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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo XII

— Então como? Não fugimos pelas traseiras de tua casa, de táxi, tal qual filme policial para que eles não descobrissem a existência da Eliana? E agora dizes que andam à procura dela?!
— Digo. Durante a noite, enquanto dormitavas ou sofrias os tormentos da intoxicação alimentar que te assola - e por acaso é bem feito para aprenderes a não ser teimoso - recebi notícias das minhas fontes, além de um contacto do Giuseppe. O Giuseppe diz que o Duarte ligou a pedir ponto de situação de um negócio pendente, mas a chamada caiu antes de lhe dizer onde estava, por isso resolveu telefonar a perguntar-me se estava com ele, dado não ter tido notícias minhas desde ontem. Mas retomando… Não te tinha dito que não devias ter bebido água da torneira? Não estás habituado à nossa dieta, pelo que não podes chegar e pensar que estás em casa! Deves habituar o organismo lentamente, de modo a não haver uma ruptura total e dar origem a um episódio destes! Toma um Imodium para recuperares e te ajudar a dobrar o cabo das tormentas.
— Obrigado – disse enquanto tomava o comprimido. Mas por que dizes então que a Eliana corre perigo?
— Isso é outra história. Já lá vamos, mas por enquanto importa saber que foram lá a casa procurar-me, por isso já sabem que saí. Como não foi pela porta da frente, já estarão de sobreaviso quanto à minha fidelidade…


— Ele disse-te que foram lá?
— Menos Vasco, muito menos! Isto não é uma parceria, será, quando muito, uma cooperação transitória! Se fosse uma sociedade eu teria 80% e tu 20%, percebes? As minhas fontes continuarão a sê-lo, até porque ainda não sei até que ponto confio em ti.
— Tudo bem por mim, desde que eu detenha a golden share, como acontece com o estado no caso de algumas empresas! Se for minha a última palavra e a opção de veto, estou plenamente de acordo. Não te esqueças que o Duarte é meu irmão, conheço-o desde sempre, não tive apenas um caso passageiro que por acaso se tornou sério por ter engravidado… É família, e o sangue é mais espesso do que a água…
— Sim, mas … para já une-nos um objectivo comum, que é o de localizar o Duarte e saber se está mesmo bem, nada mais. Não irás saber mais do que o necessário à prossecução do nosso objectivo pois ainda não estou completamente convencida disso ser proveitoso… Não vale a pena avançarmos se isto não estiver plenamente definido e aceite. A propósito, a tua arma está na gaveta, fechada à chave. Nesta casa mora a minha filha e não vou permitir que a segurança dela seja posta em causa.
— Curiosa observação dado que ainda há pouco dizias que ela corre perigo… Sabes que as armas servem também para defesa, não são só para ataque, certo?
— Certo, mas com ela à solta por aí não quero que possa inadvertidamente magoar-se por ter uma arma ao seu alcance. Crianças e armas são dois assuntos que não combinam.
— Respeito, apesar de não pretender fazer nada que a colocasse em perigo. Afinal é a minha única sobrinha! Como descobriram a existência dela?
— Foi o tal Colaço, da Interpol. Averiguou o teu irmão e descobriu a certidão de nascimento dela. Competente, pelos vistos!
— Mas o Colaço trabalha para o Giuseppe, ou está a tentar desvendar os crimes dele?
— Está na pista dele, mas, como acontece em todas as organizações, tem elementos infiltrados. Estes, por sua vez, para se manterem nas boas graças e sem levantar suspeitas têm, volta e meia, que sacar de alguns trunfos… Eis senão que a Eliana se transformou no Ás de Ouros! Escuso de dizer de que naipe era o trunfo…
— Bolas… Tu és um dos agentes infiltrados?
— Eu sou jornalista de um canal local… Dificilmente me poderia infiltrar na organização… Mas sim, foi disfarçada de acompanhante de luxo que me meti nesta embrulhada, certa vez, enquanto seguia uma história que envolvia o Dom Café.
— E…? Continua, gostava de saber mais.
— E conheci o Duarte - não te vou contar a história das abelhinhas e das flores - fiquei grávida e daí a uns tempos apareceu a Eliana. No início da gravidez já tinha percebido até que ponto os negócios do teu irmão e do sócio eram obscuros, bem como o que poderia correr mal, por isso confrontei o Duarte e decidimos que eu sairia de cena e só regressaria depois do nascimento da bebé.
— Ele esteve presente?
— No nascimento? Sim. Olhou-a com adoração, mas se queres que te diga não tenho a certeza se confio nele…
— Sábias palavras! Ele é o meu irmão caçula, amo-o, mas não sei ao certo quem ele é… Em pequeno era traquina como todas as crianças, mas com o passar do tempo chegou a ter requintes de malvadez… Por outro lado é meigo, terno…
— Exacto! É precisamente o que sinto! Umas vezes é tudo o que sempre quis, noutras não sei se não faria melhor se desaparecesse da vida dele… Como é que parecia não poder estar sequer um dia sem ver a menina e depois desaparecer por completo, sem nos dizer nada?! Já não sei se sou eu que estou a fazer um jogo duplo com ele e com o Giuseppe, ou se são eles que o estão a fazer comigo!
— Eu acredito que no fundo ele seja um bom rapaz, mas suspeito que possa ter algum distúrbio de personalidade… Quando ele nasceu a minha mãe ia ter gémeos, mas um dos fetos pereceu. Muitas vezes me indaguei se ele não ficou com a personalidade de ambos, como se o tivesse absorvido… Às vezes é extrovertido, animado, carinhoso, outras um autêntico eremita, frio, calculista… Não desisto dele nem desistirei nunca, sempre o encobri e atribuí os seus disparates e excessos ao facto do nosso pai não reconhecer o seu valor da mesma forma que o fazia comigo, mas nos arroubos de crueldade fiquei sempre indeciso se faria bem… Mas… sabes afinal onde se encontra?
— Não, apenas sei o que o Giuseppe me disse, que se resume ao facto de o ter contactado para receber instruções para a próxima “empreitada”.
— Sério? E em relação à Eliana, qual é a situação?
— Em relação à Eliana sei que a sua existência já é do conhecimento do Giuseppe e graças a isso não poderei jamais voltar a arriscar envolver-me nas operações dele. Não sei por quanto tempo conseguirei iludi-lo e levá-lo a pensar que tudo permanece igual, mas já não poderei voltar a ir ter com ele ao Dom Café.
— Vamos ter que agir com cuidado… A tua fonte não consegue descobrir onde está o Duarte? O tal Colaço já deve saber… Deve ter triangulado a chamada do Giuseppe se estiver a monitorizá-lo. E por falar nisso, achas prudente continuarmos aqui? Quem nos garante que o Giuseppe não está também a rastrear o teu telemóvel para descobrir onde estás e chegar até à Eliana? Assim podemos estar a colocar a tua irmã e a menina em risco…
— Bem visto! Vamos sair já daqui. Para já vamos até ao shopping pois preciso de fazer algumas compras, dado que não poderei ficar aqui nem ir nem para casa.



