sábado, 13 de janeiro de 2018

Em Busca da Verdade - Capítulo XI

Fotografia © Estela Fonseca

João afastou Sofia suavemente, que lhe mostrou um olhar de desagrado.
 - Deixa! Não vás abrir. Não agora!
A porta continuava maldiçoada pelos punhos de alguém bruto e de teimosia grosseira. João olhou-a com desaprovação, enquanto se dirigia ao hall de entrada. Ouviu passos que se afastavam apressados, abriu a porta, mas só já constatou ao longe um vulto que com toda a certeza seria de um homem. Ainda conseguiu ver o fato de treino de cor esverdeada e um boné pendente pelo andar desengonçado da silhueta que se afastava. Fechou a porta de semblante carregado com a certeza que conhecia aquela figura.
Sofia esperava-o na sala, fingindo estar naturalmente relaxada e pronta para recomeçar o seu número de cinema de mulher fatal. Todas as mulheres são várias almas, várias personagens com máscaras diferentes. Almas que se vestem e despem de acordo com o momento, o lugar ou o homem que têm à sua frente. A simulação feminina é exímia quando se deseja muito chegar à linha limite de qualquer objetivo. Talvez por isso muitos homens se assustem com a desigualdade do quociente da inteligência emocional tão sublime que distingue os sexos senão, que outra razão haveria para a mulher ser considerada um ser complexo e complicado?!
João reparou no vestido florido e leve. Sofia estava bonita. Aliás, a sua mulher é bonita. A habituação do quotidiano e depois o maldito baú com as cartas timbradas a mofo e amareladas pelo tempo que trouxe o passado de volta, tinham-no afastado da mulher. Não da esposa. Mas da mulher! Puxou por isso mesmo Sofia para si de rompante, beijando-a agressivamente. Sofia respondeu sem medo, mordendo-lhe o lábio até sentir o sabor a sangue. Num repente voltou uma certa paixão que há muito tempo João não sentia e que Sofia apenas guardava na memória dos primeiros anos do seu casamento. E mesmo nesses primeiros anos foi difícil libertar-se da educação tradicional que a avó lhe tinha incutido, sem desvios às normas dos bons costumes, que uma mulher de bem e esposa deve ter. Sempre a ouviu dizer que uma esposa deve exigir respeito na cama, porque «o resto são as meninas de rua que o fazem». Sempre houve entre as mulheres daquela família uma luta interior e um complexo recalcado, coletivo, face ao sexo e à entrega do corpo. Sofia nunca teve qualquer proximidade com o avô, mas a austeridade da avó e posteriormente a insanidade mal disfarçada da mãe, bem como a frieza do pai, sempre estiveram presentes, sempre que Sofia tentava contornar os padrões estabelecidos da família. Uma educação pouco dada a afetos e uma falsa paz familiar não são bons presságios para uma vida de adulta feliz. Depois veio o suicídio da mãe e agora o secretismo quase a ser desvendado daquela mala cheia de explicações que chegou de rompante à sua vida e que a abalaram. Talvez fosse melhor continuarem a estar guardadas no fosso do que não se deve recordar, as fotografias mentais do passado de Sofia. Limpou a mente de todo aquele tricô familiar de pontas soltas e entregou-se a João que lhe sorvia o corpo quente. Não ouvia palavras de amor mas sussurros de preces indecentes. Guiou-o para as suas entranhas abrindo as pernas desafiadoras, mas João virou-a bruto e animalesco, puxando-lhe o cabelo solto e comprido que lhe cobria o rosto e saciou-se, apercebendo-se da dor com prazer que Sofia demonstrava nos gemidos fugidos da boca rosada.
Deixaram-se cair exaustos nas almofadas desarrumadas do sofá, ambos com a mente num turbilhão de imagens difusas. O passado e as memórias vividas ou insinuadas por outros; os segredos e os preconceitos; as histórias mal contadas de geração em geração e um presente cada vez mais sombrio, esbarrado naquelas cartas.
Sofia levantou-se ajeitando o vestido e João numa sonolência cansada acomodou-se no sofá acabando por adormecer. Acordou apenas bem cedo pela manhã com o barulho da porta a bater. Sofia saiu com os primeiros raios de sol. Durante a noite mal dormida tinha tomado uma decisão. Dirigiu-se até à praia de areia fina. O mar revolto contrastava com a sua tranquilidade estranha. Incríveis as cores esfumadas do seu mar a contrastar com o céu rosado a tocar a linha do horizonte. Levantou o vestido branco mas ainda assim molhou as rendas suaves que debruavam a bainha. Pousou a mala na areia batida ferozmente pelas ondas e deixou-a partir. Com ela partiam as dores que ela sabia terem existido mas que não eram suas. Partiram as cartas amarelecidas com os segredos do tempo que já não valiam a pena a ser desvendados. O passado ficou irremediavelmente no mar e o presente seria unicamente o seu amor por João.
Quando regressou a casa já não encontrou o seu marido. Um bilhete apenas na porta do frigorifico: - Foi fantástico ontem. Amo-te!
A paz tinha regressado outra vez e Sofia regressou aos seus afazeres domésticos, só que desta vez de sorriso rasgado nos lábios. A manhã passou rápido. Apercebeu-se disso quando ouviu ao longe na Igreja da pequena vila morena, as badaladas melancólicas do relógio centenário, que chamavam as pessoas para a hora do almoço. Achou estranho João não ter telefonado a confirmar o almoço como costumava fazer. Ligou-lhe mas o telemóvel estava desligado. Insistiu mais um punhado de vezes, continuando um silêncio nada usual.
Seriam umas três horas da tarde quando Sofia abriu a porta a dois policiais de rosto soturno e voz demasiado delicada. A notícia gelou o corpo e a alma de Sofia. Emudeceu sem conseguir verter sequer uma lágrima e obedeceu mecanicamente aos dois agentes. Era preciso reconhecer o corpo do seu homem que apareceu morto nas areias finas da praia!

       Estela Fonseca

3 comentários:

  1. Pronto... passado é passado e quando impede a tranquilidade do presente, o melhor é deita-lo fora. Mas... oh pá... será que o corpo encontrado na praia é mesmo do João?
    Parabéns, Estela!

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  2. A Sofia não para de me/nos surpreender.
    Numa penada, a entrega e o abandono; este da preciosa mala, aquela, do repudiado João.
    Teremos ainda marido, numa altura em que a mala se desvanece no horizonte? Onde estará por fim, a verdade?
    Parabéns, Estela. Conseguiste, quase no fim, um recomeço.

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  3. Muito bom este desembolvimento do conto
    Mas Estela, porquê matar este amor agora? :)
    Gostei e muito Parabéns

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