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27/07/18

Janelas De Tempo - Capítulo 3

Foto: Banco de imagens gratuitas


O sol brilhava por entre as nuvens, deixando a pele morna. O vento soprava suave, fazendo os abetos dançar uma espécie de valsa, que roçava os altos portões de metal verde. Dois militares com farda verde azeitona, e de espingarda automática ao ombro, tentavam ocultar os bocejos próprios de um amanhecer de Primavera. Andavam, em linhas retas de cerca de 50 metros, sendo observados ocasionalmente por um graduado que, pela disposição, não parecia disposto a permitir-lhes qualquer falha. Era preciso patrulhar, até os pés ganharem bolhas de cansaço.
De repente a calma daquela unidade militar foi desfeita pelo surgimento inexplicável de um homem no meio da praça de armas. Bastaram apenas alguns segundos para que ficasse rodeado de militares assustados, mas ao mesmo tempo compenetrados nos seus deveres castrenses de defesa, todos empunhando armas automáticas, e em posição de fazer fogo pelo tempo que fosse preciso.
Um jovem alourado, de tez clara e sardenta saiu a correr de um casarão militar alto. Desceu as escadas duas a duas, e correu para ir falar com o graduado que, ainda minutos antes, se limitava a observar dois patrulheiros a fazerem a rotina de todos os dias. Percebia-se que tinha ascendente sobre o mesmo, já que falava quase aos gritos, e o outro limitava-se a baixar os olhos.
Quando percebeu que dali não obtinha quaisquer respostas, dirigiu-se até ao centro da praça de armas. Um dos militares desfez a posição de tiro em que se encontrava, e saudou-o com uma continência.
- O que se passa aqui? - Questionou o militar mais graduado, enquanto se aproximava do estranho, que fumegava por todos os lados, e estava deitado de barriga para cima, a olhar o céu, e sem se mexer.
- Não sabemos meu capitão, respondeu o sargento, que visivelmente se esforçava por encontrar as palavras certas, enquanto ao mesmo tempo lançava um olhar hierarquicamente forte sobre os outros militares que não se atreviam a desfazer a posição de tiro que tinham assumido, todos por instinto.
- Seja quem for, esta pessoa não pode continuar aqui. É um estranho, e tratem de o tirar daqui.
Mal acabou de dizer a última palavra, reentrou a correr no casarão de onde tinha saído. Entrou no gabinete, sentou-se, pegou no telefone, e secamente pediu ao telefonista.
- Se faz favor faça-me uma chamada para Lisboa. 
O jovem oficial transpirava, à medida que sentia os primeiros raios de sol a entrarem pelas vidraças grossas do seu gabinete. Quando o telefone tocou, foi rápido a levantá-lo:
- Passe-me ao major Otelo Saraiva de Carvalho.
Segundos depois, de Lisboa, uma voz grave falava:
- Pensei que tinha dito que só queria ouvir algo da Escola Prática de Santarém quando vocês estivessem a sair daí. Com quem estou a falar?
No pequeno gabinete em Santarém, percebia-se a gravidade da situação.
- Capitão Salgueiro Maia, meu major. Peço desculpa estar a incomodá-lo, ainda por cima quando o plano já está em marcha. Mas é que surgiu um imprevisto.
Em poucos momentos, explicou o melhor que soube. Estava um homem de aspeto andrajoso no meio da praça de armas da Escola Prática. E faltavam poucos minutos para a hora combinada de saída da coluna militar para Lisboa. Ninguém sabia como ele lá tinha entrado, nem se seria um invasor. Um espião da polícia política.
- Meu jovem, o senhor não está a perceber o que se está a passar, pois não? Olhe para o calendário que está à sua frente, e diga-me que data vê.
O capitão respondeu, firmemente, mas com a hesitação a crescer.
- 25 de abril de 1974, meu tenente-coronel.
Seguiu-se um silêncio que feria os ouvidos. Foi curto, mas impositivo.
- Então vire-se rapidamente, e resolva isso. Daqui por meia hora no máximo, quero a coluna militar na rua!!! É hoje, ou vamos todos para a prisão, ouviu? Os portugueses não podem esperar mais.
Aos gritos, de Lisboa, a ordem estava dada:
- Sim, meu major.
O jovem Salgueiro  Maia voltou a correr para a praça de armas. O sol desabrochava como um pêssego maduro no horizonte, incendiando os resquícios da noite com um vermelho fogo, que parecia deixar no ar o perfume intenso de que aquele dia iria remodelar a história, conforme todos a conheciam.
- Vamos lá a resolver isto rapidamente.
O capitão berrou uma ordem. Mandou formar um círculo em redor do homem. Os cerca de 20 militares de Cavalaria puseram-se novamente em posição de tiro com as armas automáticas.
Um barulho estranho, quase que saído da barriga de uma baleia morta nos tempos idos do Mar do Norte, ecoou por toda a unidade militar. O barulho parecia vir das profundezas da terra. Debaixo do homem que permanecia inconsciente. Vestia uma touca de linho. Trazia umas calças, aparentemente do mesmo material, rasgadas nos joelhos, e estava descalço. Tinha uma cara cansada, mas um ar tranquilo.
O capitão Salgueiro Maia, como oficial mais graduado, chegou-se à frente. Tirou a espingarda automática das mãos de um dos sargentos, e apontou-a ao estranho homem. Pediu-lhe a identificação, e perguntou-lhe se era um invasor estrangeiro. Advertiu-o para não tentar fazer qualquer movimento brusco, pois seria logo preso ou, se necessário fosse, abatido.
O inesperado invasor disse chamar-se Júlio. Sim, o personagem principal desta história, que já tinha passado pelo Portugal do dealbar da nacionalidade, e pela Lisboa trágica de 1755. Explicou tudo isso, com uma voz trémula, de quem não esperava que acreditassem nele. E não acreditaram. Foi o próprio capitão Salgueiro Maia que ordenou que o mesmo fosse preso. Com uma escolta de dois militares, de espingardas em punho, foi encaminhado para as celas do quartel militar. Estava uma revolução em curso, e nada nem ninguém poderia perturbar aquele momento de viragem da história de Portugal.
Foi por entre as grades do pequeno cubículo onde o deixaram, que Júlio assistiu à saída de uma extensa coluna militar. No caminho pelos corredores da instalação militar, percebeu que, acidentalmente, estava a ser um intérprete do momento mais bonito da história de Portugal. Reconheceu Salgueiro Maia. Sorriu, sozinho, com a hesitação do jovem capitão que não sabia se as ordens a que estava sujeito iriam ser cumpridas com sucesso. E, pela primeira vez desde que se tinha metido nesta aventura, não se sentiu assustado. Sabia que tudo iria ter um fim. Um dia. Não sabia quando, nem de que forma. Nem até se sairia vivo de todas estas atribulações. Sentia-se desmaterializado da pessoa que já tinha sido. Agora, a única coisa que lhe interessava era passar à próxima etapa. Saber onde a sorte o levaria. Pensou que a máquina do tempo estaria em condições. Bastaria só ativar o botão que trazia consigo a todo o momento, e ela recomeçaria a trabalhar.
O tempo foi passando, e de Lisboa vinham as notícias que Júlio já sabia que iam acontecer. O capitão que ainda agora o tinha mandado prender, tinha, ele próprio, dado voz de detenção ao presidente do Conselho de Ministros. Nas ruas, o povo festejava o fim da ditadura. Ao anoitecer, três militares vieram dar-lhe o jantar. De propósito entornou a taça de sopa no chão, levando a um pequeno momento de distração dos que o mantinham cativo. A porta da cela ficou aberta, e Júlio aproveitou para fugir.
Já era noite, e o quartel estava iluminado por pequenos pontos amarelos, e que pareciam pirilampos. Escondeu-se atrás de um blindado, apenas os minutos suficientes para ouvir dois militares a dizerem um para o outro que o preso tinha escapado, e era preciso dar o alarme.
Assim que teve oportunidade, preparou todos os sentidos para perceber que era altura de nova transição no espaço, e no tempo. Um silvo agudo fê-lo acionar o botão, que o fez transpor para a máquina do tempo. O inesperado de toda esta aventura continuava, ao virar da próxima esquina.


