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24/07/13

A Morte dos Cipriotas - Capítulo XV - Final


Tenebrosa ironia aquela que ditara que o fim da vida de Arturo fosse originado pela iminente chegada da sua neta…

 

Nisto meditava Carlinda junto à Nossa Senhora dos Ventos enquanto acariciava os caracóis dourados de Liberto, aconchegado no seu colo, soluçante e desencantado com o rumo que aquele dia tomara e que influenciaria o resto da sua existência…

Absorta em seus pensamentos, nem ouviu o chamamento:

 
 


- Ó da casa! Ó da casa! – E alguns segundos mais tarde - Então queres ver que não está ninguém?!

 

- Quem vem lá? – Respondeu por fim. – Hoje não é um bom dia para visitas…

 

- Pois seja, mas venho de longe e não posso voltar bem como preciso de lhe contar uma história…

 

- Não perca tempo que eu já sei tudo…

 

- Sabe?! E não se importa?

 

- Que posso eu fazer e de que adianta importar-me? Nada posso mudar e já não tenho forças…

 

- Não a choca o assassinato?!

 

- A morte foi natural, foi a aflição… Se tivesse que culpar alguém, culpá-la-ia a si!

 

- A mim? Homessa!

 

- Pois claro, acabava de ler a sua carta…

 

- Do que é que está a falar? Eu era vizinha da mãe da Mariana, que Deus as tenha em eterno descanso, e venho avisá-la em relação ao Rafael, esse assassino, que não descansou enquanto não acabou com a vida da Marianinha, moça mais bonita e mais prendada da aldeia! Podia ter tido quem ela quisesse mas tomou-se de amores por aquele bandido, que foi a morte dela! E não há-de descansar enquanto não desgraçar a vida do Alvinho, coitadinho…

 

- Mariana? Alvinho? Não conheço ninguém com esses nomes! O que é que o Rafael tem a ver com eles? Pois se nem tem família…

 

- Não tem família? Foi isso que ele lhe disse? Em parte até tem razão, matou a mulher e o filho não o quer ver nem pintado!

 

- Não estou a perceber e estou muito cansada… O meu filho viu o avô morrer e adormeceu há pouco nos meus braços, tenho preparativos para fazer, tenho que resolver a minha própria vida e não tenho tempo para mexericos. A vida alheia não me diz respeito, por favor terei que pedir que se retire.

 

- Olhe, eu vou à vila e de tarde volto para falarmos, pois pelo que ouvi trata-se da sua vida e se esse menino é seu filho, deve ouvir o que tenho para lhe dizer.

 

Entretanto Libânio, que estivera ao telefone a tratar dos preparativos iniciais para o funeral e ouvira a última parte, intervém:

 

- Que história é essa? Se diz respeito ao Liberto quero ouvir do que se trata!

 

D. Cidália, que se preparava para ir embora face ao fraco acolhimento de Carlinda, ganha novo alento:

 

- Sábias palavras, senhor…?

 

 - Libânio, responsável comercial pela secção de enchidos da maior empresa do sector, ao seu serviço! E tenho o prazer de estar a falar com…?

 

- Sou a D. Cidália, vizinha da família da Mariana, em Baião!

 

- E quem seria a Mariana?

 

- Então a Mariana é a falecida mulher do Rafael, a mãe do Álvaro, pois claro! A sua senhora bem sabe de quem falo, é do amiguinho dela, só pensei que andasse enganada e não soubesse como é a peça, mas pelo descaso que faz quanto à segurança do filho, bem vejo que deve ser tudo farinha do mesmo saco!

 

- O Rafael foi alguém que encontrei quase desfalecido junto ao mar e cuja recuperação acompanhei, dado sentir que o devia fazer. Tornamo-nos bons amigos mas pelo que sei não tem família, pois foi o que me disse. Mais nada tenho a acrescentar, vou colocar esta pobre criança na cama, pois hoje já passou por demasiadas provações. Se quiserem ficar a falar, estejam à vontade, mas eu irei para casa, chorar a morte do meu pai. – Dito isto, Carlinda retirou-se.

 

Em casa, após deitar Liberto, prostrou-se a olhar para o retrato do pai, quando sentiu uma presença a seu lado, junto ao piano. Ouviu-se uma bela melodia, tocada por uma jovem de cabelos acobreados, que reconheceu como sendo a sua tia Bianca. Esta disse-lhe:

 

- O teu pai está bem Carlinda, era tempo de nos reunirmos, tinha vindo avisá-lo disso e ele estava a contar. Vive a tua vida sem medo, rompe laços se te asfixiam, cria novos que te permitam crescer e ser o que não foste até hoje por medo de convenções. Sempre to quis dizer mas creio que só agora estás preparada para o ouvir. Fica bem pequena.

 

Inexplicavelmente, Carlinda sentiu-se leve após este encontro, e mesmo a tristeza que antes a oprimia estava agora mitigada.

Resolveu ir até ao mar, para pensar um pouco. A caminho viu mais uma forasteira no trajecto para sua casa. Intuiu ser Lucinda Maria, e chamou:

 

- Lucinda?

 

- Sim, como sabe?

 

- Sou a Carlinda, presumo que vinha falar comigo.

 

- Vinha sim.

 

- Acompanhe-me até à praia e falamos lá, pode ser?

 

Caminharam um pouco, e sentadas sobre as rochas, começaram a falar:

 

- Soube hoje mesmo que tu existias, bem como a tua mãe, a tua avó e a tua filha! Sou tua tia-avó e tenho um filho pouco mais velho do que a tua Aurora, pois nasceu tarde. Tem sete anos e chama-se Liberto.

