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30/09/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 20 - Final

Mortes, mortes e mais mortes. O ar, em Sobreiro Aparado, estava saturado de um cheiro a morte que se espalhava lentamente e entrava pelas frestas das janelas mal calafetadas. Os sinos não pareciam ter sossego de há uns tempos para cá. Cumpriam a sua função nefasta de avisar que mais uma alma se tinha finado. E lá tocavam eles hoje, por Leocádio, que não tinha conseguido ao longo da sua curta vida, ser alguma vez chamado de Anabela.
 
 
Poucos apareceram no funeral de Leocádio. Tinha sido sempre uma pessoa estranha para a maior parte das gentes de Sobreiro, que não compreendiam muito bem a dualidade que habitava naquela alma condenada por uma herança familiar. O novo padre executou os rituais fúnebres com alguma celeridade. Estava a começar a sentir-se inquieto com o ambiente em Sobreiro. Tinha sido mandado para aquela terra, despachado da sua cidade do coração, Lisboa, onde tinha encontrado a sua fé. No meio daquele lugar, o padre começava a duvidar que a fé e a luz se encontrassem por ali.
 
Ti Manel olhava de longe o funeral – Raios, o rapaz até nem era má rés, só meio maluco. Não merecia uma morte assim. E enganado por aquela história inventada do tesouro, tinha vivido uma vida de ilusão. Estava era na hora de partir para outras bandas, antes que tivesse o mesmo destino que o Leocádio e que aquele espanhol que agora tinha aparecido esventrado nas ruas de Sobreiro. Olhou para um lado e para o outro e deu meia volta, indo em direção à saída daquela terra maldita. Não queria saber mais do Dr. Morais, de mais regalias em troca do tráfico de droga e claro do contrabando que era enterrado ali mesmo à beirinha de Sobreiro. Porque o tesouro de que tanto falavam não era mais que contrabando que ia e vinha nas noites escuras. Aquele Sobreiro Aparado era o sinal entre os contrabandistas. E Leocádio apenas um sujeito inocente deslumbrado por uma treta de história de tesouro. Tinha sido usado pela família para continuar a tradição de contrabandistas que perdurava na família. E aproveitando o contrabando, tinha começado a nascer também o negócio da droga, que tinha resultado em mais mortandade. E que parecia resultar numa maldição para todos os envolvidos.
 
De um minuto para o outro, a sombra do Ti Manel deixou de ser vista no horizonte e nunca mais ouviram falar desta personagem, que ficou esquecida nos livros de história da terra.
 
-Seguro, Segurinho, vamos embora daqui – suplicava ardilosa Albertina, a mulher demónio desta história. Vamos viver juntos bem longe daqui, viver do desejo que os une. Aqueço-te as noites e alimento os teus dias de comida e de mim.
 
- Cala-te mulher. Mais uma vez deixei-me levar por uma mulher, ferramenta do Diabo. Se estraguei uma vez a minha vida, não vou estragar uma segunda! – e dito isto Seguro saiu porta fora, decidido a mudar o rumo desta história. Continuava confuso, sem perceber muito bem onde estava a ponta do novelo que ia desenrolar esta história toda mas que não ia acabar expulso da PJ não ia. Tinha de conseguir que Morgado confiasse nele e que terminassem juntos aquele caso maldito.
 
Morgado ouviu uma pancada forte na porta do seu quarto naquela pensão mal-amanhada que lhe tinham arranjado. Suspirou e pousou a caneca onde bebia o café morno e queimado que lhe tinham dado ao balcão daquela tasca enterrada bem no meio da terra.
 
- Entre! – gritou mal humorado. Tinha estado a noite toda a dar voltas à cabeça a tentar deslindar aqueles mistérios que se enredavam uns nos outros. Já tinha algumas teorias e umas quantas certezas.
 
- Que é que queres? Não me venhas com tretas que não estou com disposição para te aturar. Sabes perfeitamente que vais ser no mínimo suspenso quando chegares à sede. – e dito isto, Morgado olhou com desprezo para Seguro.
 
- Quero ajudá-lo a terminar esta história de forma limpa. Até posso sair da PJ depois disto mas quero terminar esta história de forma correta – Seguro olhou com atitude os olhos de Morgado, que compreendeu que ali até podia ter uma ajuda suplementar para terminar aquela história maldita. Não era a melhor ajuda que desejara mas à falta de melhor, servia. E podia ser um trunfo importante para apanhar a víbora da Albertina.
 
- Senta-te! E ouve-me. Se queres mesmo sair desta história o mais limpo possível, ouve com atenção e não faças perguntas, ok! – afirmou categoricamente Morgado.
 
Seguro saiu do quarto de Morgado meio tonto com tanta coisa que este lhe tinha contado mas decidido a cumprir a sua função. Era um bom polícia, sabia que era, só precisava da oportunidade certa. Morgado telefonou ao colega da polícia espanhola com quem tinha falado de manhã por causa do individuo espanhol que tinha aparecido morto e que pelos vistos também era porcurado por tráfico de droga e pediu para ele ir até aquela localidade o mais depressa possível. Precisava de todos os reforços possíveis. Tinha de atacar em três frentes – apanhar o padre Joaquim juntamente com a amante Albertina, prender as irmãs por envolvimento em contrabando e morte de Octávio e acima de tudo, apanhar o Dr. Morais. Se Seguro se portasse bem, ia ser fácil apanhar os dois primeiros. O Dr. Morais já tinha provas suficientes, das folhas do caderno do Ti Manel (que por sinal, nunca mais ninguém o vira, mas também era a personagem menos importante daquela geometria de crimes, era apenas um homem de recados). Ti Manel, embora fugitivo, já tinha cumprido a sua redenção ao deixar para trás o caderno onde guardava a troca de mensagens, cartas e esquemas encomendados pelo Dr. Morais e da sua ligação com os traficantes espanhóis com nomes e tudo. Com a ajuda do colega espanhol, seria bem fácil apanhar o Dr. Morais.
 
As únicas peças que continuavam a revelar-se complicadas de resolver eram aquelas duas almas. Velhas astutas, tinham um esquema perfeito de contrabando que durava há décadas, com a cumplicidade da família de Leocádio.
 
Seguro cumpriu direitinho a sua função. Depois de ter saciado Albertina uma vez mais, fazendo-a percorrer os seus lençóis com gritos de um prazer que lhe percorria as entranhas, passou-lhe ao de leve as mãos pelas costas, e aproveitando o estado de torpor provocado pelo êxtase, começou a puxar por ela.
 
- Vamo-nos daqui, mulher minha. Não vou conseguir voltar para a polícia e não. Vamo-nos perder por este mundo fora. Dou-te todo o prazer que desejes e dou-te uma vida de princesa. Tenho um dinheiro amealhado que ganhei dos meus avós e mais algum dinheiro que ganhei por uns serviços extra e posso manter-te por muitos bons e anos. Esquece o padre Joaquim e o dinheiro da droga. Tens –me a mim, que mais queres? – sussurrou Seguro no ouvido de Albertina.
 
E Albertina, que por mais esperta que fosse, tinha no sexo o seu ponto fraco, riu-se desdenhosamente e no meio da gargalhada disse em alto e bom som: Ahahah, meu querido, nunca me poderás dar tanto dinheiro nem prazer como meu padre Joaquim!
 
Dito isto, ela só viu três polícias a entrarem pelo quarto dentro, a afastarem Seguro para o lado e a agarrarem os seus braços com força, arrastando-a nua para o chão do quarto onde foi algemada e levada para a carrinha da polícia, apenas coberta com o roupão já velho de Seguro.
 
