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30/03/12

O Fim da Inocência - Parte XVI - O Final


A rua que descia com o sol. A rua que não era sua, que não a fazia vibrar, que não lhe falava. A rua que descia como a sua vida rica de viagens e simultaneamente de infortúnios. A rua sempre a afundar, a afundar, a cair no mesmo mar de desventuras em que ela naufragara. O mar feito de lágrimas que atrevidas lhe caíam do rosto. Era tão nova, tão nova. Como podia achar-se tão cansada? Tão frágil depois da força que a vida lhe dera ao ensiná-la? Onde estava? Que cidade era aquela onde pousara casualmente nos braços de alguém que também, uma vez mais, lhe mentira? Queria voltar a nascer. Queria! Não necessariamente na semente da sua terra porque a sua terra seria aquela que por bem a acolhesse. Tão cansada estava agora andando sem saber para onde. Não sabia? Sabia sim. Iria para qualquer parte. Porque o mundo é composto de todas as partes. Até mesmo daquelas ruas que descem sem se saber para onde. Agora só teria de descansar sem se importar onde, em que parte desse mundo. Descansar apenas. Porque não junto àquela muralha feita de olhos virados para uma vida nova que teria de enfrentar? Naquele instante precisava recolher-se de todos para que, a si mesma, se pudesse acolher. E sob um dos 833 arcos do Aqueduto da Amoreira, pela segunda vez, adormeceu ao relento. Descoberta, sem pudor, mostrou-se apenas aos olhares das estrelas que, tinha a certeza, saberiam cuidar de si como não tinham feito. Sem imaginar sequer que…

A cerca de 300 quilómetros, numa praia de Peniche, Filipe fechara já a porta da sua casota de madeira pintada pelos dejectos das gaivotas e, pobre ceia ingerida, ajustava agora o seu corpo às mossas salientes do colchão. O sussurro do mar que lhe cuspia o sal pelas tábuas mal vedadas como se ao relento dormisse, dizia-lhe que, na sua triste sorte, duas coisas nunca poderia esquecer: o seu corpo, vivo, e o seu nome por enquanto só seu. Porque, pelas ruas perfumadas de peixe e para os homens com veias de mar, ele era apenas o Cagliostro. Sem saberem o turbilhão de pensamentos que o invadiam ao ouvir essa alcunha e que o levava, de dentes cerrados a calarem-lhe a língua, a apenas pensar “Cagliostro é a puta que te pariu”. Mas depois, lá vinha o sorriso ténue, a simpatia feitio de si que levava toda a gente a pagar-lhe um copo, ao pobre-diabo, a dar-lhe um pão de sardinha derretida, a alimentar-lhe o estômago, sem saberem quão famintos lhe estavam os sonhos. Que um dia o levariam dali, para alguém que, algures, o receberia. E lhe chamaria o seu nome. E o deitaria num colchão fofo onde beberia a macieza de um corpo. Queria apenas isso. Uma mão entrelaçada na sua no descer de uma qualquer rua de uma terra qualquer. Quem sabe até se, na outra mão, não se moldaria uma mais leve, mais terna ainda, mais carne prolongamento de si?

Laurinda esgotou as lágrimas sobre as ervas incertas que lhe serviam de colchão. Havia que vertê-las já que delas nunca nada receberia. E adormeceu embalada pelo sussurro da brisa como se do mar. Na manhã seguinte, a raiva feita força das gentes do Norte, levou-a a bater às portas em busca de trabalho. Qualquer trabalho. As suas mãos eram rijas, o seu corpo era rijo, a sua mente era sã e persistente. E uma velhinha de recente preto viúvo precisava de ajuda na lida da casa, de companhia nas evocações de saudade, acima de tudo de uma amiga em troca de pagamento e dos cómodos que lhe oferecia. E, de repente, Laurinda renascia em recíproca dedicação às gentes francas do Alentejo. Era quase feliz. Não sabendo que esse mesmo “quase” lhe ocupava um espaço carente de ser preenchido. Mas acreditando que um dia, sem aventura, sem engano, sem ilusão, esse “quase” arredar-se-ia e deixaria que a plenitude ocupasse o seu lugar.


Com o costumado pé-de-cabra, Filipe levantou a tábua do chão do casebre. Como habitualmente, arregaçou as mangas e fez desaparecer os braços até aos cotovelos. Quando os retirou, transportavam cuidadosamente uma caixa ferrugenta que abriu sentado em cima da cama. Pela enésima vez contou as notas que ela continha e, depois de as pousar alinhadas pelas pontas, pegou como sempre no velho mapa da TAP e abriu-o, sorrindo. A decisão estava tomada. Brevemente partiria. O dinheiro amealhado seria suficiente para os primeiros tempos e o destino escolhido teria de ser bem longe sem, porém, sair do País. O círculo à volta de Elvas, cidade na linha de fronteira, evidenciava a sua boa escolha. Em breve, Cagliostro morreria para que Filipe se afirmasse, novo dono de si numa vida esquecida de miséria. Sereno, pegou na almofada e levou-a para o postigo de vidro. Abriu-o e, de imediato, sentiu o cheiro de mar. Então, subitamente desperto pelo futuro que para si inventava, pousou a almofada no tosco caixilho para que as tábuas não lhe mordessem os braços.
Naquela noite, Laurinda bebia à janela os cheiros e os sons da paisagem alentejana. Com uma almofada sob os braços para que se não vincassem no caixilho de madeira, via o passar fugaz dos pirilampos, ouvia o roçagar agudo das asas dos grilos, o som muito breve do miar de um gato. E pensava no seu passado ainda tão fresco. Tudo o que fizera fora uma aprendizagem motivada por uma busca de si e da vida. Que tola fora. Só agora compreendia que não adianta procurar na vida o que ela não quer que encontremos. E por isso esconde, oculta, devolvendo-nos a busca em forma de lição. Depois, quando muito bem entende, é ela que nos presenteia com aquilo que nem sequer procurámos. Por entre as árvores, um suave vento parecia mandar calar o tempo, um gato emitia novo miado. E, dentro dela, uma voz parecia dizer-lhe que, quando menos esperasse, algo lhe seria oferecido. Um dia, em Lisboa, o Cristo-Rei dissera-lhe que teria de acreditar em si própria. E ela andara perdida até àquele momento. Um momento que acabava, que a fazia acreditar agora como se acredita nas coisas concretas que finalmente se vêem. Como as estrelas que lá em cima brilhavam, a paisagem que aos seus olhos se espraiava, o repetitivo miar ténue do gato. Do gato? Mas não era costume haver gatos por ali. E o som parecera vir da porta de entrada. Um miado doce, um pequeno lamento, quase como… Subitamente sentiu-se corar. Só podia estar louca. Mas aquele súbito arrepio a percorrer-lhe o corpo, a acordar-lhe no peito uma sensibilidade estranha porque adormecida, dizia-lhe que não estava louca, que tinha apenas de correr para a porta, andar apressadamente sem se importar com a ansiedade, a dúvida, com as ideias desordenadas que lhe faziam bater o coração descompassadamente.


No patamar, a seus pés, uma alcofa jazia carregada de roupa cuidada e branca. No meio dela, uma criança, um bebé, parecia olhá-la tão pasmada como ela. Laurinda riu e o seu riso tinha o brilho das mesmas estrelas do céu. E com o riso veio o choro. Feito de felizes lágrimas que nem a deixavam ver o sítio por onde pegar em tão frágil criatura. Louca de alegria, de ternura, encostou aquele ser ao seu rosto molhado, estreitou-o no peito, fez do seu pequenino coração todo o amor que nunca tinha encontrado . Não sabia quem lhe teria deixado aquela criança. Não sabia, sequer, se podia ficar com ela. Mas não tinha de saber nada. A não ser que, a partir daquele momento, conquistava a única e maior aventura da sua vida: a de ser mãe.

João J. A. Madeira

22/03/12

O Fim da Inocência - Parte XV


Apesar de tantas perguntas, dúvidas e incertezas, Laurinda deixou-se dormir de novo no aconchego dos braços de Pedro, desta feita num sono calmo, tranquilo e reconfortante.

Com um fio de sol a bater-lhe no rosto, Laurinda acordou demoradamente, num misto de preguiça e reconforto. Como sabia bem aquele sol a bater-lhe no rosto que lhe aquecia a alma e lhe dava certezas. Hoje era o primeiro dia da sua nova vida! Uma vida de aventura, de descobertas, de viagens e de muito amor. Pedro estava ali, com ela e para ela. Para a amar e a fazer sentir-se mulher amada e desejada. Por momentos conseguiu imaginar como seria a sua nova vida e ficou feliz com esta imagem. Queria deixar para trás tudo o que tinha vivido e tudo o que tinha passado e conseguir finalmente ser uma mulher completa e feliz! O mundo estava à sua espera e ela estava pronta para o descobrir!

