08/12/25

Caminhos e Encruzilhadas - Capítulo 11 - Final

Por prilfish from Vienna, Austria - Mafra, CC BY 2.0, h
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        Adriano foi o primeiro a chegar ao Convento de Mafra. Chegou ao fim da tarde, cansado. Naquele enorme recinto da entrada, com turistas a vaguear e a tirar fotografias, ergueu, num impulso, as mãos ao céu e agradeceu a Deus por o ter guiado até ali, são e salvo.

E deu-se conta do insólito: já não se lembrava da última vez que tinha rezado. Nem durante a doença, nem, depois, na morte de Paula, o tinha feito, tão revoltado estava com um Deus que interrompia a vida de uma mulher ainda nova, uma mulher dedicada à família, que nunca tinha feito mal a ninguém. E agora, sem quase dar conta, erguera as mãos, numa oração.

Teria aquilo algum significado?

De ossos e músculos moídos, sentou-se num dos degraus da entrada e tirou a garrafa de água da mochila. Depois de alguns goles, perguntou-se se teria sido a Paula, lá no céu, a erguer-lhe as mãos. Bem possível…

Vieram-lhe as lágrimas aos olhos. Mas, pela primeira vez, em muitos meses, não se sentiu sozinho. Deixou-se embrenhar naquela sensação, de haver alguém que olhava por ele e lhe desejava felicidade.

Passado uns minutos, respirou fundo e olhou em volta. Viu algumas pessoas de mochila e havia mesmo uma mulher sozinha. Mas não era a Estrela, aquela devia andar pelos trinta anos.

Esperou mais um pouco, até a fome apertar. Jantou num restaurante ali perto e regressou à entrada do Convento.

Nada.

Resistiu à tentação de lhe ligar. Tinham combinado só o fazer depois de, pelo menos, um dia inteiro à espera, para não estragar a expectativa, a surpresa.

Quando ficou tarde, Adriano só queria deitar-se e dormir. Dirigiu-se ao hotel que lhe tinham recomendado, tomou banho e adormeceu mal a cabeça lhe caiu na almofada.

Acordou revigorado. Tomou o pequeno-almoço e encaminhou-se para o local do encontro. Deu algumas voltas pelas imediações, observando as pessoas que iam chegando de mochila, espantado com a quantidade de caminhantes. A maior parte vinha em grupos. Também havia homens sozinhos, mas só viu duas mulheres nessa situação. Uma delas pareceu-lhe a Estrela. Porém, ao passar perto dela, duvidou. E ela não mostrou qualquer reação.

Depois do almoço, regressou. À medida que a tarde avançava e se aproximava a hora de jantar, começou a ficar preocupado. Deveria ligar-lhe? Talvez quando regressasse ao hotel…

Começou a escurecer. Adriano perguntava-se se devia jantar no mesmo restaurante, ou experimentar outro, quando se apercebeu de uma mulher sozinha, com mochila. Parecia muito cansada. E, de repente, a mulher ajoelhou-se, erguendo as mãos ao céu.

O mesmo gesto…

Num impulso, foi direito a ela.

E ela escancarou os olhos, exclamou:

– Adriano!

Ajudou-a a levantar-se, mas sentiu uma ponta de desilusão. O olhar não era o mesmo. Ou seria do cansaço? Estrela parecia esgotada. O cabelo, apanhado num rabo de cavalo, apresentava algumas brancas.

De repente, Adriano envergonhou-se da sua desilusão. De que estava ele à espera? Ele, que já tinha dormido, descansado, comido bem… enquanto ela acabara de chegar de uma jornada cansativa. Estrela dizia-lhe agora ter andado quase 60 km, naquele dia.

Estavam ali os dois, tinham chegado ao seu destino. E tinham-se um ao outro. Era uma ocasião para festejar, não para remoer desilusões.

O jantar foi divertido, os dois conversando sobre as peripécias do caminho. Depois, Estrela estava tão cansada, que quis ir logo dormir. No hotel, pediu um quarto para ela.

Despediram-se.

Adriano não adormeceu tão rapidamente como na noite anterior. Recordou o serão, passo a passo. Os dois continuavam a entender-se bem, gostavam da companhia um do outro. Para quem se sentia sozinho, há já quase um ano, tinham sido ótimos momentos.

 

Na manhã seguinte, Estrela surgiu à mesa do pequeno-almoço mais luminosa e sorridente. Disse-lhe que pretendia passar ali em Mafra os seus restantes quatro dias de férias. E logo a seguir:

– Sabes o que me apetece fazer hoje?

– Não. Diz!

– Vamos visitar o Convento? Nunca mais lá estive, desde aquele dia, há mais de quarenta anos.

– Curioso. Eu também não.

Ela piscou-lhe o olho:

– Desta vez, vamos ficar mais atentos às palavras do guia.

Riram-se os dois.

 

Começaram a visita, num grupo, atentos às explicações do funcionário. Nisto, porém, Estrela viu à sua frente um quadro que lhe trouxe uma recordação. Cochichou ao Adriano:

– Não era este que era parecido com o padre da tua freguesia?

Desataram os dois aos risos abafados. Quando conseguiu falar, ele admirou-se:

– Ainda te lembras?

– Claro.

Olharam-se divertidos, mais alguns risos abafados. Alguns turistas mostraram-se incomodados.

Estrela sugeriu.

– Portemo-nos bem! Já não temos onze anos.

À medida que a visita avançava, porém, iam-se recordando das histórias que tinham inventado para as figuras de certos quadros, como tinham troçado de certas estátuas e até de alguns móveis.

Viam-se aflitos para controlar o riso. Pareciam dois adolescentes patetas, sem sensibilidade para obras de arte. Depois de mais alguns olhares indignados, afastaram-se um pouco do grupo, embora ainda o seguindo.