                                                                                                    Miguel Curado


21/07/18

Janelas De Tempo - Capítulo 2

Pintura mural, Batalha de S. Mamede, Sala Acácio Lino, Palácio de S. Bento


       Júlio apressou-se a carregar no botão vermelho, mas, à medida que a sua respiração acalmava, prometeu a si próprio fazer os possíveis por aproveitar melhor a próxima oportunidade. Só tornou a carregar, quando se sentiu suficientemente calmo para enfrentar o que viesse.
         A porta abriu-se, deixando entrar o ar tépido de um fim de tarde de Verão. Júlio resolveu, porém, não despir o capote de palha do século XVIII, que lhe cobria as roupas modernas. Naquela paisagem de colinas verdes e alguns montes à distância, não se via vivalma, nem povoações. Aterrara com certeza novamente num tempo passado.
         Depois de andar cerca de quinze minutos, ouviu vozes e escondeu-se atrás de uns arbustos. Viu dois homens envergando túnicas e botas grosseiras, com adagas nos seus cintos, lanças nas suas mãos e capacetes redondos com aba. Pareciam andar a patrulhar.
         Júlio deixou-os passar e avançou, depois, com a máxima cautela, na direção de onde tinham vindo, subindo uma colina de pinheiros mansos. À medida que escurecia, foi distinguindo, entre as árvores, um clarão que parecia ser gerado por fogueiras. No cimo da colina, deparou com um acampamento numa enorme clareira. Viu tendas grandes, no centro, rodeadas de outras mais pequenas e, num último círculo, muitas carroças, com os respetivos animais, e gente sentada à volta de fogueiras.
         Estava na Idade Média! Mas em que século? E onde?
         De repente, sentiu passos apressados atrás de si. Antes que pudesse reagir, foi agarrado com rudeza pelos braços. Dois homens dirigiam-lhe palavras furiosas, mas, apesar de notar alguma familiaridade na língua, Júlio não os entendia. Expressavam-se num idioma muito rude, que tinha aliás alguma semelhança com o espanhol moderno. Ao mesmo tempo, distinguia um sotaque nortenho, com a terminação de muitas palavras no característico “om”.
         Quando um dos homens lhe apontou a lança, acabou por gritar:
- Estou desarmado… venho em paz!
Quedaram-se estupefactos. Júlio duvidava que o tivessem entendido. O que o segurava começou a despir-lhe o capote. Seria para que o outro lhe pudesse melhor enfiar a lança? Júlio preparava-se para lhes suplicar que não lhe fizessem mal, quando notou que observavam boquiabertos a sua t-shirt e os seus jeans. Os dois trocaram mais algumas palavras e começaram a apalpar-lhe as vestes, parecendo impressionados com a fineza dos tecidos que sentiam entre os dedos grosseiros. Um deles descalçou-lhe um dos ténis, que examinou assombrado.
Passaram a olhá-lo com uma curiosidade que roçava a admiração, o que o fez pensar que achassem ser ele alguma espécie de fidalgo. Trocaram mais algumas palavras, Júlio julgou perceber os nomes “Domna Tareja” e “Dom Fernán Perez”! Seria possível que…
Fizeram-lhe sinal que avançasse com eles, ordenavam «anda, anda», e puseram-se a caminho do acampamento. Júlio habituava-se àquele falar, percebia cada vez mais palavras e expressões.
Lá chegados, o forasteiro foi objeto de muita curiosidade, mas os seus acompanhantes avançavam decididos, sem responderem às perguntas, e só pararam em frente à maior tenda. Depois de trocarem algumas palavras com os sentinelas que a guardavam, um destes despareceu no seu interior. Ao regressar, fez-lhes sinal que entrassem.
Júlio deparou com quatro homens e uma mulher ricamente vestidos, sentados a uma mesa retangular, onde se viam cálices de prata talhada. As malgas e os pratos pareciam, porém, de madeira, não se viam cerâmicas, talvez por não serem práticas em tal situação. Havia tapetes no chão e outros pendurados, a marcar divisões.
