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01/02/14

Cidade das Dunas - Capítulo XV - Final

Ali o tempo era diferente, tão diferente da quente e ruidosa Natal. E não se referia apenas ao tempo meteorológico, que esse já ela sabia e vinha preparada para enfrentar. Uma breve paragem em Lisboa dera-lhe para comprar agasalhos quentes para si e para a sobrinha Eliane.
No dia anterior a irmã Patrícia tinha-lhe pedido, com um trago de medo na voz, que acompanhasse a sua filha para um refúgio numa aldeia do interior norte de Portugal. Não houvera tempo para explicações mas Celine amava a sobrinha e jamais recusaria um pedido da irmã, ainda para mais se a menina corria perigo.
A simpatia da Senhora Alexandrina cativara-a logo ao primeiro olhar, de imediato tinha percebido que arranjara ali uma confidente para os desabafos de uma vida atribulada. De estatura mediana e pele rosada pelos ares do campo, era ela que tomava conta da unidade de turismo rural, propriedade do amigo de Vasco.
- As pessoas aqui veem para descansar das correrias do dia-a-dia na cidade, é um lugar calmo e cheio de paz. – Dizia ela a Celine enquanto a ajudava a acomodar-se, a ela e à sobrinha. – Este é o único sítio onde se podem hospedar e por isso sou eu que recebo toda a gente cá na terra. Aqui há um tempo é que andou por aí um rapaz que não ficou cá na casa. Andava lá pela serra e só descia cá à aldeia para buscar comida. Chamava-se Duarte…
- O meu pai também se chama Duarte – disse Eliane com aquela vivacidade própria das crianças.
Celine ficou pensativa, como se tivesse sido atingida por um pressentimento. Teria aquele Duarte algo em comum com o Duarte que Patrícia procurava? O pai de Eliane.



E Lisboa cirandava ao ritmo da brisa marítima após o almoço.
- Estou, Colaço? É o Duarte…
- Qual Duarte?
- Como qual Duarte, que conversa é essa… quantos Duarte’s conheces tu? Sou eu, o Duarte do Jornal.
- Na verdade já lhes perdi a conta mas adiante… diz lá, precisas de alguma coisa?
- Isto está a ficar complicado, estás aí nesse buraco a que chamas escritório?... Estou a ir para aí.
Não tardou a que Duarte estacionasse o carro junto ao número dez da Rua dos Contrabandistas e galgasse as escadas de dois em dois degraus até ao sótão. Bateu levemente à porta e entrou sem que Colaço tivesse tempo de fechar o documento que observava, completamente embevecido, no ecrã do computador.
- Isto é espectacular… os gajos planeiam dominar o mundo!
- Estás maluco ou quê? Eu venho aqui dizer-te que não quero mais saber das tuas investigações, que vou sair disso, e tu vens-me com essa conversa de gajos que planeiam dominar o mundo.
- Mas é isso mesmo, é a investigação… o plano é TDTI. E querem começar por ti.
- Mau, agora é que já não me está a agradar. Ontem levei um enxerto de porrada para me livrar dos tipos do Giuseppe, cheguei a casa tive que disfarçar para a mulher não perceber e agora tu com essa história mirabolante dos gajos que me querem apanhar para dominar o mundo.
- O Giuseppe, o Giuseppe… o Giuseppe é apenas um pau mandado.
- Como assim? Mas então não é ele o cabecilha de uma rede de tráfico de droga ou algo mais escabroso que me iria dar a reportagem da minha vida?
- Qual quê, o gajo é raia miúda como são os que te quiseram levar ontem.
- Não, eu não disse que me queriam levar para lado nenhum, os gajos quiseram foi gamar-me a pasta. Provavelmente pensavam que tinha alguma coisa escrita sobre o negócio, sei lá.
- Não Duarte, os gajos quiseram mesmo levar-te… na verdade ainda querem.
- Bom, já me estás a por nervoso com essa conversa. Desembucha lá de uma vez!
- Está bem, tem calma, é isso que tenho estado a tentar fazer. Senta-te aí que a história é longa.
Duarte puxou uma cadeira para junto da secretária que sustentava o computador enquanto colaço vertia duas doses de whisky em copos descartáveis e começava a contar como tinha chegado até Camões e Bocage perseguindo Giuseppe.
Não tinha sido a primeira vez que no encalço de Giuseppe, Colaço tinha ido parar àquele antro no bairro de Triana em Sevilha e há dois dias tinha chegado bem perto da chave de todo o mistério. Com a ajuda de Naira, a gerente do La Latina que seduzira com promessas de luxúria e glamour, conseguira o disfarce que lhe permitiu ouvir a conversa entre Giuseppe e aqueles dois que mais pareciam siameses: o Bocage e o Camões. Mais tarde alguns telefonemas para contactos que mantinha ainda desde o tempo de Africa e tudo ficou claro. O TDTI era um plano que visava uniformizar a humanidade e torna-la manipulável por aqueles dois.
Mas agora, graças à sua investigação, iria ser abortado mesmo no último momento antes de a vida humana na terra ficar em perigo.
- Isso quer dizer que sempre tenho reportagem? Que vou poder esfrega-la na cara do meu chefe quando ele ameaçar transferir-me para a necrologia?
- Isso mesmo, Duarte. Vou tratar dos pormenores com a Interpol e tens garantido o exclusivo.
- Mas espera lá, não havia também aquela coisa do tráfico lá no Brasil?
- Havia e há… mas não vou fazer nada, vou deixar que a Patrícia brilhe. A jornalista que te falei, lembras-te? A miúda está a safar-se bem, está quase lá. E também já percebi que o meu sobrinho Duarte não está envolvido.
- Esses putos são o teu calcanhar de Aquiles…
- Oh pá, se são. Não fossem eles e já me tinha perdido no mundo… o Daniel pode ser um sacana mas conseguiu construir a família que eu quis e não consegui.

