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segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Cidade das Dunas - Capítulo XIV

O céu, carregado de nuvens pretas, anunciava uma tempestade eléctrica. O calor abafado, que pairava no ar, fazia escorrer o suor pela testa de Vasco que, impaciente, esperava por Patrícia.
-Finalmente! Pensei que te tinhas esquivado…
-Disse-te que não demorava… podes confiar um bocadinho mais em mim, não?! Estou aqui, certo?!
Vasco acabou por ficar aliviado ao reencontrar Patrícia. A atração física que sentia por ela fazia o coração borbulhar de felicidade.
-Vasco, não podemos voltar para casa. Tenho que tirar a Eliana do país. Estou com o pressentimento de que ela corre perigo… Giuseppe está na mira dela… não posso deixar que a luz dos meus olhos sofra qualquer tipo de ameaça.
O rosto de Patrícia demonstrava um misto de amor e pânico em simultâneo.
- Vou telefonar à minha amiga Larissa para ver se nos pode acolher, pelo menos esta noite.


Enquanto Vasco comia um hambúrguer com batatas fritas, Patrícia deslocou-se à cabine telefónica para ligar à amiga e, posteriormente, à sua irmã Celine para que preparasse Eliana que já iriam buscá-la.
A trovoada disparou, as nuvens pretas e carregadas de água encheram de imediato as ruas, a circulação de peões e de veículos transformou-se numa confusão sem fim. O ruído das travagens bruscas dos carros faziam-nos deslizar sobre o alcatrão intensamente molhado. A humidade da chuva ao penetrar no solo extremamente quente fazia surgir uma espécie de nevoeiro, transformando o dia em noite.
-Táxi, táxi! – Gritava, freneticamente, Patrícia fazendo sinal com o braço para que o primeiro carro que aparecesse parasse em frente ao shopping.
O táxi levou-os por entre aquela chuva intensa, onde os carros, em fila, andavam a passo de caracol. Aquelas pingas grossas que caíam no para-brisas e no tejadilho do carro tornavam aquela tarde ainda mais pavorosa.
Após o longo tempo que demoraram para percorrer escassos quilómetros, chegaram a casa. Enquanto Patrícia foi buscar Eliana, o táxi aguardou uns instantes para os transportar novamente até ao apartamento da Larissa.
Patrícia fez as apresentações e Larissa, muito amável, deixou os três muito à vontade. Informou-os que iriam passar a noite sós, porque a sua profissão de polícia exigia que ela se ausentasse para desvendar um crime ocorrido na cidade.
A pequena Eliana sentou-se em frente à televisão na pequena sala para assistir uma série de desenhos animados. Patrícia e Vasco, na cozinha, tomavam um café e conversavam, em tom baixo, sobre a eventual saída de Eliana do país.
-A minha filha precisa de sair imediatamente do país, pressinto que ela corre perigo. Giuseppe e a turma dele são gente mafiosa e sem escrúpulos… – disse com a voz trémula, repleta de preocupação.
-Espera… tenho o meu amigo Rui, que para mim é como se fosse um irmão. Ele tem uma habitação de turismo rural numa aldeia em Trás-os-Montes, norte de Portugal, que poderia servir como refúgio para a tua filha. É um sítio muito calmo onde a beleza da natureza se mistura com a hospitalidade e generosidade daquela gente. Ali, tenho a certeza, que não correria perigo.
-Parece-me uma boa solução… a minha irmã Celine, como está desempregada, poderia acompanhá-la, só que… neste momento não tenho dinheiro para as passagens…
-Quanto a isso, não te preocupes! Eu trato de tudo… pela minha querida sobrinha faço tudo - afirmou Vasco, orgulhoso, por proteger a pequena Eliana. Ele começava a sentir por ela um amor paternal.
Patrícia de olhos postos no seu portátil e no seu inseparável bloco de notas onde anotava todas aquelas pistas que, supostamente, serviriam ao desmembramento do enigma de Giuseppe e Duarte, começou por escrever “CHIAWITSWEL” numa folha branca como se esta fosse a verdadeira pista para desvendar os negócios sujos de Giuseppe.
As poucas vezes que Duarte a visitava e sempre que apanhava o telemóvel esquecido na mesa da sala ou no quarto, copiava, num ápice, as mensagens obscuras para o seu bloco de notas. Era neste pequeno maço de folhas que ela tentava, de há uns tempos para cá, descobrir alguma coisa de concreto para incriminar de uma vez por todas Giuseppe e os seus compinchas. Receava por Duarte, afinal era o pai da filha dela, porém não poderia continuar a viver naquele clima de insegurança. Fazia jogo duplo com o dono do Dom Café para sacar toda a informação que a conduzisse a uma pista para se fazer justiça e viver em paz com Eliana.
A mnemónica “CHIAWITSWEL” poderia ser uma password, mas também uma sigla qualquer relacionada com o tipo de serviços sujos que Giuseppe estava habituado a praticar. Talvez fosse um código verbal para a carga ou descarga de mercadoria ilícita. Este conjunto de letras também constava numa das mensagens de Duarte, que após o recebimento desta, saiu rapidamente sem despedidas.
Que raio de mensagem daria aqueles caracteres? Foi escrevendo várias tentativas na folha, mas não conseguiu chegar a uma conclusão que a satisfizesse. Desistiu, por instantes, e foi até à janela da cozinha para espairecer a cabeça. Enquanto observava o céu, que já se encontrava azul e pacífico e onde o sol voltava a sorrir com os seus raios luminosos, sentiu-se inspirada para, mais uma vez, voltar a sentar-se em frente dos papéis que a rodeavam.
Analisou, minuciosamente, todas as pistas escritas e, após muitas tentativas, compôs esta frase:

C – cocaína
H – hoje
I – importada
A – através
W – Morro do Careca
I – Interpol
T – tem
S – socorrido
W – work (trabalho)
E – encomenda
L – levantar 


Elaborou então uma frase: “Através do Morro do Careca, a Interpol ajuda no trabalho da distribuição e no levantamento do produto encomendado - cocaína.“ Se o seu raciocínio estivesse correto, estaria no caminho certo para apanhar uma série de criminosos, inclusive, agentes da Interpol. Guardou sigilosamente esta frase para mais tarde mostrar à sua amiga Larissa.

Vasco tinha adormecido, no pequeno sofá de pele, com a sobrinha ao colo. Patrícia, ao ver tal gesto fraternal, comoveu-se ao ponto de soltar algumas lágrimas gordas pelo rosto abaixo.

Sónia Ferreira 

2 comentários:

Dina Rodrigues disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dina Rodrigues disse...

Muito bem, Sónia! Para mim, mesmo sem ler os anteriores, este capítulo está muito bem escrito e com a devida pontuação. Toda a narrativa me prendeu a atenção para a leitura!
Dina