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quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Madalena dos Olhos Cor de Algas - Capítulo 2


Quarta-feira. Ok Madalena, amanhã 22h na tua casa. Ansioso... hummm ;) Bjoo!

Quinta-feira. Eu sei bem quem tu és!

nesta noite em que não dormi absolutamente nada dando voltas e mais voltas virando e revirando os pensamentos mais obscuros e tenebrosos quase confirmando todas as minhas anteriores suspeitas sobre a condura extra conjugal do meu homem desde ontem por uma fatalidade do Alex quando dele recebi na noite anterior uma sms que seguramente não me era destinada
 

para uma Madalena que só pode ser a minha colega     a Pimenta

ela     as suas reacções e expressões involuntariamente faciais e alguns estranhos e episódicos comportamentos começaram a levantar as minhas suspeitas de que algo se poderia estar a passar entre ambos sempre que lhe falava da minha vida familiar especialmente do Alexandre       o seu olhar e a sua expressão a traíam     tanto secretismo em relação a mim na consulta do seu facebook no escritório     tantos gostos comuns entre ambos dizia ela     intuição feminina a minha

ele     demasiadas noites ausente até tarde que numa delas o palerma chegou às quatro da manhã cheirando a outro gel de banho     é mais fácil um homem safar-se com o cheiro do perfume de outra mulher do que cheirar a um estranho gel de duche     não? tão distraídos que eles são

vão encontrar-se hoje pela noite a coberto de mais uma interminável reunião na distrital do partido     porra que a crise é ameaçadora para eles e as autárquicas ainda estão longe     a quem pensa ele que engana?

tenho de manter-me impassível como uma máscara chinesa     a minha aparente frieza e o meu formalismo juntamente com a previsibilidade que me caracterizam dão-me uma excelente cobertura para que não desconfiem de tudo aquilo que já sei sobre eles     nada como um falso perfil do face para apurar alguns detalhes que uma mulher interessada é capaz de tudo     outra coisa é ser-se interesseira

a Eva primordial aquela que verdadeiramente sou poucos amigos a conhecem     os que eu permito aqueles capazes de subir os muitíssimos degraus até ao meu íntimo     Alex percorre com facilidade esse caminho     a nossa casa é o meu universo onírico em que majestosamente me revelo em toda a plenitude brincalhona conversadora sociável sedutora e terrivelmemnte doida por cama com Alex     entre nós há muito que se desfizeram todo os tabus onde tudo vale excepto a dor     o nosso deslumbramento por mais que tente não o imagino de outra forma     nos limites     por isso estou segura e magoada possessa e compreensiva incoerente e trespassada

disfarçando o melhor que pude as olheiras e o mau humor não me dando por vencida nem por cornuda preparei-lhe esta manhã um especial e apetitoso pequeno-almoço com direito a um fulgurante reforço que o fez sair de casa atabalhoadamente atrasado! já sei que não o suficiente porque tesão não lhe falta     para o testar para vêr até que ponto ele me resistia ou até para averiguar até onde iria a sua mentira que logo à noite chegaria muito tarde por causa de mais uma das suas cinzentas reuniões em que de certeza não iria discutir o sexo dos anjos antes divagar sobre o sexo certamente apimentado da Madalena

as ruas de Mouzinho da Silveira e de S. João fazem-se a descer até à dos Mercadores como nunca a pique em que eu pareço ora deslizar ora tropeçar na minha própria sombra e nas divagações mais exasperadas depois de passar pelo escritório entregando documentos importantes que não ia estar o dia todo não porque não me apetecesse trabalhar mas porque tinha surgido um problema de resolução inadiável     Dr. Ricardo compreendeu e envolto naquele seu indisfarçável sorriso matreiro denunciador do fraquinho que nutre por mim me mandou tratar dos meus assuntos num

vá tranquila Eva

faz um sol tímido e as esplanadas da ribeira ainda estão desertas a esta hora que pouco falta para as onze embrulhada ainda pelas sensações de há pouco num misto de satisfação e de raiva o meu cérebro lateja-me no crânio com os gritos das gaivotas olhando o cais de Gaia identifico ancorado o barco de cruzeiro que durante três dias da semana passada nos levou por este rio acima atravessando as inolvidáveis paisagens durienses simetricamente espelhadas na tranquilidade do rio que o Alex fez questão de percorrermos

