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sábado, 1 de fevereiro de 2014

Cidade das Dunas - Capítulo XV - Final

Ali o tempo era diferente, tão diferente da quente e ruidosa Natal. E não se referia apenas ao tempo meteorológico, que esse já ela sabia e vinha preparada para enfrentar. Uma breve paragem em Lisboa dera-lhe para comprar agasalhos quentes para si e para a sobrinha Eliane.
No dia anterior a irmã Patrícia tinha-lhe pedido, com um trago de medo na voz, que acompanhasse a sua filha para um refúgio numa aldeia do interior norte de Portugal. Não houvera tempo para explicações mas Celine amava a sobrinha e jamais recusaria um pedido da irmã, ainda para mais se a menina corria perigo.
A simpatia da Senhora Alexandrina cativara-a logo ao primeiro olhar, de imediato tinha percebido que arranjara ali uma confidente para os desabafos de uma vida atribulada. De estatura mediana e pele rosada pelos ares do campo, era ela que tomava conta da unidade de turismo rural, propriedade do amigo de Vasco.
- As pessoas aqui veem para descansar das correrias do dia-a-dia na cidade, é um lugar calmo e cheio de paz. – Dizia ela a Celine enquanto a ajudava a acomodar-se, a ela e à sobrinha. – Este é o único sítio onde se podem hospedar e por isso sou eu que recebo toda a gente cá na terra. Aqui há um tempo é que andou por aí um rapaz que não ficou cá na casa. Andava lá pela serra e só descia cá à aldeia para buscar comida. Chamava-se Duarte…
- O meu pai também se chama Duarte – disse Eliane com aquela vivacidade própria das crianças.
Celine ficou pensativa, como se tivesse sido atingida por um pressentimento. Teria aquele Duarte algo em comum com o Duarte que Patrícia procurava? O pai de Eliane.



E Lisboa cirandava ao ritmo da brisa marítima após o almoço.
- Estou, Colaço? É o Duarte…
- Qual Duarte?
- Como qual Duarte, que conversa é essa… quantos Duarte’s conheces tu? Sou eu, o Duarte do Jornal.
- Na verdade já lhes perdi a conta mas adiante… diz lá, precisas de alguma coisa?
- Isto está a ficar complicado, estás aí nesse buraco a que chamas escritório?... Estou a ir para aí.
Não tardou a que Duarte estacionasse o carro junto ao número dez da Rua dos Contrabandistas e galgasse as escadas de dois em dois degraus até ao sótão. Bateu levemente à porta e entrou sem que Colaço tivesse tempo de fechar o documento que observava, completamente embevecido, no ecrã do computador.
- Isto é espectacular… os gajos planeiam dominar o mundo!
- Estás maluco ou quê? Eu venho aqui dizer-te que não quero mais saber das tuas investigações, que vou sair disso, e tu vens-me com essa conversa de gajos que planeiam dominar o mundo.
- Mas é isso mesmo, é a investigação… o plano é TDTI. E querem começar por ti.
- Mau, agora é que já não me está a agradar. Ontem levei um enxerto de porrada para me livrar dos tipos do Giuseppe, cheguei a casa tive que disfarçar para a mulher não perceber e agora tu com essa história mirabolante dos gajos que me querem apanhar para dominar o mundo.
- O Giuseppe, o Giuseppe… o Giuseppe é apenas um pau mandado.
- Como assim? Mas então não é ele o cabecilha de uma rede de tráfico de droga ou algo mais escabroso que me iria dar a reportagem da minha vida?
- Qual quê, o gajo é raia miúda como são os que te quiseram levar ontem.
- Não, eu não disse que me queriam levar para lado nenhum, os gajos quiseram foi gamar-me a pasta. Provavelmente pensavam que tinha alguma coisa escrita sobre o negócio, sei lá.
- Não Duarte, os gajos quiseram mesmo levar-te… na verdade ainda querem.
- Bom, já me estás a por nervoso com essa conversa. Desembucha lá de uma vez!
- Está bem, tem calma, é isso que tenho estado a tentar fazer. Senta-te aí que a história é longa.
Duarte puxou uma cadeira para junto da secretária que sustentava o computador enquanto colaço vertia duas doses de whisky em copos descartáveis e começava a contar como tinha chegado até Camões e Bocage perseguindo Giuseppe.
Não tinha sido a primeira vez que no encalço de Giuseppe, Colaço tinha ido parar àquele antro no bairro de Triana em Sevilha e há dois dias tinha chegado bem perto da chave de todo o mistério. Com a ajuda de Naira, a gerente do La Latina que seduzira com promessas de luxúria e glamour, conseguira o disfarce que lhe permitiu ouvir a conversa entre Giuseppe e aqueles dois que mais pareciam siameses: o Bocage e o Camões. Mais tarde alguns telefonemas para contactos que mantinha ainda desde o tempo de Africa e tudo ficou claro. O TDTI era um plano que visava uniformizar a humanidade e torna-la manipulável por aqueles dois.
Mas agora, graças à sua investigação, iria ser abortado mesmo no último momento antes de a vida humana na terra ficar em perigo.
- Isso quer dizer que sempre tenho reportagem? Que vou poder esfrega-la na cara do meu chefe quando ele ameaçar transferir-me para a necrologia?
- Isso mesmo, Duarte. Vou tratar dos pormenores com a Interpol e tens garantido o exclusivo.
- Mas espera lá, não havia também aquela coisa do tráfico lá no Brasil?
- Havia e há… mas não vou fazer nada, vou deixar que a Patrícia brilhe. A jornalista que te falei, lembras-te? A miúda está a safar-se bem, está quase lá. E também já percebi que o meu sobrinho Duarte não está envolvido.
- Esses putos são o teu calcanhar de Aquiles…
- Oh pá, se são. Não fossem eles e já me tinha perdido no mundo… o Daniel pode ser um sacana mas conseguiu construir a família que eu quis e não consegui.

Nesse mesmo instante, na pacata aldeia na encosta da Serra de S. Macário, Celina contava à irmã sobre o tal Duarte que tinha andado por ali. Lá no fundo do seu íntimo tinha esperança que fosse aquele o homem que a irmã tanto procurava, o pai de Eliane. Mas a espectativa desfez-se. Patrícia, do outro lado da linha, informou-a que Duarte tinha aparecido e que dentro de alguns dias viriam busca-las de volta para Natal, finalmente em paz. Tinha seguido um dos seus frequentes impulsos e andado a deambular pelo Brasil. A explorar novas perspectivas de mercado, segundo a sua justificação.



Uma semana mais tarde numa qualquer explanada de Lisboa.
-… e então pensaram que me tinha transformado no Gandhi lusitano?
- Depois de termos descartado a ideia de teres ido dedicar-te aos gatos, sim. Olha puto, outra destas e aqui o velho tio Colaço não aguenta.
- Prometo que vou ser um anjinho daqui para a frente.
- Pois, pois… descruza é os dedos antes de fazeres a promessa.

Luísa Vaz Tavares 

2 comentários:

Luis Reina disse...

Não acompanhei este conto, mas este capitulo está muito bom, diria excelente.

Parabéns Luisa.

Anónimo disse...

Uma vez que abandonei o facebook, agradeço que todos os contactos sejam feitos para pmsferreira32@gmail.com

Parabéns Luísa! :) Depois de tanta reviravolta e toques de surrealismo, o desfecho ficou muito bom.
Abraço a todos

Pedro Miguel Ferreira