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domingo, 17 de junho de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 8

Enquanto o Padre Joaquim procurava dentro de si as respostas iluminadas que tanto desejava, em casa de Albertina o ambiente era tenso.


Como se estivesse possuída por um demónio, Albertina gritava, agora não de prazer mas de um modo tresloucado, arranhando Seguro e esbofeteando-o, que ainda tentou acalmá-la mas ela parecia uma fera à solta.

Seguro tentava a todo o custo conter aquela fúria repentina de Albertina mas com ele deitado no chão meio despido, e ela nua, em cima dele, tornava-se difícil, especialmente chamar os polícias que estava na porta. Eles não iam compreender aquele cenário, o que podia colocar Seguro numa posição muito delicada com os seus superiores. E isso, ele não podia arriscar.

Seguro desde pequenino queria ser polícia, via todas aquelas séries policiais, completamente viciado nos seus heróis favoritos, que acabavam o dia com a folha cheia de feitos prodigiosos e os criminosos atrás das grades. Seguro sonhava ser um deles e mal teve oportunidade e acabou o liceu, prestou provas primeiro para a PSP e depois de uns anos lá, com um registo exemplar, concorreu para a Polícia Judiciária. O dia em que entrou foi sem dúvida o dia mais feliz da sua vida. Teve pena foi de já não conseguir partilhar com o pai a sua emoção mas ele tinha partido cedo demais.

Mas na PJ nem tudo foi o sonho que ele tanto imaginou. A realidade era bem diferente das magníficas séries onde todos os dias havia algo a comemorar. Aqui os dias arrastavam-se em burocracias e processos demasiado lentos. Seguro casou pouco tempo depois, mas foi um casamento que durou pouco, porque para Seguro a profissão é que era a sua verdadeira esposa. Tudo findou um dia quando ele chegou a casa exausto e magoado, depois de uma perseguição a uns traficantes bem no meio da Lisboa onde cresceu, e encontrou a mulher com outro nos braços. E nesse instante, Seguro mudou. Uma onda de raiva assolou-lhe a alma e deu uma valente tareia no infame que tinha ousado entrar em sua casa. À mulher, nada fez, afinal ele tinha também culpas, porque as suas ausências nunca tinham permitido que ela fosse de facto feliz. Pegou nas suas roupas e saiu de casa. A partir daí, tornou-se um homem diferente. Entregou-se à bebida, viveu uns tempos no meio da luxúria das mulheres da vida, começou a aceitar alguns subornos e a ter problemas com outros colegas. E a folha de registo dele que até ali tinha sido impecável, começou por ter primeiro pequenas repreensões até que um dia foi mesmo suspenso por ter batido com a arma num colega que o insultou.

Depois do período de suspensão, o que o fez prender-se mais à bebida, o chefe chamou-o ao gabinete e disse-lhe que ou ele mudava ou iria ter mais problemas, o que era uma pena, porque quando ele entrou via nele a paixão que faz os bons polícias. Pediu-lhe com amizade, que ele não se deixasse arrastar pelo sistema. E entregou-lhe o caso de Sobreiro Aparado. O chefe tinha crescido numa terreola perto e sempre tinha ouvido falar desde pequeno na maldição do Sobreiro e de todos os pequenos e grandes crimes que iam acontecendo naquela terra misteriosa. Achou que Seguro era a pessoa ideal para ir lá desvendar finalmente tudo o que de estranho ia acontecendo e quem sabe, encontrar um caminho diferente.

Num movimento brusco e aproveitando que Albertina parecia ter acalmado um pouco, Seguro agarrou-lhe os pulsos e virou-a contra o chão. Não ia deitar tudo a perder por causa daquele demónio em corpo de seda.

- Sossega mulher! Que foi isto que te deu? Um ataque de loucura ou desceu em ti a Santa que não és?? Albertina continuou a gemer, numa fúria agora mais contida.

– Largue-me. Quero ir ter com o meu Tomé.

- Isso é difícil, mulher. O teu homem está a ser transportado para o Instituto de Medicina Legal e só sairá de lá depois de todos os exames e de perceberem o porquê do acidente. Há fortes suspeitas que ele ia embriagado mas a mim cheira-me que não foi só isso. A mim, parece-me mais que alguém mexeu naquele camião, pelas descrições primárias dos peritos. Conta lá, mulher do Diabo mandaste despachar o teu marido não foi? Além dele não te dar o prazer que tu tanto desejas, mulher dos infernos, também estava sempre em cima de ti, o que não te deixava oportunidade para venderes o material que era suposto e que te dá dinheiro para andares assim enfeitada. Conta lá, tu tinhas uma parceria com o Zinga, não é? Afinal quem ia desconfiar de uma mulher tão bem-comportada como tu…

- Largue-me, não sei de que fala. Eu amava o meu marido. E o senhor veio-me tentar com essa sua conversa de homem da cidade e modos finos. Eu sou uma mulher simples, você é um bruto e um aproveitador.

- Ai é, até parece que não gostas, ó cabra! – sussurrou-lhe Seguro ao ouvido enquanto lhe tocava com malícia os seios ainda despidos. Albertina gemeu de novo, agora com prazer e agarrou-o no meio das suas pernas mas Seguro levantou-se sem hesitação e levantou aquele corpo, que ainda não tinha percebido se era de mulher, se de víbora disfarçada.

- Veste-te e já! – ordenou, empunhando a sua arma que estava caída junto com as suas calças, e com cara de poucos amigos

Albertina percebeu que não ia adiantar continuar com a sua capacidade de sedução de mulher mal-amada e levantou-se, começando a vestir-se.

- Senta-te aí no sofá, rapidinho e começa a desbobinar tudo o que tu, o Zinga e o Octávio andaram a fazer por estes lados e como aquelas pobres diabos acabaram mortos. Sim, porque o Tomé eu sei que foste tu que encomendaste o servicinho. Quero é saber dos outros dois!!! – disse Seguro com voz de comando, não deixando lugar para dúvidas que ele não ia sair dali sem respostas!

Carolina Lemos

5 comentários:

Clementina disse...

Gostei Carolina
Quem sabe, sabe
Parabéns

Luisa Vaz Tavares disse...

Isto é que é gente de vida complicada! Será que ganha quem tiver maior capacidade de sedução?:) Gostei muito, Carol.

João Madeira disse...

E aí temos mais um com um passado triste. E agora quem será o dono da verdade? A mulher nua ou o homem meio despido? Nada como aguardar que o próximo escriba descalce a bota que a Carolina tão bem calçou. Parabéns Carol. :)

Saber, saber! disse...

Eu só quero "falar" com a Elisabete Gonçalves! Poderei?
Obrigado

Dina Rodrigues disse...

E temos mais uma descrição de uma personagem, o Seguro. Carolina, gostei muito do teu desenvolvimento!