que amoroso     quão romântico     que ironia

dias de paz mal sabendo eu o que me esperava     melhor não desconfiando eu o que agora acabo de confirmar que a minha intuição nunca falha

detesto ser tomada por lorpa odeio a mentira tenho raiva à omissão premeditada só para me protegerem

conheço muito bem o meu marido que até foi o único com quem dormi     os muitos namorados que povoaram a minha vida anterior iam e vinham levavam uma ou mais quecas e saíam às tantas da madrugada deixando-me os preservativos para deitar ao lixo e a cama vazia     ele não     ele nunca os usou nem me deixou a cama deserta

veio uma noite para ficar e até hoje permaneceu já lá vão uns muitos anos

por amá-lo incondicionalmente aceito-lhe os defeitos sendo o pior deles o ser demasiado bonito mais que inteligente     todas as mulheres o comem com os olhos e se porventura passa alguma que não o despe ele fica como que humilhado e aborrecidamente amuado acha que todas lhe lambem os pés     ora     isso verdadeiramente só eu sei fazê-lo e ele sabe disso

acredito nos amores e nas paixões simultâneas aceito como possível e verosímel que um homem ou uma mulher me diga que está apaixonado por duas pessoas     ninguém pode ter a ousadia de querer ou sentir-se pleno para outrém     seria o ser perfeito     nem sequer estou a pensar no banal triângulo homem mulher amante     penso mais adiante em que um ser se consegue validamente repartir mais ou menos igualmente entre dois outros seres de sexos opostos ou não encontrando nas relações com essas duas pessoas às vezes tão distintamente antagónicas complementos para a sua alma para o seu corpo para a sua vida

não quero é que isso aconteça com ele por ser o meu homem     

eu sei que sou possessiva e contraditória     a coerência que não me assiste é apanágio apenas das almas simples e me questiono com ele provocando-o qual a mulher que não o é e ninguém gosta de partilhar o seu homem com outra mulher

despejando o pacote inteiro do açúcar este café me sabe muito amargo     sinto a garganta apertada e os olhos humedecem como se desvanece a neblina tardia     as mãos trémulas puxam de mais um cigarro em que nesta manhã eu me suspendo

apetece-me chorar e neste tumultoso carrocel mental lembro o Eduardo um velho amigo de Coimbra que conheci através da internet mais novo que o Alex mais velho na amizade tomou-me nos seus braços uma certa noite no meio de um desabafo e acoitou a minha tristeza na sua cama onde apenas conversámos e chorámos juntos

ternamente apenas os nossos corpos se tocaram
 

e se aqueceram nessa cumplicidade imensa que agora me vem à memória o tanto tempo que nada sei sobre ele nem da sua vida     suponho que deve estar a regressar de mais uma missão em África     um dia destes mais cedo do que tarde vou falar-lhe tenho saudades preciso da sua opinião e compreensão e sobretudo da sua cumplicidade

entretanto que faço eu no que resta até à penumbra da noite gelada?

não tenho vontade de continuar este livro por agora uma revisita a cem anos de solidão     apetece-me por aqui passar o resto do dia talvez comer qualquer coisa que consiga engolir talvez encharcar-me em café mantendo-me lúcida     a lucidez é o que mais me atormenta por antever os capítulos que se vão seguir     talvez me perder de olhar absorto na multidão que tarda em chegar

prostrada na noite após um jantar em que falaremos de tudo menos do que interessa sempre quero ver a tua cara Alex a tua expressão com amo-te quando te despedires de mim à porta para a tal reunião     serei frívola implacável e será impossível para ti descortinares o que me vai na cabeça e na alma

até porque já lhe garanti que ontem não recebi qualquer mensagem sua merda nenhuma que a operadora a deve ter extraviado fazendo-me de loira     uma mentira piedosa claro! ele mais oxigenado do que eu acreditou ingénuo