O padre Joaquim foi preso na fronteira entre França e Espanha onde tinha procurado abrigo num mosteiro, depois de ter morto Leocádio, por este ter ouvido demais na sacristia…… Disse duas ou três blasfémias e foi levado para os calabouços da PJ, donde só saiu diretamente para a prisão, por umas boas décadas. Foi Seguro que o meteu na carrinha e olhou-o com ar triunfante. - Apanhei-te, oh grande escumalha!
 
Seguro continuou na PJ, tendo sofrido mais uma repreensão na folha de serviço. Mas a paz para aquela alma durou pouco. Apaixonou-se por uma prostituta e foi morto pelo chulo dessa mulher de má vida. E assim, o destino não teve compaixão pelo desejo animal que incendiava Seguro por mulheres perdidas.
 
O Dr. Morais foi preso na sua casa de férias no Sul de Espanha. Os cadernos de Ti Manel e a investigação cuidadosa de Morgado tinham fornecido provas suficientes para afastar aquele homem e parar com um dos braços da corrupção que se instalara em diversos sectores.
 
Mas Morgado ainda tinha uma missão, prender aquelas duas irmãs sinistras. E acabar com a tradição de contrabando que reinava em Sobreiro.
 
Dirigiu-se à mercearia num fim de tarde e só se voltou a saber de Morgado quando este foi encontrado a balouçar num dos ramos que Leocádio não tinha aparado convenientemente.
 
 
Reza a história atual que sempre que os ramos do Sobreiro crescem demais, alguém morre. Ninguém tem coragem de se aproximar daquela árvore maldita mas o certo é que a árvore continua a ser aparada, em noites em que se vê uma alma de mulher em corpo de homem a rondar a árvore. O contrabando continua a trilhar aqueles caminhos e as duas irmãs continuam a beber as suas garrafinhas, rindo de todos aqueles que tentam meter-se nos seus caminhos. E volta meia volta, lá tem o padre de rezar mais uma missa fúnebre. O único consolo deste padre é o licor que lhe vai aquecendo as noites frias daquela terra esquecida por Deus.
 
Carolina Lemos

17/09/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 19

Esta é a natureza do jogo. – Pensou Leocádio muito baixinho, para que ninguém lhe pudesse peneirar os pensamentos. – Tudo o que qualquer pessoa tem de fazer é lançar a dúvida, o resto fica por conta do desfiar das histórias do destino.
 
O coração voltou a amolecer-lhe entre as lajes frias da igreja, seguindo-se-lhe as pernas e todo o conjunto da constituição da vontade, e antes que o dia se botasse inteiro na moldura do céu, acabou, sem intenção de ofensa daquela mão que o ergueu, feito pingente de carne no dependuro do rico sobreiro onde se alberga o tesouro dos seus sonhos.
 
- Não dói tanto como parece. – Exclamava Aldina perante o viés movimento do corpo abaulado ao sabor do vento suave da manhã. – Mas carago, antes ele do que eu! – Rematou depois sem demora. – Era coisa jurada a acontecer, pobre miserável. Que bem te víamos a abanares-te daqui para ali e dali para aqui sem saberes ao certo por onde começares a meter o bedelho.
 
E à medida que o tempo passava, aquele lugar mais se ia esvaziando das suas gentes, ficando mais oco de dia para dia, como que confirmando a lenda que o tornava aparado.
 
- Agora vão todos poder ver. – Diz Morgado tirando lentamente um bloco de notas do bolso interior do casaco. – Esta história já avançou em demasia. D.Aldina! – Bradou depois.
 
Repetiu o seu nome um par de vezes e começou a rir.
 
- O senhor quer fazer o favor de olhar para aqui e de começar a fazer contas de cabeça? – Apontava-lhe esta o corpo de Leocádio, hirto e sem trejeitos humanos definidos que alguém pudesse discernir de qual género fossem. – E então?
 
- Como deve compreender, tínhamos de ter aqui um homem que sobretudo não se enganasse no número de vítimas..
 
Aldina esperou um instante. Era impossível que ele falasse do Seguro, ou mesmo que aquela fosse a sua última palavra face aos recentes eventos. A seguir, abanou os ombros e livrou-se destas ideias.
 
Também desta vez a notícia não foi divulgada de imediato, pelo contrário, decorreram muitas horas de prudência, de investigações sigilosas, de convénios secretos entre os locais, que tentavam ganhar tempo de vida entre uma morte e a outra. Não fosse o boato da morte correr célere e trazer-lhes o mesmo destino à porta, mais rápido do que seria de supor.
 
Descia a rua do comércio o novo padre, Justino. Mesmo preparado para o que vinha, estremeceu perante a visão do enforcado. A tragédia, afinal, é mais recente do que ele pensava. Os espíritos dos falecidos ainda por ali pairavam, quase tão densos e palpáveis como o desvario inexplicável do seu assassino ou assassinos.
 
- Ainda há pouco enterraram o último cadáver, Meu Deus! Mas que raio se passa nesta terra afinal?
Indignou-se mesmo a tempo do corpo de Leocádio ser baixado do seu cadafalso de cortiça. O seu rosto nunca chegou a ser visto. O receio daqueles olhos impudicos contarem a verdade era enorme. Amarraram-lhe um lençol de verdete à cabeça com a ajuda de uma farripa de corda, e arrastaram-no mesmo assim, com os dentes charruando a terra por onde passava.
 
Havia uma folha sustenida porém. Sim, ficara uma folha de papel escrito a pairar no ar estagnado do meio-dia, mesmo aos pés da raiz do sobreiro. Derradeira pista ignota deste interminável mistério? – Quem sabe!
 
- Eu tomo conta disso. – Apressou-se Morgado a dizer. Tomou o sopeso da folha a seu cuidado e colocou-a com todo o desvelo no interior do miolo do bloco de notas.
 
A aldeia inteira calou-se de repente. Até o apito contínuo das cigarras e o assobio insone do vento se calaram num silêncio de sepulcro. Ficou o altifalante do corpo no arrasto do seu percurso até ao solar dos Meireles, onde moravam os padres desta paróquia desde os tempos em que Deus aqui assentou leis de régulo.
 
Na tapada virada a Sul por detrás da igreja, outros planos se descortinavam. O doutor Morais não parecia carente de qualquer informação sobre o ocorrido. Gritava sem abrir os olhos, sem deixar de ressonar acordado: - Não estou a dormir seus estúpidos. Continuem assim, continuem que verão onde isto acaba. – Saía a tentear de entre as teias de aranha da sesta sentenciando que no meio de tantas parvoíces o único que parecia mais certo, era o Seguro, pois ao menos esse era coerente nas suas intenções. – Acabou-se esta porcaria ouviram? – Despachou-os na vereda de azinheiras com a displicência de façam o que fizerem, ao fim e ao cabo, sou eu quem manda.
 
- Traz-me aqui o Morgado! Isto acaba agora.
 
O volume do rádio a debitar velhas baladas do Tony de Matos não lhe ocultava o tom de voz. Albertina empinou-se num terror já familiar, assentou as mãos no peito e ajeitou-os ao seu modo.
 
Depois, desceu-as pelo resto do corpo, alisando a régua os vincos do vestido e da paciência.
 
- Vou já, acalme-se. Eu trato do assunto.
 
- Não tratas de nada. Fazes o que eu te mando e basta. Entendido?
 
Ela limitou-se a acenar e partiu de imediato.
 
