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quinta-feira, 4 de julho de 2013

A Morte dos Cipriotas - Capítulo XIII


Numa nebulosa que se adensava em sentimentos díspares, as sombras de fim de tarde alongavam-se pesadamente negras em ocaso de conjunturas. Manchas anil, fogo e púrpura, descaíam do céu absorvidas pela terra que as ia exalando, lentamente, em minguantes de luminosidades que se transformavam em formas melancolicamente escuras e tristes.

Até o banco vermelho, descascando tinta, projetava sombras fantasmagóricas que deslizavam sobre a relva já madura de entardecer.

 


Rafaelo, absorto em libidinosos pensamentos, já não meditava no filho que não era seu filho, nem em Mariana que tinha sido mulher em dias por inteiro, mas apenas em Carlinda mulher inteira por um dia.

 

Arturo, irremediavelmente defunto, era ainda mais sucumbido pelos prantos de Carlinda e Liberto que, entretanto, tinha despachado o Dr. Luisinho ao ouvir os gritos lastimosos da mãe.

Rimbaud, voltando à cena da incontinência lacrimosa, uivava em desgostos de memória canina transformando o ocaso, em caso ainda mais crepuscular.

A umas centenas de quilómetros, Libânio repelia a filha que se lhe agarrava aos joelhos, descarregando na mãe o peso do adultério que não era pretensão sua dar a conhecer.

 

Toda a incomensurável enormidade de atos e situações se conjugava e convergia para o final infeliz que se fazia anunciar nos últimos capítulos.

Chipre não tinha culpa, nem o Mediterrâneo Oriental, nem Nicósia que desconhecia liminarmente o que se passava em Paphos. Apenas quem escrevia esta história era o vero responsável pelos acontecimentos passados e os vindouros.

Exceptuando (coloquei um p antes do t e o computador deu erro! Maldito acordo ortográfico que nos retirou a individualidade e a dignidade linguística!) os chouriços e alheiras (estas últimas que presumo terem sido os cipriotas, em agradecida homenagem aos judeus portugueses, a fabricá-las, ou se teria sido Libânio que, nas suas saídas libertinas de oferta de enchido, tivesse passado por Trás-os-Montes), tudo se mantinha incongruente e sinistro, tal e qual uma Troika em dissidência declarada com o FMI.

 

O Dr. Luisinho, qual ministro da economia, já tinha arranjado solução economicamente arrastada mas, a seu ver, viável para sepultar Arturo Zéfiro.

O Padre de Paphos, que dormitava beatificamente antes de a sobrinha lhe servir o jantar, foi puxado pelo médico para ministrar uma Extrema-Unção, já para além dos extremos da compreensão.

 

A umas centenas de quilómetros e ainda empolado numa discussão com Lucinda, o telemóvel de Libânio vibrou:

- O meu pai faleceu! Que pena não teres sido tu em vez dele! – e a voz que ele tão bem conhecia suprimiu-o imediatamente da linha.

E como uma desgraça nunca vem só, a filha Aurora, que teimava em sentar-se nos seus joelhos, embora com dois anos e sem usar fraldas sem a devida contenção, urinou-o despreocupadamente em infantil sorriso. E Lucinda, já farta da logorreia do amante, despejou-lhe a jarra com hortênsias azuis pela cabeça abaixo.

Inundado na sua integridade de homem, sacudiu-se com petulância e abalou porta fora rumo à carrinha dos enchidos, enfunado de orgulho ferido, mas pensando interiormente se o velho teria deixado algo em testamento.

 

Deixando Libânio em águas mornas, outra questão assaz importante e que não poderia ser descurada, dizia respeito a Rafael:

- Por que motivo não tinha falado a Carlinda do pseudo filho?

