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quarta-feira, 16 de março de 2016

Razão de Existir - Capítulo II


Menezes, não cabia em si. Habitualmente estoico e reservado, sentia ter encontrado um propósito há muito perdido e ter acordado um dragão dormente dentro de si. Há anos que não sentia verdadeiro entusiasmo, e no entanto, agora, mal conseguia conter a ânsia de entrar em contacto com o director do semanário.
Não querendo desperdiçar a oportunidade, e conhecedor da importância de uma boa primeira impressão, decidiu refrear o ânimo e dedicou-se a passar para o papel o que do peito tão abruptamente brotava.

Nem sempre, a sua vida tinha sido assim!
Criança alegre e cabrioleira, passava as tardes a saltitar pelos montes, fosse por andar com o rebanho dos seus pais, e aí a brincadeira era com as cabras e ovelhas ou com os seus irmãos e algum amigo que por lá andasse também — à cata de lenha, com os seus animais ou, simplesmente, a subir às árvores e a mitigar a sua ociosidade — ou então, com a Maria da Conceição, sua vizinha e amiga, a quem gostava de mostrar os mais belos recantos, descobertos, grande parte das vezes pelos elementos tresmalhados do rebanho, em busca das mais tenras pastagens. Com a Maria da Conceição, o tempo fluía de forma diferente: as folhas eram mais douradas, as flores tinham cores mais belas, o Céu era ainda mais azul e o Sol aquecia mais do que o habitual…

Conheciam-se desde sempre, as suas famílias viviam apenas com um caminho de permeio, e, várias vezes, a sua mãe pedira à vizinha para deitar um olhinho às crianças, quando vinham chamá-la para ir tratar da avó que, rapioqueira e despreocupada, amante do bom petisco e da boa pinga, por várias vezes, acabava o dia estendida no caminho, incapaz de voltar a casa pelo seu pé. Quem passava, ao ver a anciã caída sem apoio nem noção das coisas, acudia em busca da neta, pois não havia ninguém mais capaz de a trazer a si e conseguir a sua colaboração para regressar a bom porto. E era assim que, algumas vezes, conseguia tempo extra para privar, entre portas, com a Maria da Conceição.

Assim foram crescendo, os anos passaram lestos. Ainda chegaram a ter um namorico, mas Sebastião, já rapaz, viu chegado o tempo de ir para a tropa e por lá ficou. Encantou-se com aquela vida. Tanto com o bulício da capital, quanto com a carreira militar, que abraçou com toda a paixão que tinha na alma. Chegou a primeiro sargento e Maria da Conceição foi ficando retida nos recantos da memória.
Até que Sebastião, já com os seus trinta e alguns anos, foi inquirido no sentido de defender a pátria, tendo ido para o Ultramar. A mudança foi difícil: a falta de condições, de caras conhecidas e o contexto de guerra, tiveram um impacto avassalador, trazendo de volta o contacto com a velha amiga. Sebastião tentou, ao início, mitigar essas intranquilidades através das missivas trocadas com a Maria da Conceição, escape que o levava de volta ao ambiente são e familiar que tanto almejava.
Ao fim de algum tempo, a dura realidade vivida acabou por conquistá-lo e, meses mais tarde, deixou de escrever.

Era época de guerra, quando não estavam à defesa, estavam ao ataque, e nem os breves interlúdios de jogatina serviam para aliviar a tensão. É verdade que serviriam para descomprimir das constantes batalhas, mas não o é menos que a imagem dos colegas de armas a tombar estraçalhados e a consciência da diminuição, a cada mão, do número de participantes, rapidamente concedeu a vitória ao silêncio, à apatia e à lassidão.

As constantes baixas sofridas, oprimiam com mão de ferro as mentes outrora sãs e agora traumatizadas pela crueza da realidade, da violência, dos parasitas e do pó, fazendo com que se limitassem, por agora, a existir. Faziam por cumprir as suas obrigações, e de seguida, esperavam, de olhar perdido, encostados aqui e ali, que o tempo passasse, que o dia desse lugar à noite, à alvorada, e a novo ciclo…
 Enquanto uns, recuperavam, estropiados, no hospital de campanha, outros, por lá tinham ficado, vítimas de mais um combate e não regressariam para contar a proeza.

Sargento Menezes, como era agora conhecido, sentia-se, por vezes invencível, outras, dominado pelo pavor e pela certeza de que a próxima vez seria fatal. Não havia restado nenhum dos soldados iniciais do seu pelotão: os que não tinham sucumbido em confronto, tinham sido recambiados para casa, para convalescença, ou perecido devido a infecção.

 Numa missão de reconhecimento em terreno hostil, o seu pelotão sofreu uma emboscada. Menezes conseguiu recuar, com quatro membros do pelotão, no segundo anterior à explosão de uma mina que ceifou a vida a dois companheiros. Apercebeu-se, mesmo no último segundo, da descoloração do terreno à sua frente, e fez sinal para pararem, ao mesmo tempo em que quatro companheiros caíam na armadilha criada. Houve troca de tiros, dois dos seus colegas pereceram face ao fogo inimigo, mas ainda foram capazes de resgatar dois soldados, enquanto os restantes combatiam. Na refrega, Menezes foi atingido por estilhaços no rosto e corpo, ficando com a visão severamente comprometida, e foi a custo que regressaram ao acampamento.
Coberto de terra, sangue e estilhaços, foi levado para o hospital de campanha, onde ficou meses em recuperação.
Nunca mais recuperaria a visão do olho direito, passou meses em auto-comiseração, pensava constantemente em casa e tão depressa almejava ver-se de regresso, como decidia nunca mais voltar, sombra do que fora. Do lado direito, as cicatrizes abundavam, e só ao fim de dois anos recuperou a mobilidade na íntegra. Passou os primeiros oito meses, deitado, em recuperação e em tratamento, até que foi requisitado para os serviços centrais, onde viria a dar apoio administrativo.
De raciocínio ágil, a sua perspicácia em breve o tornou valioso aos olhos do General, passando então a prestar-lhe apoio directo.


Nunca esqueceu o que viu durante esse tempo…  

Elisabete Gonçalves  

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