talvez me pendure no facebook como fazem essas minhas amiguinhas idiotas em busca de atenção protagonismo piedade sedução emoção ou seja lá o que for enchendo muros de lindas florzinhas frases bombásticas notícias incessantemente propaladas por todos fotografias de gosto kitsch musiquinhas pirosas ou animaizinhos fofinhos que aquilo às vezes parece um jardim zoológico

e maltratando a Poesia

talvez faça um pouco de tudo isto e em todos ponha um like ou um comentário mais arrojado que sou uma mulher absolutamente normal em busca de renovadas emoções     talvez algum príncipe encantado surja através do meu monitor e eu faça de conta que acredito     que só tenha olhos para mim e me diga e faça crer nas palavras bonitas que todas as mulheres gostam de ouvir que certamente dirá e eu certamente fingirei que oiço

ou talvez

Eduardo...
José Manuel Barbosa

9 comentários:

Anónimo disse...

Parabéns aos 2 autores até ao momento
Paulo Emanuel

Luisa Vaz Tavares disse...

Alguém que eu conheço costuma dizer relativamente às mulheres, que ou são grandes ou não valem nada. Porque não há mulheres assim assim. Já muitas vezes manifestei a minha discordância mas agora, ao ler o início desta história, foi esta opinião que me veio à cabeça. Porque estas duas mulheres, cada uma à sua maneira, são grandes. Parabéns, Zé, foste grande a escrever este texto.

JoséManuelBarbosa disse...

Obrigado, Luisa! Como se lê no Cap. I, houve a tentação imediata de seguir a toada e a dica deixada no final pela Estela. Depois de serenar os meus ânimos (risos), optei por explorar a esposa do Alex, o que me pareceu bem mais interessante, no momento. Abrindo-se, assim, o enredo à exploração de outros personagens [(leia-se Dr. Ricardo, ainda que timidamente, e o Eduardo que poderá ter um futuro promissor (outra vez risos)].

Poderia eu contar uma história mais completa mas isso caberá a todos os Participantes que me seguirão.

Agora, sou eu que estou em pulgas... :)) Beijo!!!

Anónimo disse...

Muito bom o teu capítulo José Manuel Barbosa, uma escrita fluída, interessante, diferente e melhor ainda, a forme como expões os sentimentos e emoções de uma mulher. Louvável! Parabéns! Gostei!!!
Fátima

odilia disse...

Parabens, Zé gostei!!! O pior foi pores a mulher a amar "incondicionalmente" o marido infiel... foste mauzinho!!!espero que ela encontre ainda um ex namorado da faculdade, aí pelo Facebook... :))

JoséManuelBarbosa disse...

Obrigado, Fatima que até me deixas seriamente babado com os teus louvores!
Supostamente, será mais fácil entrar uma mulher na cabeça de um homem do que o contrário... Mas não acreditem nisso, não? De qualquer forma, tentar... tentei;) Beijo!

JoséManuelBarbosa disse...

Oh querida Odília, esse conceito de fidelidade é tão lato que não cabe aqui dissertar sobre ele, mas que gostaria... ai isso gostaria!

"Incondicionalmente" é a parte mais difícil porque aquela mulher ama o seu marido, com tudo o que isso implica. Se não o amasse seria muito fácil pôr um ponto final naquela relação e acabava-se já a história. Mas não é isso que queremos e - a Marlene que não nos oiça (é ela que se segue a acrescentar um ou mais pontos...) -, sem querer condicionar o desenrolar da trama, Eva irá, concerteza, lutar por algo ou alguém em quem acredita. Mesmo sendo ele "infiel"!

Achei especial piada ao espero que ela encontre um ex namorado pelo facebook... :))) Beijo!

Pedro Ferreira disse...

Interessante o facto de entrar mais um personagem passível de exploração pelos próximos autores. Também apreciei as notas geográficas da Invicta e umas breves alusões ao conceito de poliamor! ;)

Anónimo disse...

Isto é alguma maneira nova de escrever ou também faz parte do novo Acordo Ortográfico, escrever sem pontuação e começar a palavra no início do parágrafo com letra pequena? É pena porque o texto até podia ser interessante...