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sábado, 29 de dezembro de 2012

Madalena dos Olhos Cor de Algas - Capítulo 12


Ninguém sabe ao certo como eu vivia. - Afirmava Madalena - Ninguém faz a mais pálida ideia. A cor aquosa dos meus olhos não pertence a ninguém, nem nunca pertenceu. Na verdade, ninguém poderá saber jamais, com a precisão de um ourives, o exacto calibre e densidade de luz com que estes olhos se referem numa unidade de medida. É tudo uma treta infinita! Uma treta absurda e perpetuada por quem mais se interessa pela forma côncava e dura das minhas mamas ou pelo buraco sedoso e húmido, da parte de trás da minha coxa, do que por mim propriamente. Sou carne, e a carne não tem olhos. É, portanto, com um refrescante sentimento de satisfação exausta, que experimento a sensação de ser útil e tão desprotegida ao mesmo tempo.

 
- Podes foder-me amanhã, em vez de ser hoje? – pergunto-lhes. – É que hoje sinto-me demasiado vulnerável cá dentro, tenho o corpo apenas, e mais nada percebes? – De facto nunca ninguém me respondeu quando assim lhes remetia a questão. Ficavam silencioso por momentos, e fodiam-me na mesma.

Essa pergunta não tem de facto nenhuma resposta concreta. Como se eu existisse para ser fodida, ponto final. Sem perguntas desnecessárias à prática fugaz do coito ocasional que eles tanto procuravam.

Sim. Poderia afirmar aqui e agora que, em algum lugar esquecido do tempo inteiro da minha vida, eu me vendi, para conseguir coisas. Coisas, e não emoções, nunca emoções. Fui uma puta! Poderia afirma-lo aqui e agora, e isto seria provavelmente verdade. Eles deram-me boas somas de dinheiro, todos eles me deram, de uma ou outra forma. E depois do sexo, a vida já não me parecia assim tão cara, como me parecera antes. Na realidade, eu nem tenho casa própria, nem carro próprio, nem um emprego, nem uma vida minha sequer, mas os meus olhos, os meus olhos voltavam a ser feitos de algas, por breves instantes, nesse entretanto entre a pergunta inútil e a resposta que nunca chegava. Os meus olhos ainda eram meus nesse curto interlúdio, apesar de nem já habitarem neste corpo. Sim, eu fui uma puta, mas, isso acabou agora.

Era o mínimo. A vida é mais uma questão de despesa do que de ganho. É preciso saber com quanto se quer viver. Aprendi a viver como que num desespero sorridente. Sem saída, mas uma vida ainda assim, que exercia sem cessar um domínio que eu sabia ser útil. O essencial: não nos perdermos para sempre, e não perder, nunca, aquilo que, de nós, dorme no mundo. Eu andava cansada de tudo. Dormia mal havia cinco noites e a minha paciência para os sussurros bacocos que ecoavam soltos pelos corredores da firma, era mais do que pouca. Eva sabia de tudo. Sabia que eu fodia em intervalos regulares com o seu marido, que eu fodia-o para conseguir...para conseguir o quê? – Já nem sei. Só queria que ela entendesse.

Naquela manhã deplorável trouxe o Eduardo comigo para o Porto. Era o meu único bálsamo de humanidade. O meu derradeiro bastião. Fingia chantageá-lo com birras e ele vinha comigo. Fingia ignorar os seus pedidos e ele vinha. Vinha como um cachorrinho bem amestrado. – Pois. Eu bem sei. Ainda me resta muita maldade entranhada cá dentro, uns restos que ficaram cá dentro, sem eu saber. Ando a aprender lentamente a limpar-me por dentro. O Eduardo ajuda-me nesta purga e eu, em troca, ajudo-o a sacudir-se de toda aquela loucura. Não devia ter cedido àquele porco do Rogério. Pulha! Grande pulha de merda. Enfim, agora já está. Será uma lição que o Alexandre não irá esquecer tão cedo. O primeiro golpe está dado, a partir de agora será quase impossível parar este processo. “audaces fortuna adiuvat” diz-me o Eduardo. – A sorte favorece os audazes! Espero que sim. Pedi-lhe que não me massacrasse com as suas atrozes lições de piano, mas ele não me quis dar ouvidos e o pior é que tem razão. O Eduardo tem sempre razão.

 

Minha querida Madalena. O teu íntimo tem a sua grandeza e como tu encantas por demais. Gostas do que é desimportante, como os insectos ou o pó da memória das coisas. Gostas também das gentes desimportantes, as despessoas, como lhes chamas. Sonhas com a conquista de uma vida mais simples. Entanto, no escritório, ouves as descrições de corredores enormes, de carros grandes, de férias intermináveis, de vidas sem fim, esvazias esse olhar daquilo que te rodeia, imaginas estas paredes caiadas, e enche-las com o brilho que consegues trazer dos seus sonhos. Minha querida irmã. Agora, ao lembrar-me de ti, tenho uma espécie de sorriso brando, parecido com o sorriso que tu própria trazes nesses momentos.