 

- Eu sei, o Libânio falou-me dele, bem como de ti, embora ache, ao ver-te aqui, agora, que não te fez jus. Descreveu-te como sendo desengraçada, desapaixonada, dependente e até um pouco tola, mas a mulher que vejo a minha frente parece-me forte, inteligente, determinada e muito bonita. Tenho pena de dizer que o que me traz cá implica o colapso da tua família, pois pretendo conferir alguma solidez à minha própria família. A Aurora tem dois anos e acha que um pai não vive normalmente com a mãe, aparece e dá dinheiro, ficando só um ou dois dias de cada vez, e não é essa a concepção de família que quero que retenha. Por outro lado para ti ele não tem sido um marido leal, e sendo assim, creio que seria melhor para ambas se ele assumisse a nossa família, apesar do mal que isso possa provocar-vos. Compreendes o meu ponto de vista?

 

- Ontem dir-te-ia que não, hoje digo-te que não sei. Estou a viver um dia surreal, sei apenas que quero mais do que tive até hoje, e tenho pena que para o ter deixe de contar com um dos pilares da minha vida…

 

- O Libânio?

 

- Não querida, o teu avô Arturo, que faleceu…

 

- Faleceu? Queria tanto vê-lo, falar-lhe… Contar sobre a minha mãe, mas sobretudo sobre a minha avó, que nunca o esqueceu…

 

- Talvez o possas fazer, na nossa família existem muitas surpresas, presenças que surgem quando mais precisamos… Hoje vi a tia Bianca, talvez tu possas ver o avô Arturo, o futuro o dirá….

E assim regressaram a casa, onde Libânio se despedia já da D. Cidália. Ao vê-las juntas em ameno diálogo, Libânio ficou lívido, mas Carlinda rapidamente o sossegou:

 

- Não te aflijas e morras tu também, basta um funeral por cada motivo!

 

- O quê, tu sabes?

 

- Sei da tua outra família sim, e sei que foi por ler essa carta que o meu pai morreu, com grande pesar meu. Preferia tê-lo sabido antes e tê-lo poupado a essa preocupação, vai fazer-me tanta falta! Quanto a nós, interiormente já sabia que algo se passava e se queres saber acho que já há muito deveríamos ter seguido caminhos diferentes. Curiosamente se mo perguntasses ontem não o teria sabido dizer… como pode um dia mudar tanta coisa?! Falaste com o mercado para entregarem as flores? A igreja está pronta para o meu pai?

 

- Querida Carlinda, já o enterramos, não te lembras? Foi no ano passado, uma homenagem linda, cheia de gente…

 


E para a enfermeira:

 

- Coitadinha, foi um choque muito grande para ela, eram muito apegados… Ainda bem que está aqui convosco, para a cuidar e animar, bem como aos restantes pacientes.

O Rafael tem sido tão importante para ela, dão-se mesmo bem…! Como tem estado ele? Tem tido episódios esquizofrénicos?

Bem, está na hora, tenho que ir, a Lucinda e os miúdos esperam-me, terminei hoje a rota comercial de Trás-os-Montes e Alto Douro, Minho e Douro Litoral mas quis passar aqui antes de ir para casa, para ver como estava. Até para a semana!

 

- Fica bem querida, para a semana trago cá o Liberto para te ver, está bem?

Elisabete Gonçalves

15/07/13

A Morte dos Cipriotas - Capítulo XIV


Nicósia, 5 de Setembro de 1939

 

Meu amor, meu sempre querido Arturo.

 

Não sei se chegarás a receber esta carta que escrevo do coração.

Embora a guerra começada na sexta-feira não tenha ainda chegado ao teu novo país, tudo se complica agora, ainda mais.

Tenho no peito a amargura de te dar tão alegre notícia em tão maus tempos.

A nossa filha nasceu no dia 24 de Junho em Pathos.

É bonita, uma trigueira latina, e chama-se Maria Eliana. Maria em honra de tua mãe.

Por várias vezes tentei obter a tua morada sem sucesso, depois foi a fuga para Nicósia e a procura de alojamento que, graças ao Sr. Francisco se arranjou. Depende dele a entrega desta carta, que lhe pedi para não abrir uma vez que não me autoriza que te informe do nascimento da nossa filha.

Diz-me que por enquanto é melhor não te dizer nada uma vez que a tua vida aí ainda não estabilizou e esta notícia resultaria no teu regresso e numa carga de trabalhos para a tua família.

Aguardo, meu amor, que me escrevas. Estarei sempre aqui, sempre tua, sempre à tua espera com a Maria Eliana que já sabe muito de ti pelas histórias que lhe conto.

 

Um beijo de saudade

tua, Eliana

 


Carlinda siderada com o que lera, deixou tombar a carta e recostou-se na cadeira deixando o olhar perder-se no espaço. Uma irmã. Mas porque lhe tinham escondido que tinha nascido uma irmã no Chipre ainda antes do casamento dos seus pais?

Atordoada começou a fazer contas pelos dedos… tinha… por isso… tinha… uma irmã com cinquenta e oito anos… mais três que ela… que confusão… teria filhos?, seria viva?, estaria em Chipre?, aquela morada…

- Olha lá, tem aqui mais cartas, só queres ler essa? Perguntou Libânio com a sacola na mão?

- Lê-as; se queres!... atirou Carlinda ainda com os olhos resvalados na linha do horizonte.

