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09/01/19

Ecos de Mentes - Capítulo 4

©Joaquim Henriques


E pronto, a noite já caiu e eu já descansei das palavras da Beatriz. Tive que fazer uma pausa depois daquelas revelações. Aquilo mexeu comigo, o que é que hei-de fazer?
Remexo nos cadernos e escolho outro. O do David, pode ser. Ah, olha temos poeta.


David

Caí, sim. Essa é a melhor definição!

Aterrei nesta casa, sem saber como…
Alguém fez as apresentações
E eu lá vim, à procura de uma refeição
           É tudo muito estranho, um virote
A maioria pavoneia-se
Estão aqui para ver, e serem vistos
Tal como os quartos, a mesa é enorme
E todos, elas e eles, se mostram
Estranho, ou talvez não
Eu, que não os conheço de lado algum,
Desfruto do repasto
À laia de ressaca, boa!
Da excelente noite que tive
Dos tetos madeirados que mirei
E dos ruídos dos bichos
Que por lá se alimentavam
Ralado para os “pozes” que caíam
Ilustrativos da decadência do sítio
Claro, não há casa antiga, ilustre e brasonada
Que não tenha uma farta colónia de caruncho
Respira-se história por aqui
As madeiras abundam
E os linhos dizem presente
Mas, para mim, recrutado meio alcoólico
E muito mais que esfomeado
Isto é o paraíso
Todos se apresentaram
Mas eu nada fixei
Nomes, apelidos e famílias
Que se lixem todos eles
Para mim é simples, convidaram-me!
Entendo, foi depois de uma noite bem bebida
Depois de muitas conversas
Em que eu devo ter dito enormidades
Daquelas que ninguém diz
Porque têm medo, presos pelas convenções
Mas vá-se lá saber porquê
Aqui estou eu, no meio de todos eles
Ressacado, a ouvir vozes
Sem conseguir nem tão pouco a tentar
Escutar as conversas
No topo da mesa, esbelta e linda
Ela, Helena, sorri
A única a quem fixei o nome
Não liga a ninguém
Parece mais só que eu
Repleta de mesuras e cumprimentos
Mas sem o brilho nos olhos
Aquele, o tal
Que nos dá vida e nos alimenta
Eu posso estar esquelético
De muitos dias passados sem comer
E nenhum sem beber
Mas foda-se, no meu olhar
Sempre que me vejo ao espelho
Reflete-se uma cara, rugosa
Envelhecida pelos excessos
Mas sempre com o olhar a brilhar
Sabe-se lá de onde ele vem
Talvez toda a energia que consumi
Para ele tivesse sido encaminhada
Pois, se os motivos há
Eles devem estar mortiços
Baços como o nevoeiro
Aquele que talvez um dia
De vez, anuncie D. Sebastião
Gargalha-se e as mesuras abundam
O primeiro repasto do dia é farto
E eu desfruto, reponho energias
Pelo meio vejo os olhares dela
Separa-nos a mesa, enorme e farta
Sinto, sei que ela me vê
Que estranha o meu silêncio
Contrastante com o que já foi
Afinal, com o motivo de estar presente
Mas os nossos olhos brincam
Quem é o gato, ou o rato
Ninguém se importa
Sabemos, depois de tanta pompa
Palavreado e circunstância
O silêncio será nosso
Só nosso!


Joaquim Henriques

14/12/18

Ecos de Mentes - Capítulo 3

©José Manuel Barbosa 

Acordei encostada à parede da velha sala, onde me tinha sentado para ler com calma mais um pedaço destes cadernos misteriosos. Que mais segredos albergariam aquelas páginas? Mas o cansaço da viagem dos dias anteriores, mais a constante atenção que tinha de dar aos homens para que os trabalhos decorressem como eu queria e o repasto da moça que me veio ajudar nestes primeiros tempos, tinham-me deixado com aquela moleza pós-almoço. Onde é que eu ia mesmo? Ah, sim, apesar da letra meia torta, percebi que desta vez quem escrevia era a famosa Beatriz. Tinha ficado curiosa depois de ler os pormenores sórdidos da sua vida conjugal com Vicente.