No instante seguinte saiu a procissão atrás do corpo de Leocádio. Morgado comandava essa falsa viagem ao longo da picada. A rua onde morava Sobreiro Aparado surgia-lhe luminosa com novas pistas em cada passo. Parecia pentear os olhos dos habitantes, risco ao meio. Claro que, no aparente sossego da paisagem, nenhuma coisa pedia urgência, contudo Morgado não estava tranquilo. O susto espreitava no farfalhar das folhagens, cada soleira de porta era um segredar da morte, uma infatigável coscuvilhice de uma história maldita que já durava há demasiado tempo.
 
Em sentido contrário, Albertina vinha pisando caminhos saudosos do pé destas gentes, na sua direcção. Trazia um ar determinado no rosto, como se de repente o mundo pudesse desabar e o chão lhe desaparecesse por debaixo.
 
A meio caminho entre o desastre e o fim, tropeçaram ambos num homem dormindo no passeio. Numa mão segurava uma corda comprida, na outra, um punho fechado. Em observação mais atenta, Morgado viu que tinha os olhos abertos. Bêbado quiçá? Ou demasiado doente para nem se chegar perto?
 
Albertina soergueu-se inteira face ao que via. Afinal havia algo nesta terra sonâmbula que lhe instigava maior medo do que o látego invisível do seu mandatário.
 
- Este homem está morto! – Entrecortou ela as palavras em soluços desconexos.
 
Realmente assim era. O homem estava escurecido, dessa cor estagnada dos índios. E a corda de sisal, feita de uma porção de metros, parada na sua mão.
 
Vendo bem as coisas, a morte é afinal uma corda que nos amarra as veias. O utensílio sem serventia na sua mão gelada, faleceu consigo, mas que propósito teria? O tempo vai esticando as pontas da corda, nos estancando a todos, pouco a pouco.
 
O morto parecia ali estar há mais de meio-dia, louvado pelo desdém e pela moscaria. Vendo melhor, o cadáver descuidado simbolizava aquilo em que a aldeia se tinha tornado: uma imensa casa mortuária.
 
Morgado voltou a retirar o bloco do bolso. Abriu-o e daí surgiu a folha que encontrou no sopé do sobreiro. O ar estava carregado pelo calor, ensopado de suor. Deitou o olhar ao cortejo fúnebre que prosseguiu sem ele, agora encabeçado pelo padre Justino no sentido da casa paroquial, e voltou de novo a sua atenção ao papel.
 
- Inspector… - Continuava Albertina. – Ouviu o que lhe disse? Este homem está morto!
 
- Eu sei. – Replica Morgado sem uma dúvida no rosto. – É o que diz aqui neste papel.

                                                                                                                                   
 Casimiro Teixeira

08/09/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 18

- Ó Ti Manel, olhe que eu não sei. Se o gajo telefonou lá para a Aldina é porque alguma tem em mente. Aquele não dá ponto sem nó.
 
 
Talvez o Leocádio tivesse razão, mas isso era o que menos importava àquele amanhecer de Manel dos recados. A mota e o carro que tinham partido ao mesmo tempo que chegavam, chiando travões, esses sim, é que não lhe saiam da ideia. Que diachos faziam ali duas viaturas, àquela hora? Teriam vindo trazer ou buscar alguém, ou alguma coisa? Ainda se fosse só o carro, até podia ser o do costume, o Morais. Sim, que ele sabia que o dr. Morais se perdia por ali, em dias certos da semana, àquela hora. Nunca entendera muito bem porquê, pois se era ele quem mexia os cordelinhos bem podia encomendar o serviço a qualquer um que estivesse em carência. E nem sequer precisava de lhe pagar, bastava satisfazer-lhe as necessidades. Mas preferia fazê-lo com as próprias mãos. Ele lá saberia porquê.
 
- Ó Ti Manel, que está para aí a matutar homem? Estou para aqui, há que tempo, a falar pró boneco…
 
- O que é que tu queres, Etelvina?
 
- Dizia eu que se formos até à mercearia somos capazes de apanhar qualquer coisa.
 
- Pois então vai lá, anda despacha-te!
 
- E o Ti Manel não vem?
 
- Eu tenho de ir a Lisboa, mas volto logo. Espera por mim que temos de falar.
 
- Falar, Ti Manel? Eu espero mas olhe que vossemecê não faz o meu género.
 
- Diabo do fedelho sempre feito mariconço. Vai-te lá, anda!
 
A batida da porta de um carro interrompeu a conversa. Àquela hora, em que o sol ainda mal se desenrolara do novelo que o fizera levantar no horizonte, quem é que já andava por ali a bater portas de carros? Ah, era Morgado. Aquele sim, aquele fazia o seu género. Ai se ele quisesse, seriam tão felizes. Ele é que não queria. Não queria, ainda. Mas quando, finalmente, parecesse aquilo que na realidade era, aí é que não resistiria. “Quando lhe aparecer, linda e escultural Anabela, vai ser uma intensa e tórrida paixão.” Mas que estava para ali a divagar? Tinha era de despachar o assunto, o quanto antes, para, finalmente, se livrar daquela prisão em corpo masculino.
 
- Ti Manel?... Oh, já se foi…

Encolheu os ombros e, dando meia volta sobre si próprio, encaminhou-se para a mercearia. Já estava aberta, pois claro, a Aldina madrugava. Ou se calhar nem voltava a deitar-se depois das alucinações que sempre lhe antecediam a alvorada. Estava aberta e alguém de mau feitio gritava, lá dentro.
 
- Vai chamar a outra, já disse! Quero falar com as duas.
 
- E eu já disse que ela não está.
 
Ai, não podia, que deus lhe acudisse! Acabara de apaixonar mais um bocadinho. O seu homem tinha mau feitio, que excitação. Se pudesse mesmo agora dava largas à fera que prendia dentro de si. Mas ainda não era hora. Ele que a aguardasse, que veria o que era bom. Para já que ficasse para ali aos gritos com a velha. Quem não se ia lá meter, era ele. E depois se o corpo o atraiçoasse? O melhor era ir-se dali, não fosse o diabo tecê-las e o seu corpo, que era de homem mas sentia como se de mulher se tratasse, se rebelasse contra a sua vontade. A igreja, na igreja sempre se ouvia muita coisa, e dali a bocado era hora da missa da manhã, se já houvesse novidades do padre ou da Albertina mais do Seguro, algum zum-zum por lá se ouviria.
 
O padre que substituía o Joaquim chegava cedo, ainda faltava uma hora e a porta já estava escancarada. Só podia ter sido ele a abrir a porta daquela maneira, desde que o Octávio fora desta para melhor que mais ninguém se tinha chegado à frente para desempenhar as funções de sacristão. Quer dizer, chegar até tinha chegado mas não interessava ao padre Joaquim. O Octávio estava, tanto quanto ele, enredado nos meandros do negócio. Podia fazer tudo à vontade. E com outro qualquer já não seria assim. Bem, mas já que a porta estava aberta e, assim como assim, sempre tinha que esperar, aproveitava e metia conversa com o novo padre. Ainda não tinha tido esse prazer, quem sabe não seria algum jeitoso que até o deixasse com a vista lavada. O Joaquim não estava nada mal, não fosse ter-se deixado enfeitiçar por aquela cabra da Albertina e podiam ter dado umas boas voltinhas.
 
Mas não tinham dado e, voltinhas, dava ele, agora, à porta da sacristia, enquanto, com um bandear de ancas, que não lhe apeteceu reprimir, se preparava para bater. Mas, alertado pelo barulho de uma porta que se abriu e fechou, na outra ala da igreja, em frente da sacristia, só teve tempo de se esconder dentro do confessionário, que foi o que encontrou mais a jeito. “Porra, que esta igreja tem mais buracos que a magana da minha avó”. Outro sobressalto daqueles e ainda lhe dava uma coisinha má. Não é que fosse assustadiça mas pairava ali qualquer coisa no ar. Deitou a cabeça de fora para se certificar que já podia sair do esconderijo e o sobressalto foi ainda maior.
 
