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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo III


Entretanto, no outro lado do Mundo, numa pesquisa frenética de sala de operações, analisavam-se ficheiros, links, ‘spams’, imagens e tudo quando pudesse ser útil para encontrar a password dos ficheiros encriptados. A expectativa pairava ansiosa naquele sótão da Rua dos Contrabandistas nº 10 da Freguesia dos Prazeres, em Lisboa. O Colaço, debruçado sobre a bancada e quase entrado pelo monitor adentro, varria os ficheiros batendo sem piedade as PgUp e PgDn com uma agressividade de militar.

Rara oportunidade esta busca online no laptop dela, era de aproveitar e, embora a seis mil quilómetros de distância, era ali, na ponta do dedo transpirado que podia estar a magia de entrar no mundo da investigação jornalística e das suas fontes ocultas.

A chuva crepitava na vidraça com uma fúria cadenciada de rajada, enquanto ele empurrava nervosamente as armações dos óculos grossos contra a testa enrugada e batia as teclas. Estava a ficar sem cigarros, precisava descer aqueles noventa e cinco degraus até à loja da esquina, o cubículo adensava-se de fumo e a noite aproximava-se temerosa. Nada… tinha um dead line e, nada… não tinha encontrado a password que abria os apontamentos da Patrícia e Giuseppe não aceitaria mais falhas. Talvez com scroll lock utilizando o seu aplicativo velhinho que destrancava os jogos todos. Foda-se! Já não tenho idade para estas merdas!

 


Estava um velho o Colaço, um caco, tinha sido um bom técnico de comunicações da Marinha; morava mesmo ali, na Rua da Correnteza de Baixo e estava “destacado” no Tribunal Marítimo de Lisboa numa eterna comissão de serviço imposta. Imposta porque presa às suas capacidades incomuns de detectar letras e algarismos fora do lugar e deles ler coisas importantes. Presa, porque o Colaço, não existia, como pessoa. Eternamente.

Medalhado por relevantes serviços à Pátria várias vezes, tinha passado à disponibilidade como Sargento-Mor e, por falta de solicitação e utilidade, dedicara-se à informática e, daí a um ramo mais específico da informática, a pirataria, e daí, levou com dois balázios, esteve quase morto, foi preso ainda nos cuidados intensivos do São Francisco Xavier, julgado na enfermaria, pensava ele, e remetido para o Hospital da Marinha em absoluto sigilo. Fora dado como morto.

O Correio da Manhã anunciara em parangonas que “Um sargento da Armada, ex-operador cripto no Ultramar, agora colaborante dum grupo de terroristas internacionais fora apanhado e morto esta manhã na posse de material informático comprometedor” o Diário de Notícias informava que “um sargento da Marinha Portuguesa baleado ontem no Restelo desaparecera misteriosamente dos cuidados intensivos do Hospital São Francisco Xavier, não se sabendo como, nem o seu paradeiro”, nas televisões, após as aberturas estridentes sobre o último jogo Sporting-Benfica onde se presumia o favorecimento deste por um trio de arbitragem onde o quarto árbitro - bem, não interessa - “Faleceu esta manhã o S-Mor Joaquim Colaço de Albuquerque, herói do Ultramar condecorado no último 10 de Junho com a Medalha de Serviços Distintos grau bronze, em resultado de ferimentos provocados por dois tiros desfechados à queima-roupa por dois indivíduos e…” - enfim, não se sabia nada…

De modo que, ‘O Colaço’, como era conhecido na Unidade, morrera.

 

Daniel Albuquerque estacionara com todo o cuidado o seu jaguar XF na curva do Mónaco e, presciente, ligou o número do seu irmão de leite. Atenderia sim, tinha a certeza…

Conduzira desde Sintra com um mau pressentimento, mas enfim, o Dantas queria o jantar naquele dia e, porque não? Não podia dizer que não a quem tanto tinha ajudado o Vasco e, principalmente o Duarte, o seu predilecto. Mas o Dantas, desde que se ligara aquela malta do SIEDM tinha ficado estranho, menos comunicativo, menos cordial, menos afectivo até; um dia disparara-lhe com esta desfaçatez, “Daniel, eu sou pago para ser curioso, mas não me faças perguntas! Ouviste?”, não se faz; tantos favores lhe devia e…

- Está? Joaquim?

