Nesta página partilha-se o gosto pela escrita. Escrevemos contos e damos largas à imaginação. Quem quiser participar basta expressar essa vontade aqui, em forma de comentário, e receberá todas as informações que necessitar.

terça-feira, 18 de junho de 2013

A morte dos Cipriotas - Capítulo XI


Algures numa outra espécie de universo regido e sincopado pela quase inexistente batida do coração, Arturo não ouvia os gritos de Liberto nem sentia mais as toscas lambidelas de Rimbaud.

Perdido numa nebulosa de tons azuis e dourados, os cheiros agudizavam-se numa estranha sinestesia. De repente tudo parecia concentrado num só objetivo, numa só missão de vida após os 90 que lhe tinham sido permitidos.

 
Regressara a Coral Bay, à praia dourada de pedras polidas brilhando em misteriosas cores nos charcos de água salgada que se formavam ao longo dela. As aves marinhas soltavam gritos sobre a sua cabeça e o rasto de uma tartaruga ainda se avistava na praia deserta no despontar matinal.

À pungência da maresia juntavam-se os aromas frescos e anisados que o interior da ilha enviava na brisa doce e mediterrânica.

A Chipre de Arturo era um país sob a bandeira britânica mas aquilo que por ela sentia não tinha a ver com noções estritas e políticas de pátria. Para ele o amor à terra e àquele mar azul, era uma segunda pele da qual durante tantos anos sentira uma saudade imensa.

E agora ali estava ele , levado num último sopro de energia, como se um milagroso regresso às origens fosse a chave final com que a vida encerrava o seu ciclo.

Ali se fizera homem, quando aos fins de semana saía a pé de Paphos e sem medos nem cansaços seguia até à deserta Coral Bay.

 Fora Egeria, 10 anos mais velha do que ele e filha de um pescador, quem lhe desvendara os mistérios do amor. Na praia deserta aprendera as rotas do corpo, bebera os elixires do amor e gritara com as aves enquanto o corpo se retesava na areia dourada beijada pelas águas transparentes.

 

A batida do coração desaparecia quase , diluida num breve murmúrio, suspensa num suspirado final.

Agora os odores tinham ficado mais acentuados à medida que ele recuava na história de vida. Maria, sua mãe, atarefava-se na cozinha e os cheiros da strapatsatha, do húmus, da beringela assada, pareciam substituir o sangue que já quase deixara de correr nas veias. O último Natal na sua amada terra, o aroma quente da canela e a vasilopita que nunca faltara na mesa foram a última sensação que o exauriu e fez partir.

 

Presa de um estranho pressentimento Carlinda olhava Rafael suspensa do que a arrebatava, como se algo a impedisse de viver, de respirar sequer. Era um aperto que a engolia como uma boca escancarada, um buraco negro que a sugava desviando-a dos seus prováveis desatinos.

Rafael que naquele momento a desejava , não sabia se para se salvar de si mesmo, ou porque um sentimento quase algoz se infiltrara nele, apercebeu-se e apertou-a nos braços

Carlinda tinha dentro dela algo desconhecido que não sabia entender. Não percebia se era um aviso qualquer, se apenas muito simplesmente o apelo da paixão que teimava em calar. Tinha em si uma fornalha mesclada por epidérmicos calafrios e uma nova geografia corporal, toda feita de de cumes em flor e riachos escondidos a correrem desenfreadamente.

Sabia que nunca fora amada como queria. O seu casamento nada tinha de romântico, nem de partilha de sentimentos. Era apenas um dever que cumpria mecânicamente, como se já tivesse nascido destinado que assim fosse.

 
Por fora escondia-se num tímido vestido, numa madeixa de cabelo a tapar o fulgor do olhar. Por dentro rebelava-se, a pele a gritar por ser tocada, os seios alvos a rebentarem anseios, o ventre rubro a parir constantemente êxtases incontáveis dos quais apenas as suas mãos sabiam o caminho.

Olhava Rafael e não sabia bem o que queria dele mas tinha a certeza do que fazia, quando deixou cair o vestido aos pés e o olhou com a fome de uma mulher só.

Ele esqueceu tudo no momento ébrio e alucinado da visão de Carlinda.

Ali estava ela, quase pura e intocada como se nunca as mãos de alguém tivessem passado por ela, falado nela, brincado nela.

Rafael perguntava-se se ela tomara a sério as propostas dele, mesmo quando as rejeitara num eterno desprender-se de si própria, num desamar-se que a vida erradamente lhe ensinara.

Contara-lhe a verdade, o desespero que o acometera e o levara numa hora insana até às rochas. Fora cobarde, sabia-o.

Mais cobarde era agora porque a verdade não estava inteira, tinha outras faces e era tão curta e fugaz quanto o último raio de sol. Era uma verdade pela metade, porque o som de todas as palavras era demasiado áspero e pesado, rugia-lhe contra os dentes cerrados, impedindo-o de  gritar, boca aberta  e olhos iluminados, aquilo que Carlinda devia saber.

Aquele segredo penoso que o amarrava numa impiedosa vergonha ficou encerrado na garganta, estrebuchando na tremenda raiva e agonia por se soltar.

Mas ela parecia uma flor trémula, uma espécie de papoila frágil, vermelha e aveludada mas prestes a perder as pétalas mal a desdita lhe tocasse.

Que fazer agora? Que fizera ele?

 Desviou os olhos dela e fitou assustado o vestido azul com bolas brancas que jazia no chão, como uma mancha a macular-lhe a consciência.

Como podia falar-lhe de Álvaro?
Margarida Piloto Garcia

1 comentário:

Clementina Barros disse...

Uma delicia este conto
Parabéns Margarida,pela forma subtil
e poética com que escreves