Como fora sempre considerada “uma tola”, todos respondiam às suas perguntas de juventude com aspereza mas, com a verdade que se dá aos pobres de espírito. E a verdade é que ela sabia muito bem, pelo que foi juntando aqui e ali que a sua mãe, filha de Francisco Almeida, sabia dos antecedentes da família Cipriota pois tinha sido quem organizara todo o espólio fotográfico, cartas, memorandos e diários de viagem do pai para entrega ao Sr. Presidente do Conselho, autoridade única a quem ele se reportava.

O avô; ouvira-o de seu pai num momento de desespero, variava de humores como de fato. Quando em Chipre, era um cavalheiro amável, prestável, urbano e até, um pouco zombeteiro, mas aqui, onde todos o sabiam chefe de brigada da PVDE temiam-no, e ele, com escritório na Sé, ostentava a proximidade com o Aljube para, com um simples dedo em riste, derrubar o semblante mais espevitado que lhe aparecesse. Ele sim; saberia tudo.

Percebera um dia por uma prima afastada que trabalhava no ministério, que a razão da vinda da família do Chipre para Portugal tinham sido um pedido do Sr. Presidente e que excepto Bianca, todos tinham emprego em Embaixadas Portuguesas na Europa e que o pai tinha sido quase que obrigado a casar com a mãe, Maria das Dores, que, com aquele defeito na perna e a sua pouca agilidade mental não era mais que um embaraço. A prima não tinha chegado ao ponto de lhe dizer o casamento fora a moeda de troca, mas, ela assim o entendeu.

O que nunca tinha entendido foram quais os elevados serviços prestados à nação.

Com uma lentidão de quem teme, Carlinda pega em mais um papel, mais um bilhete que uma carta, um papel informal, pardo, coçado, talvez entregue por mão própria por alguém conhecido e de confiança com quem trocassem notícias. Conheceu-lhe logo a caligrafia, bonita, cuidada, com perninhas arredondadas e arrebiques nas maiúsculas. Era de 1961 e datava de um dia imperceptível de Agosto.

 

Curia,… 1961

 

Arturo, espero que estejas bem de saúde.

As coisas aqui na mercearia vão melhores graças à tua ajuda.

Nem tudo podem ser más notícias, por isso tenho o prazer de te informar que és avô.

A Maria Eliana teve uma menina a quem demos o nome de Lucinda Maria.

Tenho pena que o pai não a tenha visto, mas embarcou a semana passada à pressa para Goa num contingente especial sem aviso prévio nem data de regresso prevista.

Tem sido cada vez mais difícil encontrar quem te entregue as cartas.

Darei mais notícias assim que poder.

 

Um beijo

Eliana

 

Curia… interessante… um dia, ainda menina, fora com o pai e a tia Bianca à Curia encontrarem-se com uns senhores alemães que iam para a América.

Que ano seria… não sabia bem mas, tinha cinco ou seis anitos e lembrava-se bem de na casa onde pernoitaram ter brincado com uma menina de tranças e de até lhe terem tirado umas fotos com ela a ler-lhe um livro com figuras. A tia Bianca chama-lhe Maria mas em Portugal eram quase todas Marias… no entanto, e nunca mais ouvira essa expressão para qualquer menina, nem para ela própria, o seu pai chamara-lhe “bela como o Sol”.

Lembro-me perfeitamente de o meu pai me pedir segredo, que o meu avô nem podia sonhar que aquela família que nos acolhera existia. Disse-me, como me recordo agora… que tinham vindo no pós-guerra apoiados pela Caritas e que não gostavam que os vizinhos soubessem…

Lucinda Maria.

Fora a última vez que vira a tia.
 
 

Soube mais tarde, só podia ser mentira!, que o seu avô, que já passara os sessenta, era seu amante, que a protegia apesar das diferenças políticas e medos que o Sr. Presidente soubesse e que, uns dias após a visita à Curia, já no Aljube e acusada de ajudar os terrorista em África, podia lá ser!, estando com guia de marcha para o Tarrafal, ele conseguiu que fosse deportada para S. Tomé e Príncipe sob a promessa que nunca mais o contactaria; a ele ou à família.

Tinha trinta e seis anos e usava calças. Disso lembrava-se Carlinda e toda Lisboa.

Lucinda Maria.

A memória é um rodopio de vida, um entrelaçar emaranhado de imagens, sons, cheiros e sensações. Lucinda Maria. De repente o seu pai, com a mão no seu ombro, num afago raro, repetiu-lhe a história da sua partida, uma só vez contada, em confidência pouco habitual abrigada pela calmaria dum fim de tarde:

- A saída para Portugal foi a aventura da minha vida Carlinda, como que uma vinda para o outro lado do Mundo conhecido. Tal como os navegadores de quinhentos também eu iria sair do meu berço natural, do meu útero. Olhei um mapa e conferi, - a minha nova casa será do outro lado do meu mar. O meu nome era até premonitório; sempre distante, sempre longe, houve um deus a quem chamaram “vento do Oeste”, que fecundava as éguas na longínqua Lusitânia para onde me dirigia … Talvez nunca venhas a entender isto minha filha, tu és Portuguesa e nunca terá de deixar a tua terra, nem por guerras nem por fomes, nem por necessidades várias. Nunca partas definitivamente Carlinda, mesmo que nunca saias de cá, regressa sempre. Nunca abandones.

Lucinda Maria. Porque não lhe sai da ideia este nome…Lucinda Maria?...

Ia passando o olhar por fotografias amarelecidas de clausura e idade e lembrando o pai, e de quando ele repetia: - Em Paphos tinha a protecção de Olympos esse colosso que, acredito!, cuspirá fogo para salvar o meu povo.

