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segunda-feira, 20 de maio de 2013

A Morte dos Cipriotas - Capítulo VII

Não! Não podia mesmo ser. Ao piano não se sentava ninguém, o banco não evidenciava marcas de que alguém ali se tivesse sentado e até a tampa cobria o teclado que ele juraria ter ouvido. Porque ouvira. E vira! Não estava doido, estaria? Teria finalmente sido invadido pela doença que tanto receava? E, no entanto, aquele suave aveludar de teclas, aquele corpo de costas ondulantes ao sabor da música, aquele rosto de 22 anos que nunca mais esquecera. Ali. Estava ali. Vira-o. A olhá-lo ansiosa com a força da última nota. A como que esfumar-se com a mesma lentidão do som progressivamente silenciado. Depois, o vazio. O vazio sonoro e visual a fazê-lo sentar-se, cabeça deitada sobre o piano e um nome de saudade, de um tempo ido sem retorno, a sair-lhe murmurado pelos lábios “Bianca”. Queria compreender. Queria ser ele agora, apenas ele. Queria silêncio e não aquelas vozes que, esganiçadas, lá em cima se digladiavam.
De um modo altercado, alterado, esgrimiam palavras como espadas, cortantes, mais ofensivas para quem as ouvisse que para eles, intervenientes na contenda, a decidir em altos berros o futuro do garoto e do velho.
Palavras encavalitadas, vozes entrecortadas. E a palavra “velho” a vestir-se de inválido, empecilho, a denunciar a fragilidade do homem forte que fora. Talvez porque as suas forças não estivessem aqui, neste país, mas lá longe onde o seu sangue deveria correr misturado nas veias daqueles que abandonara. O seu sangue. O mesmo sangue de Bianca que agora, tinha a certeza disso, lhe fizera um chamamento. O seu sangue que só as águas poderiam transportar até à terra que há tanto tempo deixara. E, afinal, que mal estaria a fazer? Tinha 90 anos, ninguém mais dependia dele e, além disso, não queria ser estorvo para ninguém. Aqueles dois lá em cima separar-se-iam, Liberto teria os pais em semanas alternadas e ele, Arturo de seu nome, não faria mais que uma ligeira antecipação ao que em breve lhe chegaria. No mar, na rebentação das ondas do mar, lá em baixo. Elas saberiam bem que fazer com o que restasse de si.
 
 
Trôpego mas decidido abriu a gaveta de um móvel só seu. Um pequeno revolver repousava havia muito tempo entre meias e cuecas. Precisava apenas de uma bala que retirou de pequena caixa. E deslocar-se até à pequena gruta que as águas, quando furiosas, tinham escavado.
Estavam calmas hoje. Pequenas ondas beijavam-lhe os sapatos e mordiam-lhe de frio os pés. Não fazia mal. Daqui a pouco nada sentiria. Levantou o braço empunhando a pistola. Olhou o sol. O sol que era apenas a estrela mais próxima da Terra. Nada tinha de poético. Nada! Apenas uma luz brilhante e natural a fazê-lo semicerrar os olhos. Talvez, acreditava neste momento que sim, houvesse poesia no frio cano da arma encostado à têmpora direita. As águas acariciando os seus pés. O dedo acariciando o gatilho a acariciar a coragem. Agora só mais um gesto.
— Avô!
Um grito, um grito infantil a tolher o som que deveria ter existido.
— Que estás a fazer, avô?
E subitamente a vergonha do velho perante o garoto. A mentira absurda e inocente como só as crianças sabem fazê-lo. E os velhos, talvez.
— A brincar, Liberto – forçou um riso – Encontrei esta pistola com que brincava em garoto e vim para aqui recordar de quando, com a tua idade, brincava aos índios e “cóbois”. E tu que andas aqui a fazer?
— Fugi. Já não podia ouvir aqueles dois lá em cima – de repente, um brilho nos olhos – Olha, avô, e se brincássemos os dois? Eu faço de índio, tu de “cóboi” e eu fujo-te. Apanhas-me?
E riam. Saltavam poças de água morta, borravam roupas de areia molhada, davam alegres gritos de guerra, fingiam desviar-se de tiros e flechas, tropeçavam, equilibravam-se e as suas gargalhadas enchiam de paz aquele oceano agora livre de mórbidas entregas. Quando Arturo escorregou numa rocha polida e molhada e, ao som das gargalhadas de Liberto, se estatelou de costas na areia, olhou o sol. E, não podia jurar, mas achou que o sol sorria para ele, piscava-lhe o olho aquele astro romântico que nem olhos tinha.
Quando se levantou combinaram arremessar para longe o revólver. O mar se encarregaria de o levar para a terra da sua infância. Ele ficaria cá.
Em casa, a discussão tinha acabado no silêncio que lhe dava continuidade. Libânio esperou que Carlinda saísse para o emprego e, sem filho e sem sogro por perto, pegou no telemóvel.
— Estou, Lucinda? Discutimos…sim, outra vez…mais depressa do que imaginas estarei contigo.
Eram pesados os pensamentos de Carlinda quando pisava o caminho que a levaria à paragem do autocarro. Não prestava para nada, não era nada, não tinha ninguém. Era mulher como um trapo por torcer, com cheiro podre por inútil. Nem a carta de condução tirara ou desapareceria para bem longe num carro qualquer. Para que viera a este mundo? Para amar um homem que nitidamente não a amava? Para cuidar de um filho e de um pai prestes a abandoná-la? Arranjara-se bem. Com a melhor blusa e a saia mais engraçada. Para quê? Para…
“Socorro”
Estacou o passo. Olhou à volta e não viu ninguém como era usual neste local onde só a sua casa existia sobranceira ao mar. No entanto…
E a palavra repetiu-se, sumida mas audível na aflição. Viera das escarpas, tinha a certeza, e por isso correu até ao recorte de terra frente ao oceano e, não ouvindo nada, gritou e o seu grito ecoou acompanhado de um gemido bem audível.
Abaixo de si, um homem jazia entalado entre rochas. De novo lhe gritou, agora dizendo-lhe que esperasse, que chamaria o 112. Fizeram-lhe perguntas, perguntas e mais perguntas a que não sabia responder para além da localização. E deu por si depois a descalçar sapatos, a aventurar-se pedras abaixo, a arranhar-se, a prender-se-lhe o vestido, e a pôr-se de cócoras perante um homem nitidamente dorido, com algo partido, que apenas mexeu os olhos e, num esgar de dor, conseguiu sorrir.
 
