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segunda-feira, 1 de abril de 2013

A Morte dos Cipriotas - Capítulo II


Liberto olhava atentamente para o imenso celestial mar, sem ondas de espuma.

 Segurava firmemente o fio para não deixar fugir aquela ave vermelha que teimava em não querer voar. Mas eis, que um repentino sopro quente de Zéfiro, Deus grego do vento, arrebata-lhe o cordel, libertando suavemente aquele pássaro. Foi como um tiro de espingarda sobre um corpo. Subitamente o azul translúcido do horizonte fica manchado com o sangue vivo da dor de uma perda que nunca mais vive. Duas lágrimas de cristal desprendem-se dos seus reluzentes olhos de mel e escorregam suavemente por suas maçãs do rosto, rubras de um sol primaveril.
 

  Corre com a velocidade inerente à sua tenra idade. Sete anos de vida gritando a plenos pulmões pela mãe. Nem olha onde coloca os pés. Parece uma jovem gazela, fugindo de um predador, ziguezagueando pelas lajes do caminho que o conduzem ao átrio da entrada.

  Esbaforido entra pela porta emoldurada de cheiros e cores vivas de uma estação que está quase a partir. Os seus olhos de luz ficam momentaneamente cegos no interior escuro. Pontapeia inadvertidamente uma coluna em madeira, roída pelo caruncho. Com ela cai o jarrão colorido comprado numa feira de artesanato. Quebra-se de imediato com um estrondo, como o troar de um canhão. O chão transforma-se num autêntico pântano.

  Carlinda, já de si fragilizada, entra assustada em casa devido ao enorme estrondo. Demasiado trémula mal se consegue suster de pé.

 “Que fizeste Liberto? O que aconteceu?”

  Nem lhe respondeu, pois nem sequer a ouviu. O seu olhar, vislumbra ao fundo um clarão. Uma luminosidade intensa e um som de uma voz monocórdica proveniente da caixa mágica que transformou o mundo.

  Entra na pequena sala. A luz ilumina o cabelo grisalho que se encontra à sua frente. Sentado na antiga cadeira de baloiço com assento de palha, coberto por uma almofada colorida, habilmente bordada pela sua avó, encontra-se o seu ídolo mais idolatrado - o seu avô, que entrara em casa à procura de uma limonada fresca..

  São noventa anos de sabedoria.

  São noventa anos de saudade.

  São noventa anos de sofrimento.

  Sofre pelo seu país distante que aos 15 anos deixou. Corria o ano da graça de 1938. Uma mágoa que nunca se extinguiu, já que nunca mais lá voltará. Seus pais vieram á procura de um novo alento para as suas vidas, influenciados pelas palavras de ilusão proferidas pelo fotógrafo Francisco Almeida, que lá se encontrava ao serviço do estado português.

  Hoje, sentado no velho cadeirão, escuta atentamente as notícias que velozmente correm por todo o mundo. Notícias de desesperos e sofrimentos, guerras e manifestações contra um sistema económico opressor. Os seus olhos cor de mel denotam amargura e tristeza. Nasce novamente em si a revolta contra uma Alemanha que arrogantemente sempre oprimiu o seu povo. Agora os motivos são pura e simplesmente económico-financeiros, mas em 1974 foi o apoio a uma Turquia ocupante. Entre 1941 e 1945 a invasão nazi que trouxe destruição e morte.

  Arturo Zéfiro, sempre distante, sempre longe.

  Assistindo sem agir, sem nada poder fazer.

  A gritaria de seu neto, fê-lo acordar para a realidade.

 “Então miúdo qual a razão de todo este barulho. Parece que viste um fantasma!”

  Choramingando, Liberto explicou a razão da sua estonteante correria, sem sequer ver que duas lágrimas de cristal brotavam do olhar doce do seu ídolo, cobrindo de alva espuma o seu rosto.

  Um rosto coberto de rugas, testemunhos de uma vida árdua e sofrida.

  Aproximou-se do avô. Olha-o atentamente.