Queria dar os bons dias a Pedro e roubar mais um daqueles abraços que a faziam sentir-se segura. Tinha acordado mais calma, mais tranquila e com a certeza de que tinha tomado uma boa decisão. Sentia no seu corpo um formigueiro, um desejo avassalador e uma vontade desmesurada de sentir Pedro dentro si novamente. Queria começar aquele dia de sol a sentir as mãos de Pedro a percorrerem-lhe o corpo, os lábios dele a beija-la, a língua dele...

Virou-se para o lado de sorriso nos lábios...

_Pedro?! Pedro?!

Olhou à volta e não viu ninguém. A tenda estava vazia, Pedro não estava ali. Laurinda estava sozinha! Levantou-se de rompante e vestiu-se apressada com a cabeça novamente envolta num emaranhado de questões. Onde teria ido Pedro? Porque teria desaparecido e a deixado ali sozinha sem lhe dizer nada?! De repente, como que por toque de mágica, todas as certezas se começavam a desvanecer novamente...

Saiu da tenda e com um olhar atento e assustado percorreu tudo ao redor. Devia ser ainda cedo porque não se via ninguém na feira e reinava um silêncio ensurdecedor que contrastava com a folia que se sentia ali de noite. De olhos fixos no chão voltou para dentro e sentou-se de novo na esteira tapando-se com as mantas ainda quentes onde tinha dormido com Pedro. Ou será que tinha dormido sozinha? Subitamente todo o desejo em que o seu corpo estava envolto minutos antes desaparecera. Laurinda sentia o seu corpo frio e a cabeça começava a doer-lhe!

Uma avalanche de questões começava de novo a assaltar-lhe os pensamentos enquanto se sentia sozinha e as lágrimas lhe escorriam pelo rosto sem quererem parar. Formara-se um nó na sua garganta que quase a impedia de respirar. De um momento para o outro, Laurinda sentia-se triste, desamparada, distante de tudo o que lhe era familiar.

Toda a vida que teria tido se tivesse ficado na sua terra, na sua casa lhe passara em frente como se de um filme se tratasse. Seria tarde demais? Como a iriam olhar se ela voltasse? O que as pessoas iriam dizer e pensar sobre ela que horas após enterrar o Pai tinha desaparecido sem deixar rasto? Será que Marco estaria disposto a perdoar-lhe? Será que a tia lhe tinha entregado a carta? Que loucura tinha ela feito?


Ao longe começou a ouvir risos e algum burburinho e depressa saiu da tenda na procura de um rosto familiar. Pedro vinha acompanhado por uma jovem de cabelos louros e muito longos, extremamente brilhantes. Tinha os olhos de um azul cristalino, sorriso verdadeiramente perfeito e era repleta de uma beleza que chegava a ser irritante aos olhos de Laurinda. Alheios a tudo o que estava à volta conversavam os dois como se nada mais existisse e Pedro olhava-a com veneração, com desejo, com vontade...

Uma lágrima saltou dos olhos de Laurinda que continuava vidrada a olhar para Pedro e para a sua companhia. De repente, acordou daquele estado de quase hipnose e decidiu regressar à tenda para que os dois não percebessem que já os tinha visto e estava a observar. Já dentro da tenda tentou mentalmente contrariar os seus pensamentos acreditando que de certo era uma amiga do grupo e Pedro queria apenas trazê-la para que conhecesse Laurinda e conversassem sobre a viagem que iam fazer todos juntos. Só podia ser isso!

Quando os dois entraram na tenda, Laurinda já estava sentada na esteira. Olhou para eles e percebeu que Pedro segurava a mão daquela rapariga de forma delicada. E lembrou-se como ele a tinha segurado na noite em que se conheceram...

_ Já acordaste Lau?

_ Sim! Onde estiveste?

_ Fui lá a baixo comprar algumas coisas para a viagem e conheci a Angélica no mercado. Vim mostrar-lhe a feira e a tenda!

_ Olá! - Disse Angélica de sorriso nos lábios!

_ Olá! - Respondeu Laurinda quase de forma inaudível!

_ Não queres ir ter com a Violeta para que te mostre onde podes tomar um banho? - Perguntou Pedro de sorriso rasgado!


Laurinda sentiu que todo o seu corpo gelava. Nos segundos que se seguiram sentiu um misto de revolta e de injustiça. Sentiu-se usada, enganada e percebeu que aquilo não era amor. Pelo menos não o amor que ela queria, que ela tinha idealizado. Pegou nas suas coisas e saiu da tenda sem nada dizer... Começou a descer a rua sem saber para onde ia...

Susana Fonseca

10/03/12

O Fim da Inocência - Parte XIV


O Pedro era a paz e o tormento. A ida e o regresso. A casa e o Mundo. O refúgio.

Aninhou-se na carícia dum beijo prolongado e deixou-se desfalecer no cansaço da viagem e na companhia aconchegante daquele abraço apaixonado respirando tranquilo humedecendo-lhe o ombro.

Ao longe, cada vez mais longe, o restolho da feira que se desmontava.

- Ó Laurinda!... Laurinda… Ó Laurinda!...

O pai chamava-a já impaciente estranhando a sua ausência na cozinha nos preparativos da manhã, mas ela não ouvia, e se ouvia esquivava-se, pois o que entendia do chamo era – Ó Laura!... Laura… Ó Laura…

- Diga meu pai, que me quer vossemecê?

- Então filha…ajudas-me a levantar? Onde estavas?

- Ó meu pai…estava para ali a ver por onde começar os arranjos do quintal.

- Tudo vai bem filha. Eu é que nunca mais tomo andadura…

A recuperação que se previa rápida demorava-se, o frio que chegava não ajudava ao passeio diário recomendado pelo dr. Falcão, cada vez mais o pai se sentava na soleira da porta mirando o Sol da manhã e dali não saia até ao almoço. Depois ficava dentro, junto à lareira, segurando o queixo no cajado já sem serventia, por vezes cabeceando razões e memórias até que a filha o chamava para o jantar que ele nem tinha dado conta se preparara.

Laurinda, sem saber porquê, estranhava o tacto ao pousar-lhe a mão no ombro, como se, como se ninguém ali estivesse, nem mesmo ela, embora tudo lhe fosse tão real.

- Vamos à janta meu pai?

- Tu pensas que eu ando para aqui a dormitar mas bem vejo.

- Bem vê o quê, meu pai?

- Bem vejo que não andas bem.

- Ó lá está vossemecê…

- Quando viemos do Porto tu não trazias os olhos neste Mundo, nunca me disseste porque ia a tua vida mudar. Coisa grave te mexia a mioleira Depois veio esse Carrapato, parecias arredia mas estavas sempre de orelha no ar, agora foi-se o tipo, e tens as duas orelhas caídas rapariga. Que te posso fazer que ajude?

Tudo lhe parecia um limbo, tudo distante, tudo mole e ondulante, até a voz do pai não era a mesma.

- Ó ti Anísio!... Ti Anísio…

- Abre a porta Laurinda que é o Marco.

- Boas tardes. Olá Laurinda. Então ti Anísio? vossemecê está mais enfiadote hoje, que se passa homem?

- Ó rapaz, estar aqui dentro, sempre metido comigo, sem poder sair… como vão as ovelhas?

- Na corte. Tudo arranjado como Deus manda e vossemecê gosta.

- Deus te pague rapaz, Deus te pague que eu não sei se vou poder…

- Vou-me; até amanhã!


- Porque não ceias cá rapaz?

O olhar do Marco rabejou com o da Laurinda, ela corou, ele pegou no boné e…

- Não, ti Anísio, obrigado, mas tenho combinado ir às corujas com a rapaziada. Até amanhã.

- Vai com Deus rapaz.

A Laurinda entretida com as panelas disfarçou ver a saída do Marco para não ter que lhe falar, ele agradeceu pois não sabia que lhe dizer.

- Está ali um bom rapaz filha. Nunca te tinha falado nisto, mas já estás moça e tens que pensar em alguma coisa…

- Ó pai; vossemecê hoje não está no seu juízo… Quer ajuda para a deita?

- Não filha; cá me arranjo. Mas pensa no que te disse. Sabes quanto te quero bem.



O Sol lambia a crista da montanha quando saiu do quarto. Sentou-se.