Porque nunca lhe mostraram aquelas fotografias? Quem era aquela gente com a marca de “desaparecido em…”? Que cartas por abrir eram aquelas? Quanto mistério…

Imersa em pensamentos e dúvidas, nem dá pela presença de Libânio ainda ao seu lado fumando compulsivamente com ar de condenado no patíbulo estendendo-lhe uma carta, mais recente, mais formal.

Ao pegar na carta, mãos trémulas de emoção recente, nem sonhava que

 

Curia, 10 de Agosto de 1996

 

Sr. Arturo Zéfiro; espero que esteja bem de saúde.

 

É com bastante preocupação e desgosto que lhe escrevo, pela primeira vez, e sobre um assunto que, sabendo que foi falado pela minha falecida mãe repetidas vezes, não chegou a bom porto.

Como é sabedor, Libânio é fornecedor do nosso supermercado há já alguns anos.

Com o tempo foi ganhando confiança cá em casa, sendo simpático, e, como se dava como homem livre, iniciou um namoro, nunca aprovado por nós, com a minha filha, e sua neta, Maria Lucinda.

Desse relacionamento nasceu uma filha, a Aurora, agora com dois aninhos.

Só nessa altura soubemos, e após muita pressão para a legalização da paternidade, quem era esse senhor e nos trabalhos em que nos tinha metido.

Alegou um completo desconhecimento de laços familiares e, quanto ao adultério iria resolver as coisas a bem, deixando o lar quanto antes.

Sei que o assunto foi falado por carta que a minha mãe lhe dirigiu.

Como até ao momento não foi dado um passo para resolver o problema a Maria Lucinda sente-se no direito de vos abordar pessoalmente para dar solução a tão grave impasse.

Disse-lhe que tem todo o meu apoio.

 

Maria Eliana

 

iria perceber tudo, e que a carta que colapsara o pai era para si com a promessa duma visita, tantas vezes negada, para que se apresentassem, sobrinha-neta e enteada numa só.
 
José Bessa

04/07/13

A Morte dos Cipriotas - Capítulo XIII


Numa nebulosa que se adensava em sentimentos díspares, as sombras de fim de tarde alongavam-se pesadamente negras em ocaso de conjunturas. Manchas anil, fogo e púrpura, descaíam do céu absorvidas pela terra que as ia exalando, lentamente, em minguantes de luminosidades que se transformavam em formas melancolicamente escuras e tristes.

Até o banco vermelho, descascando tinta, projetava sombras fantasmagóricas que deslizavam sobre a relva já madura de entardecer.

 


Rafaelo, absorto em libidinosos pensamentos, já não meditava no filho que não era seu filho, nem em Mariana que tinha sido mulher em dias por inteiro, mas apenas em Carlinda mulher inteira por um dia.

 

Arturo, irremediavelmente defunto, era ainda mais sucumbido pelos prantos de Carlinda e Liberto que, entretanto, tinha despachado o Dr. Luisinho ao ouvir os gritos lastimosos da mãe.

Rimbaud, voltando à cena da incontinência lacrimosa, uivava em desgostos de memória canina transformando o ocaso, em caso ainda mais crepuscular.

A umas centenas de quilómetros, Libânio repelia a filha que se lhe agarrava aos joelhos, descarregando na mãe o peso do adultério que não era pretensão sua dar a conhecer.

 

Toda a incomensurável enormidade de atos e situações se conjugava e convergia para o final infeliz que se fazia anunciar nos últimos capítulos.

Chipre não tinha culpa, nem o Mediterrâneo Oriental, nem Nicósia que desconhecia liminarmente o que se passava em Paphos. Apenas quem escrevia esta história era o vero responsável pelos acontecimentos passados e os vindouros.

Exceptuando (coloquei um p antes do t e o computador deu erro! Maldito acordo ortográfico que nos retirou a individualidade e a dignidade linguística!) os chouriços e alheiras (estas últimas que presumo terem sido os cipriotas, em agradecida homenagem aos judeus portugueses, a fabricá-las, ou se teria sido Libânio que, nas suas saídas libertinas de oferta de enchido, tivesse passado por Trás-os-Montes), tudo se mantinha incongruente e sinistro, tal e qual uma Troika em dissidência declarada com o FMI.

 

O Dr. Luisinho, qual ministro da economia, já tinha arranjado solução economicamente arrastada mas, a seu ver, viável para sepultar Arturo Zéfiro.

O Padre de Paphos, que dormitava beatificamente antes de a sobrinha lhe servir o jantar, foi puxado pelo médico para ministrar uma Extrema-Unção, já para além dos extremos da compreensão.

 

A umas centenas de quilómetros e ainda empolado numa discussão com Lucinda, o telemóvel de Libânio vibrou:

- O meu pai faleceu! Que pena não teres sido tu em vez dele! – e a voz que ele tão bem conhecia suprimiu-o imediatamente da linha.

E como uma desgraça nunca vem só, a filha Aurora, que teimava em sentar-se nos seus joelhos, embora com dois anos e sem usar fraldas sem a devida contenção, urinou-o despreocupadamente em infantil sorriso. E Lucinda, já farta da logorreia do amante, despejou-lhe a jarra com hortênsias azuis pela cabeça abaixo.

Inundado na sua integridade de homem, sacudiu-se com petulância e abalou porta fora rumo à carrinha dos enchidos, enfunado de orgulho ferido, mas pensando interiormente se o velho teria deixado algo em testamento.

 

Deixando Libânio em águas mornas, outra questão assaz importante e que não poderia ser descurada, dizia respeito a Rafael:

- Por que motivo não tinha falado a Carlinda do pseudo filho?

