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terça-feira, 1 de outubro de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo VII


Duarte não tem um lado obscuro. Duarte é obscuro! Com os outros! Calcula e ensaia gestos e passos e contabiliza atitudes de acordo com o seu benefício. Na sua quase mística realidade pastorícia ele sabe-se a si mesmo como sendo um homem gélido de personalidade cínica. Para si!

Desde criança que se sabe dissimulador e com facilidade leva a água ao seu moinho. Os seus enormes olhos negros puxavam facilmente as lágrimas fazendo ceder o raspanete mais bravo ou o castigo mais penoso. Fácil levar a mãe e as irmãs mais velhas. Menino de mimo e beicinho, Duarte imediatamente esquecia o pranto depois da vontade feita. Vasco, o seu irmão, não tinha a sua candura. Destemido e frontal representava, simultaneamente, um rival e uma admiração invejável a seguir. No entanto Duarte não tinha um lado direito e um lado esquerdo, uma razão e uma emoção. Duarte foi e é um traço contínuo de quereres obstinados. Sem barreiras, sem sentimentos ou arrependimentos. Esta sua forma escura de ser esbarrou com Patrícia. Não fazia parte dos seus planos ser pai. Nem amar. Nem prender-se. Patrícia foi diferente das outras mulheres pelo tempo de duração na cama. Mas como em todos os peões que vão passando na sua vida, Duarte soube mais uma vez jogar a seu favor. Claro que acompanhou a gravidez de Patrícia. Claro que olhou Eliane com os mesmos olhos que costumavam adocicar a mãe e as irmãs. E claro que foi com o mesmo gelo que deixou as duas!

 
Entre balidos e cheiro a hortelã, Duarte puxou de um cigarro. Chegava de introspeção e regresso a um passado que só assentava bem numa serra sem dono. Cinicamente imaginou o que se passaria do outro lado do oceano. Com toda a certeza Patrícia já se teria mudado para a casa da irmã e levado consigo a pequena Eliana. Duarte não podia esperar mais. O tempo tem custos. Aliás, o tempo é o seu maior custo e com toda a certeza Giuseppe já tinha ordenado a nova mercadoria.

Puxou de um último trago de nicotina e ligou o telemóvel que trouxe consigo de reserva. Bateria intacta e número desconhecido. Duarte está de volta. Do outro lado atende uma voz rude com sotaque siciliano e se fosse possível de visualizar, um rosto arredondado idêntico a uma pizza mozzarella! É Giuseppe. Ouve-se um «ciao amico» estridente e quase submisso!

Duarte sorri e pergunta com voz rouca: - Quando parto para Palermo? Já tens a mercadoria?

 
Giuseppe engasga-se e não sabe bem como responder. Balbucia vocábulos incompreensíveis, de entre eles, Duarte apenas percebe a noticia com que não estava a contar. No seu trajeto tão linear, o irmão Vasco estava à sua procura no Brasil, como pedra no sapato que tem que descalçar!

Estela Fonseca

1 comentário:

Sara disse...

Estou planejando uma viagem para a Argentina para visitar várias províncias lá. Eu amo as paisagens de suas cidades. Eu tenho a hospedagem, mas ainda falta em Buenos Aires. Você conhece algum aluguel apartamentos buenos aires? Obrigado