Sentou-se exausta dum dia que ainda nem acabara. O cansaço de tantas novidades, tinham-na extenuado.

Sorumbava naquele fim de tarde como nunca lhe tinha acontecido; estonteava de tanta incerteza.
Sentia-se encurralada perante a maldade do Francisco, a novidade do Miguel, a amizade do Marco e a doença do pai.

A espera que lhe pedia o Joaquim era uma incerteza; já não confiava em ninguém.

Deixou-se amodorrar pasmando no horizonte enquanto o Sol descia, não era bem desânimo, era mais um, não sei que faça. A pedra que lhe servia de banco, uma meia mó sua confidente de infância, boa ouvidora de outros queixumes, via-a agora como só metade, nunca lhe tinha parecido que aquela pedra era só, meia pedra; faltava-lhe a outra metade, estava incompleta. Tal qual ela.

Mas voltava-lhe a estranheza, agora uma inquietação que lhe subia das entranhas ao pescoço,

- Ó Laurinda!... Laurinda… Ó Laurinda!...

Um desconforto, uma angústia, e não reconhecia a voz do pai,

- Laurinda!... Laurinda!... que se passa contigo meu amor?

Como que um sair dum poço onde se diluíra no breu.

- Pronto Laurinda, pronto, foi um pesadelo, o cansaço da viagem. Estou aqui, podes contar comigo.

Ainda estonteada Laurinda agarra-se ao Pedro como quem se prende a uma certeza.


- Se soubesses, Pedro, a angústia que trago emaranhada no coração, o que vivi em tão pouco tempo, o que sofri em catadupa, as incertezas que trago em mim. Deixei tudo para trás embora não tenha nada. Que farei daqui para a frente se não tenho futuro? Que loucura errante é esta que me trouxe até aqui? Quem és tu? Quem sou eu?

José Bessa

03/03/12

O Fim da Inocência - Parte XIII


Sentada no banco da estação comeu calmamente o pão que lhe atenuou a fome, mas o seu pensamento saltava de ideia em ideia, sem vontade de parar em nenhuma, por forma a decidir o que fazer.

Regressar à aldeia significava uma derrota, a não concretização da sua ânsia de conhecer novas gentes, novas terras, aprender o que o Mundo tem para nos ensinar.

Voltar a casa, permanecer por lá, talvez casar com Marco, ter filhos dele, era criar raízes, ficar presa a uma vida, que podia oferecer tranquilidade, segurança, mas muita monotonia, para alguém como ela, que estava ansiosa por descobrir, o que estava para além das fronteiras da sua terra natal.

As horas passavam devagar, olhou em redor, a estação parecia meio adormecida, os comboios chegavam e partiam sem pressas, no ar sentia-se o cheiro típico dos carris e das sulipas escuras carregadas de poluição, que lhe lembravam as chaminés das casas da sua aldeia, onde se cozinhava e que forneciam o calor necessário nos dias mais rigorosos do Inverno.

As pessoas que permaneciam por ali, passavam para um lado e para o outro, alheias à sua presença, cada uma com as suas canseiras, as suas preocupações, os seus sonhos, os seus projetos, tal como ela, mas a seus olhos nenhuma parecia tão cheia de dúvidas, tão cheia de temores.

O horário do comboio estava a aproximar-se em cada minuto e ainda não tinha chegado a nenhuma conclusão.

A entrada no comboio representava uma nova aventura, a partida para mais uma etapa duma viagem, que não estava certa de querer realizar.

Sentiu que alguém se aproximava do banco onde estava, pretendia sentar-se, permaneceu imóvel, mas com o olhar verificou que era um homem de pouco mais que meia idade, deu as boas-tardes e sentou-se em silêncio, pouco depois folheou um jornal.

Pela estação ecoou a voz de alguém, que anunciava que o comboio com destino a Elvas partiria às 17.55 horas, foi nessa altura que o homem perguntou para onde ia.

Apanhada pela inesperada pergunta, hesitou e decidiu momentaneamente:

- Para Elvas e o senhor?

- Fico um pouco antes, no Assumar, mas porquê, precisa de alguma ajuda?

- Vou à procura duma pessoa, mas não sei se a encontrarei.

Pegou num bocado da folha do jornal e numa parte não impressa, escreveu um nome e uma morada.

- Se precisar de alguma coisa, vá ter com minha prima Eulália.

Dali a poucos minutos o comboio já se avistava numa curva da linha, os passageiros foram descendo para a gare, agradeceu o contacto e com um sorriso puro de menina amedrontada, dirigiu-se para a porta do comboio, acenou um breve adeus e procurou um lugar, o homem seguiu-a, mas entrou noutra carruagem.

Observou o percurso do rio durante algum tempo, admirou os campos tão diferentes dos que conhecia, o Sol começava a baixar e pensou no que poderia vir a acontecer no fim da viagem.


Chegaria de noite a Elvas e depois como faria para encontrar o grupo de Pedro?

Não conhecia nada, nem ninguém, estava entregue à sua sorte…

As paragens sucediam-se num entrar e sair de passageiros e o cansaço de nada fazer, já se manifestava.

No banco da frente viajava um casal de idosos, que a certa altura tirou duma alcofa uma pequena merenda. Um pano de linho contornado por uma rendinha, embrulhava pão fatiado, queijo e um chouriço insertado.

A senhora entregou ao marido uma fatia de pão e cortou com uma navalhita um naco de queijo, arranjou o mesmo para si e repetiu a ação, agora para a parceira de viagem.

Laurinda, ficou embaraçada, tentou não aceitar, mas a insistência da velha senhora não lho permitiu.

Agradeceu e comeu com prazer, enquanto os quilómetros eram percorridos por entre velocidades maiores ou menores, pelas travagens sorrateiras e pelo apito do empregado da estação, que de bandeirinha em punho dava ordem de partida.

Não queria dormir, porque temia não se aperceber da chegada ao seu destino, olhava a rua e pouco mais via do que algumas luzes aqui e ali.

Ouviu uma porta abrir-se e dali a segundos surgiu um homem no corredor, o que lhe havia dado o bocado de folha de jornal.

- A minha paragem é já a próxima, esteja atenta à sua.

- Estarei, muito obrigada por tudo.

- Boa viagem a todos, disse olhando também para os velhotes.

- É família?

- Não. - Respondeu Laurinda.

- A menina não é destas bandas?

- Não, sou de Trás-os-Montes.

- Vem trabalhar por aqui?

- Vim à feira.

O comboio parou, ela desceu os degraus, logo seguida do casal e olhou em volta, sem saber qual a direção a seguir.

Os velhotes tinham um táxi à sua espera, arrumaram a pouca bagagem, mas antes de fecharem a porta, o homem voltou atrás.

- Menina quer vir connosco, a feira fica no caminho do nosso monte.

Aceitou, que mais podia fazer.

No alto da serra via uma enorme casa, circundada por um muro, curiosa perguntou:

- Que é aquilo, ali em cima?

Ao que o motorista respondeu:

- É o Forte de Nossa Senhora da Graça.


O taxista dirigiu-se ao interior da cidade e a determinado momento, parou num jardim.

Laurinda ouviu as explicações do caminho para o local pretendido. Com alguma indecisão foi subindo as ruas e ao contornar um pequeno arco, uma música algo familiar chegou até ela.

À sua frente estava uma altaneira igreja iluminada, que parecia abençoar tudo que estava envolto pelas fachadas dos prédios, que compunham aquela praça.

Eis a feira!

Foi observando o que a rodeava, na busca de descobrir Pedro entre as dezenas de pessoas, que por ali circulavam, umas passeando, outras comprando alguma peça de artesanato exposto nas barraquinhas.

Alguém tocava uma gaita-de-foles, os seus olhos fixaram esse ponto e quedou-se a ouvir, quando uma mão tocou seu ombro, era Violeta.

Trocaram um abraço com alegria e Laurinda quis saber o inevitável:

- E o Pedro?

Subiram a calçada e no lado direito da igreja lá estava a tenda que já conhecia.

Violeta desviou o pano que servia de porta, mas no interior não estava ninguém, olhou em redor e um feirante pediu para esperar um pouco, quando se ouviu:

- Já cheguei!

Trazia debaixo do braço uma garrafa e na mão um maço de cigarros, sorriu quando reconheceu Laurinda, beijou-a e deu-lhe as boas-vindas, quando foi interrompido por uma cliente, que lhe procurava por uns pratos de latão martelado amarelo, fez sinal para que Lau guardasse as coisas que comprou na tenda.

