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quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Cidade das Dunas - Capítulo XIII

O local era soturno. Cheirava a fritos, suor e outras coisas em que preferia não pensar. Não estava ali para isso. Sabia da imponência do seu corpo pela estatura, a barriga grande ainda que flácida, as tatuagens e a cabeça luzidia. E, sem olhar ninguém – putas velhas e chulos amantes à força pela falta de clientes – dirigiu-se ao balcão. As ordens eram claras: perguntar pelos nomes de Camões e Bocage.




Muitos se admirariam de o ver ali. Para todos ele era um cabecilha de malfeitores, o cérebro de uma organização, o maquiavélico agente de um crime pouco concreto mas planeado. Só ele, Giuseppe, sabia que todos estavam errados e que aquilo que realmente se desenvolvia nada tinha a ver com o que pensavam. Pior ainda: que um cérebro tem outros cérebros acima de si. Que lhe pagam e aos quais tem de obedecer. E por isso ali estava, pronto a enfrentar um barman com cara de poucos amigos, que o fixou duramente quando ele proferiu tais nomes. Era tão grande como ele e tornava-se, por isso, ridículo ter de responder àquela senha estúpida:
– Atirei o pau ao gato – disse o homem por detrás do balcão, ao ouvir os nomes.
– Mas o gato não morreu – respondeu Giuseppe
– Como? – perguntou, agressivo, o homem enquanto dobrava os punhos da camisa sebosa.
Sentiu-se tremer, suar, a querer emendar o que dissera, a irritar-se consigo próprio por tão frágil atitude indigna de si.
– Desculpe. Espere – quase gritou – Mas o gato caiu no chão e ficou amarelo – conseguiu dizer sem evitar um suspiro no final.
O outro saiu do balcão e olhou-o dos pés à cabeça.
– Porta ao fundo – disse sem dele desviar os olhos – mas toma cuidado. Se sei que é falso… - e, com a mão, fez o gesto de corte de pescoço.
Abriu a porta e o cheiro conseguia ser pior. Uma mistura de bufas, tabaco e álcool. E ainda mais escuro que o bar lá fora. Ficou em silêncio até que os olhos, adaptados à escuridão, conseguiram descortinar duas figuras vestidas de tão negro como os óculos que lhes escondiam olhares e feições. Sem emitirem um som. Camões e Bocage? Porquê o silêncio em que só as moscas pareciam ter algo a dizer? Porque não falavam…
– Burro! – o berro rasgou o escuro da sala fulminando moscas e quase o atingindo – Besta! Asno de merda! Foi assim que cumpriste as ordens que recebeste? – qual seria aquele? O Camões ou o Bocage? – Onde estão os Duarte’s que te pedimos e pelos quais te temos andado a pagar? Não entra nessa cabeça carregada de merda de caracol que não andamos aqui a brincar aos gangsters, aos raptos e aos dramas familiares? Que o nosso objectivo é a tomada do mundo? Consegues meter isso nesse cérebro de caganita de coelho?
Os gritos incomodavam. Quis responder, mostrar que era alguém. Abriu a boca
– Cala-te! Falarás quando te autorizarmos. Pedimos-te que arranjasses homens com o nome Duarte e, vais tu, com os teus miolos de refogado, trazes um que, logo após o primeiro tratamento, fica totó e vai para a rua como um sem-abrigo e dedica-se a um gato. Um gato vê tu bem, como se isto fosse a Protectora dos Animais; depois, não contente, trazes-nos um pasmado, um estúpido armado no Gandhi das contemplações ovelheiras que só lhe faltou meter a flauta de Pã no olho do cu para ficar mais parvo; como se isso não bastasse arranjas para aí um enredo com o outro, o que já tem filha para salvar e um irmão à procura dela, com mais a cunhada que não faz mais que arranjar intrigas ao telemóvel. Pensas por acaso que isto é a telenovela das nove ou o Big Brother? Isto é o TDTI, cabeça de burro! A conquista do mundo!
Havia que mostrar alguma dignidade. Não podiam gritar assim com ele que, para todos os efeitos, era considerado o grande cérebro do crime organizado e até por organizar. Estava farto que lhe falassem naquela merda do TDTI sem que lhe explicassem o que era. Era altura, disse-o, de o fazerem.
Camões olhou Bocage (ou seria o contrário?) e o outro anuiu.
– Ok! Explicaremos tudo. Mas a partir de agora ficarás sem desculpas para o insucesso e, se ele acontecer, sabes o que te espera – fez uma pausa – TDTI significa “Todos Diferentes Todos Iguais”.
Giuseppe quase saltou de contentamento. Finalmente algo com que se familiarizava.
– Ah! Gosto muito. Até tenho uma tatuagem no rabo com o nome deles – exultou.
Os outros olharam-se
– Que estás para aí a dizer? Quem são “eles”?
– Benetton, pá! – respondeu satisfeito – São eles que usam essa frase.
– E tens Benetton tatuado no rabo?
– Numa bochecha. Na outra tenho McDonalds.
 Entre os dois o silêncio impôs-se em duas bocas abertas de onde as moscas foram desviadas mesmo a tempo.
– Bem…continuemos. A TDTI é uma organização que pretende tornar todos os homens iguais fisicamente. Com o mesmo rosto. Por ordens do nosso grande Mestre, primeiro os Duarte’s, a seguir os Miquelino’s, depois os Inocêncio’s e por aí fora. Quando todos estiverem iguais passaremos então às mulheres.
– E qual é o gozo disso? – perguntou Giuseppe – Eu gosto de uma gaja boa. Se ficarem todas iguais, vai enjoar.
– És mesmo burro chapado! Se todos ficarem iguais e aparecer um diferente, esse, que será o grande Mestre, terá o mundo a seus pés. Depois viremos nós, claro. Não tão bonitos mas, pelo menos, a destacarem-se. O grande Mestre, que tudo sabe, entende que basta arranjarmos um com personalidade vincada e que resista aos tratamentos, para que as modificações sejam feitas e arrastem os outros, pelo efeito da moda, para o efeito glorificante do TDTI. E nós, seu paspalho que não foi capaz de o fazer, já encontrámos o homem. Vive em Lisboa, é jornalista e chama-se Duarte. E é urgente que o capturemos. Junto com um tal Colaço, está na posse da palavra que pode abortar todo o plano: CHIAWITSWEL
Giuseppe bateu as botas em sinal do acato das ordens.
– É fácil apanhá-lo então. Tenho uma equipa a trabalhar lá. Faziam assaltos a bancos mas agora o que roubam quase não lhes chega para almoçar. Vão gostar de coisas diferentes.
                                                               ***