A caminho do shopping o telemóvel tocou:

— Patrícia?
— Sim. Agora não posso falar, ligo-te dentro de cinco minutos, ok? Estou a chegar ao shopping.
— Ao shopping? Ricas vidas! Não me arranjas um emprego desses?
— Arranjava, mas acho que não quererias. Ligo-te já. – E desligou. — Vasco, encontramo-nos dentro de meia hora na praça da alimentação, ok? Vou fazer compras, coisas de gaja.
— Certo, mas não vou perder-te de vista. Não tentes nada de ousado, ok?
— Não te aflijas, por enquanto estamos juntos nisto.

— Olá Tomás, já posso falar. O que descobriste?
— Acho que estou finalmente prestes a desvendar algo em grande… Lembras-te daquele conjunto estranho de letras - CHIAWITSWEL?
— Sim, já ouvi falar. Tem algo a ver com uma password, certo?
— Certo. Estás bem informada, mas não tanto quanto eu. Não se trata exactamente de uma password, mas sim de uma mnemónica para tal, e servirá para abrir um ficheiro encriptado relacionado com os negócios do Giuseppe… Se conseguirmos decifrá-la, talvez estejas a salvo, além de que daria uma bela história! Conseguiríamos o furo do ano, já estou a ver os nossos nomes por baixo da matéria!
— Deus te ouça Tomás! Só quero saber que a Eliana está salva, e descobrir o que aconteceu ao Duarte… Por falar nisso, tenho que ir ter com o Vasco, pois combinei com ele em meia hora na praça de alimentação e já passou pelo menos uma…
— Só queria a tua vida!
— Não queiras… Logo não sei onde vou ficar, vim às compras porque não posso ir para casa.
— Pois… Tem isso… Até te acolhia, mas aí ficávamos ambos expostos, além de que não aceito marmanjos lá em casa, e está-me a querer parecer que levarias o Vasco atrelado a ti!
— Levava pois, mas sobretudo não te quereria colocar em risco! És o meu único trunfo, neste momento.
— Cuida-te miúda! Qualquer coisa, liga!
— Certo! Beijinhos!

Elisabete Gonçalves 

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