A tenda continuava decorada do mesmo modo, em cima da mesa uma chaleira fumegava e cheirava a chá, pousou a garrafa e os cigarros e quando tencionava sair, Pedro caminhava no seu sentido, beijou-a agora mais demoradamente e num misto de interrogação e afirmação:

- Vamos para Marrocos?!

No lugar das palavras libertaram-se das roupas, tombaram na esteira e sobre os cobertores de lã, trocaram uma cadeia de beijos, deixaram-se invadir por sentimentos de paixão, procuraram o aconchego do amor e na loucura frenética dos seus corpos ardentes, Laurinda rolou sobre o corpo moreno de Pedro e fundiram-se num só…

 
Teresa Morais

25/02/12

O Fim da Inocência - Parte XII


A viagem de comboio demora várias horas. Tantas que dá para passar em revista uma vida inteira. E pensar friamente em todas as decisões. Na verdade, Laurinda nunca se sentiu tão insegura como agora. A sua auto-confiança era aparente, e a rapidez com que tomava as decisões era uma forma de esconder o receio que sentia de não ser capaz de tomar decisão nenhuma.

Tinha o que não queria e queria o que não tinha. Ficar ou partir. A dialéctica, esse conceito do qual nem sequer sabia a existência, fazia-lhe perguntas para as quais não encontrava respostas satisfatórias.

Quando entrou no comboio, apetecia-lhe partir para longe, não só no espaço, mas também no tempo. Não era bem uma partida, era uma fuga. Queria fugir da aldeia que a viu nascer, queria fugir das pessoas que a rodeavam. Queria ir em busca de algo que nem ela saiba muito bem o que era. Sem o saber, estava a fazer o que muitas Laurindas e Laurindos antes de si tinham feito, ao deixaram-se enfeitiçar pelos encantos da cidade, da vida mais fácil, contribuindo, mais do que todas as políticas desastrosas e centralistas da capital, para a desertificação dos campos, das aldeias, do interior do país.

Mas...

Apesar do seu lugar ser junto à janela, e da paisagem que desfilava perante os seus olhos constituir uma novidade para alguém tão pouco habituada a viajar, Laurinda nem a via, absorta que estava nos seus pensamentos.

Tinha o Sol pela frente, e sempre que a luminosidade a forçava a fechar por instantes os olhos, via a imagem do pai. Não conseguia deixar de pensar nele e recriminava-se constantemente por não ter estado a seu lado na hora da sua morte. Mais ainda perturbava-a a ideia de saber que ele não aprovaria a sua partida, ainda por cima assim tão repentina. Não falando do destino que tencionava tomar. Se lhe tivesse dito ainda em vida, o pobre homem morreria de desgosto.

Lentamente passou em revista toda a sua vida. O mundo que conhecera parecera-lhe um lugar quase feliz. Duro, áspero, rude é certo, que a vida entre montes pedregosos não é fácil, mas à falta de termo de comparação era esse o seu conceito de felicidade. Até que o pai adoeceu. E isso alterou todo o seu conceito de vida e de felicidade. Não propriamente pela doença do pai, apesar das grandes preocupações que isso lhe causava. Tinha já passado pela perda a mãe e sabia encarar estas situações como inevitabilidades da vida. É que com a doença do pai veio a primeira ida à cidade e todo o seu pensamento se alterou de um momento para o outro.


Assim que teve contacto com o mundo exterior ao da sua aldeia Laurinda quis mudar, sem se aperceber dos riscos que corria. Na inocência da sua juventude, pensava que existiam lugares fáceis e outros difíceis para viver. Não sabia que a facilidade ou a dificuldade estavam dentro das pessoas, da adaptação que tinham ou não tinham ao meio que as envolvia. Lembrava-se de ter ouvido falar por diversas vezes nas conversas da aldeia, de turistas da cidade que se perdiam na serra. Ingenuamente pensava que o inverso não era possível, numa cidade, sendo tudo mais fácil, ninguém se perderia. Acabou por descobrir, da pior maneira possível para si, como alguém se pode sentir perdido numa cidade.

O comboio fez uma paragem. Levantou os olhos, percorreu lentamente o espaço que tinha à sua frente, tentando encontrar alguma placa que lhe indicasse onde estava. Um pouco afastado do amontoado de casas que circundava a estação viu o topo de uma tenda de circo. Imediatamente lhe veio à memória a tenda de Évora e motivo pelo qual estava ali. Tentou sorrir para si própria mas não conseguiu.

Na verdade estava com medo. Muito medo. Por muito que o futuro a seduzisse, a verdade é que sabia por experiência própria quão cruel o mundo poderia ser para quem não tem a experiência necessária para o enfrentar. Tinha dito que queria estar sozinha. E de facto estava. Se precisasse de ajuda estava sozinha, não tinha a quem pedir nada.

Tinha o Pedro. Isto é, pensava que tinha, caso o conseguisse encontrar de novo. Como seria o reencontro? No Majestic encontrou uma pessoa que lhe agradou no primeiro instante e a desiludiu a seguir. Na loja de roupa encontrou outra pessoa simpática no primeiro instante e que a seguir a desiludiu e de que maneira... Não há duas sem três. Veio-lhe à memória o velho ditado popular e um arrepio fê-la estremecer. Será que o Pedro pensava nela da mesma maneira que ela pensava nele? Não pensava, não queria pensar, que o seu encontro com Pedro tinha sido um encontro fortuito e ocasional. Queria atribui-lhe algum significado.


O comboio arrancou lentamente e o pensamento, como que levado pelo balanço da carruagem focou-se na terra seguinte. Qual seria? Ela nem sabia em que terra estava.

Qual seria a terra seguinte na sua vida? No seu próprio país já tinha dificuldade em entender as pessoas e adivinhar-lhes as intenções. Como seria num país estrangeiro onde não falava a língua? Até para comprar pão iria ter dificuldade.

Comprar pão! Esta simples frase fez com que se apercebesse de uma realidade que até aí tinha ignorado. Na aldeia vivia-se do sustento que a terra dava. Tudo o que se produzisse a mais era para vender e assim conseguir algum dinheiro para as necessidades, como aquele que o pai tinha guardado.
Era o único que tinha e nem sequer era muito. Para arranjar mais teria que trabalhar. Mas como e onde? A única coisa que sabia fazer era guardar cabras. Na cidade não tinha o pai a olhar por si, nem o Marco a estender-lhe notas de cinco contos. Talvez fosse melhor...

O revisor que ia a passar no corredor interrompeu-lhe os pensamentos. Fosse porque o seu ar de moça do campo perdida fora do seu meio lhe despertou a atenção, fosse por intuição, dirigiu-se-lhe informando-a de que a próxima estação era Entroncamento, onde deveria sair.

Agradeceu, aturdida. Nem tinha dado pelo tempo passar. Quando pegou no saco para sair é que se lembrou que tinha lá guardado algumas fatias de pão da aldeia que arranjara à pressa para a viagem e nem se lembrara de comer.

Saiu e ficou parada no cais com o olhar perdido na distância, a ver o comboio partir. O passo firme e decidido com que se dirigira à camioneta na aldeia nessa manhã, contrastava agora com o andar lento e vacilante de quem está inseguro quanto ao caminho a tomar.  Na bilheteira informaram-na que devido a um atraso no comboio onde veio tinha perdido a ligação para Elvas, só haveria outro comboio ao final da tarde. Para surpresa do funcionário, em vez de notar nela algum sinal de contrariedade, pareceu-lhe ouvir um suspiro de alívio.

Deu meia volta, procurou um banco à sombra para se sentar e comer o pão que trazia. Estava mesmo com fome, não tinha comido nada desde manhã cedo.

Sabia agora que tinha sido uma loucura partir assim por impulso, sem preparação, sem meios de subsistência, sem destino certo.

O que a atormentava agora era o regresso. A tia Dores saberia compreendê-la mas, e o Marco? Se ao menos não tivesse escrito aquela carta. Será que ele a poderia perdoar?


Paulo Rodrigues

18/02/12

O Fim da Inocência - Parte XI


… dirigia-se, ligeira, para a paragem da camioneta. Estava na hora da carreira para o Porto e se não apanhasse aquela só já teria outra no dia seguinte.

Chegou mesmo no minuto exacto, foi só o tempo de comprar o bilhete, sentar-se e já a camioneta partira, a rodar caminho naquela estrada de curvas e contra curvas, rasgando montes em direcção à cidade. Tinha-se sentado ao lado da janela, não porque isso lhe fizesse alguma diferença mas porque foi o primeiro lugar que encontrou, e de rosto colado no vidro olhava vaziamente a paisagem que desfilava em sentido contrário, nem o burburinho dos outros passageiros a acordava do tumulto de emoções em que mergulhara desde que a tia Dores lhe dera a notícia do agravamento do estado de doença do pai e do seu consequente internamento. Pobre pai, será que teria sido diferente se ela tivesse estado ali com ele…?