Beatriz

Ai Vicente, Vicente. Se soubesses como te odeio. É por tua causa que estamos aqui, neste lugar longe do mundo que amo, à mercê de doidos e lunáticos. Sim, porque eu sou a mais sóbria deste lugar, por muito que outros pensem o contrário. Ao menos eu sei o que sou e não tenho vergonha de nada do que fiz ao longo da minha vida. Odeio-te mesmo, Vicente. Desde o dia em que me tiraste daquele bordel. Lá eu era feliz. Estava no meio de gente como eu que não tem vergonha do prazer e da luxúria. Do desejo. Se senti algum dia desejo por ti? Acho que não. Ai como te odeio, Vicente. Porque acreditei em ti. E aceitei que me colocasses este maldito anel no dedo. Por ele, por este anel, sinto-me agora presa e asfixiada como se metida num espartilho. Fingimos que somos os dois de uma família de bem, que sou uma mulher submissa e tu um ditador. Oh sim, mas que farsa de ditador, que se borra com o latido de um cão ou com um berro meu. Estou farta, farta. Estou farta do teatro todas as noites, contigo sordidamente agarrado a mim. Prometeste-me o mundo e fechaste-me aqui, para te tentares curar. Não tens cura, meu fraco. Achaste que por eu ser da vida, ia ser mais fácil, mas eu sou mulher como qualquer outra. Como qualquer outra, não. Isso seria se ainda fosse livre, não agora que me sinto amarrada. E deste-me este nome de princesa. Ah, como te odeio. Tenho saudades do meu nome. Por vezes, quase não recordo já o meu verdadeiro nome, de tanto repetires insistentemente esta aberração que me arranjaste para a tua mãezinha não desconfiar. Pobre senhora, que morreu sem saber a verdade, ao menos isso! Por outro lado, que saudades que tenho da minha. Nasci e cresci com ela naquela casa onde a luz era vermelha dia e noite e onde o fumo dos cigarros era o incenso de outrora. Acho que ainda sinto esse cheiro a cigarro na minha pele. Hum, que arrepio bom. Tenho saudades de sentir esse odor bruto na boca dos homens que me devoravam. Sim, porque tu nem usufruis de mim como aperitivo. Mas tenho de aceitar este meu destino já que casei contigo. Acho que nesse dia enlouqueci e só me apercebi tarde demais para voltar atrás. Se eu pudesse… Mas o meu irmão precisava dos estudos pagos, ele não tinha culpa da vida que eu e a nossa mãe levávamos. Não, o meu irmão merecia melhor. Muito melhor. Ao menos agora é médico. Saudades do meu irmão, de um homem a sério e não de um verme como tu. Mas estou cansada de escrever sobre ti. Já passo os dias e noites contigo, enfiados neste lugar asqueroso. Mais limpo que o bordel mas mais sujo de almas.
Pobre Cláudia, se acha que aquele bilhete vai convencer o meu marido de alguma coisa. Estamos ligados, minha querida, até que o Inferno nos separe. Nem esse teu corpo de bonequinha ia mudar isso. Ele só tem olhos para mim, apesar de não ter mais sentido nenhum a funcionar. Pobre diaba que deves ser, para achares que eu não percebi o teu esquema. Deve dar-te prazer a adrenalina de te meteres com os maridos das outras. Mas olha bem que podias ficar com ele. Libertavas-me. Nem que tivesse de voltar para o bordel. Ai raios que sinto mesmo falta de um cigarro. Mas parece mal, diz ele. Não fica bem à Beatriz. Que saudades do meu verdadeiro nome.
Como vou aguentar ficar aqui? Dançando aquela música estúpida todas as noites, só porque ele adora. Farta, já terei dito que estou farta? Também que interessa, estou a escrever isto escondida na casa da banho, enquanto o deixo pensar que me arranjo para mais uma paródia lá em baixo. Antes de me ir embora, deito tudo isto pela sanita abaixo. Ai quando será esse bendito dia? Tenho é de esconder isto muito bem, ele é demasiado obsessivo com tudo o que escrevo, mania de me controlar, como se me controlasse alguma vez. Mas se ele se atrever a ler estes meus desabafos, vai levar com aquele berro que o põe a tremer da cabeça aos pés. O pior é que ele gosta. Maldito sejas.
O dia hoje só teve uma coisa boa, aquela visão de músculos que tive antes de subir para me arranjar para o jantar. Suado, com a toalha ao pescoço e aqueles calções. Ouvi cochicharem que era PT. Esse deve dar gosto levar para a cama. Deve dar para os dois lados, cheira-me, embora tente armar-se em machão com aquela Helena. Reconheço-os. Passaram muitos por mim. Mas que é jeitoso, é. E cheira bem. A homem, apesar de tudo.
Mas já nem sei se sou ainda capaz de todas as acrobacias que aprendi com a minha mãe. A minha mãe era perita na cama e ensinou-me tudo. Até me aconselhou a nunca deixar que me pusessem o anel no dedo. Mas muitas vezes não ouvimos as mães. Oh raios. Já pensei tantas vezes em cometer uma loucura. Ninguém ia dar pela falta dele. Ninguém lhe liga ou vem visitá-lo. E porque não? Libertava-me. Mesmo que fosse parar à prisão, tudo seria melhor que este teatro. Adoro ser a dominadora, sim, mas de um leão selvagem, não de um gato sem unhas. Que digo eu? Devo estar a ficar alucinada com o que nos dão a beber. Loucura já fiz eu ao casar com ele, chega! E se eu virar este jogo? E me começar a divertir um pouco, já que aqui estou? Se ninguém sabe o que sou, ninguém sabe do que sou capaz. Pronto, já me está a bater à porta da casa de banho, raios de impaciente. O jantar espera. Todos esperam. Afinal somos Beatriz e Vicente. O casal mais chique e fino desta espelunca.


                                                                                 Carolina Lemos


30/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 2


©Fátima Ribeiro
- D. Laura?...
- Ai que susto, homem! Não se aproxime tão silenciosamente, que ainda me mata do coração.
- Desculpe, D. Laura, desculpe. Mas é que preciso de indicações.
- Indicações sobre quê?
- Então, sobre… isso. Paramos a obra?
- Não paramos nada a obra. Então agora íamos parar a obra por causa de uns cadernos velhos? Leve-os todos lá para baixo, que eu vou lê-los, e continuem o vosso trabalho.