A minha irmã mora no alto de uma Praça, na continuação jusante do corredor de prédios impossíveis de serem habitados por despessoas, mas daqui, consegue ver uma boa parte da cidade, os campos ao longe, o mar mais distante, contudo, a menor distância que não consegue ver sem ajuda, chega apenas até ao seu próprio coração, poucas dezenas de centímetros mais abaixo. Em algum momento do passado, Madalena foi uma menina, filha única e delicada, estimada pelos pais; mas, quando a conheci, já era uma mulher feita de uma dureza de carnes e de dores, que homem algum conseguirá perfurar. Ela precisa de mim.

Há um lugar aqui na sua casa, uma espécie de câmara clara - a câmara do tempo – é assim que ela lhe chama, mobilada com vagos móveis, onde ela está sempre mesmo quando nem está em casa, e onde tem, precocemente, um rosto de uma qualquer heroína de novo-romance, destituída de qualquer significado como de presença. Nesta sala é um fantasma que já nem corpo possui para ser reflectido no espelho colocado à sua frente. Recordo-me que Madalena montou este nicho no fim do apartamento, porque sentiu necessidade de se refletir em espelhos, para ter a certeza de que não estava dissolvida num nada. - Minha pobre irmã! - Não sabes que és tudo para mim? Trouxeste-me de volta da loucura e não o esquecerei, nunca.

 
Numa parede adjacente, encostado ao canto, encontra-se um piano que eu faço questão de tocar sempre que aqui venho. Raramente o faço e este instrumento tornou-se o meu Santo Graal. Todos me julgam louco ainda, só porque eu me atrevo a apontar o dedo a alguns que se dizem sãos. Mas não sou louco por isso. Sou louco porque tinha de o ser já. Não serão mais loucos os que se resignam a acharem-se sãos? – Não sei. Sei sim, que aquele seu piano nunca me julga, mesmo quando eu lhe envieso as notas perfeitas. A minha irmã também não, eu sei que não. Nunca mais.

O seu piano é todo preto, menos a conta certa de teclas brancas necessárias, e, ao centro as letras Steinway & Sons que sobressaem a dourado. Ainda nessa mesma parede, ao lado do piano, fica um móvel alto que, à primeira vista, parece ser de mogno, mas que, depois de observado com maior atenção, se conclui ser de nogueira muito escura. O móvel tem um tampo de mármore rosa, tingido de laivos brancos, que o divide em parte de baixo e parte de cima. Na parte de baixo: três gavetas e três portas, na parte de cima: duas prateleiras onde Madalena dispôs os mais importantes objectos da sua vida inteira: o seu diploma, emoldurado numa dúbia talha de oiro raspado, a boneca de trapos que a mãe lhe coseu de prenda aos cinco anos, um pisa-papéis mirabolante de cores, o retábulo de todos os santos possíveis a adorarem o menino, esculpido a golpes determinados de cinzel e formão pelo seu pai numa só peça inteiriça de carvalho, um par de óculos de fundo verde e baço, uma partitura do "Pedro e o Lobo" Opus 67 do Prokofiev, e uma moldura espaventosa que albergava uma fotografia de si mesma amarrada firme num abraço desprendido ao Dr. Andrade Magalhães, o pai da minha Eva.

Quando vi esta fotografia, foi quando juntei todos os pontos esparsos desta tragédia de merda que se chama a nossa vida.

Os raios violentíssimos dos últimos dias de Agosto, filtrados pelas cortinas de algodão espesso enchiam a divisão de uma luz martirizante que encruecia os olhos e a alma. Sentei-me em frente ao piano, endireitei as costas e toquei o Opus 67 do Prokofiev, o seu preferido. Senti que, em cada nota maravilhosa que eu acertava, se dissolviam todos os pequenos ódios insignificantes que nos afastaram estes longos anos. - Minha pobre e querida irmã, como eu te quero tanto.

Recordo-me também vagamente da presença do nosso pai, um patético saco testicular de ténues tentações, que não resistiu à vulgaridade e traiu a tua mãe, o triste miserável. Detesto todos aqueles que alguma vez te fizeram brotar uma só lágrima desses teus olhos maravilhosos. Por isso detesto também o teu falso segundo pai, aquele falso filho-da-puta do Dr. Andrade Magalhães, que se tornou pai de nós todos, ainda que verdadeiro, só o tenha sido para a Eva. Ela contou-me tudo Madalena, sabias? Tudo. Como em cada ano da sua infância, o foi descobrindo, e em como o florir das raparigas que lhe passavam pelos braços só tinham uma estação. No ano seguinte, eram substituídas por outros rostos de flores que, na estação anterior ainda eram meras garotas. E depois, por um mero acaso, eu fodi-lhe a filha verdadeira e ele, cabrão vingativo, seduziu-te a ti. É esta linha sanguínea de prazer que nos une agora. É nesta linha que reside toda a tragédia desta pequena história.