Foram longas, aquelas duas horas e tal que a camioneta demorou a chegar ao Porto, mas finalmente, depois dos muitos quilómetros a que ficava a aldeia, ali estava ela, pela primeira vez desde que aquela cidade a despertara para o mundo. Durante toda a viagem, a única coisa que lhe ocupara o pensamento tinha sido o pai, a ansiedade de saber como se encontraria, mas agora, assim que pôs os pés em terra, veio-lhe tudo à cabeça. A gentileza de Miguel, a brutalidade de Francisco, principalmente a brutalidade de Francisco, assim, no espaço de um segundo tudo passou à sua frente como num écran de cinema, e sentiu um aperto no coração, ou um nó no estômago, não sabia bem que sensação era aquela mas transportou-a de volta para a realidade. Estava ali para apoiar o pai e era isso que ia fazer sem maior perda de tempo.

Marco estava, a meio do corredor, ao lado da porta da enfermaria. Que estaria ele ali a fazer…? Não deveria estar lá dentro acompanhando o seu pai? Laurinda apressou o passo, numa quase corrida que fez Marco levantar os olhos em sua direcção, e num rompante estava ali, frente a frente com aquele que sempre pensara que viria a ser o seu companheiro para a vida, com o coração inquieto e olhar interrogativo.


- Não foi possível fazer mais nada…

Laurinda sabia-o, pressentira-o. Não eram necessárias explicações, ela não tinha chegado a tempo de abraçar o pai pela última vez, não tinha tido tempo de lhe dizer o quanto lamentava não ter estado ali quando ele mais precisou, e foi Marco que a envolveu num aconchegante abraço fraterno onde ela desmoronou num pranto de desespero, raiva e frustração. Todas as emoções que tinha acumulado nos últimos tempos foram ali despejadas em lágrimas de fel e sal. Como era complexo o acto de viver!

Largos minutos mais tarde, depois de ter conseguido recompor-se, disse ao amigo que era preciso tomar providências, era necessário tratar dos trâmites legais à transladação do corpo para a aldeia. Laurinda queria levar o pai para junto das suas vivências e das suas gentes. Era a última coisa que podia fazer por ele e não ia desperdiçar essa oportunidade, ao que Marco lhe respondeu com um deixa que eu trato de tudo. Fica aqui sentada que eu não demoro, é só o tempo de contactar a agência funerária e volto já.

Assim foi, não tardou meia hora e Marco já ali estava, pronto para a acompanhar na viagem de regresso, que foi feita em silêncio. Cada um recordava consigo mesmo os momentos que haviam passado com Anísio, e à chegada à aldeia já toda a gente os esperava no adro da igreja. Laurinda tinha ligado para a venda da D. Tomásia, único telefone público da aldeia e meio de contacto com o exterior, e à medida que a noticia se foi espalhando, todos os habitantes das redondezas se dirigiram para a igreja a esperar o defunto e os acompanhantes, pois nenhum queria deixar de acompanhar o amigo até à sua morada eterna e, ao mesmo tempo, oferecer uma palavra de consolo à sua filha.

Após a cerimónia e as manifestações de pesar, que Laurinda recebeu sempre apoiada por Marco e pela tia Dores, esta deixou escapar um sussurrado quero ir para casa! Logo, os dois se dispuseram para a acompanhar, ao que Laurinda recusou. Precisava estar sozinha, precisava fazer este luto de forma intimista, apenas com ela própria, no aconchego do lar que, desde o falecimento da mãe, tinha partilhado tão cumplicemente com o pai.


E agora, ele também partira. Lá, onde quer que a mãe estivesse, com certeza, ele iria ter com ela, mas deixaram-na ali sozinha e desesperada. O que é que iria fazer? Sentia-se só e perdida, como se aquelas paredes, aqueles móveis, aquilo tudo já não lhe pertencesse, sentia-se uma estranha na sua própria casa. Mas também se sentia exausta e não era capaz de decidir nada, Marco tinha dito que trataria das ovelhas e ela precisava descansar. A tia Dores tinha passado por lá, mais cedo, e tinha-lhe deixado um caldo, que Laurinda engoliu sem sequer lhe tomar o gosto, e foi para a cama, que já não aguentava nem mais um minuto em pé.

Ela queria descansar mas a sua mente em ebulição não a deixava, os acontecimentos das últimas horas, mesmo dos últimos dias, não deixavam de lhe inquietar o espírito. E aquela sensação de já não pertencer ali! Nos últimos tempos, tinha antevisto um mundo que jamais pensara vir a conhecer, fixa-se na imagem de Pedro e de Joaquim, cada um deles à sua maneira, lhe tinha mostrado como é possível crescer em alma e em espírito. Afinal, como lhe dissera Joaquim, citando um certo poeta, sou do tamanho daquilo que vejo… e ela queria ver mais, muito mais!

Acordou, ainda era madrugada, tinha descansado um pouco e sentia-se serena, não apenas pelo descanso mas porque tomara uma decisão. Ia sair dali, queria conhecer o mundo, queria crescer, e a aldeia tornara-se muito pequena para ela.

Saiu da cama de um salto e começou a arranjar as coisas, meteu umas, poucas, roupas num saco, alguns pertences, como o relógio de bolso do pai e os brincos de ouro da mãe, e guardou consigo o dinheiro que o pai tinha de lado e que sempre dissera é para uma emergência. Escreveu uma carta para Marco e foi a casa da tia Dores.

- Venho deixar-lhe as chaves, da casa e das ovelhas. Vou-me embora, tia Dores.

- Por Deus, filha, onde vais tu?

- Vou ao encontro do meu destino, tia, tenho que ir. Por favor entregue esta carta ao Marco - Disse, já se dirigindo para a paragem das camionetas.

Desta vez não ia para o Porto, ia só até à estação de comboio mais próxima e, dai, partiria para o mundo. Pedro tinha dito que o grupo, antes de regressar a Chefchaouen ainda permaneceria uma semana em Sevilha, e ela tinha visto, quando apanhou o comboio para Lisboa, que partia à mesma hora um comboio para o Entroncamento que dava ligação a Elvas.

Laurinda sabia que Elvas era uma cidade fronteiriça, tinha aprendido na escola ou visto na televisão, já não se lembrava, mas sabia que nessa direcção poderia viajar até Sevilha. Mas também era a zona onde Joaquim vivia, quando não andava em viagem por esse país fora…

Luisa Vaz Tavares

11/02/12

O Fim da Inocência - Parte X


Queres vir connosco para a cidade mais linda do mundo, Lau?

Laurinda estremece com a pergunta. Sem saber muito bem como, a sua cabeça acena que sim.

- Óptimo!!! Vais adorar Chefchaouen. É uma cidade modesta e de boa gente. Vais-te dar lá muito bem.

– disse-lhe Pedro, enquanto continuava a falar de forma entusiasta.

Meia atónita, Laurinda continua a acenar, sem na realidade, estar já a ouvir muito bem o que Pedro lhe diz.

- Vamos, - continuou – vamos avisar o resto do grupo que vais connosco. Eles vão ficar radiantes e, para além disso, mais uma companhia é sempre bem-vinda. Não tarda nada, conheces metade deste mundo!!!!

A partida seria no dia seguinte. Nessa mesma noite, Laurinda não conseguiu dormir. Apenas pensava no seu pai, recordando a sua imagem na cama daquele hospital e no medo que sentiu em perdê-lo. Como estaria ele agora? Não conseguia deixar de pensar em como seria injusto partir desta forma, sem dar notícias…

As horas passaram rapidamente, quase tão depressa como os seus pensamentos. Era já de manhã e, com os primeiros raios de sol, a ideia de ir para Marrocos, cada vez lhe parecia menos interessante.

Voltou-se na cama onde Pedro ainda dormia. Olhou fixamente para aquele homem, que hoje lhe parecia um estranho, longe do homem que a tinha deslumbrado no dia anterior.

Por momentos, fechou os olhos. Tentou dormir um pouco, mas logo foi interrompida por Pedro que, ao acordar, sorriu-lhe dizendo:

- Bom dia princesa! Já acordada?

Laurinda nem lhe respondeu.

- Que se passa Lau? Não dormiste bem?

- Não. Não dormi muito bem. Sabes…

Pedro logo a interrompe, dizendo:


- É normal que estejas ansiosa, mas vais ver que tudo vai correr bem. – disse enquanto lhe beijava carinhosamente a testa.

