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segunda-feira, 25 de março de 2013

A Morte dos Cipriotas - Capítulo I


Conheci Arturo Zéfiro na Páscoa de 1996. Vivia, e ainda vive, num casario branco - uma vivenda italiana, como gosta de lhe chamar e como terá visto num filme antigo, apoiando os seus argumentos no cristalino ribeiro que goteja pelo meio do jardim plantado de cameleiras vermelhas e magnólias magrinhas, e na pedra cortada como se artesanais tivessem sido as ferramentas que suavizaram os ângulos gerados rudes pela natureza. Adorna o átrio da entrada um pequeno oratório circundado de flores, umas naturais, cravos, cravetas e rosas brancas, e outras artificiais, destacando-se uma hortênsia mortalmente azul: o oratório de Nossa Senhora dos Ventos. “É uma espécie de oratório familar”, explicava acariciado pelo gentil vento de oeste e pelo calor de um Maio primaveril. “Todos os meus irmãos e irmãs”, continuava Arturo, “por aqui passam em rezas algumas vezes por ano”. Por esta altura, tem quase 90 anos e a saúde teima em fugir-lhe dos ossos e das carnes amarelas – amarelas como as poeiras que se levantam a oeste, rente ao tranquilo Atlântico que espreita depois do muro.

Arturo gosta de limonada, e é a beber limonada que o encontramos debaixo da pérgola de videira americana. A seu lado, Rimbaud, o cão poeta, sacode as moscas com o rabo esquálido. Arturo Zéfiro refere, muitas das vezes de forma inesperada a meio de uma conversa, que o cão ladra rimando ou seguindo o ritmo de um obscuro sonetim italiano. Na mesinha de nogueira, oferta de um tio cipriota já morto e desfeito como a poeira amarela do fim da tarde – e de certo modo, ainda bem, porque assim, morto como pó, ao piedoso cipriota não lhe dói assistir ao suicídio em massa dos seus compatriotas, lançando-se de pontes, edifícios ou penhascos, já desenganados do futuro -, descansa um carcomido livro de viagens, “Correr o mundo”, de um desconhecido Giuseppe Aiuto. De acordo com Arturo Zéfiro, trata-se de um clássico dos caminhos, e de alguns descaminhos também, do Médio Oriente; um livro de viagens, em suma. Um exemplo, escrito assim na página 13: “Depois de passear no Saara com Adara e com Aini pelas mãos, poderei dizer, enfim, com toda a poesia e com toda a substileza de cada grão de areia que o deserto encerra: foi o meu momento de eternidade, o meu momento no paraíso destes e doutros mundos. O idílio morreu brutalmente assassinado por um maldito escorpião que mordeu Ainia na coxa esquerda. A minha queridíssima Aini... Ainda hoje choro por ela.”

Arturo tem uma filha, chama-se Carlinda e trabalha na Junta de Freguesia como secretária do Presidente. Nunca aprendeu dactilografia, refere-o com bastante mágoa, e os computadores permanecem um mistério inexugnável, embora tais instrumentos não lhe impeçam o mister do trabalho. Podemos vê-la correndo e sorrindo, correndo e sorrindo, correndo e sorrindo, abrindo e fechando as portas da Junta de Freguesia, transportando toda a informação, quer aquela exclusivamente adestrita aos neurónios responsáveis pela memória, quer aquela a cuja memória não chega e por isso faz-se transportar em papéis e dossiers intermináveis. Nos últimos dias, todavia, o sorriso aparece menos nos olhos de Carlinda. O governo quer despedi-la. Quando se imagina fora das portas da Junta chora como uma Madalena despedida. “Ninguém sabe como sofro”, confessa ela a cada freguês que lhe adivinha o sorrido apagado no rosto. O marido de Carlinda, Libânio, responsável comercial pela secção de enchidos de uma grande empresa, ainda tentou, muito anos atrás, ajudá-la a ultrapassar a dactilográfica falha, porém sem qualquer sucesso. Nos tempos mais recentes, Libânio ausenta-se de casa durante cada vez mais tempo. Se dantes um dia ou dois de descaso da casa pareceria uma eternidade, nos dias que correm não é de grande relevo que uma semana inteira passe longe dos ares da sua janela e do sorriso agora morno de Carlinda. Cada vez o negócio vai mais difícil, e é preciso que se afaste mais e mais, centenas e centenas de quilómetros, para que venda os mesmos chouriços e as mesmas alheiras que dantes vendia em duas ou três aldeias em redor.

Carlinda deu à luz tardiamente, com quase 50 anos, um milagre que o Dr. Luisinho do centro de saúde - toda a gente o trata assim, e ninguém o faz por demérito ou escondida maldade - tratou dos encómios auferir diante de eminentes geneticistas, como tivesse soltado das suas mãos o sopro divino que aconchegou de boas esperanças as entranhas de Carlinda. Liberto - eis o nome do menino. Neste preciso momento, distrai-se, nas traseiras do casario italiano, com um papagaio vermelho que teima em não subir aos céus.

Paulo Melo Lopes

8 comentários:

Clementina Barros disse...

Povo sofrido, os Cipriotas, a passar por maus momentos, como todos nós. Parabéns Paulo, pela escrita e pelo tema que promete

JoséManuelBarbosa disse...

Um magnífico início de história(s) com que nos brindou o Paulo Melo Lopes!

Parabéns pela escrita desempoeirada e muito interessante!

Abraço!

Teresa Queiroz disse...

muito bom!

Mikashi disse...

Gostei mesmo muito deste início :) uma escrita que me prendeu e agradou muitíssimo :)

António Costa disse...

Adorei o Rimbaud e o Liberto a brincar com o papagaio! Espero estar inspirado quando chegar a minha vez!

Maria Fernanda disse...

Gostei...gostei...e gostei!

Margarida Piloto Garcia disse...

Um belíssimo começo a emprestar asas aos que se seguem.

Luisa Vaz Tavares disse...

Um inicio cativante que, certamente, dará aso a magnificos desenvolvimentos.