Nesse mesmo instante, na pacata aldeia na encosta da Serra de S. Macário, Celina contava à irmã sobre o tal Duarte que tinha andado por ali. Lá no fundo do seu íntimo tinha esperança que fosse aquele o homem que a irmã tanto procurava, o pai de Eliane. Mas a espectativa desfez-se. Patrícia, do outro lado da linha, informou-a que Duarte tinha aparecido e que dentro de alguns dias viriam busca-las de volta para Natal, finalmente em paz. Tinha seguido um dos seus frequentes impulsos e andado a deambular pelo Brasil. A explorar novas perspectivas de mercado, segundo a sua justificação.



Uma semana mais tarde numa qualquer explanada de Lisboa.
-… e então pensaram que me tinha transformado no Gandhi lusitano?
- Depois de termos descartado a ideia de teres ido dedicar-te aos gatos, sim. Olha puto, outra destas e aqui o velho tio Colaço não aguenta.
- Prometo que vou ser um anjinho daqui para a frente.
- Pois, pois… descruza é os dedos antes de fazeres a promessa.

Luísa Vaz Tavares 

06/01/14

Cidade das Dunas - Capítulo XIV

O céu, carregado de nuvens pretas, anunciava uma tempestade eléctrica. O calor abafado, que pairava no ar, fazia escorrer o suor pela testa de Vasco que, impaciente, esperava por Patrícia.
-Finalmente! Pensei que te tinhas esquivado…
-Disse-te que não demorava… podes confiar um bocadinho mais em mim, não?! Estou aqui, certo?!
Vasco acabou por ficar aliviado ao reencontrar Patrícia. A atração física que sentia por ela fazia o coração borbulhar de felicidade.
-Vasco, não podemos voltar para casa. Tenho que tirar a Eliana do país. Estou com o pressentimento de que ela corre perigo… Giuseppe está na mira dela… não posso deixar que a luz dos meus olhos sofra qualquer tipo de ameaça.
O rosto de Patrícia demonstrava um misto de amor e pânico em simultâneo.
- Vou telefonar à minha amiga Larissa para ver se nos pode acolher, pelo menos esta noite.


