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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Madalena dos Olhos Cor de Algas - Capítulo 13


Madalena precisou de espairecer um pouco, continuava a sentir uma lama interior que lhe toldava as entranhas. Lembrou-se de ir para a Foz um pouco, passear à beira-mar, enquanto deixava Eduardo a descansar um pouco mais. Eduardo tinha tido uma noite muito agitada, tendo Madalena que ir abaná-lo várias vezes e aconchegá-lo, devido aos delírios constantes que habitavam a noite de Eduardo.  Ainda por cima ouviu várias vezes Eduardo repetir aquele nome…Aquele nome que desde criança ouvia como a espada que comandava o seu destino… Eva! Eva! Eva!

 
Estava um dia de chuva e vento forte, aquele vento agreste que trespassa a alma sem piedade. Exactamente o que Madalena precisava para expiar toda aquela água suja que sentia dentro de si. Sabia que não tinha tido muitas escolhas na vida, sempre se sentiu levada por um fio qual marioneta na mão de todos os homens que a usaram, sim, sentia-se usada. Mas será que não teria havido um dia em que podia ter escolhido outro caminho?

Sentia-se usada até pelo palerma do Alexandre, que se servia dela para se sentir mais macho, mais viril. Podia ter sido diferente. Podia ter sido uma linda história de amor, porque Madalena podia amá-lo, como podia ter amado outro homem qualquer, desde que ele a olhasse fundo nos seus olhos cor de algas e tivesse visto o mar infinito debaixo da cobertura ondulante das algas ao sabor da corrente errante. Sim, uma errante, era assim que se sentia. Porra de vida. Ia ser sempre assim?

Depois de Alexandre iria encontrar outro homem para outro jogo de quem usa mais quem? Sim, porque Alexandre era já um xeque-mate à vista, depois de ter entregue todo o material a Rogério.

Ai o dinheiro, a bela sedução do dinheiro. Mas será no que no fundo aceitou todo aquele negócio com Rogério só por dinheiro? Ou também para mostrar a Alexandre que ele não era o homem mais poderoso do mundo como ele gostava de sentir que era, tanto na cama, como nas reuniões políticas onde se sentia o deus do poder?

Madalena pensava nisto tudo enquanto caminhava por aquele passeio, bem perto da borda, separando-a do abismo do mar apenas o equilíbrio ténue que Madalena ainda tinha dentro de si. O vento continuava a soprar, qual tornado sem fim, bem forte, bem cortante, qual assassino de emoções.

Na outra ponta da cidade, Alexandre conduzia furiosamente pelas ruas do Porto. Sentia-se numa roleta, sem saber a qual número ia parar. Até há poucos dias, sentia que tinha o mundo nas mãos, que era só uma questão de tempo para ter tudo o que queria. Eva, Madalena, o poder político, que belo triunvirato de adrenalina que lhe corria nas veias e no sémen, num jorrar de conquistas sucessivas, tal como um general romano em campanha.

O carro derrapava nas curvas. Alexandre nem olhava para o lado, atravessando um e outro sinal vermelho sem contemplação. Aquele email. Aquele maldito email que tinha visto ao acordar, no seu telemóvel, junto de Daniela, a secretária do stand de automovéis, que sempre cobiçara e com quem tinha mantido um flirt que o excitava. Tinha-a encontrado por acaso ao pé de um bar onde tinha ido relaxar um pouco depois de mais uma reunião intensa e com alguma crispação no ar por parte dos seus opositores e para pensar um pouco no que fazer com o seu casamento e com Madalena que não tinha dado mais sinais de vida. E tinha sido mais uma noite em que Alexandre se sentira o dominador…até acordar com aquele email. Aquele maldito email. Como é que Madalena tinha sido capaz?

Alexandre sabia que era uma questão de horas até aquele email começar a surtir os seus efeitos. Aquele maldito email. Tinha visto os destinatários para quem tinha sido enviado o email e sabia que o seu mundo estava preso apenas pelo passar dos minutos e horas…Bastava o ponteiro do relógio mover-se um pouco mais e o terramoto que Alexandre nunca previra iria originar um tsunami de proporções gigantescas. Aquele maldito email.