A figura da mulher atraiu-o como um foco de luz, apesar de lhe parecer fatigada, talvez doente. Teria à volta de cinquenta anos e o seu rosto, emoldurado pelo véu, refletia ainda o encanto de outros tempos, nuns olhos castanhos e profundos. As suas força e formosura encontravam-se, porém, abafadas por uma capa de angústia e cansaço. E Júlio compreendeu tudo!
Os homens tinham falado uns com os outros e faziam-lhe agora perguntas, que ele ignorava, ainda preso no olhar de D. Teresa, que se mantinha calada, tal como ele. Os fidalgos ficavam impacientes, inquiriam-no de maneira cada vez mais agressiva, instando-o a que finalmente dissesse quem era, de onde vinha e o que estava ali a fazer.
Quando Júlio resolveu falar, ignorou-os, dirigindo-se a D. Teresa e tentando falar à maneira da época:
- Investir contra vosso filho parte-vos o coração!
Pôs as mãos sobre o peito, a fim de demonstrar melhor o que queria dizer. Tê-lo-iam entendido?
Depois de um momento de estupefação, os homens desataram novamente aos berros, aos quais D. Teresa pôs fim com apenas um gesto. Levantou-se e aproximou-se de Júlio, pondo igualmente as mãos sobre o peito:
- Sabeis ler no meu coração?
Júlio lembrou-se que, na Idade Média, era comum a crença em sábios, a quem se atribuíam poderes de adivinhação. Era a sua única hipótese e aventurou-se, no seu portunhol com sotaque nortenho:
- Estais amargurada, por não vos deixarem morrer como rainha. Sentistes na pele que uma mulher não vale tanto como um homem, que anseiam por vos substituir por vosso filho. E só aceitais a derrota pelas armas.
Um dos homens, claramente Fernando Peres de Trava, levantou-se furioso, bradando que ele lhes trazia azar, agourando uma derrota. Clamava que se aprisionasse o forasteiro, mas D. Teresa novamente o fez calar, inquirindo:
- Como vos chamais?
- Júlio. Não me pergunteis, porém, de onde venho, nem para onde vou. Não vos posso responder. Apenas vos digo que vosso filho terá um futuro glorioso e será ainda recordado daqui a mil anos.
Os olhos de D. Teresa fulgiam como chamas. Fernando Peres explodiu em mais protestos e a rainha, perdendo a paciência, exigiu que a deixassem a sós com o forasteiro. Os fidalgos indignaram-se, seria arriscado demais. Como ela, porém, insistisse e os guardas confirmassem que o forasteiro estava desarmado, os nobres acabaram por concordar, conquanto os dois se sentassem o mais longe possível um do outro e D. Teresa prometesse dar alarme, mal Júlio fizesse tenção de se levantar.
Uma vez sozinhos, e embora não estivesse totalmente seguro do que dizia, Júlio arriscou:
- Amanhã, dia de São João Baptista, do ano de Cristo de 1128, dar-se-á um confronto armado no campo de São Mamede, às portas do castelo de Guimarães.
- E vós profetizais que vou perder, não é assim?
Bingo! Júlio manteve a sua postura soberana:
         - Assim é, minha rainha.
         D. Teresa sorriu amargamente:
         - No fundo, não me dais novidade. Abdicar, porém, está fora de questão. Fui por demais humilhada, disseram-se cousas horríveis a meu respeito.
         - Sim, eu sei.
         Dirigindo-lhe um olhar mais angustiado do que nunca, ela inquiriu:
         - Será legítimo partir para uma batalha, com o seu inevitável verter de sangue, com a convicção de que não podemos ganhar?
         Por um momento, Júlio não soube o que dizer. Estava nas suas mãos impedir o confronto e salvar vidas. Isso significaria, porém, mudar radicalmente o curso da História, impedindo a realização da Batalha de São Mamede, essencial para a formação de Portugal.
         Ficou abismado com a responsabilidade que tinha entre mãos. Nunca pensou que aquelas viagens no tempo, nas quais embarcara por falta de perspetivas, exigissem tanto dele. Que fazer, meu Deus?
         Deus! Era a Ele que competia decidir. Não a um pobre mortal, perdido nas malhas do tempo. Sentindo-se mais leve, retorquiu:
- Estamos nas mãos de Deus. Seja feita a Sua vontade!
- Assim será, D. Júlio! A terra é minha, pois meu pai el-rei Dom Afonso VI ma deixou. Como vós próprio afirmastes, só aceito a derrota pelas armas.

