível atracção que sentia por ele, e quase que podia jurar que o mesmo se passara com ele, pelo menos, as mãos fogosas com que lhe arrancava a roupa e lhe acariciava o corpo assim o pareciam dizer.


Completamente rendidos aos prazeres da carne, esqueceram que ela era a prisioneira e ele o carrasco, sucumbindo ao pecado. Um com o outro, um no outro, entoaram gritantes cantos de luxúria, numa exorbitante dança de Eros que já tinha rolado do sofá para o chão, tudo compactuava com aquela tórrida explosão de deseja incontido. Os móveis, os cortinados e a janela aberta que permitiu ao sobreiro aparado atravessar-se na trajectória do olhar de Albertina, como um choque magnético que subitamente a fez quedar-se estática.

  - Porque não me largas, maldição?!

Luisa Vaz Tavares

4 comentários:

Clementina disse...

Esta história está cada vez mais interessante. Gostei muito
Parabens Luisa

João Madeira disse...

Muito sugestivo este capítulo. Pela mão experiente e fluida da Luisa mas sem esquecer o contributo do José. Parabéns a ambos. Que mistérios terá aquele sobreiro voyeur? A Clementina é pessoa para responder. Por mim, estou encantado.

Luisa Vaz Tavares disse...

Obrigada aos dois, e obrigada também ao Zé pelas excelentes fotos, o conto fica mto mais rico.

Boa inspiração, Clementina!

Dina Rodrigues disse...

Completamente rendidos, a prisioneira e o carrasco... ai aquele sofá... Muito bonito o capítulo, Liz!