 
— Devo ter morrido e você é um anjo – disse.
— Cale-se. Não morreu coisa nenhuma e não se mexa. Como veio aqui parar?
— A pesca. Quando não se tem uma cara bonita como a sua, vai-se à pesca. Escorreguei e vim aos trambolhões – a respiração era ofegante – Acho que desta não me safo.
— Claro que se safa. Só tem de não se mexer e ficar calado.
— Isso é difícil. Estou sempre a dizer graças. Talvez por isso ninguém me ature. Mas agora, se morrer, morro ao menos com a visão de uma bonita paisagem.
Carlinda quase gritou:
— Pare de dizer isso. O mar é bonito de se ver mas com vida.
— Não me referia propriamente ao mar. Estou a ver-lhe as cuecas.
Carlinda pensou que aquele homem seria doido. Mas riu-se, teve de rir ao mesmo tempo que se ajeitava na posição.
— Então, por favor, cale-se. E prometo que quando estiver bom lhas envio pelo correio.
Com os olhos algo velados, o homem sorriu ainda.
— Resposta rápida. Teria de ser a morte a trazer-me uma mulher bonita e inteligente? O meu nome é Rafael – e, perante a impotência de Carlinda, perdeu os sentidos. Aflita, sem saber que fazer, apenas retinha que alguém, num eventual derradeiro suspiro, lhe dissera duas palavras que nunca antes lhe tinham sido ditas.

 
João J. A. Madeira   

5 comentários:

JoséManuelBarbosa disse...

A vida muda... a vida muda num instante...!

Bravo, João

Maria Fernanda disse...

Gostei...mas gostei, mesmo...Ainda bem que criaste alguém capaz de ver o que ninguém ainda tinha visto...a beleza de Carlinda e, sobretudo, a sua inteligência.
Parabéns, João

Clementina Barros disse...

Parece que novos horizontes se abrem para Carlinda
Parabéns João pelo excelente conto

Luis Reina disse...

Ainda não comentei por falta de tempo, mas o que poderei dizer sobre a tua escrita. Sem tirar o mérito a ninguém, para mim é o melhor capitulo até agora.
Uma excelente continuação de uma história que pelos vistos ainda está muito longe do final.
Grande Abraço.

Teresa Madeira disse...

Eloquente texto este que nos mostra claramente o porquê da escrita ser tão mágica. Tem este poder de nos encher de esperança de que nem sempre as coisas correm mal. Quando bem feito é delicioso ler....e é o caso. Parabéns!