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| ©P. S. Fotografia |
Desta vez, a chegada pareceu-lhe
diferente: os cheiros, os sons, a leveza do ar, tudo lhe era familiar. Uma
sensação de deja vu invadiu-lhe os sentidos, no curto tempo dos poucos segundos que
se passaram entre o cessar do silvo metálico e o abrir da porta.
Whisky saiu disparado, passando-lhe à
frente e fazendo-o tropeçar. Que raio de animal, parecia que estava possuído
por um qualquer demónio que por ali passara sem se deixar ver! Júlio atabalhoadamente
equilibrado correu atrás do cão, que viu atirar-se nos braços de dois desconhecidos.
Dois desconhecidos que pareciam esperá-lo, ou pelo menos reconhecê-lo. Só nesse
momento, caiu em si. Voltava ao ponto de partida e os dois homens que afagavam
Whisky eram Luís e Klaus. Precisou de mais alguns instantes para ver tudo com
nitidez, mas não havia dúvidas: aquele era o armazém de onde tinha partido, há…
há quanto tempo?
- Deves ter sofrido uma quebra de
tensão, é natural… ao longo dos tempos, a densidade atmosférica, também ela,
foi tendo oscilações.
Era Luís que se aproximava com uma mão
estendida para o cumprimentar.
- Hã?! Mas do que é que ele vinha a
falar? – Júlio, ainda com a cabeça à roda, interrogou-se com os botões que não
sabia se trazia.
Ah, pois… as transições de época em
época que vinha de vivenciar. Luís apresentava-lhe a explicação científica para
a tontura que acabara de sentir. Uma recepção fria, pensou. Podia demonstrar, no
mínimo, um pouco mais de afectividade, já que o tinha feito cobaia para uma
experiência inédita que em muito beneficiaria os estudos científicos de Luís e
Klaus. Não é que estivesse arrependido de ter entrado naquela aventura, afinal
tinha-lhe permitido ver in loco, e até mesmo sentir na carne,
coisas que até então só conhecia da história estudada. Muito diferente da
vivida. Mas caramba, o que é que lhe custava demonstrar um pouco mais de
humanismo?
Klaus vinha logo atrás, com o seu
linguajar de erres carregado:
- Estamos ansiosos pelo teu relatório
dos acontecimentos.
Júlio sentiu uma estranha revolta dentro
de si próprio. Que se lixassem, aqueles dois. Sem qualquer explicação, saíu do
armazém em direcção às ruas da cidade. Whisky correu saltitante a seu lado.
- É isso mesmo, companheiro! Eles sabem
lá… as explicações ficam para depois.
Naquele tempo, que ainda não sabia dizer
se tinha sido muito ou pouco, tinha percorrido o limbo das emoções de um
extremo ao outro. Tinha visto o melhor e o pior da humanidade e tinha, com
certeza, desconstruído muito do que até então fora na sua condição de ser
supostamente inteligente. Aquilo não podia ser relatado como uma mera
experiência científica.
Percorreram as ruas e travessas que os
levaram até casa, num tempo que Júlio não soube contar. Aliás, contar o tempo
era coisa que certamente tinha desaprendido. Entrou em casa com a sensação que
tinha saído dali há poucas horas. Mas como? Se na sua lembrança tinha
experiências de viagens entre tempos tão diferentes. Entre séculos. A
comprová-lo ali estava o cão, que segundo se lembrava tinha encontrado lá numa
Lisboa de outra época.
Correu para o frigorífico. O frigorífico
podia ser uma boa prova do tempo que passara. Consoante o estado dos alimentos
que ali deixara, saberia se havia passado muito ou pouco tempo. Abriu a porta,
estava uma grande bagunça mas não parecia que houvesse alguma coisa em estado
de putrefacção avançada. Restos de pizzas,
um pacote com leite azedo, uma alface murcha e embalagens, cujas datas de
validade também não o elucidavam.
Mas aquilo lembrou-o do desleixo em que
vinha sobrevivendo nos últimos tempos. Na verdade, desde que perdera Laura
naquele fatídico acidente e logo depois, a mãe. Que por ser mãe, talvez o tivesse
conseguido agarrar antes de se precipitar na ravina da depressão psicológica
que se tornou física. Lembrou-se da vontade que tinha tido de acabar com a
própria vida. Ou talvez a tivesse mesmo acabado, porque aquela condição em que
existia já não era vida. Lembrou-se do encontro com Luís e da fuga ao
inevitável para a máquina do tempo. E no mesmo instante, dos encontros que
tivera com Laura durante aquelas viagens temporais. Nunca chegaram a ver-se ou
tocar-se, mas foram vários os momentos em que a sentira dentro de si.
Dava-se conta, agora, da serenidade que
tais encontros lhe tinham trazido. Querida Laura, sempre tinha sido o
equilíbrio para a sua imaturidade crónica. Ou talvez nem fosse imaturidade,
talvez ele fosse uma daquelas almas sonhadoras que estão destinadas a não viver
sem outra que as mantenha presas às coisas terrenas. Primeiro a mãe, depois
Laura e mais tarde novamente a mãe, sempre haviam feito isso por si. Não
admirava que tivesse ficado sem chão, quando perdeu as duas num curto intervalo
de tempo.
Foi até ao quarto e abriu o guarda roupa
do lado de Laura, coisa que não fazia desde a sua morte. Pegou uma écharpe colorida, que estava logo ali à
frente. Provavelmente a última que usara, ainda tinha o seu cheiro. E com a
peça de roupa junto ao nariz, deixou-se cair sobre a cama.
De repente, ela estava ali. Com um
semblante tão colorido quanto a écharpe
que usava. Peça única que lhe cobria o corpo. Aproximava-se sorrateira,
enquanto ele fingia que dormia. Jogo íntimo que os dois encenavam como ritual
do seu encantamento eterno e que sempre antecedia o êxtase. Era assim a paixão
que sentiam e partilhavam no amor que nutriam um pelo outro. Riam às
gargalhadas sem saber porquê. Mas também o que é que interessava o porquê, se
no segundo seguinte estavam profundamente compenetrados nos braços um do outro,
presos pelo olhar.
- Nunca mais me deixes.
- Nunca, eu nunca te deixei.
- Mas eu procurei por ti e não te
encontrei. Não estavas aqui e eu fiquei sem saber o que fazer… quis ir para ao
pé de ti.
- Não procuraste bem. Quando precisares,
procura bem. Estarei sempre aqui… contigo!
Whisky, sentado nas patas traseiras,
observava o amigo agitar-se de uma forma que nunca tinha visto. E
surpreendentemente, viu-o levantar-se com todo o vigor.
- Vamos, amigão! Vamos lá fazer o
relatório àqueles dois.
Luísa
Vaz Tavares
Fim