Gabriel

Trouxe o caderno para o jardim. Não sei se é permitido, mas ninguém disse nada e olha: aproveitei que chegaram as “No Podemos Hablar” para fazer a limpeza do quarto e pirei-me com ele dentro da sweatshirt. O que, provavelmente, foi cuidado desnecessário, já que não encontrei nenhum dos outros pelo caminho. Apesar de ao pequeno-almoço a sala estar cheia, não sei onde se meteram todos, que nunca mais os vi. Não que isso me incomode. Não, não incomoda nada. Sou bicho solitário e pressinto que vou dar-me bem, aqui entre os recantos da natureza. Aliás, já andei por aqui de madrugada, àquela hora que ninguém desconfia. Estava ansioso e não conseguia dormir. Saltei pela janela.
Estava a ver que ía ter que me arranjar lá no quarto. Não ía ser fácil, mas sem malhar é que eu não ficava. Ah, pois não! Já basta não ter os aparelhos que tanta falta me fazem. Nem que tivesse de desmontar a mobília, pendurar-me do tecto, sei lá… agora que atingi o ponto que pretendia não posso regredir. E é que não é só o corpo é também a mente, a minha mente não consegue suportar as endorfinas que estão sempre a acumular-se. Só o ginásio é que as liberta e na falta de um, teria que me desenrascar. Ainda que fosse saltando pela janela. Que sou obcecado pelo culto do corpo, dizem. Tretas, só tretas. Eu sei perfeitamente que não caí no exagero, apenas não me sinto bem se… não quero um corpo flácido, ponto. Se esfumaçasse que nem uma chaminé, como alguns que já aí vi, isso é que era de preocupar. Agora fazer exercício físico, que mal há nisso? Que mal há em querer ser saudável?
Mas pronto, pelo menos por enquanto já arranjei solução. Durante a escapadela madrugadora, andei a vasculhar o jardim e encontrei uns sítios que vão dar para fazer bons esquemas com sequências alternadas. Assim vai ser mais fácil não perder massa muscular. O pior é a alimentação. Pela amostra que me foi dada a conhecer, é só gorduras poli-saturadas, hidratos processados e açucares. Proteínas, nada de nada. Trouxe – e isto ninguém sabe – um grande stock de suplementos. Não resistiria sem eles. Mas mesmo assim, não posso, não devo abdicar do meu plano nutricional. E a isso é que vai ser mais difícil dar a volta. A não ser que – surgiu-me agora uma ideia – engate a gaja da cozinha. Aposto que não daria trabalho nenhum, elas não resistem a este corpo de Adónis. Falo por experiência: são sempre aos montes a ver quem ganha o pedaço. E não são só elas, eles também; mas esses, enfim… não me interessam para nada. Voltando à da cozinha, acho que se chama Ilda, será que já reparou aqui nestes esplendidos bíceps? Hum… se calhar não. Com aquele aspecto badalhoco, nem deve saber o que é um corpo bem cuidado. Pensando melhor, talvez não seja uma boa ideia. Pois, não; quem teria estomago para aguentar o cheiro a fritos ou tocar aquela pele peganhenta de suor e gordura? Não, essa também não é uma hipótese.
“Olá, boa tarde!” Espera… estava eu a dizer que não sabia onde se tinham metido todos, pois aqui está um. – Boa tarde! – Respondo, sem ênfase. – Não vê que agora estou ocupado? – Apetece-me dizer. Mas não digo, fico à espera que o gajo continue a conversa. E continua: “chamo-me Amadeu”. Sim e o que é que eu tenho a ver com isso? Vêm-me à mente a resposta pronta, mas em vez de a verbalizar solto um amistoso - Sou o Gabriel. “Muito prazer, Gabriel. Tens um cigarro?” Ah, é isso que ele quer? Não vou ser nem sequer cordial: - Claro que não, não fumo! “Ah, está bem. Achas que podemos ver a bola, logo à noite? Quer dizer, haverá cá algum plasma ou pelo menos um bom aparelho de televisão?” Olha-me este… deve ser daqueles que se empanturram de petiscos a babar gordura, enquanto chamam nomes ao árbitro. “O que é que escreves aí nesse caderno?” Mas o gajo é parvo ou quê? Então não estamos aqui todos para o mesmo? - É para a posteridade, não foi o que nos disseram? Não te deram um? “Acho que vi um lá no quarto… até logo, talvez a malta se encontre para ver a bola.”
Estão a ver porque é que eu digo que sou bicho solitário? Esta foi a conversa mais longa que tive com alguém, desde que entrei neste lugar, e para dizer a verdade já estava com vontade de enfiar a caneta nos olhos do tipo. Ou naquela barriga inchada, a ver se rebentava como um balão… eheheh, havia de ser giro aquela porcaria toda a saltar cá para fora. Que nojo! Não sei como é que são capaz de andar com aqueles corpos nojentos a exibir-se por aí. Comigo não, comigo não contem para ver a bola a ingerir petiscadas ao ritmo dos gritos de gooooloo! Não gosto dessas socializações. Mas também não vim para aqui para socializar. Vim para aqui para… para que foi mesmo? Bem, talvez um dia saiba.

O jantar de hoje não me correu mal de todo. A comida foi uma mixórdia parecida com a de ontem e de anteontem, mas estive à conversa com a Helena. Aquela é que é uma gaja que me enche as medidas. Assim que a vi percebi logo… longos cabelos negros, olhos verdes, corpo bem torneado. Mas até agora só dava conversa ao David. O gajo até me parece boa pessoa, talvez o único com quem me identifique um pouco, mas desculpem lá: os meus interesses são os meus interesses e os teus interesses são os teus interesses. E os teus não podem nunca sobrepor-se aos meus.
Porém agora que ela sabe que sou PT, adeus David. Amanhã, já vamos ter uma aula. Eu sabia que aquele corpinho não se fazia assim do nada. A propósito, será que devo fazer um esquema para ela? Ah, não… não sei em que forma está. É melhor esperar por amanhã e assim observo-lhe o nível e tiro-lhe as medidas. Não é que não lhas tivesse tirado já, mas isso é outra história.  
Raios! Estão a bater à porta. Quem será agora? Que não me venham cá com mais saraus. Já me bastou o outro, onde tive que aturar aqueles dois malucos a dançar sem música. E a histérica da Cláudia ainda a dar-lhe trela, que nunca mais nos abriam a porta. Não estou para isso…
Novamente, vários toques com força, na porta do quarto. Quem quer que seja está com pressa, bate tão insistentemente. “Boa noite! É o Gabriel, não é?” Este não sei de onde é que apareceu. Nunca o tinha visto, nem ao pequeno-almoço onde achei que estava toda a gente – sou o Gabriel, sim – confirmo. “O meu nome é Dionísio, já nos cruzámos por aí.“ Já? Quem diria… eu não disse que não eram só elas a disputar o pedaço? Já deve ter andado a catrapiscar-me à socapa. “Posso entrar?” Entre, entre, sinta-se à vontade – o meu pensamentos é irónico, pois a criatura vai logo invadindo o meu espaço sem o meu assentimento. “Sabe Gabriel, soou-me que é PT”. Soou-lhe? Será que a Helena lhe contou? “Blábláblá, blábláblá… e então resolvi vir procurar os seus serviços.” Ah, então é isso que o gajo quer: um personal trainar: “faço qualquer coisa para manter esta maravilhosa forma. Estou muito bem, não acha?” Talvez, talvez esteja mas terá de arranjar outro. Eu já estou ocupado. – Dionísio, eu não sei se posso fazer isso aqui. Não sei se as regras o permitem, entende? Acho melhor não arriscar. – Tento esquivar-me, mas… “acha melhor não arriscar, é? Mas com a sua amiguinha Helena não se importa, com ela não faz mal de infringir a regras?” P… da bicha, esteve a ouvir a conversa. Ai que ganas de a esganar! “Pensavas que eu não sabia, era? Não te enganes, sei tudo o que se passa aqui. Amanhã, encontramo-nos os três à hora combinada.” Mas… “Bons sonhos, darling!” 
Nem esperou qualquer resposta. Saiu, batendo a porta na minha cara, sem cerimónia. Parece-me que vou ter problemas com este. Logo eu que sempre achei piada em vê-los a cobiçar o meu corpo. Muitas vezes, tentavam algo mais, claro, mas eu era explícito a mostrar as minhas tendências e tudo ficava por ali. Agora este, este quer armar confusão. De certeza.