- Quem fala!?

- Ó pá! É o Daniel!... há quantos anos!... que é feito? Não de vejo desde que morreste…

- Hã… Olá Daniel. Como soubeste este número?

- Ó pá, eu sou pago para ser curioso, mas não me faças perguntas, eh eh eh… tomamos uma bica ou estás ocupado?

- Pois… Olha… Estou a acabar um trabalho e… Não sei. Talvez depois…

- Ó pá, ainda andas metido naquela coisa… Como é?... Esteganografia?

- Hum… quem te diz essas coisas? Isso é tudo mentira…

- Isso é o que te parece! Ouve só isto; vou-te ler “Solicitado amiúde para trabalhos específicos, uma vez que não tem equipamento, junta-se habitualmente a um grupo de rapazolas que se dedicam às cópias de filmes e jogos mesmo na rua ao lado da sua casa e perto do seu emprego cárcere”…

- Daniel…

- E mais; diz quem sabe que o teu último entretém para “umas determinadas pessoas” é exactamente aquilo, como é? Es-te-ga-no-gra-fia… mas que raio é isso Quim?

- Daniel…

- Diz lá!

- Como vão os meninos?...

- Olha Quim, também é para os ajudar, não te incomodaria por coisa pouca. Vou aí ter contigo agora e não me demoro. Está em casa?

- Estou a chegar, mas agora estou ocupadíssimo com um trabalho que…

- OK, daqui a quinze minutos estou aí e até te levo aquela fotografia que tanto me pediste e…

- Daniel…

- Até já!

 


Daniel e Joaquim nunca se tinham dado bem. Da mesma exacta idade, criados juntos na quinta de Colares até completarem a escola primária, foram separados cada qual para o seu mundo aos nove anos. Filho de patroa não vive com filho de criada; para mais bastardo. Deram-lhe o nome (a terminação, como lhe chama Colaço), cumpriram o dever mas, humilhações não. O catraio foi para Lisboa viver com a avó e a empregada, enquanto manteve o viço, ficou.

Encontraram-se no serviço militar, já colocados em Luanda. Joaquim na Marinha, como operador de comunicações, Daniel na Força Aérea, como controlador de tráfego aéreo. Foram falando em ondas curtas durantes as comissões, mas, de feitios antípodas encaravam-se com um amor-ódio alimentado pela exuberância dum e a competência do outro.

Já na Metrópole, em jeito de “angústia para o jantar” encontravam-se com alguma periodicidade fingindo afectos e argumentando as suas vidas. Joaquim mantivera-se solteiro, Daniel casara com a Beatriz, “a flor de Sá da Bandeira”, e tinham dois filhos que gostavam muito do tio Colaço.

Joaquim nunca perdoara ao Daniel ter-lhe roubado o amor da sua vida, e tinha sido ela, e só ela, que o mantivera vivo quando fora baleado. Só ela.

- Olá Joaquim! Está escuro aqui pá, quando mudas de casa? Sempre a mesma cave! Estás fino? Pega lá a foto. Já nem te lembras de ti assim hã?… em que ano foi?

- Olá Daniel… nem sei bem… só sei que me dá ecos de África. Então que te traz por cá?

- Olha, um amigo, bem, não te posso dizer quem é, tem um cliente que se esqueceu duma password e… bem, vê lá se descobres alguma relação com essas letras que o tipo está mesmo enrascado. És capaz, ou não?

- Não sei Daniel… isso não funciona assim, sabes, temos que ter uma relação, saber alguma coisa sobre o que motiva a pessoa, quem é e com quem se relaciona, algum hobby, sabes…

- Ó; lá está tu! Não compliques, aponta aí, “CHIAWITSWEL”.

- Daniel…

- Escreve lá essa porra homem. Posso dizer-te que a pessoa conhece Angola como nós e tem negócios no Namibe.

- Em Sá da Bandeira?

- Sim pá, na terra da Beatriz. Vá; quando chegares a uma conclusão apita. Mas não demores hã? Olha que parece ser um caso de vida ou de morte! Precisas de alguma coisa?

- Não… Vou tentar… Talvez com a Cifra de César ou com a Tabela de Vigenère… Não sei, um Quebra Cifras, talvez…

- Amanhã telefono-te. Talvez possamos beber uma bica. Resolve isso! Ouviste?

José Bessa

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