Enquanto Vasco comia um hambúrguer com batatas fritas, Patrícia deslocou-se à cabine telefónica para ligar à amiga e, posteriormente, à sua irmã Celine para que preparasse Eliana que já iriam buscá-la.
A trovoada disparou, as nuvens pretas e carregadas de água encheram de imediato as ruas, a circulação de peões e de veículos transformou-se numa confusão sem fim. O ruído das travagens bruscas dos carros faziam-nos deslizar sobre o alcatrão intensamente molhado. A humidade da chuva ao penetrar no solo extremamente quente fazia surgir uma espécie de nevoeiro, transformando o dia em noite.
-Táxi, táxi! – Gritava, freneticamente, Patrícia fazendo sinal com o braço para que o primeiro carro que aparecesse parasse em frente ao shopping.
O táxi levou-os por entre aquela chuva intensa, onde os carros, em fila, andavam a passo de caracol. Aquelas pingas grossas que caíam no para-brisas e no tejadilho do carro tornavam aquela tarde ainda mais pavorosa.
Após o longo tempo que demoraram para percorrer escassos quilómetros, chegaram a casa. Enquanto Patrícia foi buscar Eliana, o táxi aguardou uns instantes para os transportar novamente até ao apartamento da Larissa.
Patrícia fez as apresentações e Larissa, muito amável, deixou os três muito à vontade. Informou-os que iriam passar a noite sós, porque a sua profissão de polícia exigia que ela se ausentasse para desvendar um crime ocorrido na cidade.
A pequena Eliana sentou-se em frente à televisão na pequena sala para assistir uma série de desenhos animados. Patrícia e Vasco, na cozinha, tomavam um café e conversavam, em tom baixo, sobre a eventual saída de Eliana do país.
-A minha filha precisa de sair imediatamente do país, pressinto que ela corre perigo. Giuseppe e a turma dele são gente mafiosa e sem escrúpulos… – disse com a voz trémula, repleta de preocupação.
-Espera… tenho o meu amigo Rui, que para mim é como se fosse um irmão. Ele tem uma habitação de turismo rural numa aldeia em Trás-os-Montes, norte de Portugal, que poderia servir como refúgio para a tua filha. É um sítio muito calmo onde a beleza da natureza se mistura com a hospitalidade e generosidade daquela gente. Ali, tenho a certeza, que não correria perigo.
-Parece-me uma boa solução… a minha irmã Celine, como está desempregada, poderia acompanhá-la, só que… neste momento não tenho dinheiro para as passagens…
-Quanto a isso, não te preocupes! Eu trato de tudo… pela minha querida sobrinha faço tudo - afirmou Vasco, orgulhoso, por proteger a pequena Eliana. Ele começava a sentir por ela um amor paternal.
Patrícia de olhos postos no seu portátil e no seu inseparável bloco de notas onde anotava todas aquelas pistas que, supostamente, serviriam ao desmembramento do enigma de Giuseppe e Duarte, começou por escrever “CHIAWITSWEL” numa folha branca como se esta fosse a verdadeira pista para desvendar os negócios sujos de Giuseppe.
As poucas vezes que Duarte a visitava e sempre que apanhava o telemóvel esquecido na mesa da sala ou no quarto, copiava, num ápice, as mensagens obscuras para o seu bloco de notas. Era neste pequeno maço de folhas que ela tentava, de há uns tempos para cá, descobrir alguma coisa de concreto para incriminar de uma vez por todas Giuseppe e os seus compinchas. Receava por Duarte, afinal era o pai da filha dela, porém não poderia continuar a viver naquele clima de insegurança. Fazia jogo duplo com o dono do Dom Café para sacar toda a informação que a conduzisse a uma pista para se fazer justiça e viver em paz com Eliana.
A mnemónica “CHIAWITSWEL” poderia ser uma password, mas também uma sigla qualquer relacionada com o tipo de serviços sujos que Giuseppe estava habituado a praticar. Talvez fosse um código verbal para a carga ou descarga de mercadoria ilícita. Este conjunto de letras também constava numa das mensagens de Duarte, que após o recebimento desta, saiu rapidamente sem despedidas.
Que raio de mensagem daria aqueles caracteres? Foi escrevendo várias tentativas na folha, mas não conseguiu chegar a uma conclusão que a satisfizesse. Desistiu, por instantes, e foi até à janela da cozinha para espairecer a cabeça. Enquanto observava o céu, que já se encontrava azul e pacífico e onde o sol voltava a sorrir com os seus raios luminosos, sentiu-se inspirada para, mais uma vez, voltar a sentar-se em frente dos papéis que a rodeavam.
Analisou, minuciosamente, todas as pistas escritas e, após muitas tentativas, compôs esta frase:

C – cocaína
H – hoje
I – importada
A – através
W – Morro do Careca
I – Interpol
T – tem
S – socorrido
W – work (trabalho)
E – encomenda
L – levantar 


Elaborou então uma frase: “Através do Morro do Careca, a Interpol ajuda no trabalho da distribuição e no levantamento do produto encomendado - cocaína.“ Se o seu raciocínio estivesse correto, estaria no caminho certo para apanhar uma série de criminosos, inclusive, agentes da Interpol. Guardou sigilosamente esta frase para mais tarde mostrar à sua amiga Larissa.

Vasco tinha adormecido, no pequeno sofá de pele, com a sobrinha ao colo. Patrícia, ao ver tal gesto fraternal, comoveu-se ao ponto de soltar algumas lágrimas gordas pelo rosto abaixo.

Sónia Ferreira 

26/12/13

Cidade das Dunas - Capítulo XIII

O local era soturno. Cheirava a fritos, suor e outras coisas em que preferia não pensar. Não estava ali para isso. Sabia da imponência do seu corpo pela estatura, a barriga grande ainda que flácida, as tatuagens e a cabeça luzidia. E, sem olhar ninguém – putas velhas e chulos amantes à força pela falta de clientes – dirigiu-se ao balcão. As ordens eram claras: perguntar pelos nomes de Camões e Bocage.