                                                                             Luísa Vaz Tavares


23/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 1

©João J. A. Madeira


Cláudia

Estou farta, cansada, extenuada. Tremem-me as mãos em cada coisa que pego, arranha-se-me a garganta nas raras vezes em que a minha boca se abre, quase definha asfixiado todo o meu interior que tanto me pede para gritar sem que possa fazê-lo. Que faz aqui este meu corpo? Que fazes tu aqui, Cláudia? Ah! Pudesse eu fugir, tivesse eu coragem de sair porta fora e rasgar esta pele em ervas bravias, em espinhos sangrentos, entre bichos de asco e de medo. Como deixei que para aqui me trouxessem? Como? Pára de roer as unhas, Cláudia, pára! Já sabes quanto isso te desfeia as mãos, por mais jóias que uses nelas. E, sobretudo, não chores. Já viste o resultado das lágrimas na porosidade do teu rosto quando, ainda por cima, os cremes estão a acabar? Sim, os cremes estão a acabar. Acreditarias nisto, mãe, se cá estivesses ainda e pudesses ler o que escrevo? A tua filha, a menina que se fez a mulher mais bela do bairro (da cidade até, como bem ouvimos um dia dizerem-me na rua) a tua flor, como me chamavas, a deixar acabar os cremes de beleza? A usar roupas mal engomadas, estragadas e debotadas por uma lavagem mal cuidada? Imaginas a tua Cláudia, a refilona, a quedar-se calada perante tamanha ofensa? De nada serve ser respondona aqui, ou mesmo malcriada. São muito mais agressivas e grosseiras que nós as cabras das espanholas que nos tratam da roupa e limpam o quarto. “No te entiendo”, “no podemos hablar”, “no podemos hablar”. Ninguém aqui “habla” coisa alguma. Ninguém. O silêncio e um apressado desviar de olhares derrotam todas as perguntas quase antes de serem proferidas. Mas pior, bem pior, é a pu… não, não posso conspurcar este caderno, não devo marcar estas folhas com obscenidades que contrariariam a senhora que sou, educada, simpática, culta e, acima de tudo, extremamente bela, se acaso algum dia estas páginas forem lidas. Mas aquela… aquela Ilda, encho-me de comichões ao escrever esse nome – não coces, Cláudia, resiste, não te coces com essas unhas roídas. Recorda-te de como te ficaram as pernas marcadas quando uma vez, distraidamente, o fizeste – Não, não coço. Mas aquela mulher, aquela vadia, não é espanhola, é bem portuguesa, uma minorca, uma caga-tacos que cresce nas ofensas a qualquer residente. Tresanda a suor e, à semelhança do buço descuidado, devem crescer-lhe nos sovacos autênticas barbas negras que nem um pirata ousaria escanhoar. E é dessa fealdade descuidada, aliada às mais ordinárias expressões, que se serve para nos calar as perguntas, rindo e imitando as mulheres da manutenção: “no podemos hablar”. E nós calamo-nos, amochamos, resignamo-nos àquela chantagem camuflada. Porque aquela ordinária era capaz de tudo, tenho a certeza. De nos cuspir nos bifes, de nos urinar na sopa. Mas estou a adiantar-me, a falar-vos de gente sem educação à qual entregaram a cozinha. Tem-nos na mão, como nos tem na mão quem para aqui nos trouxe. Não sei como me iludi com isto. Não sabemos onde estamos, receamos aprofundar, entre os residentes, quem somos e, muito menos, por que razão estamos aqui. Mas é melhor começar pelo princípio. Já o devia ter feito. Ou corro o risco de nada entender quem um dia encontrar este caderno.
Acalma-te, Cláudia. Levanta-te por momentos e descontrai. A varanda. Ao menos tens uma varanda. Sim, ao menos tenho uma varanda. Dela aprecio o verde das árvores. Não sei que árvores são, nada entendo do campo, mas estivesse eu noutras condições e desejaria correr entre elas sem receios de ser maltratada. Mas as condições são estas, que eu aceitei, e não quero, não consigo sequer imaginar o meu corpo invadido por mãos que toda aquela verdura esconderia. Ou aquele trecho de rio do qual somente vislumbro uma curva. Quem me reconheceria se nessa curva me achassem enleada em prováveis cobras que – oh horror - me roeriam a pele? Esta minha pele que admiro no espelho, esta pele que todos os homens desejam e as mulheres invejam. Apetece-me despir-me. Ver-me nua e, melhor ainda, saber que alguém me vê. Gosto que me vejam. E me desejem. E comigo fantasiem. A única coisa que os homens levam de mim, a fantasia que lhes concedo. Eles não me merecem. Eles e aquelas mãos peludas e nojentas com nascentes de suor, aquele resfolegar obsceno, eles, por quem me enojo, satisfaçam-se pela vista, que pelo toque do meu corpo nunca. Sim, apetece-me olhar-me nua, apaixonar-me por mim e saber que só eu serei sempre minha, sem os medos que, desde que aqui estou, me invadem. Mas há um caderno à minha espera, o único confessionário que encontrei quando descobri não poder falar com ninguém porque ninguém falava comigo. Aqui, nestas folhas, restará para o futuro esta letra que já foi redondamente bela e agora nada mais mostra que um traçado incoerente de linhas que se embrulham como rolos de arame carregados de farpas. Mas há uma história, a minha, por contar.
Eu tinha, tenho, um problema. Perdoem, mas não vou escrever aqui aquilo de que sofro. Escrever é perpetuar e o meu mal é somente uma falha, um pequeno erro na minha concepção e não gostaria, no futuro, de ser avaliada por ele. Procurei-os por esse mal e por constar serem bons. E caros. Mas dinheiro nunca me faltou, felizmente, e depois de testes invasivos ao meu cérebro, ao meu coração, falaram-me de uma técnica inovadora ainda em desenvolvimento. Acreditei, aceitei. E um dia vi-me entre eles numa noite feita de estradas sem luz com rumo ao que me pareceu o fim do mundo, o final dos tempos. Não percebi, nem me foi explicado, que terras cruzei para aqui chegar. Durante a viagem, os meus haveres a meu lado completaram-se com os seus conselhos. Nunca entabular conversas com o staff da casa que, aliás, era estrangeiro e nada compreendia. Conviver com outros residentes, mas evitar qualquer cumplicidade com  eles de um modo que pudesse ameaçar o projecto e, nunca por nunca, porque essa seria a chave do sucesso, considerar que os outros me eram superiores física ou intelectualmente. E eu sorri. Entendi de imediato que, na sua posição, não quiseram dizer-me que a minha beleza não teria ali adversários e que, apesar dos ciúmes que criaria, deveria aceitar o facto com humildade. E concluíram: se porventura alguma espécie de fiscalização existisse por parte de entidades oficiais, deveria responder ser parte interessada de um projecto inovador na saúde para o qual se tinha ocupado aquela casa. Que não me preocupasse com isso. Eles tratariam depois dos processos burocráticos. Nestes tempos pós-revolucionários todas as ideias vanguardistas eram bem aceites.