- Não é isso Pedro. É o meu pai… não posso abandoná-lo desta forma. É uma loucura deixar tudo para trás. Compreendes?

Laurinda lá continuou o discurso, convencendo-se também a ela própria, que a decisão mais sensata seria regressar à sua aldeia, aquela que, ainda há pouco tempo, lhe parecia ser demasiado pequena. A sua vida sempre fora lá e até já sentia saudades da companhia serena das ovelhas.

Assim, sem querer prolongar mais a despedida, deixou Pedro, Évora, e talvez o sonho de ser feliz, para trás. Não havia mais como negar, as saudades de casa estavam a melindrar o seu espírito aventureiro, se é que este alguma vez existiu. Na realidade, tinha era saudades de casa.

Nem se despediu de Violeta, nem do grupo.

Apenas conseguiu dizer:

- Desculpa Pedro... desculpa... – e logo se pôs a caminho de casa.

Na viagem de regresso, Laurinda manteve-se pensativa. Desde a ida ao Porto que uma sucessão frenética de acontecimentos mudara a sua vida por completo. A imagem de Francisco, que julgava ter deixado bem guardada, acompanhou-a todo o caminho, inquietando-a. Só voltou a ficar em paz assim que chegou à aldeia.

A atmosfera em Terras de Miranda era diferente, era tranquilizante e quase mágica. O tempo estava quente. Já se começava a sentir o calor infernal do Verão. De forma tranquila, Laurinda inspirou profundamente na ânsia de sentir novamente aquele ar tão familiar a preencher-lhe os pulmões.

Parecia que nunca tinha saído de lá.

Mas pouco tempo teve para aproveitar este momento pois, ao vê-la ao longe, a Tia Dores correu ao seu encontro:

- Laurinda, filha, o que é feito de ti? Estávamos preocupadíssimos. E o teu pai, pobre coitado…

- O que se passa com o meu pai? – pergunta Laurinda, adivinhando já a resposta - Onde está ele?

- Tem calma filha! O teu pai está novamente no Hospital! O Marco é que o acudiu. Se não fosse ele… não sei, não!

Laurinda tentou segurar as lágrimas, enquanto se dirigia em passo ligeiro até casa.

Atrás dela, a Tia Dores continuava:

- Estão para lá os dois... lá para o Porto. E o Dr. Falcão também foi com eles. Foram ontem à noitinha.

Laurinda correu até ao seu quarto que se encontrava impecavelmente arrumado, pegou num pequeno saco onde enfiou as primeiras peças de roupa que encontrou. E, sem saber mais pormenores, despediu-se da Tia Dores.

-Até já. Vou até ao Porto, ao encontro deles.

E saiu de forma acelerada. Ao longe, ainda ouviu a Tia Dores que, já sem fôlego, a tentava acompanhar:

- Esteve aqui um tal de Joaquim a perguntar por ti...

Mas Laurinda já ia longe.

Céu Sousa

04/02/12

O Fim da Inocência - Parte IX


Ou, se não o sabia como certo, adivinhava-o!

Pedro, audaz e de um só gesto, cravou seus dedos na palma da mão, arrastando-a pela cintura com a resolução de que se faz a convicção, fazendo-a suavemente deslizar em direcção à tenda montada junto ao Templo atribuído a Diana. Grande e espaçosa, armada com longos paus toscos cruzados e amarrados com cordas, tudo coberto com peles de cabra. A sua textura rendilhada, de um castanho poroso, deixa-se atravessar, filtrada, pela luz da rua em finos fios. No seu interior, as pedras da calçada cobertas com grandes tapetes, ricamente ornamentados com motivos variados de cores e tons, trazidos da luminosa Chefchaouen. Almofadões ao redor, uma mesa em ferro forjado de três pés em cujo tampo de pedra-fóssil e pequeninos mosaicos justapostos, completado com um serviço de seis copos de chá e respectiva chaleira. Por todo o lado, o mais variado artesanato do Norte e do Sul de Marrocos, bem como peças em madeira oriundas da Floresta de Cedros. A um canto, uma esteira coberta com vários cobertores manufacturados com a lã das ovelhas do Alto Atlas.

Ritmos incessantes e vozes estridentes dos cânticos berberes ecoando naquela praça conferem um inusitado ambiente de mistério e exotismo ao interior daquela tenda. Enquanto as lamparinas ardem e paus de incenso tombam fumegantes, Pedro e Laurinda entregam-se à dança, num hipnótico frenesim de tambores. Corrido e fechado o pano da entrada, Laurinda sofre a primeira interrogação sobre o que fazem os dois ali enquanto, lá fora, todo o mundo pula e se diverte.

— Não te preocupes, estamos sós e ninguém aqui entra. É a tenda onde recebo os visitantes, vendo o artesanato e onde pernoito durante o Festival.

Laurinda, parecendo-lhe que sim e fechando os olhos, abandona-se novamente ao poder místico daquela música transcendente e tão estranha. E tão profunda que lhe mexe com as vísceras.

Numa espiral de corpos que se contornam e se avizinham dançando, Pedro segreda-lhe que este é o meu mundo. Rodeado de gente, intimamente só. Mas sem solidão!, sentindo o pescoço rodeado pelos finos e longos braços de Laurinda que, de olhos cerrados e se aproximando um pouco mais, o beija com sedução. Sempre dançando, demonstrando uma agilidade inesperada que deixa Pedro atónito, admirando-a com devoção.


Ela, pegando-lhe nas mãos, coloca-as na sua própria cintura baloiçando o seu pequeno e frágil corpo ao redor do de Pedro numa cadência agora mais suave. Puxa-o lentamente para junto da esteira e, apertando-o contra si com toda a força — a força de que são capazes aqueles finos e longos braços —, o beija demoradamente.

Sente o cheiro das peles da tenda que lhe lembra os rebanhos de Miranda. Esfregando o seu nariz no pescoço de Pedro vem-lhe à memória o cheiro da madeira dos carvalhos lá da terra. Este cheiro do Pedro recorda-lhe as brincadeiras com Marco, coitado, incapaz de poder imaginar as novas andanças da sua namoradinha de infância, que diabinho...! As suas mãos delicadas e macias contra a sua espinha contrariam a pesada lembrança das daquele maldito Francisco. Tudo isto lhe passa pela cabeça em segundos sem nunca se desviar da intensidade crescente do que está sentindo. Uma atracção desmesurada por este que, acabado de conhecer, lhe suscita a maior das curiosidades, atraindo-a sem apelo nem agravo. Não o conheceu antes, nunca o vira em parte alguma, mas uma indizível sensação de segurança e um estranho desejo de abandono a aventuras adivinhadas, assola-lhe o corpo e o espírito. Não, nem o corpo nem o espírito, antes o seu ser uno e indivisível que isso de corpo e alma lhe parece uma treta. Deixa-se, conscientemente, capturar pelo desejo ousado e, ao mesmo tempo provocador, de querer conhecer este homem, antes de tudo, acima de tudo. E tudo o resto, se vier, ficará para depois!

Afasta dentro de si uma segunda interrogação. Já não é o corpo que pede, é Laurinda por inteiro, portanto, que o exige com um sorriso maroto nos lábios, deitando-se naquela simples esteira. Afasta os cobertores, puxando vigorosamente Pedro para cima de si.

Por momentos recorda na sua boca a boca de Gaby e, num suspiro, atira com a língua para dentro da boca do homem que a beija, mordendo lábios, misturando salivas. Não, esta não é a mesma boca, este não é o mesmo sabor e percorrendo o seu interior, os seus lábios, os seus dentes, as suas linguas guerreiam-se numa luta sem tréguas. Numa fusão perfeita em que as bocas se fazem mãos, as mãos se fazem línguas entrelaçadas em arrepios de volúpia, seus corpos apertando-se esmagam reticências.

Aquelas mãos tensas e macias percorrem-lhe o corpo febril. Levantando a blusa oferece-lhe decidida o seu peito vazio de ternura e repleto de paixão. Sente da sua boca quente o bafo da respiração colada aos mamilos erguidos como que apontando um caminho através das estrelas daquele seu céu. Estremece. Contorcendo-se, é a língua de Pedro que, ousada, rodopia nos seus bicos. Uma quentura vinda de dentro, uma morna humidade, dispersa-se das entranhas enquanto aquele homem se entrega devoto ao seu prazer, fazendo-a descobrir sensações que nunca conhecera ou suspeitara. Cruzando olhares vem à memória a ternura de Miguel mas não quer pensar nisso agora. Quer apenas sentir, entregar-se às mãos experientes deste homem do mundo que a faz vibrar de volúpia e desejos nunca antes experimentados. Até parece que ele lhe adivinha o querer...