Muitos se admirariam de o ver ali. Para todos ele era um cabecilha de malfeitores, o cérebro de uma organização, o maquiavélico agente de um crime pouco concreto mas planeado. Só ele, Giuseppe, sabia que todos estavam errados e que aquilo que realmente se desenvolvia nada tinha a ver com o que pensavam. Pior ainda: que um cérebro tem outros cérebros acima de si. Que lhe pagam e aos quais tem de obedecer. E por isso ali estava, pronto a enfrentar um barman com cara de poucos amigos, que o fixou duramente quando ele proferiu tais nomes. Era tão grande como ele e tornava-se, por isso, ridículo ter de responder àquela senha estúpida:
– Atirei o pau ao gato – disse o homem por detrás do balcão, ao ouvir os nomes.
– Mas o gato não morreu – respondeu Giuseppe
– Como? – perguntou, agressivo, o homem enquanto dobrava os punhos da camisa sebosa.
Sentiu-se tremer, suar, a querer emendar o que dissera, a irritar-se consigo próprio por tão frágil atitude indigna de si.
– Desculpe. Espere – quase gritou – Mas o gato caiu no chão e ficou amarelo – conseguiu dizer sem evitar um suspiro no final.
O outro saiu do balcão e olhou-o dos pés à cabeça.
– Porta ao fundo – disse sem dele desviar os olhos – mas toma cuidado. Se sei que é falso… - e, com a mão, fez o gesto de corte de pescoço.
Abriu a porta e o cheiro conseguia ser pior. Uma mistura de bufas, tabaco e álcool. E ainda mais escuro que o bar lá fora. Ficou em silêncio até que os olhos, adaptados à escuridão, conseguiram descortinar duas figuras vestidas de tão negro como os óculos que lhes escondiam olhares e feições. Sem emitirem um som. Camões e Bocage? Porquê o silêncio em que só as moscas pareciam ter algo a dizer? Porque não falavam…
– Burro! – o berro rasgou o escuro da sala fulminando moscas e quase o atingindo – Besta! Asno de merda! Foi assim que cumpriste as ordens que recebeste? – qual seria aquele? O Camões ou o Bocage? – Onde estão os Duarte’s que te pedimos e pelos quais te temos andado a pagar? Não entra nessa cabeça carregada de merda de caracol que não andamos aqui a brincar aos gangsters, aos raptos e aos dramas familiares? Que o nosso objectivo é a tomada do mundo? Consegues meter isso nesse cérebro de caganita de coelho?
Os gritos incomodavam. Quis responder, mostrar que era alguém. Abriu a boca
– Cala-te! Falarás quando te autorizarmos. Pedimos-te que arranjasses homens com o nome Duarte e, vais tu, com os teus miolos de refogado, trazes um que, logo após o primeiro tratamento, fica totó e vai para a rua como um sem-abrigo e dedica-se a um gato. Um gato vê tu bem, como se isto fosse a Protectora dos Animais; depois, não contente, trazes-nos um pasmado, um estúpido armado no Gandhi das contemplações ovelheiras que só lhe faltou meter a flauta de Pã no olho do cu para ficar mais parvo; como se isso não bastasse arranjas para aí um enredo com o outro, o que já tem filha para salvar e um irmão à procura dela, com mais a cunhada que não faz mais que arranjar intrigas ao telemóvel. Pensas por acaso que isto é a telenovela das nove ou o Big Brother? Isto é o TDTI, cabeça de burro! A conquista do mundo!
Havia que mostrar alguma dignidade. Não podiam gritar assim com ele que, para todos os efeitos, era considerado o grande cérebro do crime organizado e até por organizar. Estava farto que lhe falassem naquela merda do TDTI sem que lhe explicassem o que era. Era altura, disse-o, de o fazerem.
Camões olhou Bocage (ou seria o contrário?) e o outro anuiu.
– Ok! Explicaremos tudo. Mas a partir de agora ficarás sem desculpas para o insucesso e, se ele acontecer, sabes o que te espera – fez uma pausa – TDTI significa “Todos Diferentes Todos Iguais”.
Giuseppe quase saltou de contentamento. Finalmente algo com que se familiarizava.
– Ah! Gosto muito. Até tenho uma tatuagem no rabo com o nome deles – exultou.
Os outros olharam-se
– Que estás para aí a dizer? Quem são “eles”?
– Benetton, pá! – respondeu satisfeito – São eles que usam essa frase.
– E tens Benetton tatuado no rabo?
– Numa bochecha. Na outra tenho McDonalds.
 Entre os dois o silêncio impôs-se em duas bocas abertas de onde as moscas foram desviadas mesmo a tempo.
– Bem…continuemos. A TDTI é uma organização que pretende tornar todos os homens iguais fisicamente. Com o mesmo rosto. Por ordens do nosso grande Mestre, primeiro os Duarte’s, a seguir os Miquelino’s, depois os Inocêncio’s e por aí fora. Quando todos estiverem iguais passaremos então às mulheres.
– E qual é o gozo disso? – perguntou Giuseppe – Eu gosto de uma gaja boa. Se ficarem todas iguais, vai enjoar.
– És mesmo burro chapado! Se todos ficarem iguais e aparecer um diferente, esse, que será o grande Mestre, terá o mundo a seus pés. Depois viremos nós, claro. Não tão bonitos mas, pelo menos, a destacarem-se. O grande Mestre, que tudo sabe, entende que basta arranjarmos um com personalidade vincada e que resista aos tratamentos, para que as modificações sejam feitas e arrastem os outros, pelo efeito da moda, para o efeito glorificante do TDTI. E nós, seu paspalho que não foi capaz de o fazer, já encontrámos o homem. Vive em Lisboa, é jornalista e chama-se Duarte. E é urgente que o capturemos. Junto com um tal Colaço, está na posse da palavra que pode abortar todo o plano: CHIAWITSWEL
Giuseppe bateu as botas em sinal do acato das ordens.
– É fácil apanhá-lo então. Tenho uma equipa a trabalhar lá. Faziam assaltos a bancos mas agora o que roubam quase não lhes chega para almoçar. Vão gostar de coisas diferentes.
                                                               ***

— Duarte! Amor! Não vistas a camisa sem veres o que te comprei!