Sentiam-se a viajar no tempo. Lá estava a cumplicidade que os tinha ligado, aos onze anos. Regressara o olhar recordado pelo Adriano, assim como o sorriso guardado na memória de Estrela.

Ao saírem do edifício, sentiam-se pessoas diferentes das que haviam lá entrado. Eram dois adultos que haviam recuperado o encanto infantil um pelo outro. Beijaram-se espontaneamente. Contaram sobre as suas vidas. Riram e choraram juntos.

Passaram a ocupar apenas um quarto, no hotel.

 

No dia seguinte, durante um passeio num parque, Estrela perguntou:

– Achas que vale a pena tentarmos uma relação?

Depois de uma hesitação, Adriano respondeu:

– Tenho um certo receio de que a distância acabe por a minar. Penso estar fora de questão uma mudança de casa, seja para que lado for. Nenhum de nós se pode dar ao luxo de deixar o emprego.

Estrela sugeriu que se sentassem num banco e disse, depois:

– Sabes, esta caminhada modificou mesmo a minha vida. Pelo menos, a maneira como quero viver, daqui para a frente. Sempre pensei mais nos outros do que em mim, principalmente, depois de formar família. Mas os filhos estão adultos. É certo que ainda dependem bastante de mim, apesar de receberem dinheiro do pai até acabarem os seus cursos. E eu, por vezes, queixo-me de que me visitam poucas vezes, acuso-os de me terem esquecido... Mas, sabes, no fundo, é natural, não adianta fazer um drama à volta disso. Por mais que me custe, tenho de aprender a desprender. E a pensar em mim. – Encarou-o, de olhos cintilantes:

– A pensar, por exemplo, que nunca na vida fui tão livre como sou agora.

– E não é que tens razão? É assim mesmo que devemos pensar.

– Pela primeira vez, não tenho ninguém a quem dar satisfações. – Sorriu: – Acho que ia gostar de não passar o fim-de-semana sempre em casa. Porque não uma viagem ao Algarve, uma vez por mês? E tu também podias fazer o mesmo, indo a Viana. Ou não?

– Claro. E talvez pudéssemos ir, de vez em quando, a Lisboa, onde mora o meu filho.

Sorriram-se. Beijaram-se. Depois Adriano disse, pensativo:

– E talvez pudéssemos passar fins-de-semana ainda noutro sítio…

– Onde?

– Vamos almoçar primeiro. Depois, quero mostrar-te uma coisa.

 

A seguir ao almoço, foram para o hotel. Chegados ao quarto, Adriano foi buscar a caixa de Afonso. Contou a história dele e concluiu:

– Ele disse-me que eu iria encontrar a hora certa para abrir a caixa. E tinha razão.

Lá dentro, havia algumas fotografias da filha, por vezes, sozinha, outras, com ele próprio. Também havia um documento antigo. Adriano analisou-o: era a certidão de nascimento de Afonso, com o nome dos pais e dos avós.

Havia também um envelope. Adriano abriu-o e leu alto o bilhete que lá se encontrava:

 

Caro amigo:

Pode achar-me maluco por lhe ter dado estas fotografias. Para lhe dizer a verdade, nem eu sei bem porque o fiz. Apesar de o nosso primeiro contacto não ter sido amigável, acabámos a conversar amenamente e acabei por partilhar consigo coisas da minha vida que, normalmente, não revelo a ninguém.

Sabe, talvez me tenha tornado “bicho-do-mato”, depois do que me aconteceu. E talvez tenha sido isso que levou a minha filha para longe de mim, desejosa de uma vida mais social. Talvez eu a tenha isolado demais, nesse meu medo de que ela também me deixasse. Enquanto foi criança, tudo correu bem.

Mas eu devia calcular que, chegando a uma certa idade, ela desejasse outros voos.

Acabou por acontecer o que eu mais temia. Porém, depois da sua visita, vá-se lá saber porquê, recuperei a esperança de que, um dia, ela me venha visitar e converse em bom termo comigo.

Desejo-lhe uma boa caminhada e que chegue ao seu destino de boa saúde. Também lhe desejo que reencontre essa sua amiga de quem me falou e tudo corra bem.

A sua amiga Estrela é aliás o motivo por que pus a cópia da minha certidão de nascimento na caixa. Como lhe disse, nasci em Viana, os meus pais eram de lá. Será que a Estrela me saberá contar coisas da minha família?

Resta-me dizer-lhe que em minha casa será sempre bem-vindo, sozinho ou acompanhado.

Um abraço

Afonso

 

Depois da leitura, houve um momento de silêncio, quebrado enfim por Estrela:

– Calha bem.

– O quê?

– Acho que vou gostar do lugar onde mora o Afonso. Durante a caminhada, senti esse desejo de arranjar momentos para fugir à minha vida citadina. E quanto à família dele… – pegou na antiga certidão e acrescentou: – Conheço gente com estes apelidos, em Viana. Não sei se estão relacionados com ele, mas posso perguntar a amigos e conhecidos se os nomes próprios lhes dizem alguma coisa.

– Darias uma grande alegria ao Afonso.

– Sim. Sabes, acho que vou gostar muito desta nossa nova vida.

– A vida começa aos 53 – retorquiu Adriano, emocionado.

– A avaliar por Afonso, eu diria que a vida começa sempre que quisermos.

 

                                                                                         Cristina Torrão

2 comentários:

  1. Vitória, vitória, acabou a história.
    Boa semana

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  2. Ai, Cristina, eu não poderia esperar um último capítulo mais sensível e doce!! Parabéns!! Beijinhos da Tixa, e vamos ao próximo!!

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