Fui literalmente despejada no largo fronteiriço. Estava em boas mãos, disseram antes de fazerem inversão de marcha e partirem. As boas mãos eram as de Ilda que, carrancuda, sem qualquer tipo de cumprimento, deixou que, sozinha, eu carregasse a minha própria bagagem. A noite, fria e ventosa, assombrada por longínquos grunhidos, zumbidos indecifráveis e os assobios dos ramos sobre o silêncio, assustava-me e só descansei quando me vi no quarto cuja porta Ilda abriu, entregando-me a chave. Depois, ainda que apreensiva, num instante adormeci.
No dia seguinte pensei conhecer a casa, deambular por ela e visitar os jardins, evitando, porém, o denso arvoredo que a partir deles de algum modo me assustavam. Fá-lo-ia após o pequeno-almoço. Sem saber ainda que nessa pequena refeição se daria início à minha asfixia, à minha sensação de clausura.
Uns chamar-lhe-iam restaurante, outros, refeitório. Para mim era simplesmente uma cozinha com sala de refeições, daquelas antigas, enormes e frias, onde a mesma mulher que me havia recebido na noite anterior nos despachava – a palavra é essa “despachar” – com leite e pães com manteiga. Pedi um sumo. E aquela maldita mulher correu-me com os olhos o corpo até onde podia vê-lo por detrás do balcão. Interiormente, rejubilei. Era a costumeira inveja a nascer. E a tornar-se ódio no olhar e na voz de quem não esconde os ciúmes. “Vossa Excelência”, respondeu-me ela com desdém, “deve pensar que está num hotel. Ande sente-se e coma o que lhe dão e, se não gostar, corre muita água lá em baixo no rio”. Como devem calcular, desatei a tremer, pensei descer ao nível dela, mas contive-me. Virei-me e sentei-me a uma das quatro mesas para quatro pessoas. Sozinho, numa outra, encontrava-se um homem. Estranho, muito estranho nem para mim olhar, mas, por outro lado, mover o pescoço, o corpo, como fazem certos pássaros em jeitos continuadamente mecanizados, bruscos. Olhava para todo o lado, para a janela, para a porta, para trás de si, como se receasse ser atacado pelas costas. Inventei um sorriso e disse-lhe “bom-dia” ao que ele respondeu com o mugido de uma vaca. Apesar da tensão em que me encontrava, quis mostrar a minha simpatia, causar boa impressão. Da minha mesa para a dele, insisti. “Como se chama?”. E o homem pareceu quase saltar da cadeira antes de, num dos seus repentes, se virar para o balcão e depois olhar o pão à sua frente e, de cabeça baixa, proferir um audível, mas sussurrado “Dinis”. Bom, era um começo. Arrisquei. “Só nós aqui estamos?”. Negou com a cabeça. “Onde andam os outros, então?”. A olhar o tampo da mesa, fez um gesto circular com o braço, “ Por aí”. E, nesse instante, vinda do balcão, ouvimos a voz esganiçada da Ilda, qual peixeira apregoando o produto. Advertiu-nos para a proibição de nos interessarmos pelo que não nos dizia respeito e, de imediato, o homem redobrou os tiques com um claro, mas tímido “Perdoe, Ilda”. Nervosa, comi em silêncio o meu pão a seco por evitar o leite (não gosto). Quando saí da cozinha, deparei com um papel escrito à mão, afixado num pequeno placard, onde uns gatafunhos quase ilegíveis anunciavam o almoço: bife ao grelo. Furiosa, voltei atrás.
— Dona Ilda, desculpe, mas detesto grelos. Qual é o prato alternativo?
A mulher limpava copos com um pano encardido. Atirou-o para a bancada abaixo do balcão e pousou nela as mãos virando o corpo para mim.
— Vossa Excelência deve ter uma mona de galinha. Você acha que isto é o Ritz? Com pratinhos à escolha de Sua Senhoria? E que é isso de grelos? É só nisso que pensa, com esse corpo de… de… ai, cala-te boca!
Penso ter corado dos pés ao cabelo. Mas quem pensava ela que era? Senti-me alterada e, dessa vez, não me contive.
— Mas por que raio me fala assim? Fiz-lhe algum mal? É o que está ali escrito. “Bife ao Grelo”!
— Eu falo-lhe mal porque me apetece e porque Vossa Excelência é estúpida. Se não fosse, saberia ler. Bife ao grego! Bife ao grego!
Virei-lhe as costas e pela primeira vez – quantas mais vezes iria desejar o mesmo – quis ir-me embora dali. Mas tinha acabado de chegar. Nem as instalações ou o jardim conhecia. Dispus-me a sair, mas, à porta, lembrei-me de não ter comigo a minha bolsa, os meus cosméticos. Assim, recuei e subi as escadas. Foi então que as vi. Mulheres de batas negras afadigavam-se em limpezas. Recordei-me das instruções, mas achei-as tão absurdas que me aproximei de uma e perguntei quem geria aquilo, quem lhes pagava. “No te entiendo” disse-me afastando-me com os braços gordos “No podemos hablar, no te entiendo”. Acerquei-me de outra e questionei-a sobre a Ilda e a sua má educação e, no entanto, a resposta foi a mesma, tal como a das seguintes “No podemos hablar, no podemos hablar”. Subitamente, puxam-me por trás os cabelos. Virei-me. E senti nesse instante uma bofetada, leve, mas uma bofetada, que me fez corar e levar a mão à face. Era Ilda. Os olhos raiados de raiva, o rosto transfigurado num horripilante monstro.
— Desce deste piso imediatamente – ordenou-me, fazendo com que lágrimas de vergonha se soltassem de mim.
— Tenho de voltar ao meu quarto. Preciso da minha bolsa.
— Voltas no fim da limpeza. Às 10:30. E ai de ti que volte a encontrar-te a perguntar o que não te diz respeito. Sai. Desce!
Deambulei como sonâmbula pelo jardim. Que era aquilo? Que fazia eu ali? Que tratamento existiria naquele local para o meu problema?