Cruzes, credo, que estava a ficar com o miolo mole. Então não é que tinha acabado de deixar a Aldina aos gritos com o Morgado, lá na mercearia, e agora estava a vê-la sair à porta da igreja, depois de ter saído daquele compartimento que nunca tinha visto em frente da sacristia, na outra nave da igreja? Mas que raio guardava aquela porta? Mais um dos segredos de Sobreiro Aparado? E ele que estava convicto de já ter desvendado todos os segredos daquele maldito lugar. Assim não, assim nunca mais cumpriria a missão que tinha herdado em testamento, e nunca mais ficaria com o tesouro e nunca mais se transformaria naquilo que sempre tinha sido. Bolas, que derrubou o missal atrás do altar. Era melhor despachar-se, antes que começassem a chegar as pessoas para a missa. Esgueirou-se para traz de uma coluna e, já bem perto da tal porta, ouviu vozes. Havia pessoas lá dentro, e eram mais que uma mas Leucádio não conseguia perceber o que diziam. Só quando chegou junto à porta…
 
- Cabra, por tua causa, estamos nesta situação.
 
- Foste tu que me mandaste meter com ele, lembras-te?
 
- Para o distraíres, não para viveres uma paixão arrebatadora.
 
Dizia o Manel dos recados que o gajo não voltava…
 
Luisa Vaz Tavares

03/09/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 17

- Etelvina… Ó Etelvina… és tu?...
 
- Quem está aí; diga? Quem está aí?
 
A quietude da noite deixava-o ouvir o mais leve ruído e, a voz, embora sussurrada, ou se disfarçava, ou nem a conhecia. Desceu do ramo, apalpou a sacola, guardou a tesoura e,
 
 
- Quem está aí; diga? Quem está aí?
 
- Shiiiuuu… fala baixo que se ouve na estrada… É o Manel dos recados… shiiiuuu…
 
- Ó ti Manel, que faz você aqui no meio deste breu?, não devia ainda estar em Lisboa?
 
- Cala-te rapaz. Acaba lá o trabalhinho e vamo-nos daqui para minha casa. Anda Etelvina, anda lesto, espero-te no alpendre.
 
- Já termino ti Manel, já termino, e não me chame Etelvina porra!; eu tenho nome!
 
- Chiu!, Cala-te mas é, e acaba a encomenda!
 
A surpresa de encontrar ali o ti Manel, que pensava em Lisboa, fê-lo tremer ainda mais. Há dias que o esperava, mas ali, e a meio da noite, foi um susto. Tinha muita coisa para lhe contar, e outra tanta para perguntar. Nem sabia por onde começar e «qual será a novidade? A verdade é que nem sei bem o que ele me esconde, sempre em Lisboa, sempre a fazer recados ao dr. Morais, é um vai e vem, um vai e vem de dias certos. Bem, isto até que o filho morreu. Quando se foi o Octávio a coisa continuou, mas quando lhe limparam o Zinga, estacou. Também ele morreu, o ti Manel. Só que ninguém o enterrou e, quem o conhece sabe que embora pareça um bolas, tem sobrevivido porque é duro, duro e astuto; lá isso é
 
- Conte lá ti Manel, então que me quer?
 
- Senta-te rapaz, senta.
 
- O quê?, aqui fora?, ao frio?
 
- É mesmo aqui para os vermos a chegar. Depois destes anos todos não há-de haver nenhum filho da puta que me ofereça surpresas.
 
- De que fala homem?
 
- Que é que tu sabes da Albertina e do polícia? Sim! Que é que tu já espreitaste?
 
- Eu não espreitei nada…
 
- Pois não, Ó Etelvina!, pensas que eu sou asno!
 
- Ó ti Manel, eu só sei que eles andam enrolados um com o outro. Ele tem os miolos entre as virilhas e não a larga. Já arranjou a bonita com o Tomé, e
 
- O Tomé é corno manso, só raspa no chão…
 
- Quando era só com o padre não havia estrilho de maior, mas agora com o polícia vieram-lhe os azedos por um todo e foi ter com eles a Guimarães.
 
- A Guimarães? Que foram ambos fazer a Guimarães?
 
- Não sei, propriamente não sei, mas parece que foram coisas do dr. Morais.
 
- Huuum… o dr. Morais… agora também é chefe do Morgado, que é um finório, e tinha de se ver livre do Seguro. Eles não se dão bem por histórias de gajas. Parece que uma namorada lá do departamento da PJ se relaxa com a branquinha e, em tempos, era o Seguro que lha arranjava. Desviava-a do stock do departamento e fazia-se pagar na horizontal. Tá claro que agora, que o Morgado saltou a cerca, quer ver o Seguro borda fora. Olha; mas tu não tens nada a ver com isto. O que eu quero saber é se o polícia e a Tina já chegaram ao Sobreiro ou quando chegam. Sabes?
 
- Eu?!... Eu?!, ti Manel... Como é que eu hei-de saber?!
 
- Então levanta-me esse cú do mocho e vai por essa noite fora saber. E não demores, ouviste? O dr. Morais deve estar aí a rebentar e vai dar uma liçãozinha na rameira e no bófia.
 
- Ó ti Manel, o dr. Morais é mais do que aquilo que eu sei não é? Além de testamenteiro e director da PJ, amanha-se com mais alguma coisa não é? Ora diga-me lá? É, ou não é?
 
- Não tens nada com isso ó fedelho! Ala, avança…
 
- Se estou consigo, tenho de saber tudo! Diga-me lá senão não vou! O Manel dos recados parou o olhar na ponta das botas, «não posso contar tudo ao moço, tenho que me defender, já levei com tantas surpresas, tanta estalada nas bentas, tanto desaforo, tanto conluio. Tenho de me defender…»
 
- Olha rapaz; ao contrário do que para aí se diz, a água que vai no ribeiro é sempre a mesma; as margens é que são, diferentes, sempre diferentes. Porque em mudança. E os homens, são todos uma merda, até prova em contrário. E; sabes uma coisa?
 
- O quê ti Manel?
 
- Ainda ninguém o provou! Vai-te!, desaparece!, espero-te aqui, ouviste?
 
O Leocádio tremia como um canavial. Sentia tragédia no ar mas faltava-lhe a coragem para mais perguntas. O que tinha ouvido não era resposta para as suas dúvidas, mas não era a altura para mais perguntas. Saiu do alpendre ajuizando não voltar. Estancou, olhou para trás, viu os olhos fitos do Manel dos recados. Avançou no caminho «se o ti Manel sonha que o padre Joaquim, além de comer a Tina, era quem controlava o negócio com os padrecos espanhóis, vai tudo raso, nem o dr. Morais se safa. Só eu não tenho sorte nenhuma, todos se comiam, o Tomé e os padrecos estavam quase a dar escândalo, tantas vezes pedi para fazer a viagem, mas não, não tinham confiança, sacanas; agora olhem! Safem-se!, se a coisa estourar, não vai ser debaixo do meu cú não
 
Numa ansiedade que lhe descontrolava os movimentos, numa inquietação remoída desde que lhe tinham roubado o Zinga, Manel dos recados remoía a sua sina enrolando um cigarro «à queima-roupa; o filho da puta. Se tenho a certeza que foi ele arranco-lhe o coração fora. Não há direito. O rapaz sempre tinha feito o trabalho em condições, até a Aldina já experimentava; e o sacana… ou… a sacana… pode ter sido ela… não tenho a certeza se ela estava em Lisboa naquela madrugada… a Tina sei, tinha-se escarrapachado no Tomé e deixou-o a ressonar, depois tinha saído para comprar uma carcaça. A Aldina, ainda meia apardalada pela dose da manhã, tinha acabado de abrir, e estava a fazer café para arrebitar, depois foi o que se sabe e nem quero pensar.»
 
