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segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 13

O eco do tiro dispersa para além das muralhas, embalado pelo vento forte que se fazia sentir. Os pássaros que dormitavam nos arvoredos vizinhos despertaram em transe e esvoaçaram em bando.
O silêncio corta de seguida esta anómala agitação que estremecera o castelo e arredores. Mas esta falsa quietude não tardou em sucumbir perante os gritos estridentes de Albertina.


- Meu Deus, o que fizeste?! - brada e gesticula Albertina desnorteada.

Tomé cai de rompante sobre a calçada, e derrama em torno de si um charco de sangue.

Seguro, afónico e assustado, deixa a sua confidente de profissão resvalar das suas mãos trémulas. Acorre, num passo claudicado pela tensão muscular, até junto do corpo inanimado de Tomé para ver se ainda lhe pulsava Vida.
Coloca-lhe dois dedos sobre a jugular, sente um batimento fraco e a cada segundo mais espaçado.

- Ainda está vivo - replica Seguro, voltado para Albertina que permanecia estática.

Vira-se novamente para Tomé e vê-o arregalar o olhar e arrastar num esforço acrescido aquelas palavras que tudo mudaram.

- Foi ela, foi ela que mandou sabotar o meu camião - gaguejou Tomé - Aquelas viagens de regresso corroíam-me lentamente, vinha sempre com o coração nas mãos aterrorizado pela possibilidade de ser mandado parar numa operação policial. Fiz tudo aquilo por ti, Albertina!

Eis que soa um segundo tiro que assassina a sequência de revelações de Tomé. Jaz definitivamente para contentamento do místico Sobreiro Aparado.
Seguro petrifica perante este acto inesperado de Albertina. Mais uma prova de que nunca conhecera verdadeiramente as mulheres.


A vários quilómetros de distância um outro Segredo de Sobreiro Aparado em vista de ser revelado.


Morgado com um ar austero e inquisidor, porte de carrasco da justiça, senta-se frente-a-frente a Aldina e Alzira. Retira um bloco e uma caneta do bolso interno da sua gabardine cinzenta, eleva o sobrolho e fisga as gémeas. Ainda que o quisessem disfarçar expressavam um semblante de pavor e medo.

- Durante anos a fio fizeram-se passar pela mesma pessoa, facto que atrofiou as nossas investigações. Fostes desmascaradas. Nós temos acesso a todos os dados - reiterou inteligentemente Morgado.

- E isso é algum crime?! - ripostou de imediato Aldina.

- Judicialmente não. Já assassinar alguém é punível com pena de prisão. Não concorda comigo D. Alzira? - disse Morgado com uma voz firme e traiçoeira.

Alzira estava cariz baixo, com o fácies rosado, e o corpo encolhido sobre si. Desenhava já o seu fim. A verdade iria ser descoberta.

- O que fizeram ao Octávio? - questionou Morgado.

- Quem? Aquele pobre profeta do demo? - graceja Aldina numa risada soluçante.

Alzira ergue a cabeça e deflagra, acompanhado por um pranto de lágrimas - Não o queria fazer, juro por Deus. Aquele diabo em forma de gente queria-nos assaltar a mercearia, não tive alternativa.





- Temos de eliminar os podres da civilização, estas almas mendicantes que perambulam sem eira nem beira e que importunam as pessoas de bem - contesta altivamente Aldina.

- Para fazer justiça existo eu e os meus colegas. Minhas senhoras acompanhem-me até ao Posto da Policia Judiciária - culmina Morgado, satisfeito e fervoroso pelo sucesso do seu trabalho.


Marlene Quintinha

2 comentários:

Clementina Barros disse...

Ver, para crer.Desta vez foi de vez para Tomé?
As mulheres desta história, piores q a encomenda. A D. Alzira quem diria?
Parabéns Marlene gostei

João Madeira disse...

Muito bom, Marlene. Escrita fluida a adensar os mistérios. E, pelos vistos, estou perto de entrar de novo. Não sabiam matá-los todos até aqui? lol