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terça-feira, 17 de setembro de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo VI

Duarte, o irmão do Vasco e ainda há muito pouco tempo no Brasil e desaparecido agora, deixou o último rasto no jipe abandonado na praia. Daí para a frente, mais nenhum lastro da sua passagem; mais nenhum indício da sua presença. O jipe, abandonado na praia, era o único sinal de si. Num desaparecimento que poderia ter sido por afogamento, mas cujo corpo por de mais procurado, jamais foi encontrado. Procurado dias e dias por barco, avião, helicóptero ou outro meio de busca, nem rastos do Duarte. Devorado por animais marinhos o seu corpo?... Raptado?... Assassinado?...

Este Duarte era uma pessoa reservada. Parca de conversa com amigos. Quase um misantropo. Muito invertido e perdido nos seus pensamentos em contínuas meditações. Um jovem, de certo modo, desligado das apetências da vida e muito mergulhado na leitura das ciências genealógicas. De modo especial, na pesquisa dos seus antepassados mais remotos cuja recolha de elementos das gerações dos dois últimos séculos ele já tinha. E por isso foi até ao Brasil E por isso o Brasil deixou. De forma enigmática. Misteriosa… A genealogia era, de certo modo, uma obsessão que o distraía do todo que o rodeava. Nem irmãos; nem família; nem estabilidade profissional…Nada! E por isso, ele era uma espécie de andrajoso andarilho de biblioteca para biblioteca ou de “sítio” para “sítio” na net. Na busca de agulha em palheiro. E isto porquê?... Porque descobrira que o pai do início da sua geração também era Português com descendentes espalhados na diáspora dos quatro cantos do mundo. Descobriu, na poeira das pesquisas, que era oriundo das serranias de Montemuro, numa aldeia perdida nas fragas rochosas das terras do demo. Este seu antepassadoera pastor de gado caprino e descobriu que havia muitas aventuras que dele se contavam de lutas com lobos. De que sempre saíra vitorioso. Mas com muitas cicatrizes. Que para ele eram condecorações que nenhum preço ou outro feito pagaria.

 Fascinado pelo viver de isolamento nas serranias inóspitas, este seu primeiro ascendente criou no seu imaginário cenários empolgantes mesmo na frugalidade de um viver assim. Esquecido horas a fio na net, depois de encontrado o rasto deste seu progenitor de há séculos perdido no seio das montanhas, ele encontrou também o arquivo do seguinte episódio escrito pelo punho desse seu antepassado, com bico de pena de asa de pato e tinta do sangue das suas veias…

“(…). Era numa noite de Dezembro sem luar. E eu caminhava para casa pela serra do S. Macário e tive de atravessar o portal do inferno. Quando me apercebi, vinha a ser seguido por dois lobos. Os lobos não atacam logo. Os lobos apenas acompanham o homem… até ao momento em que o homem fraqueje, se desequilibre e caia desamparado. Em relação ao homem, o lobo sabe esperar pelo momento certo. No seu primeiro sinal de fraqueza… E eu estarrecido de medo e a pensar: vai ser aqui que eu vou escorregar!... E vou morrer esfarrapado pelos dentes dos lobos!...Mas não! Mesmo em noite sem lua, eu fui caminhando… E perto de mim, os lobos também… E eles e eu passámos o Portal do Inferno… Até que apareceu uma luz de um outro pastor com o gado de regresso aos currais e bem protegido por matilhas de cães. A partir daí, os lobos deixaram-me. Ficaram para trás. Um susto, na minha vida!(…)”

 
 Aqui, nem sequer houve luta. Escreveu ele. Mas em outros casos anteriores e depois deste, essas lutas eram corpo-a-corpo, sentindo ele na sua garganta o roçar dos dentes das feras que acabavam por se ir embora sempre que ouviam cada vez mais próximo, o latir frenético dos cães. Mas não saía dessas lutas sem rasgos profundos na sua carne. Depois, também estava escrito numa espécie de diário que esse seu antepassado, de nome Pedro, com a ajuda de outros pastores e protecção dos cães, dos lobos se vingava construindo os fojos para os quais atraía as feras. Os fojos eram covas circulares, fundas, numa espécie de poço largo e ladeadas por vários muros em forma de anéis intervalados por corredores. No fundo dos diversos patamares, este Pedro colocava carne de rês morta e cujo cheiro a sangue os atraía. E os lobos, saltando de muro em muro iam descendo até ao fundo na busca do alimento. Então o Pedro, que os espiava, aparecia, munido de cajado e de um bom punhal. Os lobos, vendo-se descobertos e encurralados tentavam galgar esses anéis de muros para se escaparem. Porém, sem êxito porque se os muros eram fáceis de saltar para baixo, impossíveis de subir por causa da sua altura. E também pelo punho deste Pedro, também escrita por tinta de sangue, histórias de uma serpente gigante que assaltava os moradores pela calada da noite… No lugar da Serpe…

Estas histórias de luta entre os homens e as feras entusiasmaram tanto o Duarte que ele, deixando o Brasil, ao arrepio de todas as formalidades de emigração e de comunicação aos familiares e da sua própria identidade e segurança, viajou clandestino nos vãos de um dos navios para Portugal. Todavia, com saudades e até um sentimento de ternura inesperado pela Patrícia… Gostava de a ver outra vez…Mas decidiu romper com passado e aventurar-se num futuro que só a Deus pertence..