Autêntica trama de telenovela se, e digo se, a polícia não andasse de olho em Rafael por suspeita de pedofilia. Aliás, outras suspeições circulavam relativamente a Mariana e à sua morte, havendo vizinhos que afirmavam peremptoriamente (outra vez o raio do p foi recusado pelo corrector, agora o c, também foi desprezado pelo acordo ortográfico, à revelia instalado neste computador) que ela se tinha suicidado devido à constante perseguição que o padrasto movia a Álvaro. Pois Rafael, de olhos de mel, havia casado, após divórcio litigioso, com Mariana. Sentindo-se acossado pela polícia e, mais tarde ou mais cedo, desmascarado, tentou o suicídio como já foi lido em capítulo anterior.

 

Mas voltemos a Paphos na precisa altura em que Libânio chega ao volante da carrinha de enchidos, cheio de presunção e aparente aflição, mas com o veículo já vazio de gasóleo devido à velocidade que imprimira na viagem.

- Linda, Linda, que grande desgraça! E eu que gostava tanto do meu sogro, não havia ninguém que se comparasse a ele a contar histórias! – e tentava lacrimejar sem que uma única gota de orvalho em plena noite assomasse aos seu olhos.

Mulher e filho olharam-no de alto a baixo, sem lhe mostrarem um dente ou simularem um abraço. Voltaram-lhe as costas ostensivamente e o silêncio caiu com o estrondear do desprezo. Até a Senhora dos Ventos, em milagre não presenciado, lhe voltou as costas de madeira esculpidas por Pétros.

 


O funeral constituiu um acontecimento não presenciado há muito tempo, com toda a população habitante de Paphos e alguns emigrantes, em cortejo sentido e carpido, de presidente de junta de freguesia à frente. Até o arcebispo Macário, se fosse vivo naquela altura, gostaria de presenciar tão sentido préstito.

A acompanhar o avô e amigo de eleição, Liberto transportava o papagaio de papel vermelho suspirando para que uma rabanada de vento o elevasse cruzando os céus e acompanhasse na sua ascensão a alma de Arturo. Este, durante toda a sua longa vida tinha rido, vivido, amado, nostalgicamente sonhado e agora, apenas como uma vela que se sopra, tinha-se apagado…

Rafael, de óculos escuros e semi escondido por um cipreste, acenava um último adeus agitando na mão as cuecas de Carlinda.

Quando a urna descia à terra, uns acordes de piano, inicialmente muito ténues mas que foram aumentando em crescendo, fizeram-se ouvir. Um dedilhado suave como brisa de verão, soltava notas como folhas desprendidas de árvores que volteavam, enlaçavam os sentidos, até esquecerem a força da gravidade que, suavemente exercida, as fazia pousar delicadamente no chão argiloso e poeirento do cemitério.

 Bianca, em espírito, tocava um Nocturno em ré bemol de Chopin. Todos ouviram e nunca ninguém soube explicar a origem da melodia. Mentes mais supersticiosas atribuíram o facto a um milagre da Senhora dos Ventos.

 

Após as cerimónias fúnebres, na branca “vivenda italiana”, de mãos dadas e lágrimas que ritmadamente caíam em sintonia no chão de madeira carcomida, Carlinda e Liberto abriam o móvel indiano em madeira de sândalo, no qual Arturo nunca deixara tocar. Na gaveta, por entre fotografias a preto e branco que quase se desfaziam no pó em que se tinham transformado, apareciam Yannis, Bianca, Chiara, Pétros e Maria, figurando também o recém-falecido. O pai deste e o marido daquela incognitamente tinham desaparecido deste baú de recordações.

No fundo da gaveta, bem escondida, encontrava-se uma velha sacola de trazer à tiracolo, em couro já roído e usado pelo tempo com uma etiqueta onde se lia “Made in China”.

Abriram um pequeno fecho rotativo em latão.

Sentiram no seu interior um papel espesso enrolado como antigo pergaminho.

Retiraram-no.

Desenrolaram-no e leram: -…
Fernando Magalhães

27/06/13

A Morte dos Cipriotas - Capítulo XII


Arturo continuava imóvel, estatelado no chão, inconsciente, inanimado à espera de socorro. Rimbaud latia, penosamente, junto daquele a quem tinha prestado uma lealdade fiel.

 
Liberto e o Dr.Luisinho corriam, a passos largos, para socorrer aquele que já partira para o além. Liberto parou em frente à imagem da Nossa Senhora dos Ventos e suplicou, com os olhos rasos de lágrimas, a descida do avô à terra. Rogou àquela Senhora que não permitisse que o avô o abandonasse para se juntar aos familiares que já tinham partido. O doutor media a pulsação de Arturo, mas o coração do idoso dava sinais de paragem definitiva, nada a fazer… O médico, frustrado, por não ter conseguido realizar o milagre de o trazer de volta à vida, sentou-se, perplexo, junto do velho amigo com as duas mãos a apoiar a cabeça que a balançava negativamente. Sentiu uma fúria a percorrer-lhe todos os sentidos pela sua incapacidade profissional. Indignado, deu um valente pontapé na maleta dos acessórios médicos, fazendo-a deslocar-se uns metros para a frente. Liberto ao assistir a este gesto de revolta apercebeu-se de que a sua prece não tinha sido atendida. Olhou, furiosamente, para a imagem protetora da família e arrancou violentamente pétalas de rosas amarelas que adornavam a Nossa Senhora dos Ventos.

- Porquê? Porquê? Porquê levas o meu avô para longe de mim?- Chorava, intensamente, sem desviar o olhar da santa.