E para este homem, de cuja vil semente germinou a única mulher que a minha louca pila arrombou, para este homem que as contemplava, não passavam todas de vagas anuais cujo peso e esplendor se derramava efémero sobre a sua cama. – Como tu também foste, minha pobre, pobre irmã! Minha infeliz, ingénua irmã, desgraçadamente devassada pelo próprio homem que pôs neste mundo quem tu mais odeias! Pobre, pobre irmã.

Sabes, ainda ontem, ou terá sido há mais tempo? Já nem importa. Feito escritor, apresentei um romance meu, o primeiro, numa espécie de livraria, onde se oferece café, numa pequena rua da minha querida Coimbra. Sabes qual é? Sentado num banco de pé alto, para uma dúzia de mulheres com mais de sessenta anos, li excertos que nunca antes havia lido alto e, como se falasse apenas do romance, falei das ruas desta terra onde nasci e das pessoas com quem vivi. Falei de ti Madalena, a mulheres de cabelo pintado, com blusas em tons pastel, à dona da livraria, a um par de curiosos que entraram ao abrigo do frio e pelo cheiro acolhedor dos livros. Enquanto falava, sentia que me olhavam com um sorriso adormecido, como se estivessem congeladas noutro pensamento. A excepção era uma mulher de pescoço esticado para a frente, fato de treino cor de rosa, e um colar que destoava e que gritava alto não ser de fancaria, que sorria quando eu olhava na sua direcção. Era cedo, três e tal da tarde, disso lembro-me bem. Lá fora, havia um sol tímido e um tempo parado, uma estrada sem movimento, a avenida principal. Antes de terminar, li um excerto sobre sexo. Do único sexo que conheci. As velhas gostaram. Várias mulheres compraram o romance, dezasseis euros, e pediram-me para escrever o nome. A mulher do fato de treino cor de rosa esperou pelo fim. Estendeu-me o livro de maneira diferente, conhecia-me bem, e eu a ela.

 

- Eva! Foi só um instante. Meu Deus, um fugaz instante! E agora estás aqui. Não vieste quando me disseste, mas sempre vieste afinal.

- Sim, estou aqui. Foi um instante, mas um instante que deu fruto meu querido. Estou grávida Eduardo.

- A sério? Tens a certeza? Isso é maravilhoso!

- Pois é.

- Mas, tens mesmo a certeza?

- Tenho, Eduardo, não sejas cansativo.

- Mas...estás aqui, agora, a dizer-me isso. E nós...nós...Já se passaram tantos anos. Não posso...Tenho de te perguntar. O filho é meu?

- Pois de quem haveria de ser, minha louca cavalgadura? Estás a insinuar que te meti os cornos alguma vez? Tu és o amor da minha vida.

- Merda Eva! Podes-me chamar-me de louco se quiseres, mas não me tomes por estúpido por favor. É uma pergunta mais que pertinente, não achas? Já se passaram anos e anos. É biologicamente impossível. Além do mais, tu és casada certo? O teu marido chama-se Alexandre não é verdade?

- Ora, ora meu querido. Esse boneco do Alexandre nunca deixou nenhum bichinho no meu útero. Ele usa camisinha sempre, tanto comigo, como com todas as outras com quem fode. Usa camisinha com a tua irmã, eu imagino, para não deixar um rasto permanente que lhe estrague os projectos políticos. Não o negues. Eu sei que ele e a...esqueçamos isso agora. Eduardo, esta criança tem de ser tua meu querido, mesmo que nem tenhas sido tu a gerá-la, tem de ser tua. Se alguma vez me amaste não me recuses isto, por favor.

 

O piano agora, parece até tocar sozinho, e nenhuma nota é mais ou menos falha que a anterior. Pareces tão feliz ai sentada a ouvir-me, e eu, eu nem me atrevo a perturbar-te o sorriso com estas notícias minha irmã. Como te poderei dizer que irei ser pai de uma criança que, sem saberes tu já odeias?

 

 

Casimiro Teixeira

4 comentários:

Pedro Ferreira disse...

Narrativa densa mas que se lê entusiasticamente. Creio que o texto converge para o seu remate final.

Clementina Barros disse...

Excelente

Luisa Vaz Tavares disse...

Palavras sentidas num texto intenso de agradável leitura, a excelência na escrita a que o Casimiro já nos habituou.
Gostei muito.

João Madeira disse...

Excelente mesmo. Em relação à escrita e ao caminho dado à história. Que mais se pode desejar quando se lê, senão a qualidade que já se espera? Parabéns, Casimiro.