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sábado, 19 de outubro de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo X


Quase 13h quando Giuseppe vê o relógio pela terceira vez. Puxa um cigarro e observa as espirais de fumo a dissiparem-se no ar quente e quase sufocante do dia. Salvatore já devia ter chegado e o atraso do braço direito desperta-lhe suspeitas e receios.

Pensa em dar uma volta na Piazza del Duomo, ao abrigo de alguma arcada que corte o calor que àquela hora se faz sentir em Lecce. Sente-se cada vez mais apreensivo e com a mente a fazer cálculos desordenados e caóticos. O telefonema de Duarte dita-lhe raivas e sufocos.
 

Não foi para se agastar que se meteu com o português! Duarte pareceu-lhe ter uma dose de loucura necessária ao empreendimento e ao mesmo tempo uma certa perigosidade no trato, algo nebuloso e negro que lhe agradava. Tudo correra bem até certa altura e não fora Duarte ter-se metido com Patrícia e Giuseppe ainda acreditava que os negócios iriam de vento em popa.

Mas agora, a polícia brasileira estava bem encaminhada nas investigações e começava a ser difícil gerir os empreendimentos de Natal.

Por outro lado,  a Interpol estendera os braços até às suas operações, preocupada sobretudo com o tráfico de armas. Gerir tudo não era fácil e o facto de ter de confiar noutros gerava-lhe azias.

O suor pinga-lhe da testa e sente cada vez mais a arma que traz consigo. Está quente e pressiona-lhe o corpo como se de um aviso se tratasse. Dentro de si tudo se agita enquanto a mente se debate com os inúmeros problemas das suas operações. São grandes os negócios no Brasil e o tráfico de mulheres é um maná. Pensa no entanto, que é absolutamente necessário  coordenar  o da droga e Duarte estava a ser importante nessa área antes das embrulhadas amorosas onde se tinha metido.

Não que Giuseppe não prezasse a família, ou não fosse ele italiano. Mas os conceitos familiares do português eram diferentes e menos arcaicos do que o seu. Negócios eram negócios e não permitiam falhas. As mulheres faziam apenas parte da diversão e nunca deviam ser um empecilho. Caramba! Aquele português de olhar velado e triste parecia um íman a chamá-las, isso já ele tinha visto há muito.

Enquanto se entretém a desfilar raivas avista ao longe Salvatore. O siciliano é baixo e magro de face afiada. Tem em si o porte de uma faca cortante, que o tom moreno e o olhar escuro e fugidio ainda acentuam mais.

Não trocam palavras, apenas olhares e desconfianças. Giuseppe está furioso e agastado com a demora. Caminha apressadamente para a Trattoria di Nonna Tetti, a poucos passos da Piazza.

Agora não quer ouvir as desculpas e os motivos que Salvatore irá invocar. Apenas lhe apetece sentar numa mesa e banquetear-se com um prato de orecchiette com legumes, ao mesmo tempo que degusta um belo vinho Salice Salentino.  Primeiro necessita satisfazer prazeres básicos e essenciais, dos quais só a cozinha de Puglia sabe o segredo. Tem tempo, agora que o outro chegou, para falar dos assuntos que lhe moem a mente e as entranhas.

Sentado à mesa, pega no telemóvel e marca o número de Duarte enquanto Salvatore o observa com a agudeza e a acuidade de uma ave de rapina.

 

 


Duarte olhava tranquilamente as pessoas que lhe cruzavam o caminho enquanto aspirava em golfadas os cheiros à sua volta.

Tinha um nariz de perdigueiro ganho nas observações feitas na serra, onde todo o mato tinha em si ervas e flores a despertar-lhe o sentido. Tinha feito bom uso dele quando aconselhava o chef do Dom Café. Aquele não lhe levava a mal a intromissão na nobre arte de cozinhar e até agradecia o dom do patrão.

Misturado no ar envolvente , Duarte aspirava um outro perfume que tinha guardado em si: o de Patrícia.

Não queria recordar todos os pormenores do seu envolvimento nem as dúvidas que o assolavam. Tudo se complicara com aquela relação. Primeiro fora uma paixão galopante, noites quentes e esfaimadas, um andar na corda bamba pelos perigos a  que se sujeitava com aquela duplicidade. Por um lado o negócio com Giuseppe, por outro a relação com Patrícia. Patrícia investigadora, Patrícia jornalista e agora Patrícia mãe da sua filha, a meter o nariz  em toda aquela escuridão.