Uma camisa cor-de-rosa para vestir. Logo hoje, dia de reunião com o director. Que coisa mais amaricada e pimba com aqueles arabescos amarelos. Como dizer-lhe isso?
— Tão linda, querida. És um amor – e pespegou-lhe um beijo sincero nos dedos cruzados da mão.
O dia, nitidamente, não começava bem. E a continuação estava ali, naquele gabinete com uma secretária maior que o chefe.
— Duarte! É o último aviso. Ou você começa a escrever crónicas de jeito ou passo-o para a secção de necrologia. Está sempre a responder-me com uma investigação que tem em mãos mas não pensa no vencimento que todos os meses lhe é depositado sem trabalho visível da sua parte. Por isso, dou-lhe mais um mês. E não me apareça com essa camisa.
Que merda, devia ter metido gasolina. Teria de ir devagar mas aqueles faróis em cima dele…passa, camelo! Oh, não passa! Há cada saloio nesta cidade. Em Alcântara virou para as traseiras do Jumbo. Rua estreita e feia. E o carro sem descolar. Começou a achar estranho. No Calvário, escolheu ruas improváveis…e o carro perseguidor escolheu-as também. Subiu ao Alto de Sto. Amaro, meteu numa rua larga mas sem saída. Aí, antes do seu final, o carro ultrapassou-o e atravessou-se à sua frente. Inevitavelmente, parou. Do carro saíram quatro matulões. Que não respondesse e fizesse o favor de entrar no carro deles. Mas o tipo tinha o emblema do Benfica na lapela. E isso irritou-o. E erguendo a perna tentou acertar-lhe no emblema quando por detrás outro lhe socou as costelas e ele, que nada permitia por detrás, conseguiu pontapear-lhe os tomates ao mesmo tempo que os outros dois se acercavam dele pelos lados. Um murro bem assente nos queixos deitou-os ao chão quando o do Benfica lhe deitou as unhas à camisa rasgando-a. E, se não fosse pelo clube, pela mulher seria. Atirou-se sobre ele derrubando-o e partiu-lhe a cara quando os outros já lhe pontapeavam as costelas. Porra! Aquela merda doía! Com a mão esquerda fê-lo cair enquanto ao benfiquista, em jeito de homenagem, lhe deu três sopapos que o deixaram ko. Mas sentiu o outro a lançar-se para ele. Debruçou-se fazendo-o voar e bater com os cornos no alcatrão. Faltava um. E resolveu dedicar-se à agricultura apertando-lhe os tomates enquanto lhe perguntava: também és do Benfica? Mas, sem esperar resposta, saltou para o seu carro, engrenou, subiu passeios e rejubilou por, com a sua idade, ter despachado quatro marmanjos. Sabia ao que vinham. Doía-lhe o corpo todo mas sabia que as suas investigações em simultâneo com o Colaço tinham de dar nisto. Mas ainda era cedo. Até que as averiguações estivessem concluídas, ninguém poderia saber o que, longe, se congeminava. Nem a mulher.
— Que fizeste à camisa?
E agora? Que dizer?
— Caí ao sair do carro. Quando me tentei equilibrar, o pé resvalou numa pedra e só eu sei como não me matei.
O ar de dúvida. O olhar de desconfiança. As palavras que ferem “estiveste com uma mulher. Isso são rasgos de unhas, a pele tem sangue ainda. Por quem me tomas? Por quem me trocas?”. A discussão, o choro. A ida para a cama com os corpos apartados. Até que subitamente, a pergunta:
— Não estiveste mesmo com ninguém?
E a resposta verbalizada para lá das costas voltadas.
— Não. Já te disse o que aconteceu. Caí
— Prova-mo!
Oh carne dorida em músculos magoados. Onde a força dos ossos e dos nervos e o correr simples das veias? E como dizer “não” sem credibilidade? Um último esforço, um último querer e tudo ficaria bem.
Quando os corpos saciados se apartaram, a frase redentora:

— Hoje não te pergunto se gostaste. Nunca te tinha ouvido gemer tanto.

João J. A. Madeira 

17/12/13

Cidade das Dunas - Capítulo XII

— Então como? Não fugimos pelas traseiras de tua casa, de táxi, tal qual filme policial para que eles não descobrissem a existência da Eliana? E agora dizes que andam à procura dela?!
— Digo. Durante a noite, enquanto dormitavas ou sofrias os tormentos da intoxicação alimentar que te assola - e por acaso é bem feito para aprenderes a não ser teimoso - recebi notícias das minhas fontes, além de um contacto do Giuseppe. O Giuseppe diz que o Duarte ligou a pedir ponto de situação de um negócio pendente, mas a chamada caiu antes de lhe dizer onde estava, por isso resolveu telefonar a perguntar-me se estava com ele, dado não ter tido notícias minhas desde ontem. Mas retomando… Não te tinha dito que não devias ter bebido água da torneira? Não estás habituado à nossa dieta, pelo que não podes chegar e pensar que estás em casa! Deves habituar o organismo lentamente, de modo a não haver uma ruptura total e dar origem a um episódio destes! Toma um Imodium para recuperares e te ajudar a dobrar o cabo das tormentas.
— Obrigado – disse enquanto tomava o comprimido. Mas por que dizes então que a Eliana corre perigo?
— Isso é outra história. Já lá vamos, mas por enquanto importa saber que foram lá a casa procurar-me, por isso já sabem que saí. Como não foi pela porta da frente, já estarão de sobreaviso quanto à minha fidelidade…