Por ordem de D. Teresa, foi-lhe disponibilizado um local para dormir. Na manhã seguinte, um pajem entregou-lhe uma túnica de linho, que Júlio vestiu por cima da própria roupa e cingiu com o seu cinto, e uma touca, semelhante à que a maior parte dos homens usava. Pô-la na cabeça, a fim de que passasse o mais despercebido possível. E assim assistiu, ao longe, junto com o séquito de D. Teresa, ao combate que se desenrolou no campo de São Mamede.
 Júlio mal acreditava que lhe era concedida a oportunidade de testemunhar aquilo que mais tarde se apelidaria de «primeira tarde portuguesa». O castelo de Guimarães, porém, desiludiu-o. Não era nada daquilo que conhecia, ou seja, o resultado de várias transformações ao longo dos séculos. No ano de 1128, a fortaleza não passava de uma muralha, mais ou menos oval, bem mais baixa do que tinha na memória e sem os seus famosos torreões. No seu interior, a torre era igualmente mais baixa e rudimentar, lembrava-lhe a torre do castelo de Trancoso, que, pelos vistos, tinha chegado ao século XXI mais fiel ao original.
Júlio poderia ter assistido com uma indignação própria de quem é mais civilizado à carnificina que se desenrolou às portas do castelo. Poderia ter mentido a si próprio, considerando tal violência característica de tempos cruéis e incultos. Perguntou-se, porém, que direito tinha ele de se sentir mais humanizado do que as pessoas que o rodeavam. Lembrou-se das imagens que vira da guerra da Síria, dos massacres perpetrados em África entre etnias e religiões diferentes, dos ataques terroristas, da 2ª Guerra Mundial e do extermínio dos judeus. Ali estava ele, com quase mais mil anos de civilização em cima e, se a isso fosse solicitado, nada mais tinha para contar àquela gente do que continuarem os humanos do seu tempo a exterminarem-se uns aos outros em nome do poder, da religião, do que fosse.
Desviou esses pensamentos da cabeça, não lhe competia mudar a História, e concentrou-se num único objetivo: ver D. Afonso Henriques com os próprios olhos. No campo de batalha, porém, além da distância que não permitiria distinguir feições, todos os nobres pareciam iguais sobre os seus cavalos, envergando os seus lorigões de malha de ferro, os seus elmos cónicos e segurando os seus escudos e as suas espadas.
Sabendo de antemão como terminaria o combate, Júlio afastou-se discretamente. Não lhe foi difícil, já que, por não saber montar, ali se tinha deslocado a pé, junto com o povo que fazia parte do acampamento. Antes de deixar a colina, em direção à vila, lançou um último olhar à “rainha”, majestosamente sentada em cima do seu corcel, assistindo de cabeça erguida à derrota que adivinhava. Teve pena de não se poder despedir dela, elogiando-a pela dignidade com que enfrentava o seu fim.
Dirigiu-se à vila de Guimarães, quedando-se pelas imediações do castelo. Assim que o combate terminou e os aliados de D. Afonso Henriques começaram a festejar, foi-se aproximando do campo de batalha, à semelhança de alguns habitantes da vila. Vinham celebrar a vitória, mas não eram tantos como Júlio tinha imaginado. Para grande parte deles, pelos vistos, era indiferente quem dominava o condado Portucalense. Pretendiam, apenas, sobreviver ao dia-a-dia e não faziam ainda ideia do significado daquela refrega. Tudo era diferente da dimensão que se lhe haveria de dar, incluindo a própria batalha. Da parte de D. Teresa, tinham combatido pouco mais de trezentos homens; os partidários de D. Afonso andaram à volta dos seiscentos.
Júlio juntou-se a um grupo que dava vivas. Os guerreiros a cavalo tiravam os seus elmos e almofres, descobrindo a cabeça. D. Afonso acabou por passar perto do grupo, saudando-os a todos. Júlio acenou-lhe e, apesar da emoção, mais uma vez constatou a diferença entre a crença e a realidade. Não que o futuro rei o tivesse desiludido, era bem constituído e transmitia um ar resoluto e corajoso. Porém, sempre que pensara na Batalha de São Mamede, não tivera presente que D. Afonso era um jovem à volta dos vinte anos. E foi a evidência dessa juventude, com a imaturidade e uma certa sobranceria que a caracterizam, que mais atingiu Júlio. Haveriam de se passar ainda duas décadas, até o primeiro rei de Portugal se tornar no soberano poderoso e maduro que conquistaria as cidades de Santarém e Lisboa.
Talvez Júlio ainda tivesse oportunidade de assistir a esses momentos históricos. Talvez não. De qualquer maneira, achou avisado regressar à sua máquina do tempo. D. Teresa recolher-se-ia num mosteiro galego, morreria cerca de dois anos mais tarde e sabe-se lá se D. Afonso simpatizaria com ele, à semelhança da mãe…
Manifestando o seu cérebro a intenção de regressar à máquina, logo o micro GPS implantado o guiou na direção certa. Júlio teve pena de deixar aquele local e aquele tempo.
Carregou no botão vermelho. Na sua memória, muito mais do que o rosto jovem de D. Afonso, ficara gravada a imagem de D. Teresa, possuidora de uma dignidade que nem a desilusão profunda ousara destruir.