Só pude regressar ao quarto pela hora de almoço. Conhecia apenas um residente. Dinis. Um homem. Tinha de conquistá-lo do único modo que sabia. Vesti a minha mais curta saia e uma blusa cujo decote evidenciava quase indecentemente a beleza dos meus seios. E desci. Sem palavras, recolhi o meu almoço que mal provei, ainda que, ao menos isso, estivesse bem confeccionado. Ostensivamente, sentara-me de frente para o tal Dinis e puxara ainda mais para baixo o decote. Pela primeira vez na minha vida, os olhos do homem, um homem, nem para eles olhou. Porém, num rasgo de tempo em que Ilda saiu da cozinha, levantou-se e veio até mim, fazendo-me crer que, finalmente, me iria deitar um piropo, obsceno, como sempre. Sorri-lhe antes que o dissesse e ajeitei o sutiã através da blusa. Naquela travessia de mesas, o homem parecia louco e tive medo, reconheço, mas quando estava a curta distância, disse e repetiu uma frase que eu nunca esperaria. “Eles querem matar-nos. Eles querem matar-nos” e, de um salto, devolveu-se à sua mesa no preciso instante em que Ilda regressava.
Toda a tarde cismei naquela frase. De frente para a janela, comecei a pensar numa fuga. Que não levei avante pelo já referido no início deste caderno. Um dos muitos que havia empilhados e vazios no corredor e que só hoje me dispus começar a escrever. Mas foi frente à janela que pude ver a entrada de uma pequena camioneta de onde saíram várias pessoas. Os restantes residentes, pensei acertadamente. Vinham como se de uma espécie de excursão, embora calados e com passos robotizados. Situação vulgar em qualquer estância, reconheci. Talvez, afinal, o Dinis fosse maluco e a Ilda tivesse simplesmente mau feitio. E a este pensamento posso agradecer algum do alento recuperado.
Ao jantar, a sala de refeições tinha as cadeiras ocupadas quase na totalidade. Em jeito de “buffet” as pessoas traziam para as mesas a sua refeição cuja ementa eu evitava agora ler. Tratava-se de um prato leve à base de peixe que todos, em silêncio, mastigavam, libertando no ar unicamente o som tilintado de copos e talheres. No fim, todos, de uma vez só, se levantaram. Disposta a assimilar as regras da casa, também eu me levantei, seguindo-os para onde quer que fossem. Desceram então à cave, que eu desconhecia. Despercebidamente, acerquei-me do Dinis que, olhando em frente, respondeu rápido e conciso “Café, baile”. Finalmente alguma diversão, pensei. Mas pensei mal. Ali em baixo, as mesas estavam dispostas de modo a libertarem um recinto de dança. Sentei-me junto de um casal que, percebi posteriormente, eram de facto um casal. Beatriz e Vicente. Ele, altivo, arrogante e prepotente, tratando, perante os outros, a mulher pior que a um cão. E que, por coincidência, verifiquei serem meus vizinhos de quarto. Bebeu-se o café, mas, música, era coisa que não existia. Ouviam-se apenas sussurros, como se num funeral. Eis senão quando Vicente se levanta, Beatriz atrás dele e, na pista, encetam uma dança solitária. Aquilo era ridículo. Uma dança feita de passos medidos ao som do silêncio. Onde estava eu? Seria toda aquela gente um singular grupo de doidos? Nesse caso, que fazia eu ali? Então, quando se sentaram, não resisti.
— Desculpe, como conseguem dançar sem música?
Beatriz – naquele momento ainda não sabia os seus nomes – abriu muito os olhos e olhou o marido. Este, com a sua pose autoritária, respondeu:
— A senhora deve estar muito mal. Muito mal, mesmo. Não ouviu a música?
— Calma, Vicente. Tem calma – disse a mulher, dando-lhe uma palmadinha na mão – Eu explico à senhora. E, virando-se para mim: a senhora deve estar aqui para um tratamento intensivo, certamente. A música está na cabeça do meu marido. Todos a ouvimos quando ele assim o pretende. Depois, basta seguir o ritmo com os passos adequados.
Fiquei sem palavras, totalmente bloqueada por instantes. Quando consegui raciocinar disse à mulher não estar ainda adaptada a nada, visto ter chegado nesse dia. E reparei, ao dizê-lo, que o homem, indiferente ao que pensasse a esposa, não parava de, com alguma sobranceria, me percorrer com os olhos o corpo. Interiormente, sorri. Ele que guardasse a sua música inaudível. Eu faria dele gato-sapato.
Contei já o modo como tratava a mulher, o modo superior com que a todos olhava e falava. Mantenho o que disse. Era assim em público, de facto. Mas nada disso na intimidade. Logo nessa primeira noite, mercê das janelas abertas e de um colar de ouvidos à parede comum, verifiquei que a situação ali se invertia. Era ela quem levantava a voz para ele, acusando-o por certas atitudes do dia e também de coisas antigas. E a potente voz masculina exibida sem cessar perante todos com a complacência da esposa, era ali, entre as quatro paredes do seu quarto, submissa e carregada de lamurientos pedidos de perdão. Pior que isso, ela negava-lhe, com uma constância inusitada, os prazeres do cumprimento conjugal e, que me recorde, só uma vez o autorizou a que os cumprisse. Repito o que já antes aqui escrevi: não quero tornar obscenos os meus textos, mas, em silêncio, encostada à parede, chamei-lhes porcos, depravados, ao perceber que na cama era ela o macho e ele coisa nenhuma. Enojavam-me os grunhidos, os gritos, as ordinarices. Porque uma qualidade guardo em mim. A beleza de uma mulher, a minha beleza, é a arte suprema da criação, ao contrário do sexo, o acto mais vil, desumano e asqueroso pelo qual só merece castigo quem o pratica. E eu sei castigar. Durante o dia de ontem consegui o que há muito venho tentando. Deixar cair no bolso do casaco dele um papel anónimo com um convite para ir para a cama. Se bem os conheço, será ela quem o descobrirá.
Termino, por agora, esta história. Esconderei este caderno a que brevemente voltarei. Mas concluo com duas enigmáticas situações: ontem, preocupada com o que esta situação poderá andar a fazer ao meu corpo, vi-me nua ao espelho. E os meus olhos, já de si belos e persuasivos, brilharam como estrelas ao ver que a beleza, tão minha, dificilmente deixará de o ser. Propositadamente, tinha deixado a porta semi-aberta e, pelo reflexo, vi uma mão a largar a maçaneta. Alguém me tinha estado a espreitar e vocês já sabem como isso me faz feliz.
A segunda é simples de contar. Hoje, notei que algum segredo era passado em surdina por bocas nitidamente preocupadas. Sem fazer qualquer pergunta, consegui perceber. O Dinis desapareceu. Descobriremos nós o que realmente aconteceu? Se no podemos hablar?