— Ele disse-te que foram lá?
— Menos Vasco, muito menos! Isto não é uma parceria, será, quando muito, uma cooperação transitória! Se fosse uma sociedade eu teria 80% e tu 20%, percebes? As minhas fontes continuarão a sê-lo, até porque ainda não sei até que ponto confio em ti.
— Tudo bem por mim, desde que eu detenha a golden share, como acontece com o estado no caso de algumas empresas! Se for minha a última palavra e a opção de veto, estou plenamente de acordo. Não te esqueças que o Duarte é meu irmão, conheço-o desde sempre, não tive apenas um caso passageiro que por acaso se tornou sério por ter engravidado… É família, e o sangue é mais espesso do que a água…
— Sim, mas … para já une-nos um objectivo comum, que é o de localizar o Duarte e saber se está mesmo bem, nada mais. Não irás saber mais do que o necessário à prossecução do nosso objectivo pois ainda não estou completamente convencida disso ser proveitoso… Não vale a pena avançarmos se isto não estiver plenamente definido e aceite. A propósito, a tua arma está na gaveta, fechada à chave. Nesta casa mora a minha filha e não vou permitir que a segurança dela seja posta em causa.
— Curiosa observação dado que ainda há pouco dizias que ela corre perigo… Sabes que as armas servem também para defesa, não são só para ataque, certo?
— Certo, mas com ela à solta por aí não quero que possa inadvertidamente magoar-se por ter uma arma ao seu alcance. Crianças e armas são dois assuntos que não combinam.
— Respeito, apesar de não pretender fazer nada que a colocasse em perigo. Afinal é a minha única sobrinha! Como descobriram a existência dela?
— Foi o tal Colaço, da Interpol. Averiguou o teu irmão e descobriu a certidão de nascimento dela. Competente, pelos vistos!
— Mas o Colaço trabalha para o Giuseppe, ou está a tentar desvendar os crimes dele?
— Está na pista dele, mas, como acontece em todas as organizações, tem elementos infiltrados. Estes, por sua vez, para se manterem nas boas graças e sem levantar suspeitas têm, volta e meia, que sacar de alguns trunfos… Eis senão que a Eliana se transformou no Ás de Ouros! Escuso de dizer de que naipe era o trunfo…
— Bolas… Tu és um dos agentes infiltrados?
— Eu sou jornalista de um canal local… Dificilmente me poderia infiltrar na organização… Mas sim, foi disfarçada de acompanhante de luxo que me meti nesta embrulhada, certa vez, enquanto seguia uma história que envolvia o Dom Café.
— E…? Continua, gostava de saber mais.
— E conheci o Duarte - não te vou contar a história das abelhinhas e das flores - fiquei grávida e daí a uns tempos apareceu a Eliana. No início da gravidez já tinha percebido até que ponto os negócios do teu irmão e do sócio eram obscuros, bem como o que poderia correr mal, por isso confrontei o Duarte e decidimos que eu sairia de cena e só regressaria depois do nascimento da bebé.
— Ele esteve presente?
— No nascimento? Sim. Olhou-a com adoração, mas se queres que te diga não tenho a certeza se confio nele…
— Sábias palavras! Ele é o meu irmão caçula, amo-o, mas não sei ao certo quem ele é… Em pequeno era traquina como todas as crianças, mas com o passar do tempo chegou a ter requintes de malvadez… Por outro lado é meigo, terno…
— Exacto! É precisamente o que sinto! Umas vezes é tudo o que sempre quis, noutras não sei se não faria melhor se desaparecesse da vida dele… Como é que parecia não poder estar sequer um dia sem ver a menina e depois desaparecer por completo, sem nos dizer nada?! Já não sei se sou eu que estou a fazer um jogo duplo com ele e com o Giuseppe, ou se são eles que o estão a fazer comigo!
— Eu acredito que no fundo ele seja um bom rapaz, mas suspeito que possa ter algum distúrbio de personalidade… Quando ele nasceu a minha mãe ia ter gémeos, mas um dos fetos pereceu. Muitas vezes me indaguei se ele não ficou com a personalidade de ambos, como se o tivesse absorvido… Às vezes é extrovertido, animado, carinhoso, outras um autêntico eremita, frio, calculista… Não desisto dele nem desistirei nunca, sempre o encobri e atribuí os seus disparates e excessos ao facto do nosso pai não reconhecer o seu valor da mesma forma que o fazia comigo, mas nos arroubos de crueldade fiquei sempre indeciso se faria bem… Mas… sabes afinal onde se encontra?
— Não, apenas sei o que o Giuseppe me disse, que se resume ao facto de o ter contactado para receber instruções para a próxima “empreitada”.
— Sério? E em relação à Eliana, qual é a situação?
— Em relação à Eliana sei que a sua existência já é do conhecimento do Giuseppe e graças a isso não poderei jamais voltar a arriscar envolver-me nas operações dele. Não sei por quanto tempo conseguirei iludi-lo e levá-lo a pensar que tudo permanece igual, mas já não poderei voltar a ir ter com ele ao Dom Café.
— Vamos ter que agir com cuidado… A tua fonte não consegue descobrir onde está o Duarte? O tal Colaço já deve saber… Deve ter triangulado a chamada do Giuseppe se estiver a monitorizá-lo. E por falar nisso, achas prudente continuarmos aqui? Quem nos garante que o Giuseppe não está também a rastrear o teu telemóvel para descobrir onde estás e chegar até à Eliana? Assim podemos estar a colocar a tua irmã e a menina em risco…
— Bem visto! Vamos sair já daqui. Para já vamos até ao shopping pois preciso de fazer algumas compras, dado que não poderei ficar aqui nem ir nem para casa.