No fundo da recta apareceram três luzes alinhadas, como que três velas, tremeluzentes, progrediam devagar, aceleravam e travavam, distâncias síncronas, um ronronar de motor; não um, mas dois, uma moto e um carro, a par. O Manel dos recados levantou-se, deu um passo em frente para tentar identificar os veículos. A alvorada espreitava; o Leocádio, lá longe, voltava espavorido. O novelo do Sol, como a cena lá no fundo, desenrolava-se lentamente. Uma luz encabritou-se e desapareceu. Apagou. Dois estalidos. Três. O carro fez inversão de marcha e desapareceu na curva. Leocádio chegou sem fôlego.
 
- Ti Manel! Ó ti Manel!
 
O Manel dos recados acende um cigarro com uma calma de fim do Mundo. Risca o fósforo, inala uma passa longa, cospe para o chão e
 
- Ti Manel! Ó ti Manel! O padre Joaquim fugiu!
 
- Fugiu?! Ó panascas; mas ele alguma vez esteve preso?
 
 
- Tinha sido preso em Guimarães. E telefonou para a mercearia a dizer que vinha para o Sobreiro e que alguém o iria procurar. Que esperasse que ele voltaria a telefonar.
 
- Não volta. Anda comigo que vais ver que o gajo não volta.
 
José Bessa

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 17

28/08/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 16

E era mesmo uma grande porra. Não sabia se aguentaria mais insultos.
 
 
A noite estava sinistra, à semelhança da anterior. Habitualmente, a tarefa cumpria-se numa noite mas, desta vez, os ramos do sobreiro mostraram-se mais resistentes, obrigando-o a lá voltar.
 
Despontava-o quase delicadamente. Não fosse o diabo da tesoura cortar-lhe mais um dedo. O Morgado não lhe saía da cabeça. Sentou-se junto ao tronco da malfadada árvore e preparava, mentalmente, cada um dos passos que o levariam até ele.
 
Um leve barulho interrompeu os seus pensamentos. Olhou e pareceu-lhe ver um vulto desaparecer por entre as brumas da noite. Que diacho seria àquela hora tão tardia? Algum aspirante ao tesouro? Não. Pela certa que não. Ninguém mais se atrevera a procurá-lo desde aquela noite em que o seu avô se enforcara, quando o procurava. Nunca ninguém entendeu o porquê. O certo é que tal proeza fora entendida como uma praga, que vinha desde a geração anterior.
 
Contava-se, na aldeia, que Teresa, mulher ainda jovem, mas já viúva, bisavó de Leocádio, se apaixonara por um estranho que, escassas vezes, aparecia por lá. Dizia-se ser uma criatura invulgar no seu todo e ter um aspecto medonho. Costumava aparecer na mercearia da aldeia, que também servia de taberna. Sentava-se numa pequena mesa de um recanto e ali ficava toda a noite, a beber, sem falar, observando cada gesto dos presentes. Apenas Teresa lhe ouvira a voz. Fazia questão de o servir. Era como se estivesse por ele enfeitiçada. Todos o receavam, mas Teresa não. Apenas ela tinha conseguido adivinhar a doçura do seu olhar, apesar do seu ar terrífico e ameaçador.
 
Uma noite, já quase todos tinham recolhido as suas casas, Teresa ousou sentar-se junto do desconhecido. Permaneceram em silêncio durante longo tempo, mas os seus olhos não pararam de se falar, como se nada, nem ninguém, existisse para além dos dois.
 
 Os dois e o relógio que ele, impacientemente, consultava amiúde . Faltava pouco para as quatro da manhã quando, lançando um último olhar a Teresa, saiu apressadamente. Ainda em transe pelo sucedido, ela saiu, quase de imediato, e seguiu-o. E os dois desapareceram na negrura da noite.
 
No dia seguinte, Teresa, morta e desmembrada, foi encontrada pelo seu filho, o avô de Leocádio, junto de um sobreiro. Nunca se soube o que aconteceu. O desconhecido nunca mais foi visto. Em seu tributo, foi decidido que seriam cortados todos os ramos do sobreiro e assim teriam que ser mantidos para todo o sempre. A aldeia passou, então, a chamar-se Sobreiro Aparado.
 
E a lenda nasceu. Conta-se que, quando os ramos do sobreiro começam a querer romper, se ouve, ao longo da noite, depois do relógio da igreja ter soado as quatro da manhã, um choro de mulher, penoso e ensurdecedor. Foram retiradas as baterias ao sino electrónico, mas o choro de mulher continua a envolver os sonhos dos habitantes.
 
Leocádio estremeceu de pavor ao relembrar a história. Coube ao seu avô e, depois, ao seu pai a tarefa de manter os ramos do sobreiro aparados. Agora cabia-lhe a si. Não que isso lhe agradasse, mas o dever assim o obrigava. E depois, havia o tesouro…
 
Fernanda Cadilha

19/08/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 15

A noite mostra-se escura como breu. As árvores em sombras disformes sugerem corpos fantasmagóricos a erguerem braços de raiva ou vingança. Pelos campos em redor, uma sinfonia de sons faz-se banda sonora de um filme de terror feita de coaxar de rãs, de estridentes grilos e de toda aquela chinfrineira própria de bichos sem nome. Na torre da igreja, tivesse o sino electrónico as baterias que lhe retiraram para que não incomodasse os sonos, bateriam as quatro da manhã. Tudo dorme. As pessoas, as casas, as almas, os sexos. E no silêncio naturalmente instalado, a vida somente respira pelas narinas do que à morte se assemelha e por aquele vulto, de andar estranho, que pelas vestes mais negras que o negro da noite, só uns olhos especiais conseguiriam ver.
 
 

Traz na mão uma tesoura de poda e meneia as ancas num andar amaricado – que tenta conter de dia mas que liberta aliviado à noite – até se deter nos ramos já muito despontados do sobreiro. Esta noite terá cuidado. Da última vez partiu uma unha e na vez anterior esqueceu-se de tirar o dedo do sítio onde a lâmina cortaria. E o que mais o magoou não foi a dor que sentiu nem o sangue, que horror!, que jorrou. Foi ficar com o dedo entrapado e ter de ouvir disparates como “oh Etelvina, meteste o dedo no cu?” quando, como é sabido, o cu não tem dentes e ele não se chamava Etelvina mas sim Leocádio. Compreendia que Leocádio não era de pronúncia fácil mas…Etelvina! Ao menos que lhe tivessem chamado Anabela porque Anabela, sim, era um nome que o encantava, a denunciar ao seu imaginário uns louros cabelos compridos como gostaria de ter.

Mas não tinha. Tinha antes um cabelo preto encrespado sabe-se lá se por cruzamentos ancestrais de negros de sexo caído e negras de mamas tão flácidas como os anteriores. Mas não ia agora pensar nisso. Queria lá saber da família. Já lhe bastava a praga que lhe fora transmitida na obrigação de podar aquele sobreiro em que o avô se enforcara, o pai cortara, e, mal morto, lhe coubera a ele em sorte ter de o aparar às escondidas. E esta era a parte estúpida, quase absurda. Para quê aparar um sobreiro? Para fazer justiça à placa toponímica? Não seria mais fácil mudar-se a placa e chamar à terra sobreiro espigado? Mas o testamento tinha sido bem explícito. “Condições Fundamentais” lera o advogado – por sinal bem jeitoso – no escuro escritório de mogno: “para receber o tesouro referido, deve o herdeiro fomentar a intriga e o ciúme no lugar designado como “Sobreiro Aparado” de modo a que a diminuta população se extermine a si própria. Só nessa altura o sobreiro, ininterruptamente aparado nas alturas convenientes, será finalmente arrancado de modo a que o tesouro fique em condições de ser entregue.”