                                                                                              Cristina Torrão



13/07/18

Janelas De Tempo - Capítulo 1


Imagem retirada da net sem indicação do autor 

            Por dentro, com a língua, e por fora com os dedos da mão direita, assegurou-se que o dente munido com o chip se mantinha firme. A medo, e ainda tonto pela tensão psicológica daquela estranha “viagem”, aventurou-se a sair da acanhada máquina.
Ainda sem ter qualquer noção de espaço ou tempo que lhe permitissem perceber onde estava, e em que ano, passado ou futuro, movimentou os braços e as pernas para desentorpecer o corpo. Apeteceu-lhe gritar, gritar bem alto a alegria, de para já, ainda estar vivo. Viam-se azuis por entre as nuvens, e a chuva, apesar de forte, dava sinais de querer abrandar. Estava totalmente encharcado, mas queria acreditar que no “pacote” da viagem no tempo também se incluía imunidade gripal. Não teria graça alguma que apanhasse um resfriado e precisasse de cuidados médicos, principalmente se estivesse, algures no passado…
Era hora de tentar perceber onde estava, de se situar. O sol, bem escondido atrás das nuvens, ainda estava fraco, mas indicava estar a aumentar de intensidade pelo que deveria ter acabado de amanhecer. Estava no campo, num sítio alto, suficientemente alto para que, lá em baixo à sua direita, circulasse um forte nevoeiro que pouco mais o deixava ver além dos montes por onde circulava.
O campo estava cheio de oliveiras, e enquanto tentava situar-se melhor, Júlio usava-as para se proteger dos últimos pingos de chuva que teimavam em cair. Não muito longe dali avistou uma casa, não parecia mais do que um abrigo com as suas paredes em pedra empilhada e telhado de canas e giestas, mas representava uma oportunidade de se secar. Conforme se aproximou, viu que próximo estava uma habitação, também ela singela e humilde e simples, mas que a chaminé a fumegar sugeria ser habitada.
Impunham-se cautelas, continuava a não ter qualquer ideia de onde estava nem em que século, e aquela gente poderia não ser amigável. Aproximou-se do abrigo e viu que estava ocupado por animais, duas vacas e algumas cabras. Lentamente, para não gerar alarido entrou, e depois de os animais se acalmarem, encostou-se num canto a desfrutar do calor existente. Por uma fresta, de entre as pedras sobrepostas da parede, conseguia ver a casa e tinha esperança de, mais tarde ou mais cedo, conseguir ver os habitantes e dessa forma conseguir ter a noção de onde se encontrava.
Não demorou muito. Da casa saiu um casal de adultos acompanhados por duas crianças que não deveriam ter ainda dez anos de idade vestidos com roupa que associou a tempos passados, e a forma como saíram, quase em simultâneo, indiciava que iriam a algum lado. Não conseguia escutar o que diziam mas a conversa era parca.
Apesar de desapontado por não ter conseguido perceber, através da linguagem, em que país se encontrava, Júlio ficou aliviado por ter mais tempo de secagem para depois, mais confortável, fazer o reconhecimento da situação.
Pendurado junto da entrada do abrigo estava um capote de palha, aos socalcos, que vestiu de molde a que até as 501´s ficavam quase escondidas. Agora sim, o sol fazia-se notar e teve pena de não ter consigo a sua Nikon que sempre o acompanhava nas viagens, a luz estava magnífica!
Aproximou-se da zona onde vira o nevoeiro a seus pés e que começava a dar lugar a um vale cavado com um rio a correr, bem lá em baixo. As nuvens iam cedendo, mas ainda não permitiam vislumbrar pontos de referência se bem que a paisagem não era totalmente desconhecida a Júlio. Sem nada que fazer e disposto a tirar a limpo aquela sensação de “dejá vu”, sentou-se num muro de pedra e por ali se quedou a ver o espetáculo da abertura do nevoeiro, e de repente deu um salto e ficou boquiaberto de surpresa. Já sabia onde estava, o rio era cada vez mais visível, e da outra margem o casario fazia-se notar com o esplendor do Mosteiro dos Jerónimos e a sua guarda avançada, a Torre de Belém, a marcar a diferença. Estava algures na margem sul do Tejo, entre onde haveria de estar a ponte 25 de Abril e a Trafaria!
E por ali ficou, deslumbrado. O rio, também era azul nos intervalos de tantas cores que as velas dos inúmeros barcos em movimento, e de tantos outros, fundeados. Se no seu tempo o congestionamento era na marginal, agora era-o dentro de água. O Tejo fervilhava de movimento e Júlio Verde deliciou-se em comparações, entre o que via e aquilo que conhecia. As horas passaram e o amanhecer já passara, talvez fossem umas nove ou dez horas, e o dia adivinhava-se prazenteiro. Em minha honra, pensou ele.
Foi sol de pouca dura, vindo do nada, das entranhas da terra, um ronco ensurdecedor acompanhou o tremor que o fez cair do muro abaixo. Levantou-se de pronto, e assistiu, quase de bancada, ao cair das cartas que compunham os castelos, do outro lado. De tantos momentos e lugares, aterrara quase em Lisboa (felizmente na margem sul) e pelo que antevia, deveria correr o dia 1 de Novembro de 1755.
Os estremecimentos da terra continuavam e já se viam colunas de fumo por toda a cidade, mas o mais impressionante foi ver o Tejo quase desaparecer para parte incerta, para não demorar a reaparecer, furioso e bestial. O cenário era de tal forma dantesco, a cena decorria a um ritmo tal que Júlio nem se lembrou de ter medo, de fugir ou mexer, que fosse. Os acontecimentos corriam a seus pés, do rio que minutos antes era um espelho pontilhado de cor, agora era uma corrente cinzenta alterada e violenta, onde as cores se vislumbravam a afundar.
Por ali, perto de si, uma fenda se abriu aquando um dos tremores, e de repente Júlio acordou: E se a máquina caiu, desapareceu nalgum buraco? Como saio daqui? Sabia que caminhara pouco, e que o fizera sempre com o rio do lado direito, por isso empreendeu o regresso, confiando no dente, mas nunca deixando de ver como a sua cidade ardia, do outro lado. Luis, não o enganara, lá estava o zingarelho com a porta aberta que se esquecera de fechar, tenho de ter mais cuidado na próxima vez…
 De pernas a tremer, cheio de vontade de ver mais, mas ciente que os tempos próximos não iriam ser agradáveis, entrou e carregou no vermelhinho…