— Duarte! Amor! Não vistas a camisa sem veres o que te comprei!




Uma camisa cor-de-rosa para vestir. Logo hoje, dia de reunião com o director. Que coisa mais amaricada e pimba com aqueles arabescos amarelos. Como dizer-lhe isso?
— Tão linda, querida. És um amor – e pespegou-lhe um beijo sincero nos dedos cruzados da mão.
O dia, nitidamente, não começava bem. E a continuação estava ali, naquele gabinete com uma secretária maior que o chefe.
— Duarte! É o último aviso. Ou você começa a escrever crónicas de jeito ou passo-o para a secção de necrologia. Está sempre a responder-me com uma investigação que tem em mãos mas não pensa no vencimento que todos os meses lhe é depositado sem trabalho visível da sua parte. Por isso, dou-lhe mais um mês. E não me apareça com essa camisa.
Que merda, devia ter metido gasolina. Teria de ir devagar mas aqueles faróis em cima dele…passa, camelo! Oh, não passa! Há cada saloio nesta cidade. Em Alcântara virou para as traseiras do Jumbo. Rua estreita e feia. E o carro sem descolar. Começou a achar estranho. No Calvário, escolheu ruas improváveis…e o carro perseguidor escolheu-as também. Subiu ao Alto de Sto. Amaro, meteu numa rua larga mas sem saída. Aí, antes do seu final, o carro ultrapassou-o e atravessou-se à sua frente. Inevitavelmente, parou. Do carro saíram quatro matulões. Que não respondesse e fizesse o favor de entrar no carro deles. Mas o tipo tinha o emblema do Benfica na lapela. E isso irritou-o. E erguendo a perna tentou acertar-lhe no emblema quando por detrás outro lhe socou as costelas e ele, que nada permitia por detrás, conseguiu pontapear-lhe os tomates ao mesmo tempo que os outros dois se acercavam dele pelos lados. Um murro bem assente nos queixos deitou-os ao chão quando o do Benfica lhe deitou as unhas à camisa rasgando-a. E, se não fosse pelo clube, pela mulher seria. Atirou-se sobre ele derrubando-o e partiu-lhe a cara quando os outros já lhe pontapeavam as costelas. Porra! Aquela merda doía! Com a mão esquerda fê-lo cair enquanto ao benfiquista, em jeito de homenagem, lhe deu três sopapos que o deixaram ko. Mas sentiu o outro a lançar-se para ele. Debruçou-se fazendo-o voar e bater com os cornos no alcatrão. Faltava um. E resolveu dedicar-se à agricultura apertando-lhe os tomates enquanto lhe perguntava: também és do Benfica? Mas, sem esperar resposta, saltou para o seu carro, engrenou, subiu passeios e rejubilou por, com a sua idade, ter despachado quatro marmanjos. Sabia ao que vinham. Doía-lhe o corpo todo mas sabia que as suas investigações em simultâneo com o Colaço tinham de dar nisto. Mas ainda era cedo. Até que as averiguações estivessem concluídas, ninguém poderia saber o que, longe, se congeminava. Nem a mulher.
— Que fizeste à camisa?
E agora? Que dizer?
— Caí ao sair do carro. Quando me tentei equilibrar, o pé resvalou numa pedra e só eu sei como não me matei.
O ar de dúvida. O olhar de desconfiança. As palavras que ferem “estiveste com uma mulher. Isso são rasgos de unhas, a pele tem sangue ainda. Por quem me tomas? Por quem me trocas?”. A discussão, o choro. A ida para a cama com os corpos apartados. Até que subitamente, a pergunta:
— Não estiveste mesmo com ninguém?
E a resposta verbalizada para lá das costas voltadas.
— Não. Já te disse o que aconteceu. Caí
— Prova-mo!
Oh carne dorida em músculos magoados. Onde a força dos ossos e dos nervos e o correr simples das veias? E como dizer “não” sem credibilidade? Um último esforço, um último querer e tudo ficaria bem.
Quando os corpos saciados se apartaram, a frase redentora:

— Hoje não te pergunto se gostaste. Nunca te tinha ouvido gemer tanto.

João J. A. Madeira 

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