Laurinda sente-se prestes a explodir. Uma pressão nas têmporas, uma tensão nas mamas intumescidas e as pernas entreabertas agitam-se como que suplicando vem!

É Faísca que agora lhe sobe à memória. Como quando, se baixando para acariciar aquele rafeiro alentejano, este a lambeu profusamente na cara, um novo arrepio a sacode de alto a baixo. Uma convulsão que haveria de se tornar num terramoto de epicentro não localizável, ao sentir o calor da boca de Pedro e depois a língua hirta entre as suas coxas humedecidas.

Sedento, procura a fonte por entre as folhagens e os arbustos, afastando-os para melhor seguir a linha de todo aquele caudal vindo sabe-se lá de onde...

Retraída, lentamente se descontrai escancarando as pernas. E as mãos de Pedro abraçando-lhe as nádegas — meu deus, esta língua mata-me! —, se entrega sem reservas ao que os puritanos se negam. Não ousara nunca pensar ou sequer imaginar que este ou outro qualquer homem pudesse ou quisesse assim entrar dentro dela. E que fosse plausível arrancar-lhe, libertando-o, todo e tanto desejo encarcerado. Que vontade de se entregar inteira e este estranho...!

— Azul... os sonhos são azuis esverdeados! —, balbucia.

— Como aquela minha cidade incrustada no sopé da montanha —, retorque Pedro de olhos fechados.

O corpo de Laurinda baloiça agora com um nó na barriga — mesmo por baixo do seu umbigo —, com maior amplitude porque a música lá fora assim o exige. Rodopia os quadris em movimentos circulares, sentindo dentro de si o viscoso e o quente que a transporta para lá do imaginável. Um imenso formigueiro lhe percorre o cérebro, o corpo. Completamente arrasada não desiste e aqueles ritmos tropeçam, sempre em crescendo, nos gemidos de Laurinda e depois nos gritos que se confundem com as vozes estridentes que ecoam naquela praça.

Esta tenda cheira a sal. Esta tenda tem o odor dos corpos que se entregam sem limites. Esta tenda tem as cores do desejo na simbiose da carne. Laurinda bem sente o seu próprio cheiro que se liberta, excitando-a ainda mais, e sobe em espiral através do tecto de peles de textura rendilhada de um castanho poroso que se deixa atravessar, filtrada, pela luminosidade azulada da paixão.

De olhos fixos e bem abertos, olhando o céu escuro daquele tecto de pele de cabra, compara a ilusão de Carrapato com a verdade do que este homem é capaz de a fazer querer, sentir e sonhar... E imagina o seu Deus lá no alto, ladeado pelo Filho e por todos os Espíritos Santos, parecendo-lhe ouvir um deles dizer Oh Deus, enquanto estivemos na Terra fomos tão parvos...!

Lá fora as vozes acotovelam-se. Os tambores abrandam. Laurinda, quase sucumbindo, abandona-se de sorriso resplandecente, inundando de uma azulada luz o espaço que os ampara.

— No final do Festival, o Grupo vai voltar a Chefchaouen e só regressaremos no final do Verão. Haverias de querer conhecer aquela minha cidade azul... Queres vir connosco para a cidade mais linda do mundo, Lau?

José Manuel Barbosa

28/01/12

O Fim da Inocência - Parte VIII


“Acredita em mim sempre que eu te diga, como agora, que é em ti que tens de acreditar primeiro”.

Um momento, tinha sido apenas isso… de ternura, de encontros e desencontros, com emoções perdidas dentro de si.

Gabriela, de olhar azul e rebelde, de novo partiria para outras lutas…

Laurinda despertou com uma imensa vontade de sorrir, de acreditar num caminho diferente. Sem se aperceber, tinha apanhado um táxi, estava na estação de Santa Apolónia e pedia um bilhete que partisse no imediato. Queria sair dali, aquela cidade não era a sua, não sabia exactamente o destino mas, naquele momento, isso não importava. Era livre.

Sabia, agora, que ainda não tinha conhecido o amor, que toda a vida tinha procurado a segurança sem se encontrar. Imersa numa felicidade que nunca tinha conhecido, estava liberta e queria saborear isso.

Adormeceu e despertou com o revisor a dizer que tinha chegado ao seu destino. Sorriu, como sabia ele o seu destino? Desceu e apercebeu-se que partira, pela primeira vez, sem malas, sem datas, sem avisos.

Estranhamente, Laurinda estava em Évora. Avistou o largo de S. Francisco e que bonito era! Sentou-se a contemplar a Igreja real, datada do século XV-XVI, de estilo gótico Manuelino, onde um grupo de turistas japoneses barulhentos entrava. Resolveu também entrar. Da extensa nave do templo, abrem-se dez capelas laterais, compostas por retábulos de talha dourada e policromada (século XVIII) e de estuques (século XIX). Durante a sua vida, raras vezes teve oportunidade de apreciar algo tão bonito. Esta cidade inspirava magia, uma calma imensa e que bom era sentir isso. Não era uma rapariga de cidade grande e impessoal, gostava da proximidade.

Saiu, pensou entrar na capela dos ossos, mas o imaginar um sítio assim, arrepiou-a. Aproximou-se de um fontanário, bebeu um pouco de água e refrescou-se daquele calor de Julho.


Sentou-se naquela bonita praça e foi transportada para o mundo da saudade, do sentir, apercebendo-se de um concerto na praça. Música do mundo. Lembrou-se das romarias da aldeia com as tendinhas de petiscos deliciosos, o acordeão, o cantar ao desafio. Dos olhares dos rapazes atrevidos e curiosos.

Saudades da sua aldeia, em Terras de Miranda, nas proximidades de Atenor, dos seus passeios longos com o António, seu primo, cada um com o seu burrinho, apanhando cogumelos e frutas da época que roubavam nos quintais. António era como um irmão, onde estaria ele agora? E a sua tia Dores, que fazia aquele bolo de mel, que tinha aquele jeito rude e genuíno. Lembranças perdidas e eternas.

Recordou Miguel, o seu olhar melancólico, a sua simpatia natural. Com ele tinha aprendido a saborear os sentidos. Imaginou um beijo seu, lento, sentiu a respiração, o arrepiar e regressou àquela música árabe que a enfeitiçava.

— Adeus amor!

— Carkabib — disse uma rapariga de longas rastas, vestido comprido, morena, olhar doce e descomprometido.

— Como? — responde Laurinda.

— Carkabib, instrumento árabe usado em músicas tradicionais, acompanhando danças de transe com as quais trazem a cura às pessoas doentes, chamadas Stambali.

Violeta conhecia o mundo, de mochila, destino e dinheiro incerto, na busca incessante da aventura. Nunca tinha conhecido uma rapariga assim, talvez Gabriela fosse um pouco assim, corajosa, aventureira.

Tinha nascido numa família tradicional, de horários e regras delineadas, sem margem para os imprevistos. Seu pai era dócil mas ausente, passava longas temporadas longe da família. Nos seus pastos apreciava a solidão e a companhia do seu rebanho.


Recordou aqueles domingos de missas intermináveis, de mulheres vestidas de preto e olhar severo. Seus pais não faltavam a um domingo, mas do assado, ainda hoje sente aquele sabor a lenha.

— Minha mãe vestia aquele fato, já mordido pelas traças, mas era bonita. Muito bonita, olhar de mel, longos cabelos sempre apanhados. Mas de noite eu sabia como era bonito o seu cabelo, meu pai não a via assim.

Violeta apresentou-a ao seu grupo de amigos. Tinham chegado recentemente de Chefchaouen, em Marrocos. Falavam de Marrocos, do artesanato rico do povo berbere, dos souk (mercados tradicionais). Laurinda, sem conhecer, viajou por Marrocos.

Pedro e o seu grupo viajavam pelo mundo, estavam pela primeira vez no Alentejo, tal como ela. Músico de olhar negro e penetrante, aquele moreno falava de coisas que ela desconhecia, mas que despertavam um imenso interesse. E Laurinda queria aprender, conhecer, reaprender a confiar.

Pedro, na sua leveza, puxou-a para dançar. Através daqueles sons mágicos, sentiu uma carícia no seu pescoço e um beijo na sua boca. A luz era avermelhada naquela cidade que, gentilmente, parou no tempo.

Era amor, Laurinda sabia-o.

Clementina Barros

21/01/12

O Fim da Inocência - Parte VII


“Vou voltar, espera por mim, Laura.”