Não sabia o que fazer. Pior, não sabia o que queria fazer, nem o que sacrificaria. Os negócios com Giuseppe eram por demais recompensadores, além de desafiantes. Sair deles nunca seria fácil e com o mafioso não se podia brincar. Em contrapartida estavam os sentimentos, embora não necessariamente por Patrícia. Com ela tudo fora intenso mas esporádico. As noites de cio tinham sido arquejantes e fogosas mas ele não tinha sentido por ela aquele amor que se lembrava de ver entre os seus pais. O corpo não lhe pedia  fidelidades  nem suspirava  por uma só mulher.

O problema era Eliana. Aquela filha que pouco conhecia tinha conseguido esgueirar-se para dentro dele, reclamando de Duarte um afecto que só tinha par no que sentia pela mãe. Detestava sentir-se dominado por sentimentos de carência e de ternura. Eram como algemas a roer-lhe a sua tão solitária e egoística liberdade.

Fecha os olhos , aspirando mais forte o ar poeirento do dia. Sente-se como uma mosca no meio de uma teia à espera de ser devorada.

O telemóvel toca e ele sobressalta-se  num estremecimento que o rouba à paz do ar quente que o envolve. Olha o número e o semblante escurece enquanto os lábios se descerram e parecem murmurar esconjuros: é Giuseppe.

 

 

Cabelos ao vento ela cruza a zona verde que a leva até à sua casa no bairro Vila Rosa em Goiânia. O cheiro das mangueiras entra-lhe pelas narinas e explode-lhe na boca, odorífero e pungente.

Lentamente, numa recusa tácita de fugir ao sonho, Cristiana  reabre os olhos quase cerrados das lágrimas soluçadas nas últimas noites. Olha em volta e encerra-se mais numa posição fetal. Aconchega mais os trapos reluzentes do lamé dourado que mal a cobrem. Por entre os rasgões, a carne morena denuncia os golpes que embora ligeiros sangram um pouco. Um salto partido jaz no meio do cubículo para onde a atiraram. Os cabelos emaranhados envolvem-na e são a única

sensação de conforto que lhe resta. O sonho dói agora que acordou. Como pode um sonho trazer tanta felicidade e depois ferir tão cruelmente?

Já arquitectara mil maneiras de se evadir mas acabava sempre ali, moída de pancada. Pouco lhe importava! Esperava um dia não despertar dos golpes para não sentir mais o corpo vendido e promiscuamente usado. Mas depois,  pensa que não se pode permitir o luxo de não acordar mais. Tem de seguir em frente com o que lhe resta e esperar um milagre. Febrilmente reza em silêncio porque não perdeu a fé e é ela que apesar de tudo ainda a aconchega nuns braços que se assemelham aos da mãe

Tudo agora lhe parece distante e de contornos nebulosos.

Aquela noite com Lauro tinha transformado a sua vida num enorme pesadelo. Mal se lembrava, de tão drogada, como tinha cruzado o Atlântico e  desaguado ali, naquele antro em Sevilha.  La Latina era agora a sua casa e o seu corpo não passava de um enxovalho diário de sevícias de todo o tipo.

 

 

Naiara governava o negócio com mão de ferro e era impossível sobreviver naquela engrenagem sem uma absoluta submissão, que Cristiana não tinha. A sua origem basca dava-lhe um porte arrogante que casava às mil maravilhas com a sua ascendência árabe . Era inteligente e desprovida de sentimentos, que não aqueles que lhe trouxessem proveito. La Latina facturava bem com as mulheres apanhadas no tráfico, e o consumo de droga no estabelecimento florescia. Que mais podia pedir, ela que comera o pão que o diabo amassou por estradas de Espanha?

Mas queria mais e os lábios rubros e carnudos denotavam a ambição desmedida. Precisava subir na organização e para isso tinha os sentidos bem despertos. Sabia, pelo que ia conseguindo ouvir, que o patrão de tudo se chamava Giuseppe e já uma vez tinha visto um seu sócio, um português a que alguém chamara Duarte. Chegara a trocar olhares com ele e tinha em si a ideia de que seria por ali que satisfaria as suas ambições.

E era pensando em teias de sedução que Naiara estendia o corpo num espreguiçar guloso e felino. As linhas de coca snifadas tinham deixado um traço indelével no pequeno espelho. Precisava preparar-se. Nessa noite recebia a visita de alguém conotado com uma investigação. Tinha necessidade de estar em plena e sedutora forma para perceber o que Colaço sabia.


Margarida Piloto Garcia

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