E pronto. Por causa de um testamento ridículo, ali andava ele noite dentro a cortar a guedelha à estúpida árvore. Porque esta era em definitivo a missão mais difícil. A outra…oh, não fosse ele mulher em corpo de homem, tinha sido como quem limpa o cu a meninos, salvo seja, porque não era dado à pedofilia. Bastara-lhe arranjar um traficante de droga, um padre que a consumia, uma putéfia, grande vaca, chamada Albertina e um polícia com tomates nos miolos, para que todos em segredo se fossem matando.

Só uma coisa não estava a funcionar no destino por ele engendrado. Aquele agente, o Morgado, não estava nos seus planos. Aquilo não era um pão, era uma padaria inteira. E ele estava prestes a apaixonar-se. Deveria declarar-lhe o seu amor? Não, não podia. A sua missão era a de criar conflitos mas manter-se fora deles. Insinuar-se, então, com ele? Mas, e se, por acaso, também o Morgado era uma aberração com desejo de mulheres? Não, era impossível porque até lhe dava vómitos. Pois, mas e se era? Pensara, dormira e acordara a pensar, até que de tanto o fazer descobriu a resposta mais óbvia:

Quando todos tivessem morrido, receberia finalmente o tão desejado tesouro que supostamente estaria enterrado sob aquele monte de cortiça. E nessa altura, rico e a merecer respeito, faria a almejada operação. Ficaria linda no seu corpo novo que nunca o seu apaixonado poderia rejeitar. Depois, saradas e disfarçadas as feridas em previdente retiro, aparecer-lhe-ia sensual e irrecusável, e diria: estou aqui, meu amor. Chama-me Anabela.

Ah, porra que já cortei outro dedo.

   João J. A. Madeira

12/08/12

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 14

O dia fatídico de Tomé tinha chegado… o frio que se fazia sentir e a chuva que caía de mansinho parecia anunciar alguma tranquilidade, porém pairava no ar um ambiente de guerra, de violência e de morte.


Seguro continuava perplexo e sem ação perante aquele cenário trágico. O pavor e o desespero estavam estampados no rosto de Albertina. As curtas revelações de Tomé fizeram com que a viúva entoasse - ai meu Deus, e agora?!- balbuciava desesperada, solicitando a este Ser Divino que fosse seu advogado de defesa.

Seguro, voltou a si, olhou ao redor e avistou entre as muralhas do castelo o padre Joaquim que, após ser descoberto, corria a passos largos a fim de se safar do assassinato que acabara de cometer. O inspetor que, ainda tinha amor à profissão, correu apressadamente pela calçada para tentar, a todo o custo, apanhar o assassino de Tomé. A raiva impregnada no seu coração por se sentir enganado por aquela bela mulher predadora, fazia com que as suas pernas corressem velozmente, por entre ruas e ruelas; encontrões aqui e acolá com pessoas que se esbarravam no seu trajeto. Seguro estava, sem dúvida, em forma. A chuva fria e miudinha não foi obstáculo à captura do criminoso. O policial de corpo atlético conseguiu, finalmente, agarrar o casaco do padre fugitivo.

- Anda cá seu sacana! Daqui não foges mais…quem diria?! Heim!… Nunca me inspiraste confiança, seu bandido! Estou mesmo a ver, um homem ligado à igreja que não cumpre os seus preceitos, grande sacana…

Após este curto monólogo Joaquim cai nas pedras da calçada com um valente soco no nariz, o sangue brota em fio parecendo uma fonte encarnada. Seguro conseguiu imobilizar o padre demoníaco. O paraíso deste demo tinha os dias contados… A justiça divina e a dos homens caíam, como uma teia, sobre este homem que passou parte da sua vida a apregoar a palavra de Deus.

Depois de uns breves contactos telefónicos de Seguro, não tardou a chegada ruidosa e aflitiva da polícia que, numa celeridade, colocou as algemas nos pulsos pecaminosos de Joaquim.

- Mais tarde conversamos seu cobarde! Tens muita coisa para explicar…agora vou atrás da tua cúmplice. Retorquiu Seguro ao empurrá-lo com uma certa agressividade para dentro do carro policial que o levaria para o posto da Polícia.

A uns largos metros de distância lá estava Albertina caída de joelhos sobre a calçada como se estivesse a pedir perdão dos actos cometidos. Chorava compulsivamente, não pela morte do seu Tomé, mas pelas revelações verídicas do cônjuge que a punham em maus lençóis com a justiça. Começava a aglomerar-se gente curiosa que comentava, depreciativamente, o sucedido. O cerco policial já se evidenciava perante este drama e já tomavam as respetivas diligências.


Seguro ao avistar aquele corpo de mulher enfeitiçado sentiu-se frustrado, mais uma vez…Deveras não tinha sorte com o sexo oposto, sentia compaixão de si próprio.

Sónia Ferreira

06/08/12

Os Segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 13

O eco do tiro dispersa para além das muralhas, embalado pelo vento forte que se fazia sentir. Os pássaros que dormitavam nos arvoredos vizinhos despertaram em transe e esvoaçaram em bando.
O silêncio corta de seguida esta anómala agitação que estremecera o castelo e arredores. Mas esta falsa quietude não tardou em sucumbir perante os gritos estridentes de Albertina.


- Meu Deus, o que fizeste?! - brada e gesticula Albertina desnorteada.

Tomé cai de rompante sobre a calçada, e derrama em torno de si um charco de sangue.

Seguro, afónico e assustado, deixa a sua confidente de profissão resvalar das suas mãos trémulas. Acorre, num passo claudicado pela tensão muscular, até junto do corpo inanimado de Tomé para ver se ainda lhe pulsava Vida.
Coloca-lhe dois dedos sobre a jugular, sente um batimento fraco e a cada segundo mais espaçado.

- Ainda está vivo - replica Seguro, voltado para Albertina que permanecia estática.

Vira-se novamente para Tomé e vê-o arregalar o olhar e arrastar num esforço acrescido aquelas palavras que tudo mudaram.

- Foi ela, foi ela que mandou sabotar o meu camião - gaguejou Tomé - Aquelas viagens de regresso corroíam-me lentamente, vinha sempre com o coração nas mãos aterrorizado pela possibilidade de ser mandado parar numa operação policial. Fiz tudo aquilo por ti, Albertina!

Eis que soa um segundo tiro que assassina a sequência de revelações de Tomé. Jaz definitivamente para contentamento do místico Sobreiro Aparado.
Seguro petrifica perante este acto inesperado de Albertina. Mais uma prova de que nunca conhecera verdadeiramente as mulheres.


A vários quilómetros de distância um outro Segredo de Sobreiro Aparado em vista de ser revelado.


Morgado com um ar austero e inquisidor, porte de carrasco da justiça, senta-se frente-a-frente a Aldina e Alzira. Retira um bloco e uma caneta do bolso interno da sua gabardine cinzenta, eleva o sobrolho e fisga as gémeas. Ainda que o quisessem disfarçar expressavam um semblante de pavor e medo.

- Durante anos a fio fizeram-se passar pela mesma pessoa, facto que atrofiou as nossas investigações. Fostes desmascaradas. Nós temos acesso a todos os dados - reiterou inteligentemente Morgado.

- E isso é algum crime?! - ripostou de imediato Aldina.