  “Estás a chorar avô?”

  “Sim, mas isto já vai passar. Tu és a felicidade que me faz viver. Tu és o meu pequeno grande homem. Vou contar-te uma história. A tua história.”

  “ A minha história?”

  “ Melhor dizendo a nossa história, que começa há muitos anos atrás, mais concretamente em 1922.”

 


… Maria é italiana. Vive na pequena cidade sulista de Bari, capital da província de Apúlia.

  Tem cabelos cobreados, olhos escuros e lábios carnudos de cor carmim.

  Um bem delineado corpo de adolescente, de 16 anos, fruto para um amor proibido, de onde viria a brotar 5 filhos. O mais velho Arturo, nascido em 1923…

 

  “Tinha o mesmo nome que tu avô?”

  “Sim Liberto. Não só tinha o mesmo nome do que eu. Sou eu. Maria era a minha mãe.”

 

… Depois nasceram o Yannis, a Bianca, a Chiara e o Pétros.

  Devido ao seu estado de graça, amplamente criticado pela sociedade do seu tempo, sociedade esta conservadora e tradicional, teve que fugir. Fugir sem rumo.

  Foi numa escura noite de estio, aquecida por trovoadas secas de uma quente estação estival e iluminada pela ferocidade dos raios saturninos, que embarcou num pequeno bote pesqueiro pertença de seu primo, que com ela corroborou nesta louca fuga.

  Apareceu no cais toda vestida de negro, já que negra se encontrava a sua alma. Vendida ao demónio, segundo rancorosos dizeres de vizinhanças frustradas, de vidas rotineiras, sempre iguais.

  Entrou para o porão, de cheiro intenso a pescado, entranhado nas porosas madeiras ao longo dos anos. Deu-lhe vómitos. Deitou-se sobre um pequeno colchão roído e cobriu-se com um leve cobertor de lã de ovelha, amarelecido com o tempo.

  Partiram rumo ao desconhecido.

  O geralmente calmo mar Mediterrânico transformou-se num revolto gigante Adamastor. O vento uivava ferozmente, empurrando aquela casca de noz, para distantes nós marítimos. E com tamanho balancear e cheiro podre, as entranhas explodiram, e novos odores fétidos, acresceram aos existentes. O descanso era impossível.

  Só lhe restava orar, cantaroladas preces, a uma Virgem apaziguadora de ventos e tempestades. Pedia fervorosamente para chegar a bom porto.

  Preces que foram atendidas. Aportaram três dias mais tarde, na bela ilha de Chipre, na minha língua materna – Kypros que significa cobre.

  Concretamente na bela cidade histórica de Paphos.

  Lançaram âncora de ferro ao mar. Mar de um precioso azul-esmeralda translucido. Uma beleza eterna de onde a deusa do Amor – Afrodite nasceu, tendo a bela espuma alva desse mar como veste.

  Saíram do bote, desesperados de fome, imundos, mas livres.

  A luz da manhã a acariciar os seus corpos, como uma amante em leito conjugal.

  O primeiro olhar de Maria cravou-se no corpo atlético e musculado de Nicholas – o pescador.

 

  A buzina roufenha da furgoneta do seu pai, ecoa pela casa como um trovão e interrompe a história.

  Rimbaud late de satisfação.

  Liberto, com carinho, abraça longamente o seu avô libertando-se de seguida, e correndo ao oratório de Nossa Senhora do Vento, agradecendo por lhe ter trazido o seu pai novamente de regresso ao lar.

 

                                                                                                              Luís Reina

4 comentários:

Margarida Piloto Garcia disse...

Brilhante o 2º capítulo. Está impressionante esta Morte.

Clementina Barros disse...

Excelente
Parabens, gostei muito

Luisa Vaz Tavares disse...

Brilhante desenvolvimento, Luis Reina. A história continua a prender e a escrita é excelente.

Luis Reina disse...

Obrigado Margarida, Clementina e Luísa pelos vossos comentários