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domingo, 6 de outubro de 2013

Cidade das Dunas - Capitulo VIII


Assim que o avião aterrou na pista do aeroporto internacional Augusto Severo, Duarte expirou longamente, como se o corpo aliviasse toda a árdua carga acarretada ao longo dos últimos meses. Agora, ali, na capital do Rio Grande do Norte, esperava que a sua vida tomasse um novo curso, feito de águas de um azul cristalino.

 
Volvido o primeiro mês, passado entre o extenso e dourado areal da praia e os lençóis do quarto de hotel e as noites de loucura interminável, não necessariamente por esta ordem, Duarte procurou um part-time, algo que o absorvesse durante algumas horas, antes que caísse em um qualquer pântano, uma vez que já começava a sentir-se caminhar sobre areias movediças.

O Dom Café abriu-lhe as portas, como servente às mesas, entre as dezanove e a hora do fecho, mas ao fim de dois meses, a astúcia e a discrição de Duarte aos olhos de Giuseppe, o proprietário, resultaram em uma proposta de sociedade. Daí em diante, Duarte passaria a gerir o movimento do Dom Café, libertando Giuseppe para outros negócios um tanto ou quanto ocultos.

Num ápice, o Dom Café passou a clube noturno de referência, tanto na cidade, como no estado, sendo frequentado por uma elite do mundo dos negócios e profissões liberais. Pela primeira vez na vida, Duarte sentia-se ao leme do seu destino, orgulhoso, ainda que comedido pela recente ascensão, e respeitado no seio daquela comunidade.

A estabilidade profissional e emocional despertou em Duarte as primeiras sensações e impressões de paz e afeto a um lugar e, em particular, às suas gentes. Esta novidade de pertença levou-o a procurar uma casa, que pudesse chamá-la sua. Rapidamente, tropeçou naquela. Talvez fosse o porte elegante e tropical da planta plantada na lateral direita da fachada, que mais tarde descobriu ser uma mamoneira, que o fez apaixonar-se à primeira vista. Mudou-se na manhã seguinte.

Anoitecia e chovia e o cheiro a terra elanguescia e envolvia os corpos em uma voluptuosa humidade, quando Duarte sentiu a incandescência da voz dela adentrar-se-lhe na boca de um martini seco. Ao fim de uns minutos, soube ser uma jornalista, ainda que sob a maquilhagem de acompanhante de luxo, uma vez que investigava uns rostos ocultos da máfia que, supostamente, frequentavam o Dom Café.

 
A sensualidade envolta naquele mistério arrebatou Duarte numa paixão desenfreada, daquelas que se sabe à partida apenas resultarem num abismo, mas à qual não resistiu aventurar-se. Somente soube o nome dela no relâmpago do estou grávida – Patrícia Dantas.

Agora, depois de mais de dois anos alucinantes, em que se envolveu como intermediário nos negócios obscuros de Giuseppe com a máfia, a fim de desbloquear qualquer tipo de informação para a Patrícia, e o medo pela segurança da sua filha, Duarte decidiu colocar um ponto final em toda aquela trama. Todo o seu fascínio pela mamoneira, fez com que descobrisse que, além do seu principal produto, o óleo de rícino, a sua semente é tóxica, devido à presença da ricina. Aquelas pequenas doses mortais, infiltradas nos cubanos, seriam decisivas no próximo encontro.

Hélder Magalhães

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