                                                                                                             Joaquim Henriques


28/06/18

Janelas De Tempo - Capítulo 0

Foto de banco de imagens gratuitas
Era inútil. Nunca iria conseguir dormir. Furioso, afastou de cima de si o edredão sem quase sentir na pele o fresco do quarto e, de luz apagada, abriu a janela. Aconchegou ao pescoço a gola do casado do pijama e cruzou os braços sobre o parapeito. Lá fora, quatros andares sob os seus pés, a noite movia-se ainda, quase secreta, cruzando-se nos faróis dos automóveis, reflectindo a luz dos candeeiros no alcatrão recentemente lavado pelos trabalhadores camarários e no bêbedo que em obstáculos invisíveis tropeçava. Fosse outra noite, fossem outros tempos, teria chamado Laura e ter-se-iam desmanchado a rir pela triste figura do homem. E, subitamente, o olhar fixou-se no negro do céu, sem que o visse. Por saber que mentia, que a si mesmo tentava enganar fazendo-o. Noutra noite, noutro tempo, no espaço tão curto de seis meses antes, ele nunca estaria encostado ao parapeito de uma janela olhando o ziguezaguear de um bêbedo. Dormiria. E por dormir, não sentiria àquela hora o corpo de Laura que, porém, saberia a seu lado. Ambos, serenamente, recebendo os seus sonos e visualizando os seus sonhos que, pesadelos que fossem, nunca seriam tão maldosamente definitivos como aquele estúpido acidente que lha roubara.
Depois, a morte súbita da mãe, o seu último reduto familiar, a julgada eterna confessora das suas mágoas, a sua amiga, o seu porto seguro onde ele atracava o barco das confidências compensando-a com o escutar, mais ou menos atento, dos queixumes próprios da idade.
Julgara, também ele, morrer. Não acontecendo, porém, descera a vertiginosa ravina psicológica que o conduzira a uma inevitável depressão. Os sonos por dormir, os esquecimentos constantes, o mau humor incessante e o descurar dos mais elementares cuidados profissionais haviam provocado o resto: o despedimento.
Vira-se assim sem dinheiro, sem ambições, sem possibilidades de novo emprego para “velhos” de mais de 40 anos neste país que era o dele. E, quase, sem amigos. Quase. Porque numa daquelas coincidências que talvez o destino saiba explicar, reencontrara casualmente Luís, o estranho, o apagado, o tímido, o maluco que de todos se isolava nos seus tempos de escola. O agora cientista a quem o amargo da sua vida contou num desabafo, como o contaria a um gato ou um cão por mais ninguém ter com quem fazê-lo, confessando por fim que já várias vezes pensara em desistir de tudo, da vida, e fazer uma asneira.
— A sério? – Perguntara Luís depois de o olhar demoradamente e em silêncio – Então faz. Faz essa asneira. Mas quando a fizeres, executa-a com dignidade.
E nunca mais aquela frase, contrária aos usuais “deixa-te de parvoíces” ou “coragem, a vida dá muita volta”, se lhe arredou da mente. Ao ponto de o contactar de novo e perguntar-lhe que quisera ele dizer com aquilo. E receber, como resposta, o endereço de um armazém nos arredores da cidade.
A máquina, exposta na nave desse armazém, tinha o aspecto artesanal, ainda que de dimensão dobrada na largura, de uma guarita de soldado. No seu interior, repleto de fios entrelaçados e encavilhados como nos antigos PBX, somente um botão vermelho sobressaía naquele aglomerado de técnica e lata cinzenta que em nada deixava adivinhar a sua utilidade.
“Trata-se de uma máquina que viaja no tempo”
Olhara em silêncio o antigo colega e considerara que a loucura alvitrada nos tempos de infância se havia tornado séria. Mas Luís, indiferente ao seu provável rosto incrédulo, não se detivera e, como se falasse do mais trivial assunto, continuou.
“Precisamos de ti. E, tanto quanto percebi no nosso encontro, tu precisas também de nós. Quando digo “nós”, refiro-me a mim, obviamente, e ao Doutor Klaus Hipólito, cientista alemão de ascendência portuguesa. Juntos, há muito trabalhamos numa máquina, nesta máquina, que atravesse o tempo ou, para ser mais específico, a sua inexistência. Diz-me o teu rosto que estamos doidos, que estamos a viver um sonho de ficção científica, mas, contra isso, devo dizer-te que essa designação sempre acompanhou os loucos que, no entanto, com essa loucura fizeram avançar o mundo.”
Fez uma pausa e olhou a máquina, nitidamente com o mesmo olhar com que se olha um filho.
“Seria para ti fastidioso se me perdesse agora em pormenores científicos. Pouco entenderias e em nada ajudaria à tua decisão, porque, na realidade, é isso que esperamos com esta nossa conversa: uma decisão tua”
“Talvez não saibas que nada morre no mundo. Todo o acontecimento se regista para a eternidade de um modo indelével, ainda que a nós pareça ter perecido. Incluindo os sons. Vou dar-te um exemplo que assume aqui extraordinária importância” – fez uma pausa antes de retomar o monólogo de um modo estranho, nitidamente separando cada palavra – “Tudo, o, que, neste, momento, te, digo, parecerá, desaparecer, quando, me, calar. Percebeste? Todas as palavras ditas, dizem, são levadas pelo vento. Mentira. O que acontece é que todas estas frases descem continuamente para infindáveis ondas que ninguém mais detectará, mas que, no entanto, continuam vivas. Perplexo? - Sorriu pela primeira vez – Não fiques, Júlio. E retém a frase de Shakespeare “ Há mais mistérios entre o céu e a terra do que a vã filosofia dos homens possa imaginar”
