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sábado, 21 de julho de 2012

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 12

Sobreiro Aparado. Frio. Frio e vento.

Morgado fecha a porta do Skoda. “Puta que pariu”, diz. Leva a mão ao bolso das calças e puxa um lenço encardido. Assoa-se. O vento assobia. Em passos rápidos, dirige-se à mercearia.



Aldina pega na faca e lambe a folha cortante. Alzira levanta-se. Dir-se-iam uma apenas. E assim é para toda a gente. Nasceram iguais, permaneceram iguais. Certo dia, ao subir ao sótão, Aldina caiu e rasgou uma ferida na testa que a levou a pontos ao Hospital. “Tem aqui serviço para uns 5 pontos”, disse-lhe o médico, um cubano atarracado com cara de lagarto. “Venham eles”, respondeu Aldina cerrando a expressão. E cinco pontos foram. A Alzira doera muito mais quando a irmã lhe rasgara a cara com uma faca mal afiada. “Tens aqui serviço para 5 pontos”, disse-lhe Aldina, imitando o médico cubano, e riu. O médico cubano estranhou o caso, no dia anterior tinha tratado uma pessoal igual. “Compreendo, doutor, é muita gente a passar-lhe pelas mãos”, e Alzira sorriu compreensiva. O médico piscou os olhos de lagarto e pôs-se a coser. Um fiozinho de sangue escorreu-lhe pelas mãos e caiu nas calças. As cicatrizes acabaram por secar semelhantes; semelhantes na forma, semelhantes na cor, semelhantes no torcer que provocavam na pálpebra esquerda quando sorriam.

Morgado chega à porta da mercearia, ajeita o casaco e tosse levemente como que a afinar a voz. Inspira profundamente. Procura a expressão certa. Levanta a mão e carrega no botão da campainha.

Aldina e Alzira eram apenas uma pessoa para o Sobreiro Aparado, uma velha discreta, talvez curiosa, mas profundamente crente e defensora de tudo o que se parecesse com moral e bons-costumes. Nascidas da mesma forma foram, crescidas no mesmo prato, casadas pela mesma igreja e no mesmo dia, viúvas pelo mesmo cemitério e no mesmo dia. Os maridos, gémeos cruéis como lobos famintos, tiveram o que mereciam. “Há quantos anos foi isso?“, perguntam-se muitas vezes uma à outra. Mas já nenhuma parece contar os minutos e as horas e os dias como faziam no início, logo depois de a terra bater nos caixões e elas respirarem de alívio. Aos olhos do pequeno mundo de Sobreiro Aparado, uma partira no dia seguinte para uma aldeia de Castelo Branco a cuidos de um familiar acamado. Nunca ninguém decorou ao certo se fora Aldina ou Alzira, e por isso, sem qualquer critério, chamavam por Alzira ou Aldina, sem suspeitarem que o número de nomes igualava o número de corpos. A cicatriz era um pormenor desprezível. O Octávio. O Octávio tinha sido um estúpido. Tentou assaltar a mercearia. As duas apareceram-lhe à frente. Não teve hipóteses. Congelou do espanto. Alzira encostou-lhe a arma ao peito e disparou. Seco. “O estúpido do Octávio”, suspirou Alzira com a fusca a fumegar. “Vamos lá tratar deste presunto, amanhã vai ser um falatório por causa do tiro.”

Morgado ajeita os colarinhos do casaco. A chave a rodar na fechadura. A porta a abrir.

- Posso ajudar, senhor? – pergunta Alzira através da nesga aberta

- Inspector Morgado. Quero falar com Aldina Pereira.

- Sou eu. - Chame a sua irmã também, quero falar com as duas.

O queixo de Aldina cai e os olhos param.

- Vá, rápido! – ordena bruscamente Morgado.



Guimarães. Vento. Vento e frio.

- Vou-te foder, sua vaca! – grita Tomé.

- Calma aí, baixa lá essa arma, cabrão! – riposta Seguro surpreendido.

- Vou-te matar, sua vaca! Vou-te matar! – Tomé estica mais os braços e afina a pontaria. Está muito frio, mas um pingo de suor escorre-lhe da testa.

Seguro empurra Albertina com violência e saca da arma já em voo para o chão. Um tiro é disparado.

Guimarães geme de frio.

Paulo Melo Lopes

4 comentários:

Luisa Vaz Tavares disse...

Quem diria?... A Alzira (ou a Aldina?) tão... macabra. Parece que o Morgado tem ali muito trabalhinho, ai tem, tem. Gostei muito, Paulo.

Casimiro teixeira disse...

Muito bom. Cheio de pequenas minudências que dizem muito e não empatam o correr da história. Gostei imenso, Paulo. Um abraço.

Clementina Barros disse...

Parabens Paulo, gostei muito

Dina Rodrigues disse...

Ainda bem que o Paulo se Lembrou daqueles dois em Guimarães. Não podem ficar lá eternamente naquele sufoco...Gostei!