Nesta página partilha-se o gosto pela escrita. Escrevemos contos e damos largas à imaginação. Quem quiser participar basta expressar essa vontade aqui, em forma de comentário, e receberá todas as informações que necessitar.

domingo, 3 de junho de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 7

Joaquim, preso dentro daquelas paredes que o amedrontavam, sentiu Octávio e o sobreiro. Aquela árvore mutilada tinha um significado, escondia traições, amores encontrados, desencontrados e ainda uma morte misteriosa que envolvia os sonhos dos habitantes.

Foi sentado no chão daquela sobreiro, que tinha visto pela primeira vez Octávio, palito na boca, olhar relaxado, cão desperto como se estivesse sempre a vigiar um rebanho. Observou-o durante bastante tempo, hesitando uma conversa, um olhar como se soubesse que a partir daquele dia tudo seria diferente. Sempre tinha sentido na obscuridade do sentir, dentro de paredes, sem conseguir gritar. Neste sentido qualquer proximidade, ou relação representava um início…

Octávio tinha aparecido para perturbar uma paz fingida. Era um rapaz rude, conversas simples que contemplava num silêncio apaziguador horas e horas a fauna e a flora….

Octávio quando o avistou, de imediato acenou e convidou-o a sentar, partilharam pão, queijo e um pouco de vinho. Questionou Joaquim sobre a existência de Deus e como o mesmo coexistia com a perda, perguntas às quais Joaquim não soube responder, mas o Padre Joaquim sabia responder. Conversaram durante horas com silêncios intercalados. Octávio insistiu num novo encontro, naquele mesmo local e Joaquim aceitou.
No silêncio da noite, tinha pensado naquele dia, na “branquinha” aquele pó milagroso que lhe tinha dado, a sensação de poder, de ausência de medo. Naquela noite não dormiu, sentiu uma excitação e uma euforia que o fez sentir vivo.

Agora, no silêncio da Sacristia percebia que aquele pó milagroso tinha sido também uma prisão, porque não podia ele ser apenas um homem?

A sua infância tinha sido difícil, pai alcoólico, violência doméstica, brincadeiras simples com rapazes de rua com quem sentia cumplicidade no meio de pequenos furtos. Eram todos um pouco como ele, oriundos de famílias com pais ausentes, negligentes, violentos e com contextos socioeconómicos desfavoráveis. Na rua sentiam a paz, o respeito, a lealdade, só eles percebiam isso, porque os adultos apenas viam delinquência.

Tinha ido para Padre, porque não tinha tido escolha, na altura tinha-lhe parecido ser a única forma de se desviar de uma vida de rua e de prisão, mais tarde percebeu que a igreja era outra forma de punição.

A sua estadia no seminário foi de total ausência, de afectos, de escolhas, seguiu o seu percurso como um rebanho segue o seu pastor, sem questões, sem convicções numa austeridade imposta, mas raramente explicada. Sair daquele lugar foi um alívio…

A sua primeira paróquia foi na vila de Góis, um sítio encantador, com o transparente rio Ceira e as suas gentes beirãs. A sopa de aldeia, a chanfana e a tigelada naqueles deliciosos almoços, conheceu as mais belas cozinheiras.

Aqui tinha-se encontrado, ao som dos cucos, envolto nos medronhos e ao sabor de longas e sabias conversas com os anciãos. Foi uma estadia curta, mas intensa, que permitiu a Joaquim descobrir como era bom o contacto com a população, o ter sido acarinhado, admirado e respeitado pelos habitantes.

De Góis foi para Sobreiro Aparado, outra paisagem, outros costumes e outras gentes, que viviam envoltas no mistério daquela árvore. A primeira missa foi rezada num ambiente hostil, o padre Januário, muito querido pela população tinha sido destacado para uma Missão em Angola. Muitos associavam a sua partida, a uma intromissão do padre Joaquim. Neste ambiente de hostilidade, já tão comum na vida dele, voltaram a surgir os medos, a insegurança, o não pertencer.

Naquela aldeia tinha conhecida a Catarina, uma mulher simples, genuína e essencialmente uma grande e carinhosa amiga. Tinha 64 anos, vestia-se sempre de preto presa a uma viuvez que nem ela percebia, mas que os costumes assim o ditavam. Era sempre doce nas palavras, atenta aos sinais de cansaço, de tristeza, no fundo com aquela mulher invertiam os papéis, ela era o padre e ele o paroquiano, queixoso, infeliz e sempre perdido. Todos os caminhos naquela aldeia iam ter ao enigmático Sobreiro, uma árvore muito torta, mas vivaça em que as ramificações teimavam em crescer.

Muitos associavam as recentes mortes ao feitiço daquela Sobreiro.

- Eu sugeria cortar a árvore, aquela porcaria dá azar à gente!

- Tens cada uma, Manel! Azar são estes drogados. Essa gente era mata-los a todos.

- Sabes que andam a dizer que o Padre anda metido nisto? O mundo anda mesmo perdido, queres ver que obrigaram o Padre a meter-se nisso? Quem terá morto aquele maluco do Zinga e o tonto do Octávio? Valha-nos Deus!

- Aquele Padre nunca me inspirou confiança, o Padre Januário é que era! Esse era uma maravilha. O casamento da minha São foi um espectáculo. Tivemos na cavaqueira a tarde toda com o padre. Fartou-se de dançar. Era um bom homem.

O café da Aldeia era um sítio peculiar, animais embalsamados frutos da caça, prática habitual destas gentes, escuro, cheiros intensos, lareira ao fundo. O Sr. Gomes, o proprietário, um gorducho, camisa roçada, mediava as conversas como se fosse um julgado da paz. Engraçado era que na janela do café estava sempre o Bigodes, um lindo gato preto, que ao longo das conversas resmungava sempre como se fosse mais sábia a sua opinião, do que as que ouvia.
 

Padre Joaquim, olhou novamente para aquele sobreiro e pensava porque não finalizar tudo naquele sobreiro, encerrar um ciclo, quem sabe renascer num outro corpo, em outro lugar. Sempre tinha sentido curiosidade pela filosofia Budista, sorriu e pensou em desistir de tudo aquilo, viajar pela Índia numa busca interior. Mas talvez Buda tenha razão “ Não procures a paz á tua volta, mas sim dentro de ti”.

Clementina Barros

2 comentários:

João Madeira disse...

Tenho de dar aqui os parabéns à Clementina. Porque acho muito importante o facto de se ter debruçado sobre o passado da figura do Padre Joaquim. Na minha opinião é muito importante que se dê alguma história às personagens com mais protagonismo porque ninguém nasce do nada. E a Clementina fê-lo. Também o Bessa já o tinha feito com o Zinga mas pouco antes de quase (depois concretizado) o matar, o que torna a sua biografia, em princípio, inconsequente. Aqui, à sombra aparente de um interregno no avanço da história, temos um provável aproveitamento do passado para continuar a movimentar a mesma. E um romance é como a vida: gostamos de saber mais de quem verdadeiramente nos toca. Fixe, Clementina.

Dina Rodrigues disse...

Como diz o João, a Clementina fez bem, em descrever-nos o padre. Temos de conhecer as personagens. Gostei!