- Judicialmente não. Já assassinar alguém é punível com pena de prisão. Não concorda comigo D. Alzira? - disse Morgado com uma voz firme e traiçoeira.

Alzira estava cariz baixo, com o fácies rosado, e o corpo encolhido sobre si. Desenhava já o seu fim. A verdade iria ser descoberta.

- O que fizeram ao Octávio? - questionou Morgado.

- Quem? Aquele pobre profeta do demo? - graceja Aldina numa risada soluçante.

Alzira ergue a cabeça e deflagra, acompanhado por um pranto de lágrimas - Não o queria fazer, juro por Deus. Aquele diabo em forma de gente queria-nos assaltar a mercearia, não tive alternativa.





- Temos de eliminar os podres da civilização, estas almas mendicantes que perambulam sem eira nem beira e que importunam as pessoas de bem - contesta altivamente Aldina.

- Para fazer justiça existo eu e os meus colegas. Minhas senhoras acompanhem-me até ao Posto da Policia Judiciária - culmina Morgado, satisfeito e fervoroso pelo sucesso do seu trabalho.


Marlene Quintinha

21/07/12

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 12

Sobreiro Aparado. Frio. Frio e vento.

Morgado fecha a porta do Skoda. “Puta que pariu”, diz. Leva a mão ao bolso das calças e puxa um lenço encardido. Assoa-se. O vento assobia. Em passos rápidos, dirige-se à mercearia.



Aldina pega na faca e lambe a folha cortante. Alzira levanta-se. Dir-se-iam uma apenas. E assim é para toda a gente. Nasceram iguais, permaneceram iguais. Certo dia, ao subir ao sótão, Aldina caiu e rasgou uma ferida na testa que a levou a pontos ao Hospital. “Tem aqui serviço para uns 5 pontos”, disse-lhe o médico, um cubano atarracado com cara de lagarto. “Venham eles”, respondeu Aldina cerrando a expressão. E cinco pontos foram. A Alzira doera muito mais quando a irmã lhe rasgara a cara com uma faca mal afiada. “Tens aqui serviço para 5 pontos”, disse-lhe Aldina, imitando o médico cubano, e riu. O médico cubano estranhou o caso, no dia anterior tinha tratado uma pessoal igual. “Compreendo, doutor, é muita gente a passar-lhe pelas mãos”, e Alzira sorriu compreensiva. O médico piscou os olhos de lagarto e pôs-se a coser. Um fiozinho de sangue escorreu-lhe pelas mãos e caiu nas calças. As cicatrizes acabaram por secar semelhantes; semelhantes na forma, semelhantes na cor, semelhantes no torcer que provocavam na pálpebra esquerda quando sorriam.

Morgado chega à porta da mercearia, ajeita o casaco e tosse levemente como que a afinar a voz. Inspira profundamente. Procura a expressão certa. Levanta a mão e carrega no botão da campainha.

Aldina e Alzira eram apenas uma pessoa para o Sobreiro Aparado, uma velha discreta, talvez curiosa, mas profundamente crente e defensora de tudo o que se parecesse com moral e bons-costumes. Nascidas da mesma forma foram, crescidas no mesmo prato, casadas pela mesma igreja e no mesmo dia, viúvas pelo mesmo cemitério e no mesmo dia. Os maridos, gémeos cruéis como lobos famintos, tiveram o que mereciam. “Há quantos anos foi isso?“, perguntam-se muitas vezes uma à outra. Mas já nenhuma parece contar os minutos e as horas e os dias como faziam no início, logo depois de a terra bater nos caixões e elas respirarem de alívio. Aos olhos do pequeno mundo de Sobreiro Aparado, uma partira no dia seguinte para uma aldeia de Castelo Branco a cuidos de um familiar acamado. Nunca ninguém decorou ao certo se fora Aldina ou Alzira, e por isso, sem qualquer critério, chamavam por Alzira ou Aldina, sem suspeitarem que o número de nomes igualava o número de corpos. A cicatriz era um pormenor desprezível. O Octávio. O Octávio tinha sido um estúpido. Tentou assaltar a mercearia. As duas apareceram-lhe à frente. Não teve hipóteses. Congelou do espanto. Alzira encostou-lhe a arma ao peito e disparou. Seco. “O estúpido do Octávio”, suspirou Alzira com a fusca a fumegar. “Vamos lá tratar deste presunto, amanhã vai ser um falatório por causa do tiro.”

Morgado ajeita os colarinhos do casaco. A chave a rodar na fechadura. A porta a abrir.

- Posso ajudar, senhor? – pergunta Alzira através da nesga aberta

- Inspector Morgado. Quero falar com Aldina Pereira.

- Sou eu. - Chame a sua irmã também, quero falar com as duas.

O queixo de Aldina cai e os olhos param.

- Vá, rápido! – ordena bruscamente Morgado.



Guimarães. Vento. Vento e frio.

- Vou-te foder, sua vaca! – grita Tomé.

- Calma aí, baixa lá essa arma, cabrão! – riposta Seguro surpreendido.

- Vou-te matar, sua vaca! Vou-te matar! – Tomé estica mais os braços e afina a pontaria. Está muito frio, mas um pingo de suor escorre-lhe da testa.

Seguro empurra Albertina com violência e saca da arma já em voo para o chão. Um tiro é disparado.

Guimarães geme de frio.

Paulo Melo Lopes

17/07/12

Os segredos de Sobreiro Aparado - Capítulo 11

Enquanto subia a escada devagar, o inspector Morgado puxou uma última fumaça do cigarro e apagou-o antes de entrar, enquanto pensava para consigo mesmo: “Malditas leis”.

Era cedo, e àquela hora apenas uma secretária estava ainda ocupada. O silêncio do enorme espaço era apenas interrompido pelo tic tic tic de um teclado de computador. A agente Paula como habitualmente chegara cedo também.

Cumprimentou-a com um “bom dia” e dirigiu-se à máquina do café.

- Bom dia, respondeu ela, acrescentando: tens trabalho na tua mesa, o chefe já chegou mas saiu para uma reunião no ministério e deixou-te um dossier, quer que vás até às Caldas?

- Outro caso nas Caldas? Não é lá que está o Seguro?

A agente Paula deixou o monitor do computador por uns instantes, rodou a cadeira e olhou com ar grave para Morgado, consciente de que o que ia dizer não seria do seu agrado:

- Outro caso não, é o mesmo. Olhou em volta para se certificar que mais ninguém tinha entrado na sala e acrescentou em voz baixa: é o costume, a investigação não avança…


 

Morgado não ficou surpreendido, apenas irritado com o chefe. Com este já nada o surpreendia. No tempo do anterior chefe nada disto teria acontecido. Nascimento dos Santos era um chefe como deve ser, que sabia o que fazia e conhecia o seu pessoal. Sabia que o inspector Morgado não podia nem um pouco com o inspector Seguro e nunca os teria colocado no mesmo caso. Agora este gajo, cujo único mérito para chegar a chefe é ser amigo do ministro…

Pegou no café e dirigiu-se à sua mesa. Pousou-o, sentou-se empurrando a cadeira para trás de forma a esticar as pernas e permaneceu longo tempo a olhar pela janela. A agente Paula levantou-se e foi tirar um café. Voltou com o copo de plástico na mão, sentou-se na beira da secretária de Morgado e enquanto mexia o açúcar disse:

- Primeiro devias ter lido o processo e depois é que te punhas a pensar. Pensar sem conheceres os factos faz com que fiques com ideias pré-concebidas e isso é mau para a resolução do caso.

- Sabes que não gosto que me chames à atenção, disse com ar chateado.