O Dr. Luisinho abandonou o espaço onde jazia Arturo e foi ter com Liberto que, naquele momento, precisava de um colo amigo. Aquela criança metia dó, a sua ligação com o avô era um elo de amor muito forte. O doutor que tentava ser forte perante esta cena trágica não conseguiu impedir a saída de uma lágrima salgada, tão salgada e tão amarga como o que estava a viver. Aproximou-se de Liberto, segurou-o no colo e foram até ao outro extremo do jardim. Sentaram-se num banco de madeira cuja tinta vermelha teimava em soltar-se do assento e o médico com o menino no seu regaço tentava acalmá-lo, carinhosamente, encostando a cabecita no seu ombro para tentar apaziguar a sua dor. Liberto apenas soluçava, as lágrimas pareciam ter esgotado, temporariamente, daqueles olhinhos vermelhos e inchados. Luisinho acariciava-lhe os cabelos e permaneceram em silêncio por breves instantes.

Rimbaud abandonou o cadáver, atravessou o relvado verdejante e sentou-se ao redor daquele banco de tinta corroída pelas várias oscilações atmosféricas.

Onde estaria Carlinda?-Pensou o médico preocupado. Como reagiria com a notícia? Sabia que o casamento da sua amiga vivia tempos de turbulência e agora com a perda do pai, aquela mulher iria desabar numa depressão profunda. Tudo isto passava na mente do doutor como se fosse uma tragédia grega.

O pequeno Liberto ergueu o rosto sofrido, olhou compassivamente para o doutor e disse:

-E agora…quem é que me vai contar aquelas histórias fantásticas que só o meu avô sabia contar? Quem vai ser a minha companhia quando a mãe e o pai não estão? – Liberto tomava consciência da realidade.

-É a lei da vida, todos nós nascemos, crescemos e morremos um dia…Só o tempo é que te vai ajudar a curar essa ferida, tens que ser forte e corajoso meu caro amigo Liberto.

 
Carlinda regressava a casa, sentia-se uma adolescente perdida com tanta mistura de sentimentos. Reparava na beleza das flores do jardim e na simplicidade das borboletas que esvoaçavam de flor em flor. Uma suave brisa fez chegar aos seus pés um envelope endereçado a ela própria. Curiosa, pegou nele e verificou que estava incompleto, faltava o conteúdo. Com toda a pressa dirigiu-se ao pequeno santuário e em frente à sua protetora agradeceu o momento mágico que acabara de viver com Rafael e, ao mesmo tempo, proteção para o mau pressentimento que estava a sentir. De repente, o vento soprava bruscamente como se o Deus Zéfiro estivesse zangado com a humanidade e fez-lhe chegar um pedaço de papel mordiscado. Baixou-se para apanhar o pequeno documento fragmentado, conseguiu ler duas frases onde constava o nome de Libânio e onde relatava a vida dupla do marido; o misterioso conteúdo da missiva acabava de ser desvendado. Carlinda, porém, não ficou surpreendida por aquilo que acabara de ler, afinal a sua intuição feminina há muito que lhe mostrara o que ainda estava por descobrir a olhos vistos. O sentimento que tinha pelo marido em nada mudou por esta revelação, só lamentava ter sido enganada e traída pelo primeiro homem a quem se tinha dado por inteiro.

Pensativa olhou à sua volta para ver se Liberto brincava no jardim, quando, de repente, a imagem do pai caído no chão invade-lhe a vista e fere-lhe o coração com uma dor tão intensa que a fez gritar aos quatro ventos a palavra pai. Aproximou-se dele, acariciou-lhe o rosto mórbido que dava sinais de abandono à vida e chorou compulsivamente.

-Pai, perdoa-me por, muitas vezes, não ter escutado as tuas histórias do passado que tanto gostavas de contar e por não te ter dado a atenção que merecias…nunca tinha tempo para ti meu querido pai… - Carlinda falava ao ouvido do pai como se este a ouvisse e, ao mesmo tempo, foi invadida por uma paz interior inexplicável.

Rafael no seu pequeno apartamento, sentou-se na poltrona de pele desgastada pelo tempo e pensou em Carlinda, na beleza daquela mulher. Este homem solitário refletia no casamento infeliz que vivera com Mariana e no filho Álvaro que, após a morte da mãe, perdeu-lhe o rasto depois de uma discussão acesa de palavras azedas em que o filho o acusava da morte da mãe.
 
Sónia Ferreira

18/06/13

A morte dos Cipriotas - Capítulo XI


Algures numa outra espécie de universo regido e sincopado pela quase inexistente batida do coração, Arturo não ouvia os gritos de Liberto nem sentia mais as toscas lambidelas de Rimbaud.

Perdido numa nebulosa de tons azuis e dourados, os cheiros agudizavam-se numa estranha sinestesia. De repente tudo parecia concentrado num só objetivo, numa só missão de vida após os 90 que lhe tinham sido permitidos.

 
Regressara a Coral Bay, à praia dourada de pedras polidas brilhando em misteriosas cores nos charcos de água salgada que se formavam ao longo dela. As aves marinhas soltavam gritos sobre a sua cabeça e o rasto de uma tartaruga ainda se avistava na praia deserta no despontar matinal.

À pungência da maresia juntavam-se os aromas frescos e anisados que o interior da ilha enviava na brisa doce e mediterrânica.

A Chipre de Arturo era um país sob a bandeira britânica mas aquilo que por ela sentia não tinha a ver com noções estritas e políticas de pátria. Para ele o amor à terra e àquele mar azul, era uma segunda pele da qual durante tantos anos sentira uma saudade imensa.

