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domingo, 25 de novembro de 2012

Madalena dos Olhos Cor de Algas - Capítulo 7

Eva benzeu-se e rezou. Pediu ao Senhor que lhe iluminasse o pensamento, que lhe clareasse a resposta que antes lhe tinha dado. Afinal, ela ainda sabia benzer-se e rezar… estava surpresa consigo própria, com o seu comportamento naquela noite.
O carro estava estacionado entre as árvores, perto ao apartamento da Madalena, mas distante o suficiente para não ser visto da praceta, nem da casa dela. Agora, enquanto caminhava em direcção ao carro, já não tinha tanto a certeza da decisão que deveria tomar, do que deveria fazer a seguir. Já não sabia se voltava à praceta do prédio da Madalena e fazia uma cena de mulher traída pelo marido, com a colega do escritório, ou se ia para casa e fingia que nada de extraordinário tinha acontecido, naquela noite. Fingia que não tinha visto o carro do marido naquela praceta, fingia que a sua vida era maravilhosa e que era uma mulher muito feliz. Fingia que tinha um marido maravilhoso, um marido que era a pessoa mais fiel à face da terra…
Pensando melhor… só ia pensar em si! Por enquanto, ia abandonar a ideia do perdão ou do castigo, ia esquecer durante algum tempo aqueles dois, Madalena e Alexandre e ia dedicar-se apenas a si própria. Ia adiar por mais algum tempo o encontro com Eduardo, mas antes disso, ia telefonar-lhe a dar uma explicação porque não tinha ido ao seu encontro na Quinta da Lágrimas. Precisava de uns dias só para si. Não queria pensar em mais ninguém, já tinha confusões suficientes na sua vida. Tinha de pensar com clareza que atitudes tomar, de futuro, em relação ao marido e ao seu casamento.
Eva chegou ao carro. Daqui podia avistar o carro do marido, que continuava estacionado na praceta. Agora tinha a certeza de que era mesmo isso que queria fazer, ia tirar uns dias de férias! Ia tirar uns dias só para se dedicar a si própria, longe deles todos. Ela era superior ao marido e à amante. A raiva e o ódio que sentia por eles, faziam-na sentir muito forte. Tinha de encontrar a melhor maneira de explicar as férias marcadas, assim tão à pressa, mas Segunda-feira não podia ir trabalhar porque não se queria encontrar com aquela ordinária e traidora da Madalena.
- Que se lixem os dois! Segunda-feira já vou estar longe daquele escritório! – pensou ela.
Chuva 102 (2)
Entrou no carro, deu à chave a arrancou. Uma chuva miudinha começou a cair e ela sentia-se demasiado nervosa para prestar atenção à estrada. Aquela chuva também não ajudava nada, mas lá conseguiu chegar a casa, ao que deveria ser o seu refúgio… Chegou lá, sentou-se no sofá e logo o Teco, o seu fiel companheiro, saltou para o seu colo, muito feliz por ver a dona. Ela afagou o gato e foi à janela, precisava de respirar. Já chovia com mais força. Ficou à janela a ver a chuva e a pensar na sua vida, o que aliás, mais tinha feito nesta noite, desde que deixou aquela procissão. Não queria que Alexandre a encontrasse em casa, quando voltasse. Talvez ele já não voltasse essa noite, só regressasse no dia seguinte, mas mesmo assim não queria arriscar a vê-lo. Agarrou no telefone e fez uma reserva num hotel. A seguir, telefonou à Ana, uma amiga que a podia ajudar, nesse momento de tristeza e revolta.
- Ana, amiga, podes ficar com o meu gato, por alguns dias? Vou de férias e não tenho a quem o deixar!
- Não te preocupes, Eva. Quando é que precisas que fique com ele?
-  Hoje! Agora! – respondeu Eva.
- Agora?!... – perguntou Ana. - Mas está bem, para que servem os amigos senão para se ajudarem quando é preciso? Podes passar por minha casa e deixar o Teco. Prometo tratar bem dele!
- É uma emergência, fico-te muito grata! – agradeceu Eva. – Depois conto-te tudo. Vou para Tróia, para aquele hotel que um dia me falaste, aquele com o spa. - É mesmo disto que eu preciso neste momento!
Rapidamente, fez uma mala com roupa e alguns produtos de higiene, meteu o gato num cesto quentinho e apressadamente dirigiu-se ao carro. Passou em casa da Ana e seguiu viagem. Tinha uma longa viagem pela frente…
Finalmente, ia poder desfrutar de uns mimos para si. Mesmo que o tempo não estivesse bom para a praia, ia saber-lhe bem, estar afastada de casa, longe das confusões e dos problemas que a sua vida estava a atravessar. A Ana, um dia disse-lhe que aquele hotel era muito bom e que o spa era uma verdadeira tentação.
- É tudo o que eu quero neste momento… Estar num bom hotel, rodeado de bonitas paisagens, o Estuário do Sado e a Serra da Arrábida. Quero dar uns passeios pela praia, com a bonita vista para a serra da Arrábida, e claro, os milagrosos tratamentos de relaxamento do spa! – pensou ela.
Eva conduziu pela noite dentro, lutou contra o sono e o cansaço e chegou a Tróia exausta, mas pela primeira vez, em tanto tempo, sentia-se livre. Mal conseguiu dormir, acordou cedo e cheia de vontade para ver o nascer do sol, da varanda do hotel.
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Uma nova Eva estava a despertar para a vida!
 
Dina Rodrigues


2 comentários:

Pedro Ferreira disse...

Ora aqui temos uma mudança brusca de paisagem rumo ao sul. Sempre considerei que a península de Tróia tem um elevado grau ficcional. Não me perguntem porquê mas aquelas praias, aqueles prédios, aquela calma tem qualquer coisa de surreal.

JoséManuelBarbosa disse...

Ó Dina, então levaste a mulher para Tróia? Sempre é mais pertinho que o Algarve...

Gostei da tua escrita e só espero que os tratamentos salus per aquam resultem nalguma coisa ou decisão ou sei lá por parte da nossa querida :))

Parabéns!