                                                                                           João J. A. Madeira  
  
  
     

17/11/18

Ecos de Mentes - Capítulo 0

Quadro de Marta Bessa,
espantosamente conservado numa parede luminosa da casa

«A meia-idade, que a todos traz serenidade, condescendência, conforto e o prazer duma vida estável, a mim, tirou-me tudo. Agora, que os miúdos seguiram os seus caminhos e ele outro, estou para aqui sem serventia nem destino, remoendo, remoendo, sem fim à vista, sem motivos e sem amigos. Não tens amigos porque não queres! Não quero? Não quero? Onde estão eles, onde? Há dias passei em revista a minha agenda de contactos, aquela, a última antes dos telemóveis e das memórias digitais. O que vi? Mortos. Mortos e algarismos a menos. A mania de ter amigos mais velhos foi no que deu. Daquelas dezenas ou mais de contactos, a maioria profissionais bem sei, não há nenhum que atenda o telefone? Nem um? Pode lá ser… Eu não disse que tinha tentado. Fiquei a ver, só. Mas há muitos defuntos, isso te garanto. E depois o que é que lhes ia dizer; olhe, sou a Laura, lembra-se? A Laura, aquela que. Para ouvir do outro lado, quêêmm??, como fazem as pessoas quando não se querem lembrar de alguém. Podia tentar, sim, podia, mas quem se lembrará de mim, desaparecida de cena vai para uma dúzia de anos e sem manter contactos com ninguém? Nos primeiros anos, telefonava pelos aniversários, presenteando com um abraço ou um beijinho os felizardos, ‘obrigado por se ter lembrado, sempre simpática’, um abraço, um beijinho, e nenhum apareça! Há quanto tempo não nos vemos! Que tal um cafezinho?, vá lá… Nenhum! Também nunca te disponibilizaste para uma visita surpresa, qualquer coisa como, um dia destes apareço. E depois, aparecias. Aparecia como? Sem ser convidada? Era o que faltava. Depois da minha iniciativa? Parece que não sabes. Na altura bem sabia o fastio com que era recebida, as hesitações na voz. Parece que tinham medo que lhe fosse pedir alguma coisinha. Aparecias… Aos que não sabia a feliz data, enviava mensagens de Natal, era aquela quadra do coração, da amizade, da fraternidade. Enviava, e ficava ansiosamente à espera do agradece e retribui. Alguns davam-se ao trabalho de enviar aquela mensagem automática que, vê-se logo, não é personalizada, é para todos e para nenhum, mas a maioria nem isso. Um dia, deu-me para fazer uma estatística, vê bem ao que se chega, meter pessoas em números. E cheguei à esperada conclusão que a percentagem dos que retribuíam ia diminuindo a cada ano que passava. Um ano, não enviei jingle bells a ninguém. E não fiquei à espera de nada. E o nada chegou. Foi o último Natal e nunca mais telefonei a ninguém.
Estaca zero.
Talvez me ponha para aí a escrever. Mas sobre o quê? O que era interessante já foi escrito, quantas vezes com um brilho que me é inacessível. Cheguei tarde. Por vezes tento. Paro. Corrijo. Recomeço. E depois, ainda bem que deito fora. Estava uma merda, daria chacota, lá está esta armada em. Mas ficas com pena, diz lá, sim ou não? Às vezes. E depois, vem a inquietação. Talvez fosse uma saída, conhecer gente, trocar opiniões, partilhar textos, não sei. Quem sabe? A indecisão é o maior dos tormentos. Quando leio boa prosa esmoreço, jamais serei capaz, isto é para gente de outros talentos, outras vezes, é tão mau que me sinto tentado. Depois paro. Que dirão? E isso importa? Claro que importa! E se escrevesses só para ti, para aliviar tensões, para te despires dos tormentos? Escrever, só. E guardar, para mais tarde ler, ver os erros; não os léxicos nem os gramáticos, os teus erros de leitura do momento, lidos só por ti em construtiva introspecção. E mantinha-me neste tormentoso isolamento indefinidamente, lendo-me a mim própria num interminável pleonasmo? Não tenho com quem falar, já te deste conta?! E contigo estou farta, raramente me dás novidades ou me esclareces. Muito menos me dás ouvidos. Quantas pessoas saberão o meu nome, além dos vendedores de pacotes exclusivos de gigabaites e plafonds, dos promotores de purificadores de água de atarraxar à torneira, do assíduo carteiro e da instrutora de ioga? ‘Ó dona Laurinha, então não levanta mais a perninha?’. Olha e se te fosses. E o Facebook?... e se abrisses conta no Facebook? Toda a gente tem. Encontram-se amigos idos, fazem-se conhecidos chegados, lêem-se notícias, vêem-se filmes catitas, até tem uma horta virtual vê bem… Podes pôr likes mostrando-te interessada, comentar, enfim, sem te meter na vida alheia – parece que não há vida alheia no Facebook. Conhecer pessoas confortavelmente! Para gente na nossa idade tem sido um sucesso Por acaso… lá no ioga já me falaram nisso, aderir ao grupo, conversar com o grupo, trocar impressões com o grupo, fotografias com o grupo. Um grupo fechado, bem entendido, que nós andamos todas descompostas. Mas não. Não estou interessada, grupo-grupo-grupo são sempre os mesmos, é a mesma coisa que estar só. Com os mesmos. Eu preciso de arejar, conhecer gente-gente!, que não sejam os mesmos, eu preciso de viver, e viver só se consegue andando, conhecendo pessoas novas, ideias novas, discussões novas. Quem fica redundante definha, ron-ron, ron-ron, ron-ron, sempre às voltas com a mesma vida. Não! Não será só o grupo, aquilo é um mundo de gente imensa, podemos pedir amizades e. Pedir amizades. Isso é coisa que se peça?! Quem sabe se é por isso que estou aqui. Pedir amizades… Agora fizeste-me lembrar aquele vizinho lá da rua. Como é que ele se chamava?... que dizia ‘o senhor doutor fazia o favor de ser meu amigo’. Eu não quero amizades dessas! Já tive que chegue dessas comparências prestimosas. Mais um quadro pregado no teu muro das lamentações? É o que há.»