A caminho do shopping o telemóvel tocou:

— Patrícia?
— Sim. Agora não posso falar, ligo-te dentro de cinco minutos, ok? Estou a chegar ao shopping.
— Ao shopping? Ricas vidas! Não me arranjas um emprego desses?
— Arranjava, mas acho que não quererias. Ligo-te já. – E desligou. — Vasco, encontramo-nos dentro de meia hora na praça da alimentação, ok? Vou fazer compras, coisas de gaja.
— Certo, mas não vou perder-te de vista. Não tentes nada de ousado, ok?
— Não te aflijas, por enquanto estamos juntos nisto.

— Olá Tomás, já posso falar. O que descobriste?
— Acho que estou finalmente prestes a desvendar algo em grande… Lembras-te daquele conjunto estranho de letras - CHIAWITSWEL?
— Sim, já ouvi falar. Tem algo a ver com uma password, certo?
— Certo. Estás bem informada, mas não tanto quanto eu. Não se trata exactamente de uma password, mas sim de uma mnemónica para tal, e servirá para abrir um ficheiro encriptado relacionado com os negócios do Giuseppe… Se conseguirmos decifrá-la, talvez estejas a salvo, além de que daria uma bela história! Conseguiríamos o furo do ano, já estou a ver os nossos nomes por baixo da matéria!
— Deus te ouça Tomás! Só quero saber que a Eliana está salva, e descobrir o que aconteceu ao Duarte… Por falar nisso, tenho que ir ter com o Vasco, pois combinei com ele em meia hora na praça de alimentação e já passou pelo menos uma…
— Só queria a tua vida!
— Não queiras… Logo não sei onde vou ficar, vim às compras porque não posso ir para casa.
— Pois… Tem isso… Até te acolhia, mas aí ficávamos ambos expostos, além de que não aceito marmanjos lá em casa, e está-me a querer parecer que levarias o Vasco atrelado a ti!
— Levava pois, mas sobretudo não te quereria colocar em risco! És o meu único trunfo, neste momento.
— Cuida-te miúda! Qualquer coisa, liga!
— Certo! Beijinhos!

Elisabete Gonçalves 

24/10/13

Cidade das Dunas - Capítulo XI

É a desordem natural das coisas. Durante os anos em que morou na casa familiar, Duarte viu o pai a alinhar cartas na mesinha de jogo, num compartimento onde o ar estagnava nos reposteiros. Cego para tudo que não fosse o cão, o baralho e o filho mais velho, Vasco.
Nunca se esquecera das faias que tossiam ao vento do outro lado daquela janela escura, ou do cheiro da loção do seu cabelo, nas costas da cadeira.

 
 