Autêntica trama de telenovela se, e digo se, a polícia não andasse de olho em Rafael por suspeita de pedofilia. Aliás, outras suspeições circulavam relativamente a Mariana e à sua morte, havendo vizinhos que afirmavam peremptoriamente (outra vez o raio do p foi recusado pelo corrector, agora o c, também foi desprezado pelo acordo ortográfico, à revelia instalado neste computador) que ela se tinha suicidado devido à constante perseguição que o padrasto movia a Álvaro. Pois Rafael, de olhos de mel, havia casado, após divórcio litigioso, com Mariana. Sentindo-se acossado pela polícia e, mais tarde ou mais cedo, desmascarado, tentou o suicídio como já foi lido em capítulo anterior.

 

Mas voltemos a Paphos na precisa altura em que Libânio chega ao volante da carrinha de enchidos, cheio de presunção e aparente aflição, mas com o veículo já vazio de gasóleo devido à velocidade que imprimira na viagem.

- Linda, Linda, que grande desgraça! E eu que gostava tanto do meu sogro, não havia ninguém que se comparasse a ele a contar histórias! – e tentava lacrimejar sem que uma única gota de orvalho em plena noite assomasse aos seu olhos.

Mulher e filho olharam-no de alto a baixo, sem lhe mostrarem um dente ou simularem um abraço. Voltaram-lhe as costas ostensivamente e o silêncio caiu com o estrondear do desprezo. Até a Senhora dos Ventos, em milagre não presenciado, lhe voltou as costas de madeira esculpidas por Pétros.

 


O funeral constituiu um acontecimento não presenciado há muito tempo, com toda a população habitante de Paphos e alguns emigrantes, em cortejo sentido e carpido, de presidente de junta de freguesia à frente. Até o arcebispo Macário, se fosse vivo naquela altura, gostaria de presenciar tão sentido préstito.

A acompanhar o avô e amigo de eleição, Liberto transportava o papagaio de papel vermelho suspirando para que uma rabanada de vento o elevasse cruzando os céus e acompanhasse na sua ascensão a alma de Arturo. Este, durante toda a sua longa vida tinha rido, vivido, amado, nostalgicamente sonhado e agora, apenas como uma vela que se sopra, tinha-se apagado…

Rafael, de óculos escuros e semi escondido por um cipreste, acenava um último adeus agitando na mão as cuecas de Carlinda.

Quando a urna descia à terra, uns acordes de piano, inicialmente muito ténues mas que foram aumentando em crescendo, fizeram-se ouvir. Um dedilhado suave como brisa de verão, soltava notas como folhas desprendidas de árvores que volteavam, enlaçavam os sentidos, até esquecerem a força da gravidade que, suavemente exercida, as fazia pousar delicadamente no chão argiloso e poeirento do cemitério.

 Bianca, em espírito, tocava um Nocturno em ré bemol de Chopin. Todos ouviram e nunca ninguém soube explicar a origem da melodia. Mentes mais supersticiosas atribuíram o facto a um milagre da Senhora dos Ventos.

 

Após as cerimónias fúnebres, na branca “vivenda italiana”, de mãos dadas e lágrimas que ritmadamente caíam em sintonia no chão de madeira carcomida, Carlinda e Liberto abriam o móvel indiano em madeira de sândalo, no qual Arturo nunca deixara tocar. Na gaveta, por entre fotografias a preto e branco que quase se desfaziam no pó em que se tinham transformado, apareciam Yannis, Bianca, Chiara, Pétros e Maria, figurando também o recém-falecido. O pai deste e o marido daquela incognitamente tinham desaparecido deste baú de recordações.

No fundo da gaveta, bem escondida, encontrava-se uma velha sacola de trazer à tiracolo, em couro já roído e usado pelo tempo com uma etiqueta onde se lia “Made in China”.

Abriram um pequeno fecho rotativo em latão.

Sentiram no seu interior um papel espesso enrolado como antigo pergaminho.

Retiraram-no.

Desenrolaram-no e leram: -…
Fernando Magalhães

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