- Estás chateado, e é porque sabes que tenho razão, não é? O que disse é para teu bem.

Levantou-se e voltou para a sua secretária. Também ela não gostava do inspector Seguro e desejava que Morgado tivesse mais sucesso na resolução do caso.

A danada tinha razão mesmo. E isso ainda o deixava mais irritado. Suspirou, chegou-se para a frente e resolveu começar a trabalhar. Em cima do dossier estava um pedaço de papel rabiscado pelo chefe com algumas instruções e outras tantas desculpas esfarrapadas, “o caso é difícil, é preciso mais pessoal” ou “as gentes do campo são muito fechadas, não gostam de falar”.

Bem, do mal o menos, não ia trabalhar em conjunto com o inspector Seguro pois este tinha sido transferido.

O processo não era muito grande. Cinco relatórios do Seguro, dois relatórios de autópsias e dois emails da polícia espanhola. Seguindo o seu processo habitual, Morgado leu primeiro tudo de uma ponta a outra e voltou depois ao princípio para reler e tomar apontamentos. Assim que leu a primeira página e viu uma referência a uma suspeita de nome Albertina, percebeu logo porque é que a investigação não avançava.

Seguro era um incorrigível mulherengo de primeira apanha. O desempenho profissional ressentia-se disso mas, ou disfarçava muito bem perante os chefes ou então estava muito bem encostado, pois nunca era chamado à atenção. Isto era a causa da sua animosidade. O inspector Morgado não podia com ele desde que, há muitos anos num jantar de Natal do departamento tentou roubar-lhe a namorada.

Olhou para os papéis com desalento e abanou a cabeça enquanto pensava: temos dois mortos, mais um acidente em Espanha que não se sabe ainda se está relacionado pois falta chegar o relatório das peritagens ao camião e em duas semanas a única coisa que este gajo faz é “interrogar” uma suspeita.

Levantou-se e foi buscar mais um café. Desta vez colocou o copo ao lado do dossier e foi bebendo enquanto ia tomando notas no seu inseparável caderno, apenas interrompendo para cumprimentar maquinalmente os colegas que entretanto iam chegando ou para responder a alguma pergunta.

Quando achou que tinha escrito tudo pôs de lado o dossier e ficou a olhar para os seus apontamentos pensativo, durante alguns instantes. De seguida pegou no telefone e ligou para o arquivo.

- Tá, Sousa?

- Sim, bom dia diz.

- Bom dia, preciso que me vejas umas coisas…

- Porque não vens cá e procuras tu?

- Não posso, vou para fora.

- É sempre a mesma desculpa.

- Obrigado, és um gajo porreiro, ora escreve lá os nomes que te vou dizer: …

- É tudo, consegue-me isto e pago-te um almoço.

- Não precisas de dizer duas vezes. Boa viagem e até logo.

Fechou o dossier, escreveu umas linhas no mesmo papel que o chefe lhe tinha deixado e foi colocar o processo no seu gabinete. Arrumou as suas coisas, pegou num envelope que tinha numa das gavetas e vestiu o casaco. Ao sair passou pela secretária da agente Paula e perguntou-lhe:

- Que fazes logo à noite?

A agente encarou-o com cara de poucos amigos e disse em tom brusco. Porquê? Interessa-te? No tom mais irónico que conseguiu, Morgado respondeu: calma, nada de ideias pré-concebidas, acrescentando depois com ar já mais sério: tenho este bilhete para um concerto e não vou poder ir, queres? disse estendendo-lhe o envelope.

Paula fez um sorriso amarelo e agradeceu. Depois de olhar para o bilhete franziu o sobrolho e perguntou:

- Monte Lunai? O que é isto? - Isto é um grupo musical.

- Obrigada, mas… que tipo de música é? Sabes, eu gosto é do Tony Carreira e do Emanuel…

- Ok, então não é o teu género. - Bem, obrigada na mesma.

O agente Sousa ia a passar naquele momento. Morgado tocou-lhe no braço e chamou-o.

- Sousa, tenho este bilhete mas vou agora para fora, não posso ir, queres?

- Eh pá obrigado, deixa cá ver, o que é isto? Monte Lunai?

- Isto é um grupo musical, repetiu Morgado com ar de enfado.

- Nunca ouvi falar, espero que seja rap ou hip-hop.

- Já vi que também não é para ti. Ok, esquece, eu hei-de impingir isto a alguém. Passem bem, até p’rá semana.

Saiu a porta do edifício e enquanto descia as escadas olhou para os dois lados da rua à procura de um vulto. Encontrou o que queria, levantou um braço num aceno enquanto gritava: Kiko! Kiko o arrumador aproximou-se o mais rapidamente que a sua perna manca o permitia.

- ‘Tá alguma coisa mal sôtor? Perguntou a medo quando chegou perto do carro do inspector.

- ‘Tá tudo bem Kiko, tenho de ir para fora e não posso ir a este concerto, disse estendendo-lhe o bilhete. É hoje à noite no S. Luis, se conseguires vender isto a alguém ganhas algum dinheirinho. - Muito obrigado sôtor, disse Kiko enquanto agarrava no bilhete. Ah, é Monte Lunai!

- Conheces? Perguntou o inspector sem conseguir disfarçar a surpresa?

- Sim, quando eu dormia na Estação do Oriente vi-os uma vez a tocar na entrada do metro. Gostei muito.

- Bem, se quiseres ir tu ao concerto em vez de venderes o bilhete, estás à vontade, disse, dando-lhe uma palmadinha nas costas.

Decididamente o mundo não parava de o surpreender, pensou enquanto se punha a caminho.



Para ir para Sobreiro Aparado não precisava de ir mesmo às Caldas da Rainha, mas não lhe apetecia almoçar numa tasca na aldeia por isso dirigiu-se à cidade. Almoçou nas calmas e depois foi procurar um local para dormir. Não queria ficar na aldeia, afinal estava só a dez quilómetros de distância. Depois de tudo tratado meteu-se no carro, olhou o mapa para confirmar o caminho e pôs-se em marcha.

Poucos minutos depois chegava ao destino e parou o carro no largo principal da aldeia. A chamada que aguardava chegou entretanto.

- Tá Morgado? É o Sousa.

- Tens novidades?

- Algumas, não há registos em nome da tal Albertina, também não consta nada em nome do marido, o Tomé nem quanto à Transportadora Sobreirense; a empresa já tem dez anos e é a primeira vez que têm um acidente assim tão grave; aparentemente têm tudo em dia com seguros, inspecções, essas tretas todas.

- Sim

- O Octávio estava referenciado como toxicodependente, esteve internado para tratamento mas fugiu do centro à seis meses.

- O Zinga, já tinha estado preso por furtos. Tinha uma pequena deficiência mental, era daquelas pessoas de quem todos abusam para fazer recados e trabalhos.

- Ou seja, é daqueles que sabem muitas coisas e convêm ser eliminado…

- Pois é, e para acabar o Padre Joaquim também não tem cadastro, mas… - Mas o quê?

- O Padre Joaquim chama-se Joaquim Ferreira; curiosamente há um registo com um nome muito semelhante, padre Manuel Joaquim Ferreira, sobre um caso com cerca de quinze anos numa aldeia de Trás os Montes chamada Espinheiro; houve um enforcamento e lançaram algumas suspeitas sobre o padre Manuel, que chegou a estar preso preventivamente mas a investigação concluiu que foi suicídio e o padre foi totalmente ilibado. No entanto o padre foi afastado pela igreja sem deixar rasto, disse-se na altura que foi transferido para uma missão em África. Pelas datas que aqui tenho esteve na mesma prisão e na mesma altura que o Zinga…

Paulo Rodrigues