Madalena! Como tinhas sido tu capaz de tamanha façanha? De tamanha traição! Traição, ignóbil palavra que Alexandre tinha adicionado no vocabulário do casamento perfeito. Perfeito até aquele dia, em que se tinha atirado para o emaranhado dos olhos cor de algas de Madalena. Cor de algas…que curioso, nunca tinha percebido qual era a cor verdadeira dos olhos daquela mulher que o consumira num desejo sem fim.

 
E só ali, em pleno excesso de velocidade, sem ouvir as buzinas dos outros carros, é que tinha percebido que aquele brilho era de um verde-alga, passando pelo vermelho-paixão que tingia algumas algas também. Alexandre sentia agora que se tinha deixado cair num redemoinho de acontecimentos, do qual dificilmente sairia sem grandes consequências. Traição, traição…era a palavra que Alexandre repetia incessantemente enquanto carregava no acelerador um pouco mais. Eva, como te pude trair assim?

Eva, Eva…serás tu a minha única salvação? Será que me irás conseguir perdoar, será que conseguiremos recuperar algo do que deixei afogar na lúxuria?

Onde estás tu Eva? Estarás ferida de morte, ou conseguirei de alguma maneira trazer-te até mim de novo e juntos faremos desaparecer as cinzas que este incêndio deixou?

E o carro continuava a rolar sem destino pelas ruas molhadas de uma manhã fria mas ao mesmo tempo escaldante na vida de Alexandre.

Oh Eva! Oh Madalena…! Oohhhh…. e Alexandre tentou agarrar o volante com força e reduzir a velocidade de modo a evitar o choque com aquele camião que tinha aparecido de repente vindo daquela rua que Alexandre nem sabia que existia. Mas o carro rodopiou no piso molhado pela chuva castigadora que parecia ser a mão de um deus a lavar os pecados dos que cairam nas malhas das redes da tentação.

E o carro topo de gama, último modelo da marca preferida de Alexandre, no seu azul-escuro a lembrar o mar profundo, rodopiou mais um pouco, sem controle, capotou e embateu a uma velocidade estonteante numa árvore, que deixou cair os seus ramos, por cima daquele carro, feito jazigo de um destino sem freio. Da fronte de Alexandre escorria um fio de sangue, assim como dos seus lábios e dos seus orgãos internos feitos emaranhado depois de tal impacto. Ainda saia fumo do motor quando o INEM chegou. Estará vivo? perguntavam os transeuntes curiosos. Não me parece, diziam os mais pessimistas. Já viste como o carro ficou? Este já não se safa! Devia vir bêbado, mais um!- diziam outros.

Madalena estacou o passo, e virou-se frente para o mar. Fechou os olhos e sentiu nesses olhos cor de algas, o chamamento das marés impetuosas que batiam contra o paredão. Sentiu os seus pés a quererem levantar do chão e os braços a quererem abraçar o mar que continuava a chamá-la para um mergulho de redenção. E a minha vida acaba assim? Envolta em marés? Mas assim acabava tudo e deixava de vez de ser marioneta. Neste último acto da minha vida, seria eu a decidir o meu final. Era tentador este chamamento libertador do mar. E Madalena inclinou-se mais para a frente, sentido a força da gravidade a ganhar a luta com a sua vida…. Nesse instante ouviu-se um grito vindo do outro lado do passeio….

Eduardo acordou sobressaltado. Só se lembrava das palavras de Eva… - Grávida, estou grávida… Seria verdade ou tudo apenas fruto da sua loucura?
 
Carolina Lemos

3 comentários:

Luisa Vaz Tavares disse...

Sentires tempestuosos que tendem para um final emotivo, com certeza.

Gostei muito, Carolina.

Clementina Barros disse...

Muito, muito bom Carolina
Adirei. Parabéns

Clementina Barros disse...

Muito, muito bom Carolina
Adorei. Parabéns