“Pois bem” – continuou – “A máquina que aqui vês dispõe de um botão vermelho no qual terás, certamente, reparado. Quando o pressionares…”
“Quando ou se?” – Interrompera Júlio pela primeira vez.
“Quanto a isso, já lá iremos. Não me faças perder” – respondeu Luís – “Portanto, quando o pressionares, a máquina entrará num processo aleatório, de roleta russa, digamos, e navegará por todos os sons caídos ao longo dos tempos. Passado e futuro”
“Futuro? Como é isso possível, se o futuro ainda não existe?” – Perguntou Júlio.
“Tudo existe já, nunca te esqueças disto. Entre nós, aqui neste momento, corre um universo paralelo que só ainda Einstein conseguiu aflorar. Ele, o futuro, já cá está. Nós é que o desconhecemos, mas tenho esperança de que a máquina no-lo dê a conhecer. Por isso, dando seguimento à explicação, essa navegação por todas as ondas em que pairam inquantificáveis sons, far-se-á continuamente, até que de novo primas o botão e a máquina se detenha na pesquisa do tempo, naquela precisa data em que a frase, naquele momento analisada, terá sido dita. Nesse mesmo instante, a porta abrir-se-á e, lá fora, esperar-te-á uma época que, em princípio, nunca será aquela que agora deixas. Estudámos o teu currículo, o teu perfil, e descansámos ao verificar que a tua paixão pela História e o teu elevado nível cultural facilitaria o reconhecimento de qualquer Era em que caísses. Para além disso, o teu próprio nome, Júlio Verde, pareceu-nos premonitório”.
Durante alguns instantes, ficaram em silêncio. Parecia que, aos olhos de Júlio, muito estava por dizer. Só desconhecia a real dimensão desse “muito”. Decidiu questionar o cientista com uma pergunta que lhe pareceu pertinente.
“Parece-me que essa máquina, com esse aspecto, não será bem recebida entre o paleolítico ou Afonso Henriques, Luís XV ou Roald Amundsen”
“Não te preocupes com isso. Ninguém irá vê-la. Ela não existirá no ponto a que chegar. A sua estrutura molecular não lhe permite sair fisicamente daqui. É uma sua projecção aquela em que viajarás. Só tu, no momento em que pisares a terra de outro tempo, serás visível, porque se dará a tua libertação para lá da composição que ela ostenta.
“Isso significa, nesse caso, que se eu me afastar do local onde ela pousou, nunca mais a verei”
“Estaria correcta essa dedução, sim. Se nós não tivéssemos solução para ela. Conseguimos isolar o nervo que transmite ao cérebro o padecimento de um dente. Nesse nervo, e através de uma simples e eficaz cirurgia, implantaremos um micro-GPS que continuamente te guiará ao ponto de partida”
“Terei então, na minha cabeça, uma menina a, constantemente, dizer-me “vire à direita, vire à esquerda?” – disse, sorrindo. Um inseguro sorriso, enervante por tão nervoso.
“Sim. Quando for essa a tua vontade. Ela, essa tua intenção de regressar à máquina, despoletará o “acordar” da “menina”
Júlio ficara muito tempo em silêncio. Tinha ainda muitas perguntas a atrapalharem-se no tráfego do cérebro. Mas uma se impunha. Ou talvez duas.
“Têm a certeza de que a máquina funciona? E quando regressarei?”
Luís suspirou antes de responder.
“A máquina funciona, sim. Treinámos um pastor-alemão, o nosso querido Whisky, durante anos, para que aprendesse a carregar no botão. Vimo-lo dentro da máquina quando a porta se abriu e, em consonância com o resultado esperado, a volatilizar-se no ar no instante em que a transpôs. Nunca mais regressou. Sem micro-GPS que lhe valha, estará perdido num qualquer século. Estamos, afincadamente, garanto-te, a trabalhar num modo de poder provocar o regresso à linha de partida (não esqueças que a máquina continuará aqui) e penso estarmos muito perto de o conseguir. Se não conseguirmos…”
“Se não conseguirem…?”
“Se não conseguirmos, ou se dá o caso de a máquina parar, por sorte, entre biliões de possibilidades, nesta nossa data, ou… – engoliu em seco – ou tu morres por lá. Mas não era isso que procuravas, numa existência que já nada te diz?”
E por isso aquela insónia, aquele redemoinhar de pensamentos, de sentimentos, do receio de partir para aquela aventura, mas também da frustração caso não a aceitasse. Era português, caramba! Não tinha sido a sua raça a desvendar mundos dentro do seu mundo? Ele tinha à sua frente a possibilidade de muito mais. A de descobrir mundos extintos e por inventar. Mas tantas perguntas lhe bailavam no cérebro. As mais simples, por incrível que parecesse. As suas roupas diferentes, a alimentação, a barba que lhe cresceria, a… . Não! Tinha de parar por aqui, de se martirizar com dúvidas e medos. Já dissera que sim, já tinha instalado no nervo dos dentes uma “menina” que, por enquanto, dormia. Muito mais que ele que, noite dentro, ali estava acordado quando tanto necessitava de repouso. Porque, logo que o dia nascesse, seria o DIA!