E agora ali estava ele , levado num último sopro de energia, como se um milagroso regresso às origens fosse a chave final com que a vida encerrava o seu ciclo.

Ali se fizera homem, quando aos fins de semana saía a pé de Paphos e sem medos nem cansaços seguia até à deserta Coral Bay.

 Fora Egeria, 10 anos mais velha do que ele e filha de um pescador, quem lhe desvendara os mistérios do amor. Na praia deserta aprendera as rotas do corpo, bebera os elixires do amor e gritara com as aves enquanto o corpo se retesava na areia dourada beijada pelas águas transparentes.

 

A batida do coração desaparecia quase , diluida num breve murmúrio, suspensa num suspirado final.

Agora os odores tinham ficado mais acentuados à medida que ele recuava na história de vida. Maria, sua mãe, atarefava-se na cozinha e os cheiros da strapatsatha, do húmus, da beringela assada, pareciam substituir o sangue que já quase deixara de correr nas veias. O último Natal na sua amada terra, o aroma quente da canela e a vasilopita que nunca faltara na mesa foram a última sensação que o exauriu e fez partir.

 

Presa de um estranho pressentimento Carlinda olhava Rafael suspensa do que a arrebatava, como se algo a impedisse de viver, de respirar sequer. Era um aperto que a engolia como uma boca escancarada, um buraco negro que a sugava desviando-a dos seus prováveis desatinos.

Rafael que naquele momento a desejava , não sabia se para se salvar de si mesmo, ou porque um sentimento quase algoz se infiltrara nele, apercebeu-se e apertou-a nos braços

Carlinda tinha dentro dela algo desconhecido que não sabia entender. Não percebia se era um aviso qualquer, se apenas muito simplesmente o apelo da paixão que teimava em calar. Tinha em si uma fornalha mesclada por epidérmicos calafrios e uma nova geografia corporal, toda feita de de cumes em flor e riachos escondidos a correrem desenfreadamente.

Sabia que nunca fora amada como queria. O seu casamento nada tinha de romântico, nem de partilha de sentimentos. Era apenas um dever que cumpria mecânicamente, como se já tivesse nascido destinado que assim fosse.

 
Por fora escondia-se num tímido vestido, numa madeixa de cabelo a tapar o fulgor do olhar. Por dentro rebelava-se, a pele a gritar por ser tocada, os seios alvos a rebentarem anseios, o ventre rubro a parir constantemente êxtases incontáveis dos quais apenas as suas mãos sabiam o caminho.

Olhava Rafael e não sabia bem o que queria dele mas tinha a certeza do que fazia, quando deixou cair o vestido aos pés e o olhou com a fome de uma mulher só.

Ele esqueceu tudo no momento ébrio e alucinado da visão de Carlinda.

Ali estava ela, quase pura e intocada como se nunca as mãos de alguém tivessem passado por ela, falado nela, brincado nela.

Rafael perguntava-se se ela tomara a sério as propostas dele, mesmo quando as rejeitara num eterno desprender-se de si própria, num desamar-se que a vida erradamente lhe ensinara.

Contara-lhe a verdade, o desespero que o acometera e o levara numa hora insana até às rochas. Fora cobarde, sabia-o.

Mais cobarde era agora porque a verdade não estava inteira, tinha outras faces e era tão curta e fugaz quanto o último raio de sol. Era uma verdade pela metade, porque o som de todas as palavras era demasiado áspero e pesado, rugia-lhe contra os dentes cerrados, impedindo-o de  gritar, boca aberta  e olhos iluminados, aquilo que Carlinda devia saber.

Aquele segredo penoso que o amarrava numa impiedosa vergonha ficou encerrado na garganta, estrebuchando na tremenda raiva e agonia por se soltar.

Mas ela parecia uma flor trémula, uma espécie de papoila frágil, vermelha e aveludada mas prestes a perder as pétalas mal a desdita lhe tocasse.

Que fazer agora? Que fizera ele?

 Desviou os olhos dela e fitou assustado o vestido azul com bolas brancas que jazia no chão, como uma mancha a macular-lhe a consciência.

Como podia falar-lhe de Álvaro?
Margarida Piloto Garcia

12/06/13

A Morte dos Cipriotas - Capítulo X

Arturo virou a carta e sentiu-se tentado a abri-la. Nunca fora curioso, muito menos intrometido em assuntos que não lhe dissessem respeito mas havia algo naquela carta que parecia chamá-lo.
 