No mês em que assorearam o rio, afastou-se definitivamente daquele lugar de memórias esquecidas de si. Três dias depois, o pai morria, estendido na mesa do jogo em cima de uma paciência inacabada. É a estranheza natural das emoções.
Vasco atirou a cancela do portão da rua, que saltou nos gonzos e só à noite, quando o choro das mulheres se desatou numa valsa de piano é que se lembrou do cão.
O bicho recusou a alimentar-se, e pouco tardou até que Vasco passeasse uma trela sem nada, detendo-se a cada passo como se transportasse um animal verdadeiro.
Só depois é que se lembrou do esquecimento do irmão.
Na manhã seguinte, sem vento, que reluzia de um Sol inclemente, depois de uma noite a despejar os intestinos, aos arrancos, tonto de vómitos, numa casa de banho arcaica com uma infantaria de formigas a marchar nos azulejos, é que se deu conta de tudo.
-     Senhor – questionava-lhe uma voz pequena nas suas costas, - senhor – continuava esta - tio? – Tocou-lhe ao de leve no cotovelo. – Está bem?
Ao seu lado estava uma menina vestida à marinheiro, como um macaco de realejo. Os seus olhos eram de órbitas azuis alemãs, mas fora isso, a garota, apertada na sua farda de carnaval era toda ela um dueto perfeito com a memória que ele tinha do irmão.
-       Não incomodes o tio, que ele se está sentindo mal?
-       Onde é que eu estou?
-       Está tudo bem. – Assegura-lhe Patrícia. – Estamos na casa da minha irmã.
-       O Giuseppe...
-       Não faz ideia onde estamos – interrompeu-o – A Eliana está a salvo.
-       Não sei o que se passa comigo. Tenho de..
-       Vasco.
-       Deve ter sido desta comida, não estou habituado..
-       Vasco tenho uma coisa muito importante para te dizer.
Pôs-se de pé e fez Eliana levantar-se também.
-       Ouviste o que te disse – insistia a mulher – o Giuseppe contou-me algo que precisas de saber.
Vasco bufou de raiva.
-       Tenho de apanhar esse filho da puta, dê por onde der.
-       Eliana vai para a sala brincar com a tia. Vai querida. – Ordenou-lhe a mãe.
-       Sobre o Duarte?
-       Sim. Sobre o Duarte.
-       O quê? O quê? Desembucha de uma vez mulher.
Incapaz de se suster, voltou a desabar, apoiando-se com o braço no rebordo da sanita.
-       Maldita comida. Tu envenenaste-me foi o que foi...
-    Cala-te de uma vez e ouve-me – gritou Patrícia. – O Duarte está bem. Está aqui no Brasil, em sítio incerto, mas bem, entendes? Ninguém o raptou nem lhe fez mal nenhum. Ele apenas quis desaparecer.
Não fazia muito sentido. Parecia que só ganhava esperança quando já não havia mais a que se agarrar. Tentou relembrar o passado para perceber porque estava ali. O Duarte fazia-lhe sempre aquilo. A catástrofe interior eram sempre os remorsos que sentia, por ter sido ele o preferido. Um dia, tinha ele dezanove anos, e o irmão doze, assistiu ao quase descalabro da harmonia familiar. O cão desaparecera misteriosamente. Voltou a aparecer, três semanas depois, magro, pêlo sumido de cor e um olhar sumido de medo intenso. A primeira vez que Duarte se tentou aproximar do cão, percebeu logo. Tinha sido ele quem o levara para longe, escondendo-o numa garagem abandonada, quase a dez quilómetros de onde viviam. Depois, nessa mesma noite, sentou-se para jantar, observou com atenção o desespero do pai, e chorou como se a dor fosse dele.
Não matou o pobre animal, pois não havia ponta de maldade em Duarte, apenas mergulhou numa realidade fantástica que passou a ocupar um compartimento de reserva na sua cabeça, e que substituía por completo a do mundo dos vivos. E nunca se soube o exacto instante da ocorrência deste fenómeno.
-   Nunca tinha contado isto a ninguém. – Diz. – Sempre me senti responsável por tudo o que ele fazia. Eu é que tinha de arcar as culpas. Tinha de ser.
-       Porquê.
-       Ora porquê. Por causa do nosso pai, claro. O Duarte metia-se em todo o tipo de sarilhos para lhe chamar a atenção, mas nunca lhe ligava nenhuma. Nem a ele nem às meninas, só tinha olhos para mim, e para o raio do cão. Um dia, acabou por desistir e foi-se embora. A culpa foi minha. Eu sei que foi. Deveria ter estado mais atento.
-       Tenho muito medo Vasco. – Inferiu ela, tremendo.

 
-       Então, eu estou aqui agora. Eu protejo-te, a ti e à menina. É isso que eu faço. Vou limpando as merdas que ele faz.
Ela soçobrou em lágrimas, abraçando-o com força. Tudo acontecera quase de repente. Os motivos podiam ser mais profundos, mas estaria ele disposto a se dar ao trabalho de os procurar?
-       Não quis dar a entender...
-       É uma merda sim! – Concluiu. – Apaixonei-me pelo homem errado.
-     Não digas isso. O Duarte é tão boa pessoa. Um pouco confuso talvez, mas bom no que importa.
-       Estás tão cego quanto o vosso pai Vasco. A única coisa boa que o Duarte me deu foi ela. A Eliana. E agora, por causa dele, posso perdê-la.
-       Não faz sentido nenhum o que me estás a dizer.
-    Eu sei da história toda. Sei naquilo que ele anda metido, e sei também porquê que o Giuseppe me procura.
-       Não percebo.
-     O teu irmão perdeu-se em coisas que tu nem fazes ideia. Coisas muito graves. “CHIAWITSWEL”. Isto diz-te alguma coisa?
-       Não, nada. Isso para mim é chinês.
-       Não é chinês não, mas, de um modo geral, é tão idiótico que, a forma como o vim a descobrir, me enche ainda mais de medo. Alguns tolos não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos.
-       Continuo sem perceber nada. Diz-me tudo.
-     Não estou bem certa, mas creio que isto é um código, uma palavra-passe para desvendar a rede de negócios obscuros em que o Duarte se envolveu. Convêm que percebas uma coisa. O único tolo aqui é ele mesmo. Por pensar que podia se envolver com o Giuseppe e sair por cima. Anda um investigador independente a calcorrear esta mesma pista. Um português chamado Colaço, que trabalha para a Interpol, e que está muito perto de desvendar tudo.
-       E o Duarte?
-       Lamento Vasco, mas pouco me importa o destino do Duarte neste momento. A minha preocupação é com a Eliana. O Giuseppe anda desesperado para a encontrar porque sabe que, se a tiver em seu poder, pode chantagear o Duarte para este assumir todas as culpas. A situação é muito, muito grave. Amanhã mesmo, podemos estar ambos mortos, o Duarte até, e a menina posta numa situação impossível.

Casimiro Teixeira