Que nasceu quente apesar de ter sido fria a noite. O sol fervilhava sobre as cabeças descobertas, um daqueles dias que, ultimamente, quase faziam de Portugal um país tropical. Quando entrou no armazém, soube-lhe bem o fresco da nave vazia de tudo, menos de uma assustadora, porque incógnita, máquina. Deu um grande abraço a Luís e outro a Klaus, um homem afável e meio distraído como era apanágio dos cientistas. Apeteceu-lhe chorar quando se viu dentro da máquina, mas não valeria a pena. Para além de nada haver a fazer quando a porta se fechou, o calor desmesurado que parecia roubar-lhe o ar secar-lhe-ia as lágrimas num instante. E, de repente, tudo era silêncio, tudo era metal, tudo eram fios e medos e um botão cujo vermelho pedia uma mão firme sobre ele. Olhou-o. Sentiu medo, angústia. Desistir? Não. E, sobretudo, evitar pensar. Estendeu o braço e, fechando os olhos, pressionou-o. E, contrariamente ao que esperava, nada aconteceu. Nem um estremecer, nem uma ligeira vibração sentiu nas paredes da máquina. Nada. Para além de um suave silvo, um quase ligeiro assobio constante que provavelmente se manteria até que voltasse a pressioná-lo de novo. Teria aquela geringonça avariado aquando do funcionamento com o animal? Se não, em que datas aleatórias navegaria ela agora? Teria ele preferência por alguma época, segundo os seus conhecimentos de História? Que importava isso neste momento, se não podia escolhê-la? Se somente podia pressionar de novo o botão, detendo a máquina do mesmo modo que a pusera em movimento, mas sem que, contudo, a sentisse mover-se. E de novo os seus dedos calcaram a cor vermelha do botão. O silvo, gradualmente, foi-se esvaecendo até devolver o silêncio só interrompido pela porta que se abria. Aproximou-se dela e viu que, lá fora, e para além do frio que lhe chegava, chovia torrencialmente. Lembrou-se então de quão importantes são as pequenas coisas. Nem um guarda-chuva trouxera.


João J. A. Madeira