 
- Não, não posso fazer isto. A carta é para Carlinda. Mas uma voz interior falava mais alto e Arturo pegou no canivete que sempre o acompanhara e que tinha sido prenda do seu querido tio-avô Petros e sem hesitar mais, rasgou a parte de cima do envelope. Começou a ler a confissão de Lucinda e as suas mãos começaram a ficar trémulas. Uns minutos depois, Liberto apareceu saltitando, com Rimbaud atrás e só viu o avô estendido no chão, com a mão no peito.
- Avô, avô…fala comigo! – gritou aflito o menino. Rimbaud viu na mão do patriarca a carta e num instinto animalesco, arrancou as folhas e começou a mordê-las com uma vontade que parecia demonstrar que aquele cãozito sabia o mal que continham aquelas linhas escritas no meio de uma crise de ciúmes. Rasgou, mordeu, puxou e as folhas começaram a desfazer-se. A letra simples de Lucinda começou a esvoaçar imitando o papagaio vermelho e os pedacinhos de papel subiram, subiram e ganharam altitude, semeando o drama no jardim de Arturo.
- Avô fala comigo… - chorava Liberto, sem saber o que fazer. Onde estarão os meus pais?
- Tu fizeste o quê? – vociferou Libânio, esbofeteando Lucinda na cara, com um ódio que ela nunca tinha visto. – Como te atreveste a fazer tal coisa?
- Tu nunca mais tomavas uma atitude. Estou cansada de esperar, Libânio – gemeu Lucinda agarrada à cara que ainda doía.
- Tu não tinhas esse direito. Eu disse-te que ia sair de casa, que estava para breve, mal voltasse à terra, ia arrumar as minhas coisas e não punha mais lá os pés. Mas não era preciso a Carlinda saber de tudo. Ela pode não ser a mulher que desejei mas não merecia tal sofrimento! Não tinhas esse direito – gritou mais uma vez Libânio, pronto a esbofetear Lucinda novamente.
Nesse momento, uma voz frágil e inocente fez-se ouvir na porta do quarto.
- Papá, porque estás “ xangado” ?– choramingou de forma quase imperceptível Aurora, com um ar assustado, uma linda menina loirinha de dois anos.
As horas passaram depressa naquele jardim, à beira-alma plantado. O mundo parecia ter-se tornado apenas de Carlinda e Rafael mas as horas e o entardecer deixavam adivinhar que o mundo depressa voltaria a ter mais nomes.
- E agora Rafael, que faço eu? –perguntou Carlinda, suplicando por uma frase que a ajudasse a resolver a tempestuosa indecisão que ia dentro do seu coração. Carlinda não queria separar-se daquele ser que lhe trouxe uma luz que desconhecia até então.
Nada se tinha passado entre eles até aquele momento, a não ser um encostar de ombro, terno e tranquilo e um ouvir de ambas as partes que tinha dado aquele momento de partilha, um sentido de confessionário e intimidade que Carlinda jamais pensara ter na vida. E agora de repente, de um momento para o outro via-se a revelar também o seu rosário, em contas agrestes de mágoas e ilusões.
- Não quero que vás, respondeu Rafael de lágrimas nos olhos. Para ele, que sempre tinha sido um homem altivo, de poucas falas, um pouco duro até, devido ao ambiente em que crescera, toda aquela comunhão de sentimentos e o toque da mão daquela mulher, tinham-no deixado mais frágil.
- Mas e o meu filho, o meu pai? Como posso eu não voltar? – perguntou Carlinda em voz alta mas falando com a sua própria consciência.
- Terás de voltar, ambos sabemos. Mas não já, não agora –afirmou de forma decidida Rafael, levantando-se e pegando nas mãos da sua salvadora. - Há uma coisa que não te contei, eu não estava a pescar. Desculpa, se te menti, foi por vergonha de mim mesmo.
- Então que fazias ali?
-Eu tinha decidido terminar com a minha vida. Agora que já sabes grande parte da história da minha vida, talvez percebas porque tenha decidido pôr um fim aos meus dias de solidão. Assim, naquele dia, eu estava quase pronto a deixar-me cair mas algo me fez arrepender, no último segundo. Mas escorreguei  e o destino quis que fosse parar aquelas rochas. Mas afinal não foi uma tragédia, foi um presente que os Céus me ofereceram.  – E dito isto, Rafael ri-se. Soa tão estranho eu dizer isto, nunca fui romântico, muito menos poético.
 E ri-se de novo, escondendo a cara no ombro de Carlinda.
Carlinda toma a cara de Rafael nas suas mãos e num despertar instintivo, dá-lhe um beijo. Desta vez é ela que se ri, com um riso límpido, livre e sonoro. – E eu nunca tinha beijado ninguém. Sempre esperei que os lábios do outro viessem ao meu encontro. Este é o meu primeiro beijo – e cora, baixando a cabeça.
 
 
Ao longe uma música começa a tocar. Não se percebe de onde vem, mas tem uma sonoridade quente, com um ritmo vibrante, soa a acordes latinos e a paixão.
- Queres dançar? - pergunta Rafael.
- Mas eu não sei…- responde envergonhada Carlinda.
- Eu também não – ri-se novamente Rafael, começando a pegar na mão de Carlinda e avançando para a frente, sem saberem nada do que estavam a fazer mas com um brilho no olhar que ambos estavam a saborear.
Um grupo de jovens parou a olhar para aquele casal inusitado a dançar assim no meio do jardim, e começou-os a gozar, daquela forma tosca e brusca tão característica dos jovens a descobrir ainda a união dos sexos.
- Não ligues, eles vão saber daqui a uns anos como é boa esta sensação – E dito isto, Rafael beijou Carlinda mas desta vez, não foi um beijo simples, foi um beijo longo, tão longo quanto os dias em que ambos tinham esperado um pelo outro.
-Humm- gemeu Carlinda. – O que foi? – perguntou Rafael.
- Não sei, senti um aperto no peito, e nesse instante veio-me à ideia o meu pai. Será isto um sinal, Rafael? Será que devo voltar já?
Nesse instante, a música mudou de tom, e as notas de um fado começaram a percorrer os céus. Era um fado que falava de traição, abandono e partida. Carlinda agarrou-se a Rafael e um medo súbito percorreu-lhe a alma.
- Avô, avô fala comigo -continuava a suplicar Liberto. Rimbaud latiu, como se quisesse alertar Liberto que era necessário fazer alguma coisa.
- Rimbaud, fica aqui com o Avô. Eu vou chamar o Dr. Luisinho –e dito isto, Liberto sai disparado a correr, pelo meio dos pedaços da carta de Lucinda que continuavam a esvoaçar ao vento.

Carolina Lemos