Nesta página partilha-se o gosto pela escrita. Escrevemos contos e damos largas à imaginação. Quem quiser participar basta expressar essa vontade aqui, em forma de comentário, e receberá todas as informações que necessitar.

terça-feira, 14 de maio de 2013

A Morte dos Cipriotas - Capítulo VI

Percutiu, vibrátil pelos corredores, aquela melodia pitoresca que ressuscitou o olhar de Arturo.

Entrou na máquina do tempo e eclipsou de corpo e alma até Paphos, a pacata e mística cidade portuária do sudoeste da Ilha de Chipre, local que o viu nascer.

Estava agora no terraço de uma sala imaculadamente caiada, com as portadas de madeira, carcomidas pela brisa marinha, escancaradas para um mundo incógnito que o infinito azul ante vinha.
Naquela sala bailavam versáteis acordes de piano debruados com requinte pelas mãos de Bianca, a irmã mais velha de Arturo.
A acalmia do mar translúcido que banhava o horizonte, agora acobreado pelo mergulho do pôr-do-sol, era mesclada por aquele inconfundível ruído de teclado.
Depois de mais um extenuante dia de trabalho, Arturo, que seguira as passadas do pai, Nicholas, mais conhecido entre a comunidade piscatória como “Gladiador” pelo seu porte atlético, encontrava-se a reparar as redes de pesca.
Fascinado com a música que Bianca ritmava, com um alegrete frenesim de movimentos corporais acompanhados pela valsa dos seus longos cabelos ruivos, idolatrou-a com um sorriso comunicante, como se de uma deusa se tratasse. - Pai, pai, sentes-te bem? - Retorquiu Carlinda, apavorada.
- É ela, só pode ser ela. A minha Afrodite! - As lágrimas de felicidade corriam-lhe pela face, matizando as rugas que todos aqueles anos de distância lhe acresceram ao rosto.
Já tinham passado tantos anos, já nem se atrevia a contá-los, restara-lhe apenas a esperança que o Alzheimer chegasse e lhe levasse a saudade.
 
Corria o ano de 1938. Na tarde fria e chuvosa de 19 de Dezembro chegaram a território português, à prometida terra fértil de novas oportunidades.
Chegaram ao Porto de Lisboa, localizado no encontro das águas do rio Tejo e do Oceano Atlântico, e foram recepcionados pelo caos. Ocorrera um grave incidente, a colisão entre o cacilheiro “Tonecas” e a draga de sucção “Finalmarina” que vitimizou inúmeras pessoas.
Bianca, com os seus 9 anos de muita lucidez, disse “Já parece um mau presságio”.

Nunca se conformou com a saída forçada da sua pátria, e dizia constantemente “Um dia voltarei a ser cipriota".

No Bairro a família de Arturo era mirada de soslaio. Numa cidade maioritariamente católica, os ortodoxos eram vistos como seitas pouco desejáveis, os círculos sociais fechavam-lhes as portas, eram apontados e apoquentados.
Bianca vivia revolta com estas perseguições e exclusões. Já adolescente começou a participar em grupos de índole “pouco claro” aos olhos da ditadura salazarista. Tornou-se uma persona non grata e teve de fugir do País evasiva à PIDE, datava de Agosto de 1951.
Desapareceu sem deixar rasto, nem um bilhete, um aviso, uma pista, nada.
Arturo, com a inesperada agilidade de outros tempos, desceu a escadaria em galope até ao rés-do-chão. Deparou-se com uma jovem mulher sentada ao piano, tinha uns longos cabelos ruivos, e emanava um agradável perfume flor de jasmim.
Tocou-lhe no ombro direito, e ela voltou-se repentinamente em sobressalto. Fixou-lhe um olhar verde água, hipnotizando Arturo que balbuciou numa voz arrastada "Não pode ser?!".

Marlene Quintinha

1 comentário:

Clementina Barros disse...

Parabéns Marlene
gostei muito