 E como um foragido aventureiro e iludindo todo o seu percurso de vigilância, por mar e por terra, chegou às inóspitas e duras terras do demo  e embrenhou-se na serra. E como um marginal de quem ao princípio todos desconfiavam, ele foi ganhando a confiança dos pastores da aldeia. E em pouco tempo, também já era vezeiro dos rebanhos. E consigo, além do farnel e do cajado e da companhia fiel dos cães, o que é que ele levava consigo?... Um IPOD touch de quarta geração, andando assim a par de tudo quanto se passava no mundo. E ao ver, pela net, as notícias das buscas da sua pessoa pelos cantos mais inesperados do Brasil, ria-se. Apenas lhe deixando saudades a Patrícia… E assim, enquanto vigiava as cabras nos tempos da Primavera ao Outono, sentava-se num dos muitos penedos entre a urze e o mato e deliciava-se a ouvir o sussurrar da brisa pelas arestas dos penhascos da serra enquanto seguia com os olhos o planar descontraído e vagaroso da águia de asas abertas, sob o azul do céu…

Se este Duarte já era misantropo e amigo da solidão, num ambiente destes de silêncio; de paz; de quietude, ele passou a viver uma vida de eremita. E a deixar ouvir os seus pensamentos. Que guardava numa espécie de outro diário… E no registo do seu IPOD, entre outros, estava este…

“No barulho; no meio do nervosismo; na confusão, muito dificilmente nos encontramos connosco próprios O encontro connosco mesmos, com a nossa interioridade, é no silêncio que acontece; no isolamento; num desligamento, momentâneo ou temporal, do mundo em que nos encontramos no nosso quotidiano.

Não significa isto uma fuga às realidades; aos problemas; às dificuldades que diariamente encontramos. A fuga às realidades não as elimina - antes nos enfraquece. Enfrentá-las, e se possível vencê-las, é um acto de coragem e de afirmação. E de necessidade também. Só isso, é já uma vitória sobre nós mesmos e da qual nos vêm energias e capacidades para enfrentar e vencer outros desafios.

A vida é uma luta constante, onde, porém, nem sempre a vitória acontece. O fracasso é também natural. Se a queda é um acidente, o levantar-se é um acto de coragem e de dignidade. Ora, para pensarmos também nisto, precisamos de repouso; de silêncio; de isolamento; de interiorização.

 
Na solidão da montanha, sobre as escarpadas fragas dos penedos, de onde a água brota abundante e cristalina; onde a fúria do vento fala uma linguagem áspera e selvagem mas também cheia de musicalidade; onde a fúria do vento ora verga até ao chão a crista da árvore, maleável, dócil, meiga; ou quebra a de porte altivo num ranger de estertor e de ecoar, dolorido, pelas quebradas, orgulhosa e ciosa do seu aprumo; da sua verticalidade; na solidão da montanha onde, ora a chuva cai forte e me encharca até aos ossos, ora o sol espreita, brilhante, por entre nuvens pesadas e carregadas de água; na solidão desta montanha onde sinto os pés colados à terra e respiro o fluido aromático da vegetação desde o musgo à erva do campo; neste universo de agressividade e doçura, de sons de vento e silêncios, é onde eu me sinto mais eu.

A vila, o movimento, o bulício, estão bem lá ao fundo, ao longe. De onde me chega, brando, apagado, o som do sino. Entre mim e a vila, esta distância de isolamento e silêncio; de pausa e de meditação.

Falei, atrás, na docilidade da árvore que o vento verga até ao chão. Como que num acto de submissão, de humildade. Como falei na árvore de antes quebrar que torcer, ciosa da sua independência, da sua verticalidade.

Será assim? Não estará nesta o símbolo do orgulho insubmisso e naquela o da despersonalização, da cobardia, da falta de coragem? Talvez estas dúvidas se pusessem, se fôssemos nós a árvore agitada pelo vento.

Todavia, estas árvores são elementos da Natureza e reagem naturalmente em gestos  inúteis e  perdidos. Árvores, portanto, com a sua individualidade própria nem positiva nem negativa: de uma submissão e altivez que só existe no nosso imaginário.

Regressemos à minha identificação.

Neste ermo, onde o sol espreita, brilhante, por entre pesadas nuvens a rebentar de água; neste ermo, onda a água desce, cantante, da penedia; neste ermo onde o vento ora arranca harpejos da folhagem da árvore, ora gritos enigmáticos, é onde eu me sinto mais eu.

A minha interioridade é esta expressão da Natureza onde o belo e o medo se encontram e se plasmam formando uma realidade nova: de paz e inquietude, onde há gritos e há cânticos; onde há fúria e mansidão; violência e docilidade. Estes contrastes no ritmo de uma tensão constante..”.

 Este Duarte, é isto o que está a ler nos textos guardados no seu IPOD enquanto os cães, a ladrar, lhe dão sinal de que há lobo por perto… E cada vez mais perto, também, o sítio onde morou o progenitor que procura da sua geração.

Enquanto, do outro lado de lá do Atlântico, já se estava num inferno de diligências de burocracias indispensáveis para a oficialização por morte do seu desaparecimento por afogamento identificado num outro cadáver que deu à costa e como sendo o seu, o Duarte monologou um “morri. Vão enterrar-me”… Mas não se abala nem fica apavorado e até desafia o futuro: “Veremos, agora, daqui em diante o que irá acontecer!.. Todavia, de tanto amar, agora, esta vida quase nómada de pastor da serra, este episódio da sua morte esquece para contemplar e se deliciar no paraíso de tanta liberdade e tanta paz…

Pedro Marques

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