Não voltou. E, lentamente, a sua imagem do homem seco e de olhar perdido para lá do horizonte se foi diluindo no espírito que há bem pouco carregava de ilusões. Por vezes, no queimar de uma giesta ao acender do borralho, quedava-se absorta deixando que os pensamentos crepitassem mais do que o lume. Enfeitiçara-se por um músico que outras mulheres atrairia com o seu piano. Por causa dele conhecera um homem indigno desse nome e, pelo que com ele acontecera, perdera o que mais mostrara querer-lhe. “Perder”. A palavra sempre presente numa memória em construção. Agora, uma vez mais, alguém lhe fizera uma promessa que também não cumprira. Pelo menos do modo como ela acreditou que cumprisse.

Fora pela hora de almoço, lembrava-se bem. As notícias televisivas focavam o concelho de Portalegre, onde agricultores em alvoroço se revoltavam pelas expropriações forçadas que o governo tencionava levar a cabo. Como habitualmente a reportagem era feita de injúrias, gritos, imagens de raiva sob a voz do jornalista. Nada a que Laurinda não estivesse acostumada à hora da refeição se bem que, por ela, se pudesse baixar o som cujo volume apenas agradava ao pai. Mas, subitamente, no servir do caldo, a concha quedou-se no ar, estática, quase à beira de verter antes do prato. Nas cores garridas do televisor desenhavam-se serenas a figura e a voz de Joaquim. Que os agricultores tinham razão, dizia, e eles e uma comissão por si liderada caminhariam dentro de dois dias até Lisboa e, frente à escadaria da Assembleia, fariam ouvir os seus protestos.

— Parece que este nosso Joaquim pastoreia um pouco mais que o que nos disse – observou o pai, de colher na mão aguardando o repasto.

Sem responder, deixou que o cérebro se alimentasse mais que o estômago. Ele ia estar num avisado sítio de um determinado dia e ela, ela, sabendo onde ele estava, lutando por uma causa que lhe parecia justa, ficava naquele esquecimento de mundo, engomando, alimentando galinhas, coelhos e um pai que parecia rejuvenescer. Nunca estivera em Lisboa, não sabia como era uma manifestação, não sabia nada, nada para além dos enganos de que fora vítima. E a vida teria de ter muito mais que enganos. Pesados para quem os vivia, mas insignificantes à luz da própria vida.

Não conseguira adormecer nessa noite. Os sonhos submetiam-se aos pensamentos. E só quando teve a certeza da decisão tomada, conseguiu que o sono se lhe aliasse. No dia seguinte perguntaria ao pai se se sentia bem e comunicar-lhe-ia a sua ausência por uns dias.


E agora ali estava. Chegara com o famoso sol da cidade. As ruas brilhavam aos seus raios e pareciam reflectir-se nos prédios modestos que ladeavam a estação. Num repente, sentiu-se tonta. Tudo corria. Automóveis, pessoas, numa azáfama a que nunca tinha assistido. Quando deu por si também as suas pernas eram ligeiras, absurdamente ligeiras por nem sequer saber para onde ir. Mas perguntou e a gente, mesmo sem parar, indicava-lhe o caminho para a Assembleia. Por vezes não entendia sem saber que não entendia ela, se a mesma língua dita de modo diferente, se a própria indicação. Mas continuou a perguntar, e as pernas a andar e o sentido era só um. Quando lá chegasse teria alguém que a conheceria.

Quando lá chegou, soube que chegara pelo descobrir de pessoas do campo. Faziam daquilo uma festa de risos, de falados altos, de jocosas alusões ao garrafão que alguns transportavam. Até que, subitamente, no dobrar de uma esquina, os seus olhos se abriram perante o magote de gente que, já sem brincar, se enfurecia berrando e empunhando cartazes aos leões e à escadaria que aquele sumptuoso edifício defendiam. Quando deu por isso, estava no meio da multidão que vociferava, que se impunha agressiva e que a empurravam para a frente, sempre para a frente sem já sentir se havia chão sob os seus pés. E, à frente, um cordão de polícias, imponentes, estáticos, protegidos por viseiras e transparentes escudos. E pela primeira vez, sentiu que o medo se misturava com a raiva que, vinda da multidão, se lhe apegava. Reparando que ao seu lado, face a face com a força policial, um velho com a idade do seu pai quase desmembrava os ossos que lhe suportavam os berros e os gestos, ao ouvir o que lhe dizia o polícia “sai daqui, velho. O partido não merece que te mates por ele”. Ao que o velho, com insuspeitadas forças, retorquiu estendendo as mãos:

— Eu não tenho partido. Se ele existe está nestas mãos calejadas da terra que agora me querem tirar. Mas que me dão força para lutar contra quem não me merece.

E, dizendo isto, avançou dois passos, ao que o polícia se opôs empurrando e derrubando-o.

Laurinda não se conteve. Fosse pela visão do pai, pela raiva acumulada, sentiu que uma revolta se apoderava do seu peito e lhe morria na garganta muda. Impulsivamente se debruçou e agarrou uma das pedras do passeio que arremessou na direcção do polícia como se às cabras o fizesse.

Depois, o caos. Os gritos da multidão, os polícias que se abateram sobre si e o murro que ainda sentiu nos lábios. Antes de conseguir fugir, antes de conseguir correr por entre aquela gente que estranhamente lhe abria alas. Não olhou nunca para trás. O objectivo, apenas um: conseguir sair dali.


Subitamente, um carro se lhe atravessou e de dentro uma voz feminina lhe gritou “entra”. E, quando obedeceu, sentiu que o carro acabava de levantar voo. Viu que umas mãos magras se grudavam ao volante mas apenas se preocupou com o líquido quente e viscoso que lhe escorria dos lábios. “Acho que tenho sangue”, disse.

— Tens. Já tratamos disso. Só não conseguiremos tratar das imagens que de ti passarem na televisão – riu alto – A atingir os guardas.

— Quem és? Porque me recolheste? – perguntou Laurinda, perplexa.

— Gabriela. Gaby para os amigos. E recolhi-te porque me chamaste a atenção e porque a tua coragem o merecia. Logo que possa, paramos o carro para tratar essa ferida.

Fizeram-no quando a noite caía. Gabriela pegou num lenço e acercou-se dela. Rosto perto de rosto, lenço embebendo fio de sangue. E lábios que, doces, tocaram lábios. Laurinda retraiu-se. Mas a calma que o corpo recuperava parecia aceitar o que de inédito lhe acontecia. Apenas tremia. “Calma, descontrai-te. Não sei o teu nome. Não quero saber. Quero só que te acalmes porque agora tudo passou”, ouviu sussurrar enquanto umas mãos experientes e sensuais exploravam os seus sentidos adormecidos e, sem pudor, libertos àquele corpo que o seu parecia devorar meigamente. Com suaves beijos, com as mãos femininas sabendo onde lhe tocar por ser mulher também. Confusa, cansada de tudo ou de tudo leve, entregou-se às carícias que não lhe eram indiferentes, que a faziam voar para culpas que agora não queria assumir. Sabia apenas que a ferida tinha sido um pretexto e não imaginava quantas feridas a cura lhe poderia abrir. Sem decisão prévia, permitiu que o seu corpo deixasse de lhe pertencer. No fim, Gabriela afastou-se, o peito denunciando o regresso à respiração normal, e sorrindo. “Sabia que ia gostar de ti. Agora vai. Talvez um dia nos voltemos a encontrar, quem sabe?! Por agora tenta passar despercebida. Não te quero saber numa esquadra. Adeus, amor”

Era um jardim desconhecido, numa cidade onde nunca estivera, numa noite que não era sua. Escura mas amena. Andou alguns passos, sentou-se num banco. E se a viam na televisão? Marco, Joaquim…o pai? Quem era ela que em pouco tempo se conhecia? Que lhe tinham feito? Que deixara que lhe tivessem feito agora? Sentia culpa, sentia um peso no peito que só as lágrimas fizeram soltar. E adormeceu.

Quando acordou, o sol espreguiçava-se atrás de si, bocejando. E cada bocejo iluminava aquele rio que lentamente à sua frente corria. E aquela estátua grande que, do lado de lá, parecia abrir-lhe os braços. Mentalmente, falou-lhe: “quem sou eu? Que está a acontecer-me? Devo acreditar em Ti para que me ajudes?”

Estranhamente, pareceu-lhe que a resposta brotou de dentro de si mesma “Acredita em mim sempre que eu te diga, como agora, que é em ti que tens de acreditar primeiro”.

João J. A. Madeira