- O seu bisavô, foi um dos últimos daquela nata que se lançou ao mar e fez vida no Brasil. Deixou cá numerosa família; todos passavam fome. Más terras e maus tempos. Quando regressou, vinha rico e apegado. Foram terríveis as contendas com leiritas e courelas nas partilhas. Muitos irmãos, pouco que repartir, empréstimos para tornas. Enfim, misérias. Na freguesia, só ele tinha chapéu, dinheiro, e relógio de ouro. Dava fazenda para um romance do Camilo. Conta-se para aí uma história de crime por um caneiro de água. Mas nunca se apurou. Em suma, esquece-se facilmente de onde se saiu. Quando o conheci, era eu um rapazito e ele um homem grande e espesso, fartos bigodes, tonitruante, polegares nos sovacos, cigarrilha na comissura, grossa corrente abotoada ao colete, olhar imperativo. Todos lhe descobriam a cabeça e, consta-se, que algumas mulheres mais alguma coisa. Herdeiros de fora não há que se saibam, esteja descansada. O seu avô, um pouco mais velho do que eu, frequentava o liceu e só o via nas férias. É ao doutor Ladislau que se deve esta exigência de manter a casa. Quando me tornei advogado da família disse-me: - Onésimo! Jura-me com a palavra de honra que, se me faltarem as faculdades, arranjas maneira que esta casa vá para o meu filho. Para os outros, só o que eles querem! Mas não foi preciso. Fez-se testamento, deixou-se o dinheiro e os valores para os outros. Era muito, olhe que era muito... E a casa para o seu paizinho. Que pouco se gozou dela, coitado. Quando ele faltou, chegou aquela gente de fora, e usurparam, usaram, e romperam-na até ao fio. Diziam-se ocupas, entravam e saíam, a cada semana uma cara nova com identificação duvidosa. Embora houvesse de tudo, talvez até gente de boas famílias a julgar por algumas atitudes, mas como saber? Pareciam uma comunidade e diziam-se com direito a uma habitação digna, veja bem. Foi o cabo dos trabalhos. A demorada justiça, fez-se sentir ano-após -ano, numa interminável e desanimada espera. A impotência das minhas démarches esbarrava com a jurisprudência do requerimento, da alegação e do adiamento, da impossibilidade de notificação; levando para as calendas a justa devolução ao proprietário. Veja a menina, que chegaram a insultar-me dizendo que eram pessoas e precisavam de abrigo condigno. Tinham direito! E o tribunal, corroborava com essa afirmação nas suas pensadoras demoras. Quando consegui a ordem do tribunal, foi preciso mandar cá a guarda para muscular o despejo. Ai se ele tivesse assistido. Morria de vergonha. Depois, enfim, vocês estavam lá para África, e naquela confusão da independência nem as moradas consegui. Depois, com o segundo casamento, a sua mãezinha não se importou com a propriedade, não respondia às cartas. Que fazer? E foi assim, ficou ao abandono e o telhado não caiu porque, às minhas expensas, o conseguimos manter; assim como a propriedade mais ou menos vigiada dos amigos do alheio, que os há aqui na terra. A casa do caseiro está arrombada há anos, mas em bom estado. Aqui há tempos queriam arrendá-la, mas eu não aceitei.
E pronto menina, aqui tem as chaves. A partir deste momento, e dos meus honorários e despesas regularizadas evidentemente, há-de compreender… fico livre deste compromisso de honra e amizade assumido há quase uma vida com o seu avozinho. Ao dispor menina, foi um prazer.
«Assim, sem me deixar dar um pio de admiração, nem pedidos de esclarecimento sobre a surpresa em apreço, o senhor doutor Onésimo de Albuquerque e Severo, e Associados, Lda., deixou-me proprietária à porta da mansão que o meu bisavô mandara construir com os dinheiros da cana lá do Pará.
E agora?
Agora, há que vender a outra casa, mobília, tudo! Nada de memórias! E sair de lá, ar fresco, vida nova. Para uma terra onde não conheces ninguém? E lá, conheço? O conhecimento advém do convívio, e hoje só se convive nos relacionamentos profissionais enquanto duram, os restantes são hologramas com quem nos cruzamos, espectros adiados. Nem os vizinhos conheço; a alguns, sei-lhes os nomes e nada mais.»
- Dona Laura!…
«Esta casa não será a tábua de salvação. Será, A Libertação, O motivo, O objectivo. Um sonho? Não! Já não tenho idade para sonhos, e os que tive puf! A libertação porque ocupação, o fim dos dias de tédio sem rumo, o motivo, pela mesma razão. Sabes o que me atormenta as madrugadas? A caliginosa memória das derrotas, a consciência das falhas, a convivência com a irreversibilidade, a amarga prestação de contas, e. O não ter fim nenhum para me levantar. Um fim? Sim, um fim, um objectivo, uma obra a concluir. Foi essa paz que esta casa me trouxe quando aqui me apearam faz mais ou menos um ano. Sair todas as manhãs da horizontal para um horizonte no tempo, para uma obra a concluir. Disfrutar do frenesim do projecto, da obra em curso, dos prazos, da chegada dos materiais, da sua escolha!, das discussões com o empreiteiro, das noites mal dormidas espectando o dia seguinte, agora não de fim-de-vida, mas de fim-de-obra. E fantasiar. Fantasiar com quem poderá chegar; estender a mão para o puxador e manter a expectativa, o suspense, até ao abrir a porta. Será uma casa de hóspedes, uma residência onde chega gente, e não clientes, pessoas e não caras; isso fica para a hotelaria. A estes que chegam, quero que cheguem cá a casa e se sintam em casa, e eu com eles, como numa família. Eles hão-de chegar, sem nunca serem suficientes. Vais ver. Sabes lá a quantidade de familiares sem família escondidos nesse Mundo. São esses que me interessam, e é para esses que eu quero esta casa e nela estou a gastar tudo o que tenho, tudo o que sou, pois já não sou mais nada. Nem ninguém.»
- Dona Laura!… - Dona Laura!…
- Hã! Diga mestre Zé, diga.
- Desculpe… a senhora estava aí tão entretida a falar com Deus e consigo que eu…
- Não era com Deus, mestre Zé, não era com Deus. «Era com uma afogada». Mas diga, diga.
- É que os estucadores encontraram ali uns cadernos, não sei, eles disseram que eram sebentas, mas, sabe como é, eles não são letrados, e…
- Cadernos?!
- Sim, estão lá em cima espalhados, venha ver…
- Sim. Vamos lá!

    
                                                                                                                  José Bessa